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SELO ENEF RGB 01

Seja qual for o seu motivo, faça um mundo com mais Economia.

A economia está andando e os políticos estão ficando

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Gustav Gorski

Economista-Chefe GAP Economics
Corecon-RS Nº 6931

Como iniciou o processo de desindustrialização no Brasil?
Se olharmos os primórdios da indústria brasileira, nos anos 30 talvez um pouco antes, vamos perceber que o movimento de industrialização no Brasil sempre foi um processo induzido. O Brasil sempre teve o desejo de ser indústria, por mais que nunca tivesse aptidão. Só que aptidão é ser produtivo, ter condições de negócios que se consiga relacionar com o resto do mundo da mesma maneira que o resto do mundo se relaciona. E o Brasil nunca conseguiu fazer isso, embora sempre tenha desejado ser industrializado. Então se deslocou uma enorme quantidade de recursos da sociedade para subsidiar esse setor. O processo, lá nos anos 30, começou assim, ganhou muito corpo no final dos anos 50, principalmente dos anos 60, e veio o Milagre Econômico, com o governo trazendo muitas indústrias para o Brasil. E toda a década de 80, e principalmente nos últimos anos, reviveu-se essa ideia, através da qual foram injetadas quantidades absurdas de recursos na indústria, provocando uma ineficiência gigante para a economia.

O que gerou essa ineficiência?
No momento em que se dá dinheiro subsidiado, com 2, 3, 4, 5% ao ano, enquanto a inflação é superior a isso, a relação é de um juro real negativo. Ou seja, se está fornecendo recursos da sociedade para a indústria, para que ela seja produtiva. Só que ela não é produtiva, principalmente quando se compara com os pares internacionais. Do ponto de vista econômico, o ideal é que esses players que não são produtivos frente a seus pares deixassem de existir, o que seria muito melhor para o País e para a população. Vamos ser muito mais eficientes do ponto de vista econômico fazendo aquilo que a gente é melhor, que é agro e serviços. Não podemos pensar simplesmente que quem trabalha na indústria vai perder o emprego. Perde o emprego, mas vai conseguir ocupação em outro lugar, e os filhos deles estarão muito mais bem posicionado nos anos à frente. Por mais que ter a indústria seja importante, ela tem que ser competitiva. Não podemos transferir dinheiro da sociedade para um setor que não multiplica esse retorno que a sociedade está proporcionando a ele.

A indústria está reduzindo de tamanho no Brasil?
A nossa indústria, que já chegou a ser 30% do PIB, hoje está perto de 20% e deve reduzir ainda mais. Esses campeões nacionais que estão por aí há bastante tempo e que agora estão se desmanchando, como JBS e outros, não deveriam ter iniciado por serem projetos improdutivos. É que o governo, através do BNDES, injetou grande quantidade de recursos, que acabaram se perdendo por aí. A nossa sociedade, para as quais as demandas sociais são muito fortes e necessárias, é extremamente pobre. Então, é muito mais eficiente, do ponto de vista econômico, subsidiar essas famílias para que seus filhos tenham boas condições de estudo e de trabalho ali na frente do que subsidiar um grande empresário que efetivamente só traz prejuízos para o país.

Que cenário econômico nos espera?
O mercado está olhando que a economia vai voltar a crescer e que vai se estabilizar num patamar próximo de 2,5% ao ano. Dado o movimento que tem se apresentado, de uma economia que está se depurando e se ajustando, acredito que o Brasil vá crescer bem menos que isso nos próximos 5, 6 ou 7 anos. Eu trabalharia com um cenário de crescimento da ordem de 1,5%, o que talvez seja algo mais razoável. Temos que entender que sempre que saímos de um processo recessivo como o que passamos, existe muita volatilidade do crescimento. Talvez venha um ano com crescimento de 2%, um outro ano com crescimento menor, mas o que importa mais dentro desse processo talvez nem seja manter esses níveis de crescimento, mas sim, voltar a crescer sem trazer instabilidade para as relações econômicas.

Qual a importância do comportamento dos juros nesse contexto de retomada do crescimento?
Durante muito tempo as taxas de juros oscilaram muito e sempre que ocorria uma queda um pouco mais forte, como em 2012 e 2013, o mercado entendia que se tratava de um artificialismo. Isso não acontece hoje. Os juros estão caindo de forma nada artificial, e isso é o mais importante. Podem cair talvez até abaixo de 8%, mas a grande questão é que eles vão se manter baixo durante um longo período de tempo. Então, colocar essa nova realidade dentro de um planejamento financeiro faz uma grande diferença, e é a perspectiva que se começa a trabalhar hoje, com inflação mais baixa, juro mais baixo, por um longo período de tempo, e crescimento mais ameno.

Que vantagens isso traz para a sociedade?
Traz muito mais eficiência para a sociedade. Estamos todos trabalhando e buscando eficiência, melhorando custos, buscando novos mercados, adicionando novas tecnologias. E todo esse processo, em conjunto com melhores condições financeiras, com juros mais baixos, inflação mais baixa, proporciona ao mercado maior e melhor previsibilidade nos negócios. Vamos conseguir olhar dois anos, três anos, para a frente, e, assim, poderemos fazer um planejamento mais eficiente. Com movimentos econômicos mais amenos, vai-se retomar o emprego e a estabilidade de toda a cadeia que está hoje corrompida. Vamos conseguir mais eficiência para a economia. Do ponto de vista econômico, essa é a grande novidade.

Mas isso, se a economia conseguir se descolar da crise política?
Eu vejo que se descolou. Obviamente, que pode se colar novamente. Mas, é bom lembrar que as denúncias do mês de maio foram extremamente fortes. O mercado sentiu bastante, mas se esperava um impacto bem mais agressivo na economia e isso não veio. A inflação continua leve, a taxa de juros continua caindo e não houve esse cunho político. A atividade econômica estava amena, mas não piorou. Os índices de confiança pioraram um pouco, mas devem voltar a melhorar ali na frente. Então, descolou um pouco, sim. Estava muito colado em 2015, 2016, mas agora se percebe que a economia está andando para a frente e os políticos estão ficando para trás.