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Economia e gestão da saúde

ricardo englert

 

 

Ricardo Englert
Corecon-RS Nº 2724
Economista, ex-conselheiro Corecon-RS, diretor financeiro da Santa Casa de Misericórdia de POA

Qual a importância de um economista na administração hospitalar?
O papel do economista numa administração hospitalar, ou em um grande hospital como o complexo da Santa Casa, é fundamental porque não existe lugar onde mais se tenha que resolver aquele famoso problema da economia, em que as necessidades são ilimitadas e os recursos são escassos. Aqui, nós lidamos diariamente com a administração da escassez. A diferença é que na sociedade comum, a falta de alguma recurso pode significar apenas um produto de menor qualidade ou, mesmo, algo que não deu certo. Aqui, quando os recursos faltam, o ônus pode ser a vida de uma pessoa. Então, esse conceito é levado à exaustão, mas sempre com risco e com o cuidado no tratamento de grande valia, na visão de aproveitar ao máximo os fatores que se tem disponíveis. Num hospital, esses fatores de produção são exercitados ao extremo.

Quantos hospitais compõem o complexo da Santa Casa?
A Santa Casa é integrada por sete hospitais, compostos por serviços de ambulatório e de internação, que atuam em diferentes especialidades. São eles o Hospital Santa Clara (hospital geral de adultos e materno infantil), Hospital São Francisco (cardiovascular e cirurgias de grande porte), Hospital São José (neurocirurgia e neurologia), Pavilhão Pereira Filho (pneumologia e cirurgia torácica), Hospital Santa Rita (oncologia), Hospital da Criança Santo Antônio (pediatria geral) e o Hospital Dom Vicente Scherer (transplantes e procedimentos ambulatoriais). A Santa Casa é um hospital de alta complexidade, que tem 1,2 mil leitos, seis mil funcionários e mais de dois mil médicos fazendo parte de seu corpo clínico. Os hospitais têm foco nas suas especialidades assistenciais, mas são suportados na sua estrutura administrativa, econômica e financeira por unidades compartilhadas.

Qual o orçamento da Santa Casa?
No ano de 2016 o orçamento da Santa Casa foi da ordem de R$ 805 milhões. Tivemos R$ 805 milhões de receita e um resultado de balanço de R$ 16 milhões positivos. Nós, economistas, sabemos que R$ 16 milhões em R$ 805 milhões é praticamente empate, ou seja, qualquer descuido transforma esses R$ 16 milhões positivos em R$ 16 milhões negativos. A Santa Casa investiu no ano passado cerca de R$ 40 milhões, o que foi um grande desafio econômico-financeiro.

Como é lidar com esse imenso complexo e as respectivas peculiaridades de cada hospital e de cada especialidade?
Esses hospitais, com o ponto de vista de suas especificidades, têm que trabalhar de forma harmoniosa, com suas áreas de suporte sendo comuns a todos eles. Quando começamos a discutir a gestão de processos, sabemos que, num lugar desses, onde todos trazem sua expectativa em torno da vida de pessoas, existe uma regra básica, que é a de que os procedimentos devem que ser simples e eficientes porque se a gente complicar demais não conseguiremos fazer com que as pessoas realizem suas tarefas. Então, por mais complexo que seja um procedimento, ele tem que ter detalhamento do seu passo a passo. Ele vai ser mais complexo quanto mais passos devem ser seguidos. Mas esses passos devem estar bem definidos. E você poderá fazer algo com grande complexidade, com alto grau de acerto, quando você tiver o passo testado pelo volume, pela quantidade de vezes que se faz e, evidentemente, por um treinamento adequado e importante.

O uso diário da tecnologia em favor da vida?
Sim. Com a tecnologia, os ganhos de produtividade são determinantes. Hoje, nós temos condições de saber o que é produzido em cada lugar aqui dentro, quanto cada profissional produz, quem tem os melhores resultados e, assim, comparar um com o outro. No ano passado inauguramos, em conjunto com a Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA), um novo espaço para treinamento de acadêmicos, residentes, médicos e demais profissionais da saúde. O Centro de Simulação Realística Clínica e Cirúrgica, localizado dentro do complexo da Santa Casa, conta com os mais modernos equipamentos para simulação de procedimentos clínicos e cirúrgicos e uma infraestrutura totalmente projetada para oferecer as melhores práticas de ensino. O local proporciona uma formação prática, simulando diagnósticos, resoluções, bem como a tomada de decisões. O profissional sai de lá capaz de atuar em uma cirurgia de alta complexidade, pois ele já testou suas habilidades em mecanismos de simulação com emprego dessa tecnologia.

Qual o grande desafio da instituição?
O nosso grande desafio é atender o Sistema Único de Saúde (SUS). Por não reajustar tabelas de preços e não remunerar adequadamente a relação contratual, o SUS nos deixa um prejuízo a cada ano. De cada R$ 100 que temos de custo pelo SUS, somente recebemos R$ 65. Isso significa que a Santa Casa paga para atender o SUS entre R$ 10 e R$ 11 milhões por mês. Somando isso tudo, em um ano temos um prejuízo da ordem de R$ 124 milhões, que foi o que tivemos em 2016.

E como a Santa Casa sobrevive nesse cenário de dificuldades?
Tudo o que perdemos com o SUS, ganhamos com o atendimento de convênios e de outras receitas acessórias. A nossa rentabilidade com os convênios cobre parte desse déficit e, além disso, ainda exploramos todas as nossas possibilidades. Como esse complexo é de grandes dimensões e circulam por este espaço cerca de 25 mil pessoas por dia, essas pessoas precisam se alimentar, estacionar seus carros, etc. E nós exploramos comercialmente as cafeterias e os estacionamentos. Esses são os dois principais serviços que nos ajudam na remuneração. Além disso, a Santa Casa tem, como concessão desde sua origem, nos seus 214 anos, um cemitério. E a administração do cemitério também provê recursos para auxiliar no exercício da nossa missão, que é atender o SUS.

Os convênios permitem essa compensação de perdas?
Nós temos uma margem e quando se trata de convênios essa margem, embora não seja a que desejássemos, é boa. Apenas para se ter uma ideia do tamanho do financiamento do SUS, na média, o que um convênio paga por um procedimento é cerca de três vezes o que o SUS paga. É uma luta constante e diária para aportar os recursos que faltam do SUS. Se ele pagasse o dobro do que paga atualmente, nós já alcançaríamos um equilíbrio.

Isso obriga a ter um foco muito forte sobre os custos?
Nós temos um cuidado muito grande com os custos. Se não cuidarmos disso e tivermos desperdício, não conseguiremos aguentar o prejuízo ocasionado pelo SUS. Agora, administrar custo não quer dizer não conceder o que é necessário para o atendimento ao paciente. A Santa Casa trabalha com protocolos médicos. E o protocolo é aplicado ao doente que está aqui, independentemente das condições financeiras desse doente. Quando temos um paciente grave do SUS, que precisa ter um exame de alta complexidade, sem a cobertura do Sistema, para nós não há diferença. Ele vai receber o atendimento e o exame será providenciado.

Quem é o público da Santa Casa?
Nos hospitais da Santa Casa, 65% dos atendimentos acontecem via SUS e em torno de 35% através de convênios. Na assistência, é um pouco mais próximo. Em torno de 55% de tudo o que se faz é através do SUS e 45% por convênio. Atendemos praticamente pacientes de todos os municípios do Rio Grande do Sul e de todos os estados brasileiros, especialmente nas altas complexidades, como cirurgia cardíaca pediátrica. Crianças que nascem com má formação congênita, por exemplo, vêm de diversas partes do Brasil para serem atendidas no Hospital da Criança Santo Antônio. Os transplantes de pulmão com doador vivo, por exemplo, são feitos em poucos centros do mundo e nós o fazemos aqui na Santa Casa de Porto Alegre. Nestes casos, nós recebemos pacientes de todos os estados brasileiros e, até, de fora do Brasil, já que, quando o doador é falecido, o procedimento somente pode ser feito com pacientes brasileiros.

A Santa Casa trabalha com captação de recursos para investimentos?
Sim. A Santa Casa tem um trabalho muito forte nessa área de captação de recursos para fazer seus investimentos. Se ela dependesse exclusivamente de sua geração própria, teria muitas dificuldades de fazer esses investimentos.

De que forma acontece isso?
Realizamos um trabalho permanente junto às Bancadas Federais visando a emendas aos projetos do legislativo e do executivo, que permitam a compra de equipamentos e reformas. Trabalhamos com todos os programas de renúncia fiscal, como o Funcriança, o Fundo do Idoso e o Pronon, que é voltado a tecnologias de câncer. Montamos projetos de viabilidade e buscamos aprovação junto aos organismos federais. Temos uma área especifica dentro da casa para elaboração desses projetos, inclusive com estudos de viabilidade, principalmente quando se trata de produtos que envolvem alta tecnologia, onde existe todo um esforço para conhecer o retorno financeiro de determinados investimentos, seja do SUS ou dos planos de saúde.