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SELO ENEF

Com um olho nos negócios, outro nas eleições

maria carolina gullo

 

Maria Carolina Rosa Gullo
Economista, Diretora da Área do Conhecimento de Ciências Sociais/UCS,
Diretoria de Economia, Finanças e Estatísticas CIC/Caxias do Sul
Corecon-RS nº 5779


Até o início deste ano a economia da região de Caxias do Sul ainda demonstrava alguns sintomas de retomada da crise. Como está a situação agora?
A retomada economia caxiense começou ainda em janeiro de 2016. De lá para cá, a economia vem crescendo em ritmo lento, mas continuado. Inclusive talhamos o termo “despiora” para adjetivar esta fase.

Que setores vêm sustentando essa “despiora”?
A “despiora” vem sendo puxada pelo setor industrial que, através das maiores empresas ligadas ao setor metalmecânico e automotivo, fomentaram a cadeia local e regional. Em 2017, o bom momento do agronegócio impulsionou as vendas de máquinas e implementos agrícolas e isto repercutiu no nosso setor metalmecânico. Agora em 2018, as duas maiores empresas, Marcopolo e Randon, estão com boa carteira de pedidos até o final do ano e, com isso, a cadeia como um todo está sendo impactada positivamente. Inclusive, a geração de empregos, até o mês de maio, está positiva. No ano, o saldo positivo é de 4.766 vagas, dos quais, 75% estão na indústria (mais construção civil). O comércio, por enquanto, é o setor com o menor saldo de vagas, o equivalente a apenas 0,41% do saldo.

E o setor de serviços, como vem se comportando?
O setor de serviços foi o último a entrar e o último a sair da crise em Caxias do Sul. Por aqui, esse setor tem forte ligação com o setor industrial local, mas também regional. Alguns segmentos da indústria regional demoraram mais a sentir a crise econômica, como a indústria alimentícia e, até a mesmo, a moveleira, o que possibilitou um tempo maior de sobrevida ao setor de serviços bem como uma queda menos acentuada que os demais setores.

E o comércio?
O comércio teve e tem uma recuperação mais lenta que a indústria. Em parte, isso é reflexo do nível de endividamento das famílias e dos salários mais baixos na recontratação mais recente. Embora as empresas tenham prorrogado por bastante tempo processos de demissão, utilizando do expediente de férias coletivas e redução de jornada, a perda de postos de trabalho bateu a casa dos 25 mil empregos formais em três anos. Com menos emprego e menos renda, o comércio foi bastante afetado. A queda foi maior do que a da indústria.

Que fatores impactaram nesse comportamento de recuperação?
A recuperação é resultado de vários fatores, como a busca por novos mercados, produtos diferenciados, mas, sobretudo, pelo bom momento do agronegócio em 2016 e 2017. A cadeia metal mecânica caxiense se beneficia bastante com os bons resultados desse setor. Ainda em 2017, soma-se um movimento de renovação de frota de ônibus e de peças de reposição da cadeia como um todo. No momento, temos os números até maio deste ano, em que foi possível detectar que a greve dos caminhoneiros trouxe prejuízos para a cidade, principalmente para o setor industrial, tendo em vista que faltou matéria prima para a produção e, também, prejuízos no escoamento da produção. O setor do agronegócio, mais especificamente, o de corte de carnes, foi um dos mais atingidos. No entanto, finda a greve, estamos com boas perspectivas na retomada da produção industrial, sobretudo, no setor metal mecânico e automotivo, como comentei antes.

Que tipo de impactos a proximidade com as eleições ainda podem trazer à economia da região?
A economia caxiense vem produzindo para o Estado e para o Brasil, mas está buscando resgatar mercados perdidos no exterior. Nossas exportações sofrem com a queda da competitividade relacionada aos nossos problemas de logística e de mão de obra nos picos industriais. Neste sentido, penso que as eleições tenham pouca influência no presente. Mas poderão ter no futuro, caso os governantes eleitos não ajudem na busca de soluções para o escoamento da produção da serra gaúcha por estradas melhores e/ou por outras alternativas de modais de transporte. Ou ainda, se houver uma mudança muito radical em relação aos fundamentos macroeconômicos em vigência, além de uma oscilação muito grande na variação cambial para cima, onde o custo de produção seria impactado em função do aumento de componentes e máquinas importados, e, para baixo, prejudicando o movimento de recuperação do mercado externo via exportações.

As empresas já voltaram a contratar?
Embora a economia caxiense tenha começado a trajetória de despiora ainda em 2016, o mercado de trabalho só apresentou saldo positivo na geração de vagas a partir de janeiro deste ano. Em 2013, tivemos cerca de 183 mil pessoas empregadas com carteira assinada. Agora, em maio de 2018, este número é de 162.713, embora já tenha sido um pouco menos de 158 mil, em 2017. Portanto, a geração de empregos está acontecendo em nossa cidade, embora de forma lenta.

Quais as expectativas do empresariado?
O empresariado local está com um olho no seu negócio e outro no processo eleitoral que se avizinha. A necessidade de investimentos, tanto nas empresas quanto na infraestrutura para produção e escoamento da mesma, é premente. No entanto, não há recursos públicos para atender a todas as demandas. Neste sentido, saber o que pensam e como podem solucionar problemas antigos e novos em nível estadual e federal é um anseio da classe empresarial. Mais ainda, que tipo de governo teremos, se mais liberal ou mais intervencionista, ou, mesmo, que tipo de fundamentos macroeconômicos serão mantidos ou modificados. Estas respostas vão dar o tamanho do apetite por investimentos nos próximos anos e o tipo de retorno que se pode esperar. Portanto, eu diria que o empresariado está em compasso de espera, com certa cautela, mas se reinventando para não sucumbir ao momento.