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SELO ENEF

Até onde vai o dólar

cecilia
 
Cecília Hoff
Economista, professora da Escola de Negócios da PUCRS
Corecon-RS Nº 7659

 

O que está acontecendo com o dólar?
Essa situação do câmbio é meio paradoxal. É que, do ponto de vista dos fundamentos das contas externas, a situação brasileira é favorável. Temos praticamente equilíbrio nas transações correntes e o fluxo de investimento direto no país, até caiu um pouco, mas ainda está elevado, na casa dos U$ 60 bilhões este ano. Então, do ponto de vista do balanço de pagamentos, o país está bem. E ainda, temos em torno de U$ 380 bilhões de reservas e o Banco Central reduziu a exposição em swaps. Então, haveria fôlego para colocar swaps cambiais para tentar reduzir a volatilidade do dólar, mesmo que não exista a intenção do Bacen de interferir para que a taxa encontre o seu novo patamar, seja ele qual for.

Onde entra a volatilidade da moeda, que faz com que o dólar esteja subindo tanto nos últimos dias?
O real é muito negociado nos mercados futuros mundiais. Só para se ter uma ideia, o real é a terceira moeda mais negociada nos mercados de derivativos financeiros, segundo os dados do Banco de Compensações Internacionais (BIS). Só perde para o euro e o dólar. É algo que não tem proporção, nem com a nossa participação no PIB mundial e nem com a nossa participação no comércio. Em função disso, o real acaba sendo uma moeda muito volátil.

Mas por que isso?
Pode ter uma série de explicações, não há uma explicação única e é uma agenda de pesquisa ainda em aberto. Contribuem para isso diferencial de juros, que por muito tempo foi elevado e o fato de o real ser uma moeda commodity de um país emergente, mas que tem um mercado de derivativos desenvolvido. O resultado disso é que a moeda fica muito mais volátil diante de qualquer acontecimento, tanto no mercado interno como no mercado externo. Então, qualquer turbulência, por menor que seja, faz com que se alterem as posições no mercado futuro, que acabam se transmitindo para o mercado à vista. Por exemplo, no segundo trimestre deste ano, quando houve uma mudança na expectativa em relação à política de juros dos EUA e se consolidou a ideia de que o juro subiria mais rápido do que o esperado, o real se desvalorizou junto com outras moedas de países emergentes. Esse movimento aconteceu mais pela compra de dólar no mercado futuro do que por uma saída de dólar físico de dentro do país. Uma expectativa de crescimento maior nos EUA, que leva a uma expectativa mais rápida de alta de juros, provoca essa realocação de portfólios no mercado futuro, repercutindo no mercado à vista.

E a greve dos caminhoneiros também não acabou trazendo impactos para o câmbio?
Sim. Logo depois disso, houve a greve dos caminhoneiros que, por sua vez, também fez com que muitos investidores estrangeiros vendessem ações da Petrobras, e, ao fazer isso, também foram desmontadas posições no mercado futuro, o que também ajudou o dólar a alcançar a casa dos R$ 3,80.

E essa alta recente está mais relacionada a questões internas?
Existem questões externas, ainda relacionadas com os eventos da economia americana, mas também com a crise na Turquia, mas a alta recente parece refletir questões mais internas, relacionadas aos resultados das pesquisas eleitorais. É que as incertezas com as eleições geram um certo pânico no mercado, principalmente nos investidores estrangeiros, que passam a comprar dólar futuro, trazendo essa volatilidade à moeda.

Essa situação é semelhante a que ocorreu por ocasião da primeira eleição do Lula?
A situação hoje, do ponto de vista dos fundamentos, é muito diferente daquela de 2002, quando o Lula ganhou as eleições. A incerteza daquela época levou o dólar a R$ 4,00 e hoje, se fossemos atualizar aquele valor, seria algo entre R$ 7,00 e R$ 8,00, o que seria uma grande desvalorização. Acho mais difícil acontecer isso hoje porque a nossa situação do ponto de vista do balanço de pagamentos é mais confortável.

Por que?
Naquela época, as reservas internacionais eram baixas, o déficit de transações correntes era elevado como proporção do PIB e o investimento direto no país era mais reduzido. Acho que a alta recente reflete muito mais um movimento provocado por essas mudanças de portfólio nos mercados futuros, que se ajustam às novas expectativas em relação às eleições e aos eventos da economia dos EUA. Cenário que, por sinal, ainda está muito incerto e deve continuar trazendo volatilidade.