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SELO ENEF

Como ficam as perspectivas para a economia?

diogoDiogo Metzdorff

Economista, Analista do Banrisul, Mestre em Economia/PUCRS
Corecon-RS Nº 8003

 

 

As perspectivas para a economia brasileira no início deste ano modificaram muito ou o cenário se manteve?
No início deste ano, predominava a percepção de que, com o início de uma recuperação cíclica, iniciada em 2017, a economia brasileira exibiria, em 2018, um ritmo mais intenso de crescimento, e que o cenário externo se manteria relativamente favorável, ao menos em boa parte do ano. Da mesma forma, se imaginava que as soluções para os problemas fiscais brasileiros teriam algum encaminhamento, pelo atual ou pelo próximo governo. Contudo, ao longo do primeiro semestre, o crescimento se mostrou mais fraco do que o esperado. O cenário externo, a incerteza quanto às questões fiscais e a paralisação no setor de transporte de cargas prejudicaram ainda mais a materialização do cenário traçado no início do ano, elementos que, em conjunto, têm levado a uma redução das projeções para o crescimento econômico brasileiro neste ano.

Em que momento se passou a perceber que a previsão inicial, de cerca de 3%, no crescimento econômico do Brasil, não seria atingido?
No decorrer do primeiro trimestre, os indicadores mensais de atividade começaram a apontar que a retomada da economia brasileira estava ocorrendo em ritmo mais lento do que o verificado no final do ano passado, e também do que sugeriam as projeções de mercado no início do ano. Além disso, a perspectiva de um aumento mais rápido da taxa básica de juros norte-americana e a elevação das tensões comerciais entre as principais economias mundiais levou ao fortalecimento do dólar frente às demais moedas, sobretudo nos países emergentes, refletindo na desvalorização da taxa de câmbio doméstica. Esses desdobramentos levaram à primeira rodada de correções nas projeções de mercado para o PIB deste ano. Em linha, a divulgação do PIB do primeiro trimestre de 2018, no final de maio, que exibiu crescimento de apenas 0,4% na comparação com o último trimestre de 2017, confirmou os sinais de que a recuperação econômica não era tão forte quanto se imaginava.

E a greve dos caminhoneiros também não trouxe impactos?
Sim. Também, no mesmo período, ocorreu a paralisação no setor de transporte de cargas, que impactou tanto o nível corrente de atividade quanto a confiança dos agentes, levando a uma frustração complementar com relação ao crescimento da economia. Adicionalmente, em razão de todo esse quadro, uma solução para os problemas fiscais passou a ficar menos clara, aumentando o nível de incerteza e afetando as decisões dos agentes econômicos, sobretudo com relação aos investimentos. Com isso, a mediana das projeções de mercado para o PIB de 2018, divulgadas pelo Boletim Focus, do Banco Central, passou de um crescimento próximo de 3,0% no início de março para uma expansão em torno de 1,5% na última semana. Em resumo, embora o cenário externo tenha alguma influência, a frustração com relação às perspectivas para a economia brasileira neste ano está, em boa medida, relacionada à fatores internos.

Apesar deste cenário mais desfavorável, há setores que ainda vêm experimentando, embora de forma tímida, alguma recuperação?
De modo geral, tem se observado um ritmo mais fraco de crescimento na maioria dos setores. No caso da indústria, o indicador mensal da produção industrial (PIM-IBGE), que havia exibido crescimento modesto nos primeiros meses do ano, recuou 10,9% em maio ante abril (na série com ajuste sazonal), a maior queda mensal desde dezembro de 2008, refletindo os impactos causados pela paralisação dos caminhoneiros. Ainda assim, de acordo com a mediana das projeções de mercado, a indústria deverá crescer perto de 2% neste ano. Na mesma linha, a perspectiva para o setor de serviços, ainda que mais fraca, aponta para um crescimento de 1,5%, refletindo, principalmente o avanço do comércio, favorecido pela redução dos juros e pela inflação mais baixa. Por fim, a agropecuária, que subiu 13% no ano passado e foi responsável por 70% do crescimento da economia, deverá ficar estável neste ano, exercendo influência neutra sobre o PIB.

E como ficam as expectativas de crescimento para 2019?
A expectativa de crescimento para 2019, que, de acordo com a mediana das projeções do Boletim Focus, até junho, seguia inalterada e não acompanhava o pessimismo observado nos números de 2018, passou a recuar a partir de então, saindo de 3% para alcançar 2,5% nas últimas semanas. Além dos riscos com relação à economia mundial, que poderá crescer menos no próximo ano, as dúvidas quanto ao ritmo de retomada da economia depois da paralisação dos caminhoneiros, e a elevação da incerteza interna com relação ao desfecho das eleições, já contaminam a expectativa com relação à evolução da economia no próximo ano.

Como o resultado das próximas eleições pode impactar essas perspectivas?
O resultado das eleições pode impactar de forma relevante nas perspectivas econômicas, uma vez que o principal risco está associado à vitória de um candidato com menor propensão ao encaminhamento dos ajustes e reformas necessários para a economia brasileira. Já no caso de vitória de um candidato que possua um plano de propostas críveis para a resolução dos problemas do País, sobretudo com relação ao quadro fiscal, as perspectivas para a economia brasileira em 2019 poderão voltar a evoluir favoravelmente.