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O Comércio intraindústria e a economia


Nadine Führ Steffen


Bacharel em Ciências Econômicas, 1° Lugar Prêmio Corecon-RS 2019,

Categoria Monografias ou Trabalhos de Conclusão de Curso

 


Como surgiu a proposta do trabalho “Os efeitos do Comércio Intraindús-tria sobre a Complexidade Econômica: Uma Abordagem a Partir do Padrão Tecnológico”, 1º Lugar no “Prêmio Corecon-RS 2019”, Categoria Mono-grafias ou Trabalhos de Conclusão de Cursos?

Imaginou-se previamente uma possível associação entre comércio intraindús-tria - os países que compram e vendem, simultaneamente, produtos de uma mesma indústria, sejam partes e peças ou bens finais - e complexidade eco-nômica, sofisticação e diversificação do tecido produtivo do país. Esta última, conforme aponta a teoria, requer a existência de largas redes produtivas, com firmas integradas dentro e fora do país. Mais tarde, acrescentou-se a especifi-cação de padrões tecnológicos à proposta de estimar os efeitos do comércio intraindústria sobre a complexidade econômica, sugerindo que pudessem ocorrer efeitos em graus e sentidos distintos de acordo com maior ou menor padrão tecnológico dos produtos.

Que tipos de padrões foram levados em consideração no estudo?

Optou-se pelo uso da já conhecida taxonomia de Pavitt, originalmente de 1984, para a segmentação de todos os produtos importados e exportados pelos países em padrões tecnológicos. Os produtos com maior complexidade eco-nômica são industriais, como equipamentos médicos, elétricos e eletrônicos e químicos. Portanto, foi considerado apenas o recorte dos quatro padrões tec-nológicos compostos de produtos industriais: intensivos em trabalho, como calçados e bolsas; intensivos em escala, como automóveis e lâmpadas; de for-necedores especializados, como máquinas sob encomenda; e intensivos em P&D, como aviões, semicondutores e antibióticos.

O que fez parte dos procedimentos para a estimação proposta?

Supondo a correspondência entre maior complexidade econômica, maior pa-drão tecnológico e maior intensidade de comércio intraindústria, a amostra da pesquisa foi composta pelos 43 principais países exportadores, observados de 2002 a 2016. Foi calculado o índice de comércio intraindústria para os quatro diferentes padrões tecnológicos na relação de comércio de cada país com o mundo. Para a composição da base de dados, além do Índice de Complexida-de Econômica, elaborado e disponibilizado pela Universidade de Harvard e pelo MIT, foram utilizados ainda indicadores de participação da indústria no PIB, investimento em P&D, anos de educação, entre outros. A partir disso, e, em cumprimento ao objetivo do trabalho, foram especificados quatro modelos econométricos, relativos aos padrões tecnológicos do comércio intraindústria, caracterizados na estrutura de dados em painel, e utilizados dois tipos de esti-madores: Mínimos Quadrados Ordinários de Dois Estágios (MQO2) e Método Generalizado dos Momentos (MGM), com instrumentos de Arellano e Bond e de Blundell e Bond.

Qual a aplicação do comércio intraindústria na economia?

Nos últimos 50 anos ganharam cena as novas teorias de comércio internacio-nal. Essas vêm a acolher melhor a evidência empírica dos fluxos de comércio intraindústria entre países, isso é, do comércio de produtos tão similares entre si a ponto de pertencerem a uma mesma indústria. Diferente das teorias tradi-cionais, colaboraram, assim, para a explicação de redes produtivas regionais ou globais pela integração de firmas além dos países, seja na relação de pro-dutor e fornecedor ou na relação entre plantas de uma multinacional, por exemplo. Tais fluxos de produtos fazem emergir uma série de questões impor-tantes em tópicos de organização industrial, desenvolvimento econômico e inovação, no sentido de determinar qual a participação e a posição do país no mapa da produção global.

Quais as principais conclusões do trabalho?

Assim como esperado, verificou-se que as estimativas sugerem efeitos distin-tos de acordo com o padrão tecnológico. Aos modelos de comércio intraindús-tria intensivo em P&D, de fornecedores especializados e intensivo em escala estão associados efeitos positivos e significativos na complexidade econômi-ca. Já o modelo intensivo em trabalho não gerou resultados estatisticamente significativos. Logo, os efeitos estão em torno dos maiores padrões tecnológi-cos. De uma análise mais aprofundada, o Japão, que tem sido nos anos re-centes o país com maior índice de complexidade econômica, foi um dos que mostrou mais notável avanço do comércio intraindústria de produtos intensivos em P&D. Por outro lado, países menos desenvolvidos em geral ainda não atingiram os índices de comércio intraindústria, a partir dos quais as estimati-vas notaram efeitos na complexidade econômica.

E como se comportaram, na análise, os países em desenvolvimento?

Também neste contexto, sobretudo com relação aos países latino-americanos, ressalta-se como oportunidade o incremento do comércio em produtos intensi-vos em escala, fonte essa já esgotada pelos países desenvolvidos. Tal reco-mendação pode ser solidificada pelo que se resume das teorias de desenvol-vimento econômico e inovação relacionadas ao comércio internacional: os processos são cumulativos, por meio dos quais os países criam e avançam na combinação de recursos disponíveis, criando pouco a pouco a capacidade de desenvolver produtos mais sofisticados. Por fim, observa-se a produção de in-tensivos em trabalho, realizada em estruturas produtivas simples e com poucas ligações de conhecimento tácito, essas comuns a países menos desenvolvi-dos. Todavia, considerando como proxy o Índice de Complexidade Econômica, o fortalecimento das trocas comerciais entre tais produtos de menor padrão tecnológico não constitui uma oportunidade de desenvolvimento econômico.