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“No desenvolvimento local, renda e produto não possuem relação direta”, diz economista

 

“Desenvolvimento municipal: possibilidade ou ficção?” foi o tema da edição de novembro do Economia em Pauta, que aconteceu, no dia 18 de novembro, na Sede do Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul (BRDE), em Porto Alegre. Numa promoção do Corecon-RS, em parceria com o BRDE, a palestra foi proferida pelo economista Carlos Águedo Paiva, vice-coordenador do Mestrado em Desenvolvimento Regional da Faccat.

Bacharel em Economia pela Ufrgs, Mestre e Doutor em Economia pela Unicamp, Carlos Paiva é coordenador do Grupo de Pesquisa do Litoral Norte do RS (GPLNRS/CNPq), Editor da Revista Colóquio e do site territoriopaiva.com.br e Diretor Presidente da Paradoxo Consultoria Ltda. É Especialista em Teoria do Desenvolvimento Econômico, História Econômica, História do Pensamento Econômico, Economia Política, Macrodinâmica, Economia Regional, Economia do Meio Ambiente, Economia do Turismo e Economia Gaúcha.

O Economia em Pauta foi aberto pelo superintendente da Agência RS do BRDE e ex-conselheiro do Corecon-RS, economista Luciano Feltrin, que agradeceu o Conselho por mais esta parceria e falou da importância do assunto para o fortalecimento dos municípios e das regiões, no contexto da economia brasileira. Disse que até 2016 o Banco trabalhava muito pouco com municípios e, a partir dessa data, através do Programa BRDE Municípios, as cidades passaram a ter capacidade de investir em projetos e obras que visem a qualidade de vida de suas populações. “Temos atualmente 207 contratos num total de R$ 590 milhões, com perspectivas de abrir novas linhas de financiamentos com o Banco Mundial e com o BID”, afirmou, ressaltando que as linhas de crédito são disponibilizadas em três braços principais, saneamento e mobilidade, infraestrutura social, rural e urbana e desenvolvimento institucional.

paiva1Carlos Paiva iniciou sua apresentação falando sobre as motivações que geram as opções de investimentos, as demandas, diversificação, e até que ponto a própria gestão municipal consegue promover o desenvolvimento econômico de sua localidade. Citou autores, como John Keynes, Michal Kalecki e Jonathan Leontief e ressaltou os conceitos oferecidos por Celso Furtado e Douglass North para a melhor compreensão dos princípios de desenvolvimento local e regional. Com base nesses autores, explicou que o PIB municipal é irreal na medida em que o que é produzido no interior de um município não corresponde à realidade de sua renda local. Lembrou os casos dos municípios de Triunfo e Santa Maria, em que, no primeiro, o PIB per capita é altíssimo em relação à renda de seus habitantes, e que a maior parte desse produto é enviado, em forma de tributos e impostos federais e estaduais, para fora da localidade, enquanto a renda não converte aos moradores locais, já que grande parte dos trabalhadores residem em outros municípios da região metropolitana de Porto Alegre. No caso de Santa Maria, ao contrário, a renda da população é maior que o produto, já que o valor dessa produção é gerado em municípios próximos e enviados para os domiciliados locais, que estudam e vivem nesse município. “Então, renda e produto não possuem uma relação direta. Isso é um grande engano, já que se trata de um dado que tem muito mais informação para o Estado que para os municípios locais”, ressaltou. “De uma forma geral, toma-se equivocadamente como um indicador de qualidade de vida enquanto os estudiosos em desenvolvimento regional não tomam um produto como algo tão relevante assim”, acrescentou.

Falou sobre as diferenças entre as produções voltadas para a demanda externa e as de aumento da oferta para o mercado local. Disse que, neste ponto, a compreensão ainda é muito equivocada por parte de muitos gestores, especialmente no que diz respeito à qualidade da geração de emprego e renda no momento da escolha pelos investimentos a serem realizados. “A demanda externa, que incide sobre os bens que a localidade vende para fora, é extremamente elástica, e o aumento da produção, com qualidade e preços de mercado, certamente irá gerar ganhos de escala e produtividade”, explicou.

paiva3O economista afirmou que são três as formas de entrada de recursos no município, que acontece através da balança comercial, da conta turismo ou da conta renda. Como exemplo de particularidade local, citou as chamadas contas de exportações ou de turismo, que medem entrada de recursos na economia pela passagem de pessoas pelo município. Disse que boa parte dos prefeitos possuem percepção dessa realidade, enquanto muitos economistas, preocupados com indicadores gerais, muitas vezes não leva a sério o suficiente a importância desse detalhe, ocasionando distorções de interpretações sobre os números que a envolvem. “Temos a ideia de turismo global, que é aquele, tradicional, que se faz uma vez por ano. Mas os municípios têm os seus próprios clusters, formados por restaurantes, bares, praças, jogos, entre outros, por onde pessoas de outras localidades passam e usufruem de suas potencialidades, deixando recursos que movimentam a economia local”, complementou. “Essa é uma das formas como o município se desenvolve, e nós, economistas, temos que conhecer esse processo, que não é percebido corretamente quando se está pensando apenas em economia macro, global ou nacional”, alertou.

Com base na forma de distribuição e de multiplicação da renda entre os moradores, o economista finalizou, apresentando uma análise histórica sobre as diferenças entre a formação dos municípios ocorrida na metade Sul e no Norte do Estado, que se diferenciam pela diversificação produtiva e pulverização das atividades urbanas.

Participaram desta edição do Economia em Pauta, o presidente do Corecon-RS, economista Rogério Tolfo, o conselheiro Aristóteles Galvão, e o ex-presidente da Entidade, economista Lauro Renck.

O evento teve o apoio de Águas Mineral Sarandi.

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