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SELO ENEF

Cenário de retomada?

 

 

 

Vanessa Sulzbach
Economista, pesquisadora da FEE
Corecon-RS Nº 8193

 

 

O Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, divulgado na última quinta-feira pelo IBGE, apontam crescimento de 1,0% da economia brasileira no ano passado. Esse número já era esperado?

Sim. Tanto o IBC-Br quanto as expectativas de mercado do Relatório Focus apontavam para um crescimento de 1,0% do PIB do Brasil em 2017. Apesar do bom desempenho da agropecuária (13,0%), com safra recorde de grãos, e do consumo das famílias (1,0%), que refletem a retomada das condições do mercado de trabalho, a indústria e os serviços permaneceram estagnados em 2017, o que já era esperado. O que chama atenção é que mesmo com a melhora nas condições macroeconômicas, a formação bruta de capital fixo caiu 1,8% em relação a 2016, sinalizando que ainda existem entraves a serem enfrentados pelo país para a retomada consistente do crescimento econômico.

O Índice de Atividade Econômica, divulgado dias antes pelo Banco Central (IBC-Br) já apontava um crescimento de 2,13% do PIB gaúcho em 2017. A que se devem esses resultados?

O crescimento de 2,1% do IBC-R (regional), do RS, reflete a expansão das vendas do comércio e da produção de importantes grãos do Estado. Em 2017, as vendas do comércio, ampliado, cresceram 13,3%, com avanços importantes nos segmentos de Tecidos, vestuário e calçados, Combustíveis e Materiais para escritório, informática e comunicação. O segmento se beneficiou da melhora nas condições econômico-financeira das famílias, por exemplo, com a redução do endividamento e aumento da renda. A produção de soja e milho, por sua vez, trouxeram ganhos para os produtores gaúchos e contribuíram para um novo recorde de produção de grãos em 2017 no Estado, que contou também com a retomada da produção de uva e tabaco. O resultado de ambos os segmentos da economia (comércio e agropecuária) compensou os efeitos da estagnação da indústria gaúcha, cuja produção variou 0,1% em 2017, da queda no volume de serviços (-3,3%) e da redução dos postos de trabalho na Construção Civil.

Que outros fatores contribuíram para isso?

Em suma, a melhora nas condições econômicas, com inflação e juros em patamares historicamente baixos, as boas condições climáticas e o momento favorável do mercado internacional contribuíram para o aquecimento da atividade econômica do Estado em 2017, com índice de crescimento superior ao esperado para o ano.

Por que o PIB do Brasil foi tão inferior ao gaúcho, diferentemente do período anterior quando a economia brasileira cresceu mais que a gaúcha?

Apesar de a dinâmica econômica gaúcha ser muito semelhante à brasileira, sobretudo no que diz respeito aos efeitos das reformas econômicas e decisões de política macroeconômica em curso no País, o desempenho dos setores não são exatamente os mesmos. Os dados do IBGE mostram que, a despeito dos recordes de produção agrícola que resultaram em crescimento da produção de importantes grãos acima do registrado no Estado e do bom desempenho do consumo das famílias, as vendas do comércio no nível nacional ficaram bastante aquém do registrado no RS. O volume de vendas expandiu 4,0% frente uma expansão de 13,3% no RS. Pelo lado da indústria nacional, o resultado negativo da indústria de construção civil compensou o desempenho positivo das indústrias de transformação e extrativa, resultando em estagnação no período, à semelhança do que aponta o IBC-R para o RS. Como o volume de serviços registrado pelo Brasil não se diferenciou substancialmente do que ocorrera no RS, o impacto do desempenho do comércio tem mostrado ser o principal fator que explica as taxas distintas de crescimento do índice entre o Brasil e o RS.

Até que ponto os números divulgados pelo IBGE, assim como a prévia do Banco Central, refletem uma realidade de retomada da economia brasileira?

O IBC-Br é um indicador utilizado para avaliar o ritmo da atividade econômica do Brasil de maneira mais contemporânea dos fatos do que o PIB, cuja divulgação tem uma defasagem de alguns meses. Ele se baseia em pesquisas econômicas mensais como Produção Industrial, Vendas do Comércio e dos Serviços, Emprego, Produção Agrícola, entre outras, e apresenta uma metodologia distinta da do PIB, que, além dessas variáveis, também considera os tributos, as exportações e importações, etc. Por esse motivo, o IBC-Br não antecipa perfeitamente o resultado do PIB, mas se configura como uma boa aproximação para o resultado oficial do mesmo. O resultado do PIB brasileiro de 1,0% divulgado recentemente aponta bem essa relação.

Este ano de 2018 deverá continuar essa trajetória de recuperação?

O cenário econômico continuará desafiador em 2018. Por um lado, os efeitos das reformas aprovadas entre 2016 e 2017 tendem a potencializar seus efeitos na economia depois de alguns meses de maturação, assim como os impactos da queda dos juros, a estabilidade da inflação, a geração de empregos e a melhoria na oferta de crédito. Por outro lado, as incertezas em relação às eleições e a redução na probabilidade de aprovação da Reforma da Previdência reduzem os potenciais resultados positivos derivados dessas reformas, sobretudo porque o ajuste fiscal depende de outras aprovações além do Teto dos Gastos. Por outro lado, as boas perspectivas vindas da economia internacional tendem a beneficiar os exportadores brasileiros e gaúchos. Nesse sentido, espera-se um crescimento mais elevado em 2018 para ambas as economias, ainda que no caso gaúcho haja um risco de frustação nas receitas do setor primário devido à possibilidade de eventos climáticos desfavoráveis à produção de grãos.

O que está faltando para o empresário retomar investimentos de maior peso?

Apesar da melhora no ambiente econômico, algumas incertezas ainda permanecem afetando as decisões de investimentos dos empresários. O ambiente político instável ainda atribui probabilidade positiva ao abandono de reformas macroeconômicas ainda necessárias para garantir um ambiente de negócios mais favorável, como simplificação tributária, redução de entraves burocráticos em áreas como a ambiental, melhorias na infraestrutura energética e logística, e incentivo à inovação e às parcerias público-privadas.