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Seja qual for o seu motivo, faça um mundo com mais Economia.

A “despiora” da atividade econômica



Patrícia Palermo

Economista-Chefe da Fecomércio-RS, Economista do Ano Corecon-RS/2016
Corecon-RS Nº 6589



Quais suas expectativas para 2017?

O quadro de 2017 pode ser resumido em um tripé: incerteza, crescimento fraco e desinflação. A incerteza vem da política, tanto no cenário externo quanto no cenário interno. No âmbito da economia brasileira, deveremos observar um crescimento frágil, fraco e lento, em decorrência das próprias características da crise que vivenciamos nos últimos anos. Uma crise que se prolongou por muito tempo, fragilizando, inclusive, empresas sólidas e que resultou em uma grande ociosidade nas empresas, que vai retardar o processo de retomada do mercado do trabalho. Por outro lado, estamos experimentando uma situação de desinflação na economia, que se apresenta muito robusta e que abre espaço para diminuirmos de maneira forte e rápida a taxa de juros e que, com certeza, irá nos encaminhar a taxas de crescimento mais elevadas num futuro próximo.

Alguns setores já estão demonstrando sinais de recuperação?

Nós já temos, basicamente, um cenário de retomada. Entretanto, o que vivenciamos está mais ligado à ideia de uma “despiora” do que de uma melhora. Existe uma série de sinais positivos e alguns números já demonstram que a economia começa a reagir. Há três meses seguidos a arrecadação do governo federal mostra expansão, ainda que marginal, refletindo aumento da atividade. O ritmo da destruição líquida de empregos também tem diminuído, e a indústria, ainda que motivada pelo ciclo de estoques, também apresentou melhora. Tudo isso acaba por refletir numa melhora na confiança, tanto dos consumidores como dos empresários da indústria e do comércio. Ainda que se espere aumentos do investimento, a ociosidade presente na economia funciona como um limitador natural da formação bruta de capital fixo. Assim, acreditamos que ao longo de 2017, a economia deverá ser impulsionada pelo aumento do consumo, motivado pela desinflação e pela redução dos juros.

Que setores deverão se destacar?

Particularmente, o que se acena como bastante positivo ainda para este ano de 2017 são os números provindos da agropecuária. No Brasil, esperamos um aumento do PIB agropecuário de 6%, conquistados a partir de uma safra recorde, e muito boa em relação ao ano passado, quando tivemos uma base bastante deprimida. Além disso, apesar dos preços das commodities agrícolas estarem bem longe dos picos históricos, não estão ruins, principalmente quando medidos em reais. Outro ponto que deve ser ressaltado é que o mundo continua crescendo e parece robusto nessa taxa de crescimento que vem apresentando recentemente, o que tem ajudado, de forma efetiva, os preços das commodities a aumentarem. Com isso, estamos sendo favorecidos nos termos de troca. Os outros setores deverão desenhar ao longo de 2017 uma recuperação mais tímida. Os serviços, por exemplo, maior setor no PIB, deverão apresentar crescimento de 0%, depois de cair mais de 2% em 2016. O que precisamos é que a política não atrapalhe a economia, o que é algo bem difícil de acontecer!

O que está faltando para o empresário começar com investimentos de maior peso?

Existe ainda muita ociosidade dentro do mercado. Só vai-se começar a investir quando essa ociosidade tiver acabado e isso sabemos que ainda está longe de acontecer. Em função da longevidade dessa crise, as empresas, mesmo as mais sólidas, se fragilizaram muito do ponto de vista econômico-financeiro. Então, vai demorar ainda algum tempo para uma retomada do crédito da pessoa jurídica e do investimento doméstico. O que pode acontecer é que, melhorando o quadro de perspectivas futuras, o Brasil consiga aumentar sua capacidade de atrair investimentos estrangeiros. O risco-país caiu bastante nos últimos tempos e, aprovando as reformas, a atração de investimento estrangeiro deverá se intensificar.

E o Efeito Trump?

O discurso de Trump, assim como de outros políticos de países desenvolvidos, é de que na verdade os que foram prejudicados pela globalização foram os países desenvolvidos, que exportaram emprego e renda para os emergentes. Para reverter isso, a solução seria a implementação de práticas protecionistas, embaladas no fervor nacionalista de criar nações “greats again”. O que a teoria econômica tem mostrado é exatamente o contrário. Economias mais abertas são historicamente as economias que menos fazem guerra (com aqueles que comerciam) e que mais prosperam. Então, se construirmos uma cultura de muros, o mundo terá a perder. É bom lembrar, no entanto, que, no caso brasileiro especificamente, o efeito é mais indireto do que direto. O Brasil tem uma taxa de exportação sobre o PIB próxima de 12,5%. Nossas exportações para os EUA são aproximadamente 12,5% de nossas exportações totais de bens. Nós temos uma relação comercial deficitária, e, portanto, não andamos na mira do novo presidente americano. Mas o problema é que se eles se fecharem, isso pode gerar o “empoçamento” de produtos que tinham aquele país como destino. Isso pode aumentar oferta mundial desses produtos e, com certeza, baixar preços, o que seria altamente prejudicial para a nossa indústria local, que há tanto tempo vem remando para tentar sair dessa crise em que vive.