Campanha de Valorizacao do economista

Novos cenários para a Região Sul do Estado


Marcelo de Oliveira Passos

Economista, Coordenador do Curso de Ciências Econômicas
Universidade Federal de Pelotas (UFPel)

 

 

Qual o perfil da economia da região Sul do Estado do RS?
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Gostaria de enfatizar que muitas dessas informações sobre a economia da Região Sul do Estado do RS estão presentes em artigo sobre uma rede complexa, baseada na Matriz de Insumo Produto da Região, que estou produzindo, junto com os pesquisadores Rodrigo Rocha Gonçalves, da FURG, e Gabrelito Menezes, aqui da UFPel. Nós fizemos uma análise com todos os setores produtivos dos 28 municípios que fazem parte da região do Conselho Regional de Desenvolvimento da Região Sul do Estado (Corede Sul). Encontramos um indicador chamado “Encadeamento para a Frente”, isto é, o quanto um setor produtivo é demandado pelos outros. E ranqueamos os setores mais demandados por outros setores da região. Constatamos que, de longe, o mais importante é o comércio, com um índice de 3.8, seguido por agricultura e silvicultura, com 2.14, abate produtos, com 2.01, construção, com 1.8, transporte de carga rodoviário com 1.73, outros produtos alimentares, com 1.5 , manutenção recuperação e instalação de máquinas e equipamentos, além de produção de madeira, armazenagem, intermediação financeira, entre outros.

E, dentro desse cenário, que segmentos mais demandaram insumos de outros setores?

É o que, no estudo, chamamos de “Encadeamento para Trás”. Em primeiro lugar abate e produtos, com um índice de 1.63, o que demonstra que a a economia da região ainda é fortemente baseada no setor tradicional da pecuária. Depois, o setor da alimentação, com um índice de 1.3; outros produtos alimentares, com 1.26; produtos de madeira, com 1.23; outros equipamentos de transporte, 1.22; perfumaria higiene e limpeza, 1.22, entre outros. Simultaneamente, aqueles setores que tiveram os maiores índices de encadeamento para a frente e para trás, maiores que um, são os mais importantes. São os que mais demandam e são mais demandados. Pela rdem, são os seguintes: pecuária e apoio; abate e produtos; outros produtos alimentares; produtos de madeira, excluindo móveis e fabricação de químicos, resinas etc.

Como os diferentes setores da economia regional vêm reagindo a esse período de pandemia?

O comércio, que é o setor mais dinâmico da região, sofreu bastante com os lockdowns. E também com a própria queda da demanda, mesmo nos períodos em que não ocorreram o lockdowns. O comércio sentiu porque uma boa parte do setor de comércio e serviços gira em torno das atividades, como o caso de Pelotas e Rio Grande, que envolvem escolas e universidades. Cabe lembrar que Pelotas é o terceiro pólo universitário do RS. Tem uma série de bares, comércio de alimentação, casas de festas, papelarias, imóveis de aluguel etc. que sentiram muito a queda da demanda. Muitos alunos saíram da região, retornando às suas casas, às suas cidades, ficando com aulas à distancia. Já outros setores, como agricultura, silvicultura, produtos de madeira e atividades ligadas a abates e produtos defensivos agrícolas, tintas e químicos tiveram um impulso decorrente principalmente da maior demanda externa, com a recuperação das economias chinesa, indiana e europeia. Estamos vivendo um superciclo de alta da demanda e de valorização das commodities. Isso de certa forma atenua os impactos nocivos da pandemia no comércio e serviços. Na área de construção, também houve uma recuperação notável na região, desde o ano passado, com pessoas, sobretudo famílias de renda mais alta, buscando imóveis maiores para adaptar-se ao novo momento de trabalho em home office. Mas isso ocorreu em meados do ano passado. Agora, os preços do material de construção subiram bastante e também a mão-de-obra do setor encareceu, o que reduziu um pouco o ciclo de expansão do ano passado. Mas o setor ainda está aquecido na região.

Que cenários esse crescimento de 1,2% do PIB brasileiro no primeiro trimestre deste ano, recentemente divulgado pelo IBGE, sinaliza para a economia da região?

É um indicador muito importante, embora, para a nossa região, o que vai realmente afetar positivamente a atividade econômica é a vacinação em massa e a retomada de exportações de commodities. Felizmente, o RS vem liderando as estatísticas de vacinação, e a tendência é que tenhamos uma recuperação maior em nosso Estado. Com a vacinação, espera-se que gradativamente o consumo das famílias volte a crescer, o que pode reduzir os estragos que a pandemia causou ao comércio da região.

O reconhecimento por parte da Organização Mundial de Saúde Animal (OIE), que coloca o RS como uma das novas zonas livres de febre aftosa também traz grandes espectativas à Região Região Sul do Estado?

A região tem o setor pecuarista como uma atividade tradicional e ainda muito importante, como foi dito. Então, os efeitos desse indicador tendem a ser muito positivos, já que impacta diretamente no setor de abates e produtos, assim como na agricultura e em todos os setores relacionados. Lógico que, num primeiro momento, haverá uma tendência natural de aumento do preço da carne, em função da aceleração das exportações, mas que, logo depois deverá ocorrer um aumento da oferta, com maiores investimentos, e aí o preço volta a estabilizar-se no médio e longo prazos.

Passados os piores momentos, quais os grandes desafios para a Região?

Um dos principais desafios para região é a questão dos transportes. Estamos, há muitos anos, tentando uma melhora de infraestrutura para as nossas rodovias que ligam a capital à região do extremo sul do estado. Somente agora isso vem acontecendo, desde o início do atual governo, com as obras do trecho da BR116 que vai de Porto Alegre à Rio Grande sendo retomadas pelo Exército. É uma obra importantíssima para a economia de Rio Grande, que depende muito da atividade portuária, e também para o escoamento da produção agrícola e redução dos custos de transação no setor. Outro grande desafio é a questão da desindustrialização. Essa região, sobretudo Pelotas e Rio Grande, já foram regiões industrializadas, com indústrias alimentícias importantes regionalmente nos anos 80. Mas que entraram em crise após essa década. Muitos ainda vêem a desindustrialização como um problema que só se resolve com um novo ciclo de investimentos industriais. Mas isso não é mais assim, hoje em dia. Já há sinais em Pelotas e em outras cidades como Florianópolis e Buenos Aires, de investimentos importantes na chamada economia criativa, baseada na produção de serviços e bens com conteúdos tecnológicos, startups, aplicativos, games etc. Nós temos duas universidades federais e outras privadas com bons cursos de ciência da computação, com ótimos professores e pesquisadores, estrutura adequada de laboratórios, mas que, infelizmente, exportamos cérebros para outras cidades. Muitas pessoas se qualificam aqui e saem pra trabalhar em outras regiões do País porque não encontram emprego na região.

E como mudar essa realidade?

Os sinais já apontam para uma mudança e um caminho para melhorar isso seria fomentar o empreendedorismo voltado para startups, para a economia criativa, para o lazer, para a produção de games, enfim, uma série de atividades voltadas para domínios de informática, de programação, ciência de dados e, também, o domínio de atividades mercadológicas, como empreendedorismo, marketing digital, enfim, habilidades que levem a uma expansão desses setores. O fato de uma economia se desestabilizar não significa a sua sentença de morte. Buenos Aires, que foi uma cidade que no passado teve uma indústria importante, desindustrializou-se, e hoje encontra-se muito focada na economia criativa, com uma ótima produção de cultura, cinema, aplicativos, música. Outra cidade é Florianópolis, que não tem uma base industrial comparável à Joinville, mas que possui uma economia criativa e polos tecnológicos relevantes. Então, é um caminho para a economia aqui da região, especialmente Pelotas e Rio Grande. Mas isso depende de um apoio governamental, de iniciativas empresariais, e do fortalecimento de uma cultura voltada para o empreendedorismo e para a inovação.