Campanha de Valorizacao do economista

O Talibã, a economia e o Afeganistão

 

Roberto Rodolfo Georg Uebel
Economista , Doutor em Estudos Estratégicos Internacionais,
Pós-doutorando em Geografia Política, Professor da ESPM-POA 
Corecon-RS Nº 8074

 

Qual a importância política e econômica do Afeganistão no cenário mundial?

Economicamente o Afeganistão não tem uma importância muito significativa no cenário mundial. É um país muito pobre, com um dos piores indicadores de desenvolvimento econômico, um índice de Gini muito baixo, e se localiza numa região cercada de potências econômicas, como o Irã, Paquistão e Índia, e fazendo fronteira com a China, que foi um dos primeiros governos estrangeiros a reconhecer o Talibã como governo legítimo do Afeganistão. Economicamente não tem importância tão grande como a de seus vizinhos, o que não quer dizer que o país não tenha uma importância regional e internacional. O Afeganistão é um grande produtor de commodities minerais, tanto de metais, como também de minérios, que fornece para seus países vizinhos parceiros tradicionais, e, também, na prospecção do solo, como gás e, numa quantidade bem menor, em petróleo.Politicamente, o Afeganistão está localizado no meio da Bel and Road, a iniciativa da China de expansão de suas rotas comerciais para o Oriente Médio, Norte da África e Europa. Também está na rota dos gasodutos russos em direção ao Oceano Índico, estando, portanto, o território afegão, tanto na rota da expansão comercial chinesa como da expansão energética russa, e, por isso, foram os dois primeiros países a reconhecerem o Talibã como regime de fato daquele país.


Quais os principais impactos econômicos da crise no Afeganistão?

Podemos perceber alguns impactos no sentido em que a partir do momento em que assume o governo, não tem mais acesso às reservas bancárias antes atribuídas ao governo afegão, já que as contas foram bloqueadas pelos EUA, assim como foram congelados os empréstimos do FMI, pelo fato de que não há o reconhecimento do governo Talibã como um governo legítimo, o que os coloca numa situação muito próxima à da Venezuela, do governo Maduro, que, da mesma forma, não tem acesso às suas contas bancárias. Então, os recursos que eles têm internamente são garantidos justamente por China e Rússia. Como consequência, percebe-se aí uma crise econômica que vai se transformar numa crise orçamentária, até porque sem recursos o governo afegão não consegue fazer políticas públicas. Não consegue, por exemplo, garantir acesso da sua população à vacina contra a COVID-19 ou garantir o mínimo dos serviços básicos. Por isso, deve buscar alternativas via Rússia e via China para tentar conter esses bloqueios.


Quais as consequências à economia dos EUA ao cessar gastos de mais de 20 anos de intervenção no Afeganistão?

Com relação às consequências à economia norte-americana, se estima que os EUA gastaram U$ 6,4 trilhões em 20 anos nas guerras do Afeganistão e do Iraque. Estimativas dão conta de que os EUA tenham dispendido U$ 3 trilhões na guerra do Afeganistão em 20 anos, o que foi um impacto muito grande no orçamento de defesa daquele país. Justamente por essa razão, há um clamor domésticonos EUA, do eleitorado norte-americano, tanto de democratas como de republicanos, para que os EUA deixasse aquele país. Então, os 20 anos de 11 de setembro tem a simbologia da data, mas também já havia uma pressão doméstica, no mínimo há 10 anos,desde a morte de Bin Laden, para sair do Afeganistão. Foi um impacto muito significativo no orçamento norte-americano, que, evidentemente, deixou de ser gasto em outras áreas. Cabe lembrar que o próprio sistema de saúde dos EUA é muito falho, também pelo fato de não possuir um sistema universal como o do Brasil, e, justamente, um dinheiro que poderia ter sido utilizado para o AlffordableCareAct ou Medicare, programa de saúde criado pelo governo Obama.


De que forma essa crise pode afetar economias dos países em desenvolvimento, como o Brasil?

Eu não vejo a crise geopolítica e geoeconômica do Afeganistão afetando o Brasil diretamente. Já temos as nossas próprias crises, com um governo que flerta com o autoritarismo, então eu diria que não tem como traçar um comparativo com isso. O que poderia nos afetar, aí sim,seria eventual instabilidade no Oriente Médio ou nos países vizinhos, como Índia, Irã, ou demais países, como Arábia Saudita, Jordânia, Líbia, Turquia, Bangladesh, enfim, países que são grandes compradores de commodities brasileiras, como carnes e grãos, ou, ainda, num eventual bloqueio de transporte marítimo naquela região - muito embora Afeganistão não tenha costa marítima -, que poderia afetar o transporte de commodities. Mas isso seria um cenário hipotético. Num cenário factual, verídico, não vejo impacto na economia brasileira, já que o Afeganistão não é parceiro estratégico do Brasil. Tanto que o Afeganistão teve durante três anos uma embaixada no Brasil, que acabou fechando porque as relações nunca se adensaram. O Brasil, por sua vez, nunca teve Embaixada em Cabul. As nossas relações diplomáticas são realizadas pela Embaixada do Paquistão, esse sim, um parceiro importante do Brasil. Aliás, penso que seria interessante o Brasil se posicionar recebendo os refugiados afegãos, como fez no passado. Uma demanda pequena, que contribuiria muito para a imagem do Brasil no cenário internacional.


Por que a estrutura montada pelos EUA ao longo dos últimos 20 anos não foi o suficiente para o talibãs não voltar ao poder?

Os EUA ficaram mais tempo que deviam no Afeganistão. Invadiram o Afeganistão para caçar o Bin Laden e dar uma resposta à população norte-americana, em resposta às agressões sofridas no 11 de setembro de 2001, mas ficaram mais tempo do que o necessário. Foram 20 anos de muito gasto sem conseguirem treinar efetivamente as forças armadas afegãs, ou conseguir garantir a transição às instituições democráticas afegãs preservando as características locais. Não obtiveram sucesso nessas questões. Acho, portanto, muito difícil pensar numa solução de curto prazo para o Afeganistão, que não envolva ou que deixe de envolver a participação de organizações internacionais. Não uma missão humanitária, estilo a do Haiti, mas que se tenha a permissão de organizações como a ONU e outros organismos internacionais, autorizados pelo Talibã, a conduzirem políticas de reassentamentos de deslocados internos, que já são 5 milhões de pessoas. Os interesses de China e Rússia não são meras ideologias, muito pelo contrário. Mas de garantir seus negócios na região. Então, com a saída dos EUA, esse espaço deverá ser ocupado pelas duas nações, bem como pela Turquia, Irã e Arábia Saudita.