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O impacto Trump

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Marcelle Chauvet

Economista, professora de Economia na Universidade da Califórnia – Riverside (EUA)

 


Qual o impacto no cenário internacional das políticas externas no governo de Donald Trump?
Trump apresentou uma retórica muito forte durante sua campanha, o que acabou proporcionando sua eleição. Mas eu não acho que ele acredita muito no que estava falando, e o que ele deve realmente fazer a partir daí é uma incógnita. Depois de eleito, ele concedeu diversas entrevistas retirando, em vários sentidos, muitas posições assumidas durante a campanha. Toda a sua plataforma eleitoral foi de extremismo. A minha esperança é que ele se assuste com a dimensão do impacto que tudo isso possa ter e que possa tomar decisões bem mais moderadas e acessíveis. Foi o que aconteceu com o ex-presidente brasileiro Lula da Silva em sua primeira eleição. Na época, praticamente houve uma recessão no Brasil. O mercado reagiu fortemente, com medo das medidas que Lula poderia vir a adotar. Mas ele acabou fazendo um governo extremamente conservador em termos de negociação da dívida. Deu continuidade às políticas públicas e de gastos do governo FHC, mas foi bem conservador nos primeiros anos, proporcionando com que a economia respondesse bastante bem a essas ações. Foi um período em que Lula, recentemente eleito, ficou assustado com o seu poder de destruição. E é o que acontece com Trump que, por sua vez, também terá esse exato entendimento do impacto de suas decisões.


E com relação ao Brasil?
Ele falou e continua falando muitas coisas como, por exemplo, de rever decisões de governantes anteriores. Mas a verdade é que, muitas vezes, tratam-se de acordos impossíveis de serem rompidos. Como o caso de contratos que, uma vez acordados, têm que ser honrados. Não seis se não foi uma plataforma política para vencer as eleições. Lógico que, em termos de afetar o Brasil, através de incerteza política e fuga de capitais, isso já está ocorrendo. Mas se trata de algo transitório.


Como eleitor norte-americano, que confiou seu voto no Trump, vê o fato de ele não cumprir promessas de campanha?
Trump não tem compromisso com ninguém porque não é um politico de carreira. E a plataforma dele tem sido falar o que quer, e fazer o que bem entender. Ele deixou bem claro depois de eleito, através de várias entrevistas, que posições assumidas durante a campanha tinham como objetivo causar impacto ou forte reação de alguns setores da população norte-americana. Mas, por outro lado, eu não acho que ele não tenha compromisso. Já tem 49% da população americana que não votou nele e caso ele não venha agradar os outros 51%, ele terá uma pressão social muito forte para sair.


Diante de eventuais políticaa mais protecionistaa por parte do governo Trump, a alternativa seria o Brasil buscar maior aproximação comercial com a China?
Essa é a parte principal. Trump falou muitas coisas que eu acredito que ele não tenha entendimento profundo. Ele quer, por exemplo, terminar com contratos do Nafta. Sabe-se que os EUA são muito protecionistas, mas ele não tem muita clareza de suas intenções. Durante a campanha, dizia que iria interferir na China porque a china não poderia mais ter a taxa de câmbio que tem. Então eu acho que agora ele vai estudar um pouco sobre isso e começar a entender sobre algumas coisas que ele pode construir. Foi uma das questões que ele mais discordou da adversária Hilary Clinton. Muita gente podia até não concordar com ela, mas ela sabia muito bem o que estava dizendo, ao passo que Trump mantinha-se com suas posições completamente extremas. Donald Trump não faria isso. A China é o maior agente inibidor de inflação nos EUA e no mundo porque seus produtos são muito baratos. E se os EUA fecharem as portas para os produtos chineses, teria que buscar novas opções a preços bem mais caro, provocando uma alta da inflação.