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SELO ENEF

Cenário de menor incerteza e o crescimento do PIB

 

 

Giovani Baggio
Economista Sênior da Federação das Indústrias do RS (Fiergs)
Corecon-RS Nº 8365

 

Com base em que cenários a Fiergs está prevendo crescimento para a economia brasileira em 2019?

Uma combinação de fatores contribui para essa aceleração de 2,8% que estamos estimando para 2019. Podemos dividir os principais elementos que indicam tendência nesse sentido em quatro blocos. Em primeiro lugar, já temos um cenário de menor incerteza em função dos resultados das eleições, onde um governo que mostra comprometido com uma agenda de reformas saiu vitorioso. O que já estamos percebendo, nas primeiras pesquisas após as eleições, é um cenário de maior confiança, tanto pelo lado dos consumidores quanto pelo lado dos empresários, o que tende a aquecer a economia e tornar o ambiente mais favorável para a geração de empregos. Junto com essa confiança elevada, tem-se um cenário de inflação controlada e juros baixos que já vem desde o ano passado, deixando mais renda disponível para as pessoas consumirem e a expectativa de crédito mais barato na economia. Além disso, as fábricas estão operando com ociosidade, ou seja, a utilização da capacidade instalada está baixa, o que faz com que se tenha uma resposta rápida da produção sem a necessidade de grandes investimentos, caso a demanda venha a aumentar. Por fim, o mercado de trabalho ainda bastante desaquecido, com uma taxa de desemprego que segue em patamares elevados, o que torna a disponibilidade de mão de obra mais um item a colaborar nesse contexto.

De que forma essa taxa elevada do desemprego colabora na retomada do crescimento?
Neste cenário atual da economia, onde há um número grande de pessoas disponíveis no mercado, muitas delas com boa qualificação, proporcionaria uma rápida absorção da mão de obra existente, caso haja necessidade por parte das empresas. O que nossas pesquisas aqui da FIERGS retratavam antes da crise é que a falta de trabalhador qualificado era um dos principais problemas enfrentados pelas empresas e essa dificuldade deixou de estar entre as mais apontadas pelos empresários. Entretanto, o nosso cenário base não contempla uma aceleração muito forte nas contratações em 2018, pois o emprego tende a apresentar resposta mais demorada nas recuperações.

Como a Fiergs está vendo o perfil da futura equipe econômica?
Estamos vendo com bons olhos, principalmente pelo perfil técnico dos membros da equipe econômica do futuro governo, com uma formação de caráter mais liberal. A equipe que está sendo formada parece ter o diagnóstico correto daquilo que o Brasil precisa para melhorar o ambiente econômico, especialmente no que diz respeito às finanças públicas, e isso é fundamental para a condução dos trabalhos. Nesse sentido, qual proposta será apresentada para a Previdência será crucial para consolidar a confiança.

Uma reforma na previdência já traria resultados a curto prazo?
Por um lado, em termos de contas públicas, o impacto não deve ser tão grande no curto prazo, pois os gastos com aposentadorias e pensões entram na categoria de gastos obrigatórios e, portanto, já estão contratados para os próximos anos. Nesse contexto, a importância de sua aprovação é para mudar a trajetória atual dos gastos públicos, onde uma parcela cada vez maior do orçamento está sendo destinada a cobrir o rombo previdenciário. Por outro lado, o impacto imediato seria no sentido de sinalizar que no médio e longo prazo as contas do governo não serão sufocadas pelos gastos com previdência, levando a um aumento da confiança dos agentes econômicos de que o governo conseguirá horar seus compromissos.

E o que falta para isso?
Antes de tudo, um Congresso que se convença da real importância dessas mudanças para a economia do país. Certamente haverá grande dificuldade nessa etapa, o que exigirá um poder de negociação muito grande para alcançar a aprovação, principalmente do núcleo político do governo.

Essa previsão de 2,8% também se deve à base de comparação muito baixa?
Exatamente. E isso é o que chamamos de uma recuperação cíclica. Passamos por alguns anos de crise, com uma queda muito forte da atividade econômica. O PIB ficou praticamente estagnado em 2014, caiu em 2015 e 2016, e, em 2017, recuperou um pouquinho. Neste ano de 2018, esperávamos um crescimento mais forte, o que acabou não se concretizando, em função de uma série de eventos que atingiram a economia, como a greve dos caminhoneiros, uma mudança no cenário internacional e a elevada incerteza provocada pela indefinição da disputa eleitoral. Após um período de recessão, diversos fatores começam a influenciar para que a atividade econômica volte a acelerar, como a desalavancagem de empresas e famílias, e o elevado grau de ociosidade das empresas e do mercado de trabalho. Soma-se a esses fatores, um ambiente com inflação controlada e juros baixos. Portanto, esperamos uma continuidade da recuperação em 2019 como um processo natural de esgotamento do ciclo recessivo.

E o ajuste das contas públicas deve entrar na pauta do próximo governo para colaborar com a continuidade do crescimento?
Sim, é fundamental que entre. Aliás, sempre é importante frisar que o Brasil pode crescer no próximo ano em torno de 2,8%, no outro, na faixa dos 2,5%, mas sem o conserto das contas públicas, dificilmente conseguiremos ir muito longe. O nosso horizonte de crescimento será absolutamente curto se não conseguirmos encaminhar a solução desses problemas fiscais. Além do quadro fiscal, ações no sentido de melhorar o ambiente de negócios do Brasil são fundamentais para o crescimento de longo prazo, das quais incluem destravar os investimentos em infraestrutura, melhorar a qualidade da educação, fazer acordos comercias e promover uma reforma que torne o nosso sistema tributário mais eficiente. Sem fazermos o dever de casa, o nosso voo não será muito longo.

O RS entra na mesma onda do crescimento brasileiro?
Sim, o desempenho deve ser parecido. Até em termos de taxas, não é muito diferente, já que projetamos um crescimento de 2,4% da economia gaúcha para 2019. Nós nos beneficiamos nos momentos de alta da economia nacional, assim como somos penalizados nos momentos de baixa. Um dos fatores de diferença, que pode fazer com que o RS tenha um desempenho menor que o nacional, é o cenário externo, pois o RS possui um perfil exportador maior do que a média nacional. Os nossos dois principais parceiros comercias, China e Estados Unidos, devem apresentar desaceleração do crescimento em 2019, e a Argentina, o terceiro, deve sofrer com mais um ano de queda no PIB. Cabe destacar também a crise das finanças públicas do RS, que se encontra numa situação mais delicada do que a brasileira.