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SELO ENEF

Economia gaúcha e tecnologia

 

 
 
Jorge Luís Tonetto
Economista, Auditor-Fiscal Secretaria da Fazenda RS, Conselheiro Corecon-RS
Corecon-RS Nº 5096
 
 
 
 
 

Como está vendo a situação do estado do Rio Grande do Sul?

Um dos grandes problemas do nosso estado é a ausência de políticas em alguns setores, especialmente na questão da inovação, da ciência e tecnologia, e principalmente no contexto do desenvolvimento regional. O RS está perdendo tempo ao deixar de traçar planos de montagem de centros de inovação regionais, como estamos vendo em outras unidades da federação. Estamos deixando de desenvolver áreas como o Agrotech. Estamos pensando a economia gaúcha ainda de forma muito tradicional, como vem sendo feito há 40 ou 50 anos. E o mundo de hoje tem muitas possibilidades. Além das possibilidades de inovação no agronegócio, existe possibilidades no setor da construção civil, na infraestrutura e serviços urbanos, na área financeira, na área da saúde, enfim há um leque muito grande de novos materiais e serviços a serem desenvolvidos. Então tem muita coisa a ser pensada e criada.

Falta planejamento?

Podemos citar o caso da segurança pública, ou das comunicações, onde a tecnologia da informação deve estar presente e é fundamental. O estado deve ter um plano de desenvolvimento, considerando especialmente as questões regionais. Claro que isso envolve também educação, infraestrutura e atinge outros tantos segmentos. Há muito tempo que não se tem consenso e liderança. Tivemos um programa do Banco Mundial, iniciado a 10 anos atrás e que se encerrou agora, e que permitiu um primeiro salto em inovação e tecnologia no estado. O RS concentra hoje grande parte dos parques tecnológicos do país. Basta vermos que, dos últimos oito premiados, cinco foram daqui. Então, nós temos, realmente, um potencial fantástico nesse setor. E isso vem sendo desenvolvido pelo Tecnopuc, através da PUCRS, e pelo Tecnosinos, no Vale do Sinos. Precisamos dar um novo passo.

Falta uma ação maior por parte do estado no apoio a essas ações?

Não estamos vendo o estado ter uma política ampla e estratégica para apoiar o desenvolvimento econômico baseado em ações de inovação. O binômio educação e ciência é fundamental para toda a matriz econômica. Se nós tivermos uma política um pouco mais voltada para esse binômio, mesmo nos setores em que temos vocação e são de ponta, passaremos a agregar valor a esses setores, gerando a indústria 4.0, criando novos produtos e serviços através do agrotech, das fintechs, gerando, a partir daí, um alcance mundial. Como dizem alguns organizadores da área de tecnologia, como o Iasp, esses setores atuam hoje como se fossem uma champions league, ou seja, o mercado tem que jogar num alto nível e isso, sem dúvida, é fomentado desde a base. Basta vermos exemplos, como a Suécia, onde se ensina lógica desde a primeira série. Eles estão preparando o futuro cidadão digital.

Ainda se está muito longe disso?

Nós ainda estamos olhando para o passado e temos que, urgentemente, passar a preparar o nosso cidadão para se relacionar com o emprego digitalmente, com o governo digitalmente. Temos que prepará-lo para isso, porque a demanda dele, o crescimento dele, vai transformar a sociedade e vai transformar o governo também.

Tem luz no fim do túnel?

Evidente que sim. Porque o mundo não está crescendo na mesma velocidade. Temos países na América Latina crescendo a 5% ou 6%. Tem países no sudeste asiático crescendo a 8% ou 9%. O mundo não é homogêneo. Mas essas transformações também acontecem por aqui. Temos muitos estados que também estão fazendo o dever de casa. O Espírito Santo, que até 20 anos atrás era um grande problema, atrasava três folhas de salários, hoje fez o foco em infraestrutura e logística voltado para a região sudeste, e com um grande porto, conseguiu um desenvolvimento fantástico. O Ceará, que nem dívida tem mais hoje, investe mais de 20% de seu orçamento todo o ano. Então, existem soluções ao alcance de quem se propõe inovar. Nós, que já fomos um líder em tantas coisas durante quase um século, não tem como não nos reinventarmos. Temos capital humano para isso. O que nos falta é ter liderança e consensualmente definir uma agenda comum e, a partir disso, construirmos o Rio Grande que sonhamos e queremos.