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Economia da Serra gaúcha no pós-pandemia e as lições que ficam


Mosar Leandro Ness

Economista, professor da Universidade de Caxias do Sul (UCS),
Assessor Econômico da Câmara de Dirigentes Lojistas de Caxias do Sul (CDL-Caxias do Sul)
Corecon-RS Nº 6304


 

Qual o perfil da economia da região de Caxias do Sul?

O perfil da economia da região serrana vem se alterando nos últimos anos. Até o início dos anos 2000, o principal setor era a Indústria, que puxava o crescimento da região. A mesma nasceu e ganhou força, embalada pelo processo de substituição de importações. Com a reestruturação produtiva, iniciada no início dos anos 90, o modelo de crescimento foi posto à prova. Nos anos que se seguiram, em especial nos governos trabalhistas, a indústria começou a perder força. Atualmente, o setor que emerge com vigor são os serviços. No caso de Caxias do Sul, já se nota um seguimento financeiro bem consolidado e que vem demandando profissionais com formação específica para esse. Note que a indústria ainda é relevante na formação do produto do município, mas, os serviços tem aumentado sua participação e já ultrapassou o comércio, outro setor tradicional da economia local.

A economia da região de Caxias do Sul já vinha dando sinais claros de recuperação antes da crise do coronavírus. Como está agora?

De fato, antes dessa crise, a economia local já ensaiava uma decolagem para um voo mais alto. Havia pedidos em carteira nas indústrias, e tanto os serviços, quanto o comércio, esperavam aproveitar essa tendência de crescimento. Note que, no mês de fevereiro, a utilização da capacidade instalada da indústria local, atingiu 79,3% um dos níveis mais altos dos últimos anos. Com a crise e o isolamento, tanto a produção, quanto o consumo, caíram abruptamente. O recuo em abril foi de mais de -27,0% nos três setores. Essa situação encontrou empresas e famílias em diferentes momentos em termos econômicos. Muitas empresas que se encontravam alavancadas acabaram por encerrar suas atividades. Já, outras tantas famílias tornaram-se inadimplentes em um primeiro momento.

Quais os setores mais atingidos pela crise?

Chama atenção é que passado o baque inicial, a economia local começa a dar sinais de recuperação. A indústria conseguiu passar ao largo das dificuldades e voltou a produzir, inclusive lançando novos produtos. O comércio vem apostando no meio eletrônico como agente de vendas e tem conseguido manter, a duras penas, a sua estrutura de funcionamento. O setor de alimentação, especificamente supermercados, mercados, mercearias, está vendo seu faturamento aumentar. Em contra partida, o segmento de restaurantes, bares e similares, foram os mais atingidos. Casas tradicionais da região encerraram suas atividades. Outras tantas, tiveram que se adaptar à tele-entrega e ao pegue-e-leve. Tempos difíceis para todos, não há dúvidas.

Como está o nível de desemprego na região?

O mercado de trabalho demitiu mais de 6000 trabalhadores nos últimos meses. É bem verdade que poderia termos tido um número maior de desempregados, se não fossem as medidas adotadas para preservar o mesmo, pelo Governo Federal. O setor que mais desempregou foi a indústria, -3.205 postos, seguida dos serviços, com -1.990, e do comércio, com -1.435. A variação negativa é de -6.630 trabalhadores no mês. Quando se observa em um horizonte maior, percebe-se que, em 2013, o mercado formal de trabalho ocupou 183.173 trabalhadores nesse período, enquanto que agora, em 2020, a ocupação caiu para 144.032 trabalhadores. Ou seja, nesse período foram fechados quase 40.000 postos de trabalho.

Quanto tempo deve levar para recuperar o nível de emprego de antes da crise da pandemia?

Para recuperar o nível de emprego serão necessários pelo menos um ano de crescimento forte, de forma a recompor a base e recontratar esses mais de 6.000 trabalhadores demitidos na pandemia. Já, para voltar ao nível de 2013, será necessário um crescimento do PIB brasileiro acima dos 4,0% ao ano por pelo menos quatro anos seguidos para que o mercado de trabalho em Caxias do Sul volte a ter acima de 180.000 trabalhadores formais. Uma das razões para essa demora reside no fato de que a tecnologia na indústria cada vez mais poupa mão de obra.

Quais os grandes desafios neste momento?

Tanto para as pessoas quanto para as empresas, o desafio é literalmente sobreviver. Não há como pensar diferente. O vírus ainda está ativo e a vacina vai demorar uns seis meses para vir e ser aplicada. Isso faz com que as restrições de mobilidade aconteçam, o que inviabiliza muitos negócios. Já, quanto às empresas, as mesmas precisam de capital de giro para suportar essa fase de baixo nível de atividade. Assim, não se descarta que muitos negócios vão precisar de algum tipo de incentivo para sobreviver. Outros tantos deverão ter sua capacidade reduzida para, assim, passar pela pandemia. A redução do tamanho é uma possibilidade que tem por objetivo tornar as empresas menores, e, portanto, mais aptas a sobreviver em um cenário adverso como o que teremos até fevereiro de 2021.

Quais as expectativas do empresariado local?

Os empresários da Serra são resilientes. Estão conseguindo assimilar o atual contexto e estão sobrevivendo, se reinventando. Toda crise é composta de três partes, um problema, o tempo a ser vivido em meio à crise e uma lição a ser aprendida. Na atual crise não é diferente e, seguramente, vamos emergir dessa muito melhores do que entramos. Vamos aprender com ela e construir uma nova ordem econômica. Vamos produzir e consumir localmente e reduzir o nosso grau de dependência da China. Isso será muito interessante para a economia global, brasileira e regional.