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SELO ENEF

Cenários de flutuação do dólar


Denilson Alencastro
Economista-Chefe da Geral Asset Management
Corecon-RS Nº 6678

 
A que pode se atribuir essa relativa estabilidade da moeda norte americana em relação ao real?

Para começar, é importante lembrar 2018. Nesse período, a moeda brasileira sofreu uma desvalorização frente ao dólar, passando de R$ 3,29 no final de 2017 para R$ 3,87 no final de 2018, e chegando, no período próximo às eleições, a R$ 4,20. Mais recentemente, em função de uma expectativa de aperto monetário no mercado internacional, pelo fato de que os EUA estavam adquirindo mais robustez em sua economia na comparação com as outras nações e pela aversão ao risco em relação aos emergentes, o investidor global acabou migrando e pressionando o dólar para cima, elevando a volatilidade no exterior. Logicamente que, em período pré-eleitoral, com o mercado projetando em algum momento uma vitória do partido contrário a uma pauta mais liberal da economia, também acabou influenciando significativamente. Passadas as eleições, com a vitória do atual governo, aconteceu a lua de mel com o mercado, pelo menos no início de 2019, fazendo com o dólar voltasse a ser cotado a R$ 3,65 no fim de janeiro. Já, de fevereiro até meados de março, a moeda norte-americana voltou a oscilar a cotação na casa dos R$ 3,80. Isso, devido a uma valorização internacional da moeda e de perspectivas um pouco menos animadoras em relação à economia brasileira. Em suma, vejo que essa oscilação da taxa de câmbio entre R$/US$ 3,65 e 3,95, que, para alguns poderia ser uma “estabilidade”, se deve às questões relatadas anteriormente. Mas esse intervalo de oscilação pode mudar substancialmente, dependendo do resultado de aprovação ou não da reforma da previdência. E pesa bastante no câmbio agora a modificação dos principais bancos centrais do globo em relação à política monetária.

E também a expectativa de maior crescimento do PIB e a realização das reformas?

Também. Logo no início deste ano, havia uma expectativa maior de crescimento do PIB de 2,5%, uma expectativa de um de um mercado menos “dream” e, ainda, uma expectativa de aprovação das reformas, principalmente a da previdência, trazendo um cenário mais positivo para a moeda brasileira em relação à norte-americana, o que fez com que o real voltasse a se valorizar frente ao dólar, passando de R$ 3,70 para R$ 3,87.

Mas essa realidade cambial pode mudar novamente?

Sim, como dito anteriormente. Os bancos centrais dos países desenvolvidos, principalmente o FED, banco central dos EUA, e o BCE, Banco Central Europeu, estão sinalizando a continuidade de um afrouxamento monetário e de um ajuste menor para cima (se ocorrer) da taxa de juros. Então, isso faz com que acabe ajudando, pelo lado financeiro, as outras moedas. Só que a Europa, na perspectiva de um crescimento para baixo, e por isso até pesou essa decisão do BCE de continuidade do afrouxamento monetário, somado ao fato de a economia americana ter ficado mais robusta na comparação com a europeia principalmente, fez com que o dólar acabasse se valorizando mais nesse período, em detrimento de outras moedas. Então, é um dos fatores que acaba mantendo uma pressão um pouco maior sobre o real, que dias atrás chegou nos R$ 3,90 novamente e agora se encontra na casa dos R$ 3,80. É bom levar em consideração também que existe uma relação muito importante entre o mercado de commodities e o dólar. Num momento em que as comoddities acabam pesando um pouco mais pra baixo, em função de uma perspectiva menor de demanda da economia mundial, e principalmente da China, também tem a questão da guerra comercial, que provoca uma redução natural do fluxo comercial mundial e que acaba impactando nas commodities, com o dólar se beneficiando dessa relação. Então, existe uma pressão um pouco maior do dólar em relação a outras moedas do mundo e essa comunicação um pouco complicada aqui no Brasil.

Existem fatores internos também?

Tem o fator Brasil. Neste momento, os principais fatores que interferem na pauta econômica interna relacionam-se a alguns ruídos no tipo de comunicação que o governo vem empreendendo e a algum fogo amigo que tumultua um pouco o ambiente da votação da reforma da previdência, o que acaba pesando um pouco contra a estabilidade da moeda, e que, somado a uma economia mais pujante dos EUA, acaba levando a moeda a um patamar um pouco maior. A reforma da previdência pode mudar, não conjunturalmente, mas a estrutura da economia, e pode levar a moeda norte-americana a um nível um pouco mais baixo que o atual. Na visão do mercado, isso traria o dólar para um patamar de R$ 3,50, tendendo para baixo. Lógico que uma perspectiva de ter essa reforma aprovada, somada, por exemplo, a um encaminhamento para a solução do endividamento público, que seria uma força muito grande para a economia brasileira, na visão do mercado, seria um cenário melhor e estaríamos possivelmente com o real num patamar menor na comparação com o dólar. Mas, mesmo assim, temos que ter presente que uma reforma da previdência, por si só, ainda estaria muito longe de ser a solução dos problemas econômicos no Brasil. Ainda temos uma perspectiva de crescimento do PIB, que antes era de 2,5% a 3% e que, agora, revisada, chega a 1,5% ou 2%. Isso pesa contra mesmo a questão da moeda, com uma oscilação do dólar um pouco maior. Por fim, cabe acrescentar que o FED sinalizou que ao longo desse ano discutirá a forma de condução da política monetária, de modo a ancorar melhor as expectativas de inflação, ou seja, parece indicar uma mudança estrutural na política monetária, o que pode ter impacto de mais longo prazo na economia. Para entender melhor esse último ponto, recomendo a leitura da carta de gestão da Verde Asset, divulgada nesse mês. Link da carta
http://files.verdeasset.com.br/pdf/rel_gestao/158094/Verde-REL-2019_02.pdf