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Já se pode comemorar o resultado do PIB gaúcho?

roberto rocha

 

Roberto Rocha
Economista, pesquisador FEE
Corecon-RS Nº 6788

 


Pode-se encarar como positivo esse resultado do Produto Interno Bruto (PIB) gaúcho no primeiro trimestre do ano?
A taxa de crescimento do PIB foi nula, nesse primeiro trimestre, em comparação com o mesmo período do ano passado e o Valor Adicionado Bruto teve uma variação positiva de 0,2%. Em outras palavras, a economia ficou no mesmo nível, frente a um contexto de quase três anos de queda. Pelo menos paramos de cair. Então, pode-se dizer sim, que este resultado é positivo, na medida em que não aprofundou a queda.

Já se pode comemorar?
Isso é positivo, porque tivemos, há quase três anos, a cada trimestre, produzindo menos por habitante. Se formos olhar esse comportamento do ponto de vista per capita é o mesmo volume para distribuir entre as pessoas. Então, volto a dizer, é positivo.

E comparado ao Brasil?
Esse resultado foi melhor que o brasileiro, que apresentou uma variação negativa de 0,4%, completando 12 trimestres de quedas consecutivas. Quando comparada com o trimestre anterior, o crescimento da economia gaúcha no primeiro trimestre de 2017 foi de 0,6%, e o do Brasil, 1,0 %.

O que chamou mais a atenção nesses números do trimestre?
Os números da agropecuária já eram esperados. Da mesma forma, para o Brasil foi um ano muito bom para a agropecuária. Já temos uma sequência de anos de bons resultados da agropecuária, especialmente da soja, tanto em nível de volume como de preços no mercado internacional. Mas, nesses números, percebe-se também um resultado importante, que é o crescimento da indústria nos dois últimos trimestres. Como a parte mais forte da recessão foi sobre a indústria e tivemos esses resultados de crescimento da indústria de transformação, também é um sinal muito positivo, pois mostra um sinal de maior sustentação desse movimento. O crescimento da indústria, associada à exportação, puxado pelo setor automotivo, que vem exportando especialmente para a Argentina.

E como foi o comportamento do serviços?
O comércio e serviços, associado à renda interna, ainda sofre muito com os rendimentos reais, que estão muito baixos. Comparado com o início da crise, a taxa de desemprego ainda está muito alta. Mas comparado com o Brasil, nosso resultado, tanto em termos de rendimento, como em termos de taxa e nível de ocupação, ainda é mais positivo, porque tem a ver com a estrutura do nosso mercado de trabalho.

O que esperar agora?
Se a indústria continuar pelo menos mantendo esse comportamento ou não tiver uma queda muito significativa na exportação, como vamos ter o impacto maior da agropecuária, a expectativa é de que a gente passe, pelo menos no próximo trimestre, a uma taxa positiva, impactado pela safra da soja, conforme os dados já consolidados. Então, a agropecuária e a soja vão impactar positivamente. Os dados da indústria, por enquanto, estão muito inseguros. Um mês se recupera, outro não. Vamos ver como será quando fecharmos os dados de junho. Temos, ainda, todo o setor de carnes, que vem sofrendo desde maio e, agora, o fechamento do mercado americano. Por outro lado, as exportações do setor automotivo continuam muito boas. Temos que saber como isso tudo vai acabar impactando neste trimestre.

De que forma essa crise política pode impactar nessa trajetória dos números?
Temos um setor industrial muito associado ao investimento no Brasil, com um setor metal mecânico mais forte e robusto, que é o setor de máquinas e equipamentos. Também, o setor de transporte automotivo, como carrocerias e acessórios, que se concentra na região da serra gaúcha e que sofre muito com a queda da taxa de investimento e com a não retomada desses investimentos. O grau de incerteza sobre a situação política do país aumenta a dificuldade de retomada de investimento, que já vive um cenário não muito promissor, em função da queda muito abrupta da economia. Só que uma retomada da taxa de investimento significativa vai demorar, até porque existe uma grande capacidade ociosa a ser ocupada antes. Outro problema é saber como todo esse processo vai implicar na política econômica. Em que medida a política pode ser mais expansionista, queda juros, aumento de investimentos e outras ações de incentivo ao consumo. Na forma como essa crise política está colocada, não se percebem grandes possibilidades de reverter a tendência de uma retomada muito lenta e instável.