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Efeitos da Carne Fraca, o pior já passou?

sergio

 

Sérgio Leusin Jr,
Economista, pesquisador da FEE
Corecon-RS Nº 6528

 


O pior já passou ou ainda continuaremos sentindo algum impacto da operação Carne Fraca em nossas exportações?
Aparentemente, o pior já passou. Porque os piores impactos teriam que ocorrer nesses primeiros meses e as estatísticas nos revelam que as exportações de carnes cresceram no mês de março. Lógico que não se pode supor que não vá haver impactos dessa operação. Na verdade, o que se percebe melhor agora é que talvez a operação Carne Fraca tenha sido propagada de maneira muito pouco cuidadosa pela mídia nacional. Tanto que, se olharmos a lista dos 21 frigoríficos que estavam envolvidos na operação, poucos deles são exportadores e quase todos eles estão concentrados no estado do Paraná. Então, é muito provável que o impacto seja bem pontual para alguns destinos que importavam desses frigoríficos.

O Brasil é o maior exportador de carnes bovina e de frango e o quarto de carne suína. Esse ranking poderá sofrer algum impacto?
Sim. Temos que considerar que esse problema não foi sanitário, que envolvesse questões relativas ao nosso rebanho, mas foi em função de desvio de conduta ou corrupção. A construção da imagem de um país, assim como a liberação da exportação para determinado local no exterior, leva vários anos para ser efetivada. Por exemplo, em 2015, pela primeira vez em muito tempo, o Rio Grande do Sul exportou as três proteínas para a China. Esse processo foi longo e trabalhoso. Da mesma forma que se leva bastante tempo para construir e consolidar uma imagem de sanidade animal para um país exportador, os países importadores também se mostram mais resistentes para descartar esse fornecedor. É que não é um mercado tão fácil assim de encontrar substituto com rapidez e escala suficiente.

Mas não permanece uma desconfiança?
Essa é a leitura que se faz internamente. Como havia duas marcas, a BRF e a JBS, bastante conhecidas no Brasil e com um apelo de qualidade bastante forte, com a participação de atores globais, poderia se dizer que, no plano domestico, tivemos uma reação mais impulsiva. Já, no plano internacional, como eles não têm essa percepção que temos internamente, tiveram uma reação mais racional, mais técnica e diplomática. Nós não tivemos, no plano nacional, essa leitura mais racional, como, por exemplo, questionar quais foram os frigoríficos, quais carnes, para onde eles exportam, ou seja, não houve preocupação com esse tipo de informação. No plano externo o Ministério da Agricultura brasileiro conseguiu atender imediatamente os países compradores através de um trabalho diplomático interessante, o que ajudou muito.

Quem são nossos principais compradores?
Com relação à carne de frango, o nosso principal comprador é a Arábia Saudita, responsável pela aquisição de 20% das nossas exportações, seguida da União Europeia e da China. No setor de carne suína, vem a Rússia, que comprou 44% das exportações gaúchas em 2016, seguida de Hong Kong e da China. Com relação à carne bovina, nosso principal destino é União Europeia, responsável por 36%, seguida de Hong Kong e da China.

De que forma a sanção dos EUA à Rússia pode influenciar em nossas exportações?
O impacto dessas sanções poderia ter sido muito maior se a Rússia, que passa por uma crise interna, tivesse numa condição melhor. Como o Rio Grande do Sul é um dos maiores produtores de carne suína do Brasil, teoricamente deveria ser um dos mais impactados. Acontece que, se olharmos os números dessas exportações para a Rússia, principalmente em volume, percebe-se que houve um crescimento, apesar da crise deles, mas modesto se considerado o potencial de crescimento. Então, essa sanção colaborou apenas marginalmente para o crescimento das nossas exportações.

O que se pode destacar na movimentação do setor de carnes no mercado internacional atualmente?
O que está mexendo mais o mercado hoje é o fato de que a China está importando muito a carne suína. Como a produção doméstica de frango da China caiu muito, associada ao fato de que dezenas de países exportadores de carne de frango também estão com problemas em função da gripe aviária, houve uma diminuição da oferta mundial desta proteína, o que fez com que ocorresse uma compensação com a carne suína. Só para termos uma ideia, a China, maior produtora mundial de carne de porco há várias décadas, passou, em 2016, a ser também a maior importadora desta proteína, o que acabou dando uma mexida no mercado internacional. Então, nós vivemos atualmente uma situação de anormalidade no setor mundial de carnes.

Então, de uma maneira ou de outra, a operação Carne Fraca acabou impactando nas exportações brasileiras?
Causou impacto, sim. Se formos olhar de maneira geral o impacto da operação nas exportações, percebe-se que houve uma diminuição do ritmo de crescimento das exportações brasileiras. Nós vínhamos exportando num ritmo mais acelerado no primeiro bimestre do ano se compararmos com os resultados de março. Se formos fazer uma análise mais aprofundada, veremos que, para alguns países, como a China e Hong Kong, houve queda, sim. Então, aparentemente, para esses dois destinos a operação causou certo impacto. Não sabemos explicar, ainda, por que houve impacto negativo nos números do Rio Grande do Sul, uma vez que aqui não houve nenhum frigorífico atingido pela operação. Mas foi um impacto indireto, talvez fruto de uma cautela momentânea, mas que acabou impactando o comércio em função do tamanho do mercado consumidor da China.

Que estados vêm liderando o ranking de exportações de carnes no Brasil?
São Paulo lidera as exportações de carne bovina. Em seguida temos Mato Grosso e Goiás, que, somados, respondem por 60% das exportações de 2016. Para a carne suína, ressalta-se que as exportações concentram-se na região Sul, com Santa Catarina responsável por 37% do valor exportado em 2016, seguido do Rio Grande do Sul com 31% e Paraná com 13%. Cenário semelhante se observa para a carne de frango, no qual Paraná lidera as exportações, com 34%, seguido de Santa Catarina com 25% e do Rio Grande do Sul com 17%.