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SELO ENEF

Arranjos familiares e a questão educacional



Julia Sbroglio Rizzotto

Economista, Vencedora “Prêmio Corecon-RS 2018”,
Categoria Artigos Técnicos ou Científicos
Corecon-RS Nº 8625

 

Sobre o que trata o trabalho “Os arranjos familiares importam no momento de decidir em qual rede de ensino matricular os filhos?”, elaborado em parceria com os economistas Marco Túlio Aniceto Franca e Gustavo Saraiva Frio, vencedor do “Prêmio Corecon-RS 2018”, Categoria Artigos Técnicos ou Científicos?

O artigo analisou se os arranjos familiares, monoparentais ou biparentais, afetam a escolha parental de em qual rede de ensino, se pública ou privada, matricular os filhos. A contribuição do presente estudo está em considerar os arranjos familiares na questão educacional. A transição demográfica tem reduzido o número de filhos por família e esse aspecto gerará, no futuro, readequação no número de escolas e remanejamento de professores. Além disso, a diversidade da organização familiar, uma vez que o arranjo tradicional - de casal com filhos - tem se reduzido em relevância, aponta para novas necessidades, entre elas, o aumento da oferta de creches e educação infantil, permitindo que a mulher chefe de família, em um arranjo monoparental, feminino possa ofertar trabalho. O crescimento no número de arranjos monoparentais masculinos também pode exigir modificações na política pública, no sentido de dar ao homem condições de cuidar da prole.

Qual o objetivo do estudo?

O objetivo do artigo é analisar se os arranjos familiares afetam a probabilidade de matricular os filhos em um tipo de rede de ensino em detrimento de outro. Além disso, consideramos se as chances se modificam de acordo com o nível de ensino, o sexo e a ordem de nascimento da criança, pois os investimentos parentais podem ser diferentes segundo as suas preferências. Neste trabalho foram utilizados os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) de 2015.

A que conclusões chegaram?

Os principais resultados mostram que 14,88% das crianças e jovens da amostra selecionada para este estudo viviam em arranjos monoparentais femininos. Essa configuração familiar está em residências menores, com renda per capita inferior aos demais arranjos .Nessa configuração familiar, a filha tem maiores chances de frequentar uma escola privada. Esse resultado apontaria para um comportamento altruísta da mulher, além de mostrar que essa preferência pode ser uma tentativa de empoderamento da menina para que ela não passe pelas mesmas dificuldades que a mãe. Nos domicílios com casais e filhos ou nos monoparentais femininos, os filhos mais velhos têm maior probabilidade de estarem matriculados em escolas privadas em relação aos seus irmãos mais jovens. Além disso, os pais têm maior propensão a gastar em educação infantil do que em ensino fundamental, pois estão mais propensos a pagarem a matrícula em uma escola privada. Esse resultado pode ser ocasionado pela falta de creches públicas, o que afetaria os arranjos monoparentais em proporções maiores do que os arranjos com ambos os pais presentes, dado o aumento no custo de entrada no mercado de trabalho.

A nova composição da família também acarreta numa pressão cada vez maior por vagas em creches?

Sim. As evidências do estudo suportam a implementação de políticas públicas voltadas para as creches públicas, a fim de poder dar oportunidade a todos. De acordo com James Heckman, vencedor do Prêmio Nobel em Economia no ano de 2000, investir na educação nos anos iniciais é fundamental para a vida da criança. Os investimentos no ensino infantil são os que trazem um maior retorno e, portanto, não existe política pública mais eficaz do que investir na educação das crianças nos primeiros anos de vida. A redução no número de membros das famílias brasileiras, juntamente com os incentivos à entrada das mulheres no mercado de trabalho, coloca uma pressão sobre a demanda de vagas em creches. Porém, a escassez de opções ou vagas obriga os pais a arcarem com os custos da creche. A redução das chances de frequentar o ensino privado à medida que aumenta o nível de ensino pode ser acarretada pelo crescimento da oferta das escolas públicas nos ensinos fundamental e médio ou por causa da competição, em que duas crianças precisam competir pelos mesmos recursos e independe do arranjo familiar no qual o filho se encontra.