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Seja qual for o seu motivo, faça um mundo com mais Economia.

Indicadores econômicos e o calendário eleitoral

fernando ferrari
 
Fernando Ferrari Filho
Economista, professor aposentado da UFRGS, ex-presidente do Corecon-RS
Corecon-RS Nº 5048

 

Como o mundo está vendo a economia brasileira, especialmente neste momento político conturbado e pré-eleitoral?
Em primeiro lugar, a economia mundial tem os seus problemas que, diga-se de passagem, não são poucos, tais como restrições comerciais por parte dos Estados Unidos, sinalização de elevações mais significativas das taxas de juros norte-americanas (atualmente entre 1,5% e 1,75% ao ano) e embate político entre Rússia e Estados Unidos. Portanto, há motivos para que a economia brasileira não seja o centro das atenções no atual momento. Todavia, o mercado internacional sabe das dificuldades de nossa economia, entre as quais, o desequilíbrio fiscal, a baixa relação formação bruta de capital fixo/PIB (algo próximo a 16,0%), a redução da razão crédito/PIB (em torno de 50,0%) e a alta taxa de desemprego (13,1% no primeiro trimestre do ano). Se acrescentarmos o fato de que a eleição presidencial poderá ter no segundo turno candidatos que não sejam dos partidos que nas quatro últimas eleições se alternaram no poder, ou seja, PSDB e PT, então há motivos de sobra para volatilidades de capitais, do câmbio etc. 


A economia vai conseguir se manter imune aos acontecimentos políticos?
Via de regra, ano eleitoral, desde o período pós-redemocratização, tem como consequências volatilidades dos indicadores econômicos de curto prazo. Foi assim nas eleições de Fernando Collor, Fernando Henrique Cardoso, Lula da Silva e Dilma Rousseff. Juros elevados, câmbio desvalorizado, saída de capitais e aumentos do risco-país foram observados em 1989, 1994, 1998, 2002, 2006, 2010 e 2014. Em 2018, excetuando-se a estabilidade dos juros básicos (a Selic atualmente se encontra em 6,5% a.a. e as previsões do Relatório Focus são de que ela se desloque marginalmente deste valor), as perspectivas são de desvalorizações cambiais mais acentuadas e fuga de capitais (principalmente se os fed funds norte-americanos se elevarem mais rapidamente). Em suma, os referidos indicadores econômicos não estarão imunes ao calendário eleitoral, a despeito da melhora do lado real (minhas apostas são de que o PIB deva crescer em 2018 ao redor de 2,5%, dinamizado, ainda, pelo setor externo).

O que falta para a economia brasileira acelerar sua recuperação?
Em meu ponto de vista, faltam políticas macroeconômicas ativas e articuladas (expansão do crédito e juros civilizados – apesar de termos a menor Selic de nossa história, seja nominalmente, seja em termos reais, os juros de varejo para pessoas físicas e jurídicas são bastante elevados e proibitivos; responsabilidade fiscal, imprescindível para estabilizar ou reduzir a relação dívida pública/PIB e fazer com que a política fiscal possa ser utilizada de forma contracíclica, tornando-a, assim, um estabilizador automático da economia; e câmbio competitivo e estável), reformas estrutural-institucionais (previdenciária, tributária e patrimonial), resgatar a credibilidade das instituições (legislativo, judiciário e executivo, em todas as esferas) e, o mais importante, articular um pacto social em que os interesses individuais sejam conciliados com os interesses sociais. Explorando o último ponto, infelizmente, há décadas, via de regra, os agentes econômicos objetivam tão somente maximizar seus objetivos: os empresários os lucros, os trabalhadores seus salários e os rentistas seus rendimentos financeiros. Sem um pacto social e sem a ideia de que Estado e Mercado, em uma economia capitalista, são complementares e têm uma sinergia, nosso País, se apropriando de um personagem de Samuel Beckett, continuará “esperando Godot”.