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SELO ENEF

Uma nova crise global?

stefano
 
Stefano José Caetano Silveira
Economista, professor Pós-graduação Uniritter
Corecon-RS Nº 6865

 

 

Quais as principais características da crise ocorrida na economia mundial nos anos 2008 e 2009?
A crise mundial de 2008/2009 teve como causa principal a desregulação do mercado. Com o fim do padrão-ouro nos EUA, em 1971, e, sobretudo, com a implantação da chamada Revolução Conservadora em solo norte-americano em 1981, o período conhecido como Síntese Neoclássica deu lugar a outro momento dominado pela ortodoxia. A última crise global iniciou no mercado mobiliário norte-americano denominado subprime, dado à incapacidade das pessoas que nele estavam inseridas de honrar seus compromissos hipotecários nos bancos devido ao aumento dos juros naquele país, que chegou a 5,25% em 2006, estabelecendo um nível bastante elevado para aquela economia.

Por que isso aconteceu?
Em resposta aos atentados terroristas de 11 de setembro de 2001, os EUA passaram a atuar com maior estrutura em pelo menos duas frentes, Iraque e Afeganistão. Com isso, houve aumento considerável nos gastos governamentais e, consequentemente, nos índices inflacionários. Isso levou o Federal Reserve a majorar a taxa básica de juros, efeito este que logo se espalhou por todo o mercado, encarecendo o crédito. Com o financiamento mais restrito, houve uma queda na demanda dos imóveis e, por resultado, em seus preços de mercado. Isso criou dificuldades para a renovação dos contratos hipotecários concedidos a clientes que não possuíam uma boa avaliação de crédito nos Estados Unidos.

Essa crise poderia vir a se repetir?
Sim. Primeiramente, porque na concepção ortodoxa as crises são cíclicas no capitalismo. Depois, na avaliação de alguns economistas e investidores, devido a algumas variáveis, como o arrefecimento do crescimento chinês, cujo PIB anual não ultrapassou 7% nos últimos três anos, bem distante de um passado recente quando facilmente alcançava entre 12% e 14%. Também, pela queda no preço internacional do barril de petróleo, que já custou mais de US$ 100 e terminou o ano de 2015 orbitando em torno de US$ 30 – a despeito da recuperação recente, quando atingiu cerca de US$ 70 o barril, muito em função do endividamento dos produtores de gás Xisto. Outro motivo seria o preço das ações em Wall Street, dado o nível atual de tais papéis estar abaixo somente daqueles verificados em 1929 e 2000, períodos em que ocorreram ou precederam duas das piores crises globais que se tem notícia. Nível este que, na opinião de alguns especialistas, seria insustentável.

O que falta para que esse cenário de crise se estabeleça?
Que a recuperação dos postos de trabalho perdidos durante a crise de 2008-2009, ainda paulatina, sobretudo na Europa, seja interrompida; que crescimento chinês diminuiu não por uma adaptação a um novo modelo econômico em um quadro de normalidade, mas sim por perda de eficiência; que a recuperação do preço do barril de petróleo seja consequência apenas do aumento da demanda em função do endividamento dos produtores de gás Xisto e não pelo crescimento dos produtos nacionais; e que o atual nível dos preços das ações negociadas nas bolsas norte-americanas se deva apenas a um caráter especulativo e não produtivo.

De que forma a economia brasileira sentiria uma nova crise mundial?
Vivemos em um mundo globalizado. Para honrar seus compromissos no mercado internacional, o Brasil necessita de moeda estrangeira. Uma nova crise mundial pode prejudicar a entrada de dólares, tanto via balança comercial como no arrefecimento do chamado Investimento Estrangeiro Direto (IED). Além da maior dificuldade de manter as contas em dia, a taxa cambial deve subir e, mesmo em um cenário de restrição de crédito, provocar um crescimento inflacionário. Nesse cenário, o preço da matéria-prima estrangeira aumentaria, tornando o produto mais caro ao consumidor final. Como opção à subida dos preços no varejo, o produtor poderia espremer suas margens de lucro, podendo compensar tal perda, mesmo que parcialmente, com a diminuição de seu quadro funcional, ou poderia demitir funcionários devido ao seu produto não sair da prateleira de venda. Nesse quadro, a receita fiscal deverá cair, devido ao desaquecimento da economia, remetendo o governo a arrecadar menos e ter mais dificuldades de cumprir com suas obrigações financeiras.

Qual a importância das commodities no cenário internacional?
Sendo as commodities produtos primários ou semielaborados cotados em bolsa internacional, são direcionadas principalmente à alimentação ou à produção. Seu recuo ou recrudescimento servem de termômetro em relação ao nível da atividade econômica global.

Qual o papel da China nesse contexto?
Desde a morte de Mao Tsé-Tung, em 1976, até o início do século XXI, a China maturou seu modelo de crescimento econômico. Apesar de algumas tentativas de mudança não tão bem sucedidas, principalmente a partir de 2011, o país optou por um modelo voltado ao comércio exterior. Colocado em prática desde o inicio do atual século, quando a nação passou a ser reconhecida como uma economia de mercado. A despeito de algumas acusações de dumping, a China, com seu exército industrial de reserva, formado por sua extensa população de 1,4 bilhão de pessoas, provocou uma queda no valor da mão de obra global. Disso, resultou um recuo na queda de juros mundial. Algumas nações intensivas na produção e exportação de commodities, como o Brasil, foram duplamente beneficiadas. Por um lado, pelo aumento no preço das commodities que a maior demanda chinesa proporcionou, e, por outro, pelo menor custo na captação de recursos estrangeiros causados pelo arrefecimento da taxa de juros internacional. Assim, tomando como exemplo o papel que desempenhou durante a incidência da crise global de 2008/2009 ao liderar as ações dos países emergentes, sobretudo os pertencentes ao grupo dos BRICS, na reação à crise, a China, atual segunda economia do planeta, serve, ao lado dos EUA, como uma espécie de esteio da economia global. Ou seja, se a China vai mal o mundo todo tende a ir mal.