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Um trimestre puxado pelo Serviços

roberto rocha

Roberto Rocha

Economista, pesquisador da FEE
Corecon-RS Nº 6788

 

Como explica o fato de o crescimento do PIB do RS no terceiro trimestre de 2017 ter sido nulo, comparado a um mesmo período do ano passado, quando o ambiente era de crise no país?
Acontece que a agropecuária, cujo desempenho este ano é muito bom, teve, neste terceiro trimestre, um comportamento muito fraco, já que, sazonalmente falando, este período não contempla a soja, o arroz ou o trigo. É o trimestre que normalmente quem puxa mais é a indústria, mas o que aconteceu é que alguns segmentos desse setor, que vinham tendo um desempenho diferenciado, como máquinas e equipamentos e veículos, neste trimestre acabaram experimentando resultados muito baixos. Além da própria atividade da celulose que, em função da parada que a planta nova da Celulose Riograndense teve que fazer, para fins de manutenção. Como tinha incorporado um crescimento muito grande no ano anterior, essa queda de produção se torna muito significativa. Então, esses elementos, somados, acabaram frustrando o resultado do PIB no trimestre.

O trimestre foi salvo pelo setor serviços?
Sim. O setor serviços, e principalmente o comércio, teve um desempenho bastante forte nesse trimestre e, em certa medida, acabou compensando o resultado final. Nós tivemos uma produção fraca, mas os serviços associados a renda mais estável possibilitou que tivéssemos um crescimento bastante satisfatório no trimestre.

A que se deve esse comportamento?
Como a nossa economia é mais desenvolvida do ponto de vista da estrutura etária, escolaridade e renda média, a estrutura de serviços acaba tendo maior importância, fazendo com que os serviços do Rio Grande do Sul tenham, de uma forma geral, um desempenho mais forte do que o do Brasil nesse momento de crise. Mas neste trimestre especificamente, o nosso comércio teve um desempenho muito bom, maior que o desempenho do Brasil, fazendo puxar o PIB para cima. É uma taxa que só foi maior no primeiro trimestre de 2014. Além disso, ainda havia demanda reprimida, como celulares, eletrodomésticos, veículos, entre outros. O consumo estava reprimido e a sensação, talvez não de melhora, mas de estabilização das condições em relação ao que era no ano passado, fez com que as pessoas se motivassem para compra, impactando positivamente no comportamento do PIB no trimestre.

De uma forma geral, o comportamento do PIB gaúcho neste trimestre acompanhou o resultado do PIB do Brasil?
De uma forma geral, teve a mesma oscilação que o PIB do Brasil, sim. Se formos analisar a taxa dessazonalizada, ou seja, aquela que acontece em relação ao ritmo da economia, o nosso caiu e a do Brasil cresceu muito pouco. A do RS vinha crescendo um pouco mais, então nós ainda viemos tendo um desempenho acumulado no ano melhor que o do Brasil, muito influenciado pelo próprio ritmo que a economia brasileira tem. Estimamos que cerca de 70% da renda da nossa indústria é gerada por vendas para o resto do pais. Então, enquanto a indústria do resto do pais não se reergue, acabamos sofrendo o impacto dessa estagnação. Basta ver que nesse trimestre a indústria de São Paulo está mal e a indústria gaúcha, que fornece muito componente para a atividade da indústria paulista, acaba, por consequência, indo mal. Então, existe uma parte que é muito associada a esse desempenho da indústria brasileira.

E o mercado internacional não ajuda?
Vimos tendo um desempenho muito bom no mercado internacional, no que diz respeito a commodities. O Mercosul, e em especial a Argentina, tem ajudado muito na venda de veículos neste trimestre. Nesses últimos anos, tem sido até uma saída, dada as dificuldades do mercado interno. O RS tem tido um desempenho geral do mercado internacional, desde a crise de 2011 ou 2012, menos vigoroso do que tinha antes da crise de 2008. Ou seja, antes o comércio crescia mais que o PIB e, agora, o PIB cresce mais que o comércio. Isso faz com que os espaços no comércio internacional não estejam tão fáceis como estiveram num período recente. Esse seria um canal muito interessante para a economia gaúcha, caso melhorasse, já que, por ser uma economia voltada à exportação, seria mais beneficiada. De uma forma geral, o nosso desempenho é um pouco melhor porque temos capacidade de vender para fora, enquanto que as economias que não possuem essa característica e dependem apenas do mercado interno, enfrentam mais dificuldades.

Mas, neste contexto, existe espaço para ampliar mercados?
O RS ainda possui esse canais para prospectar novos mercados. Basta ver o setor de calçados que, em 2015 e 2016 aproveitou a desvalorização do real para conquistar mercados e reestabelecer canais de comercialização. Mas o comércio internacional também não está muito fácil.

Que tipo de impacto o anúncio do governo do estado de liberar o 13º salário para o funcionalismo pode representar à economia gaúcha?
Essa noticia é bastante positiva do ponto de vista da atividade econômica. Basta lembrar que, no ano passado, tivemos um quarto trimestre com taxas negativas do comércio, comparado ao mesmo trimestre de 2015. É que o ano já havia sido muito ruim. E, nesse contexto, tudo que servir para amenizar a situação ajuda muito. Como uma grande parte da população ocupada em Porto Alegre é funcionário público, o fato de saberem que terão o décimo terceiro salário já dá um alívio, criando perspectiva para o setor do comércio, já que deve gerar uma arrecadação mais positiva do que tivemos no ano passado.