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Uma Nova Crise Global se Avizinha?

Como resposta à crise econômica mundial de 2008-2009, o mundo, capitaneado pelos Estados Unidos, promoveu uma série de medidas anticíclicas visando combater os efeitos nocivos daquele período de anormalidade. As principais ações englobaram políticas regulatórias, queda de juros e expansão monetária. Como ilustração, o governo do então presidente Barack Obama (2009-2017), em conjunto com o Banco Central norte-americano (Fed, na sigla em inglês), naquele momento presidido por Bem Bernanke (2006-2014), cortou os juros anuais ao menor nível da historia, entre 0% e 0,25%, além de promover a já citada política de expansão monetária que, entre outros mecanismos, empregou a recompra de títulos públicos daquela nação que se encontravam nas mãos de particulares. Para isso, elevou a base monetária norte-americana. Se por um lado não houve risco de disparada da inflação, dada a difícil situação em que o país se encontrava, por outro a dívida pública quase duplicou na gestão Obama, acelerando de menos de US$ 10 trilhões em 2008 para quase U$S 20 trilhões em 2017.

O cenário atual indica que o mundo, apesar de ainda não apresentar os números macroeconômicos do período pré-crise, caminha nessa direção. Mesmo que os Estados Unidos e a Europa já não pratiquem uma política monetária tão expansionista, mantêm suas taxas básicas de juros em níveis muito baixos (entre 1,25% e 1,5%, e 0,00%, respectivamente) dado a taxa de desemprego, sobretudo no velho continente, inspirar cuidados. Assim, é justo concluir que no momento que essas nações atingirem o chamado pleno emprego, as políticas fiscal e monetária se tornarão mais restritivas. No primeiro sinal de elevação da inflação, os juros deverão subir. Sem esquecer que a diferença entre o remédio e o veneno é a dose, a pergunta que fica é: quando esse momento chegará?
Em resposta a pergunta acima, as opiniões se dividem. Para alguns economistas e investidores o mercado já dá sinais que uma nova crise global se avizinha. Outros refutam tais afirmações, alegando serem necessários dados mais concisos para provar serem verdadeiras as citadas afirmações. Como instrumentos de trabalho, este estudo analisará três variáveis: o crescimento chinês, o preço do barril de petróleo e o nível das ações negociadas em Wall Street.
A China, que ao lado dos países emergentes – sobretudo dos BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) –, impediu que a crise se tornasse ainda mais crônica há 10 anos, não consegue mais atingir crescimentos anuais superiores a 10%. Nos últimos três anos, seu PIB anual não chegou a 7%. Enquanto algumas opiniões como a do megainvestidor George Soros indicam que o atual cenário pode acarretar significativas reduções nos preços das commodities, outras entendem que o gigante asiático está apenas se adaptando a um novo modelo de crescimento econômico em um quadro de normalidade.
Outro ponto de discórdia é o preço do barril de petróleo. Já tendo atingido mais de US$ 100 nos Estados Unidos, no final de 2015 chegou a ser cotado por cerca de US$ 30. Para os céticos, isso provém da desaceleração chinesa aliada a uma política nada promissora de queda de braço entre a única potência mundial e a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) em relação à adoção norte-americana do gás de Xisto, acarretando uma crise de superprodução. Conduto, para aqueles que não acreditam que uma nova crise está no horizonte, serve a alegação que os produtores de Xisto estão endividados, não mais conseguindo dar sustentação ao mercado. Logo, a maior nação da América do Norte aumentou sua demanda internacional por petróleo, fazendo com que o preço do barril se recuperasse e atingisse US$ 70 dólares na primeira quinzena de 2018.
Por último, o preço das ações negociadas nas bolsas norte-americanas. Para os que acreditam que a eclosão de uma crise é iminente, existe a alegação que o nível atual dos papeis está abaixo somente daqueles verificados em 1929 e 2000, períodos em que ocorreram ou precederam duas das piores crises globais que se tem notícia, sendo tal nível insustentável. Opiniões contrárias, contudo, entendem que o mencionado avanço é natural e que ainda existe espaço para um crescimento ainda maior. Para eles, isso pode ser confirmado pela previsão do crescimento global para os anos de 2017 e 2018, de 3,7% e 3,1%, respectivamente – mesmo com a ocorrência de uma pequena queda nada alarmante. Nesse sentido, se uma crise vier, não deve ocorrer em 2018 ou 2019.
Independente de se e quando a crise ocorrer e valendo-se da premissa ortodoxa que as crises capitalistas são cíclicas, algumas perguntas ficam no ar: qual será o papel dos Estados Unidos, uma espécie de esteio da economia global, na condução da recuperação mundial, dado as diferenças das gestões Roosevelt (1933-1945), Obama e Trump? Valerá a máxima do atual mandatário da Casa Branca de “América para os americanos”? Como se comportará à Europa, que a exceção da Alemanha, está repleta de lideres populistas como Thereza May e Emmanuel Macron? Os mecanismos de regulação dos mercados instaurados a partir da crise de 2008/2009 serão eficazes? Tais perguntas, ainda sem respostas, ficam no ar, aguardando que sejam contempladas da melhor forma possível para o bem de toda a humanidade.

por Stefano Silveira, economista e Professor Universitário