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Crise e restrição ao crédito

 

 

Rogério Tolfo

Economista, vice-presidente Corecon-RS, consultor econômico-financeiro
Corecon-RS N° 5773

 

Até que ponto existe escassez de crédito no mercado?

Recursos para emprestar não faltam. O que está restrito é o acesso ao crédito. Os agentes financeiros estão muito criteriosos na análise de novos financiamentos, optando por manter sua posição de risco nos clientes ou até mesmo reduzir os limites apresentados. Há uma nítida preferência, ainda, por alongar o perfil do endividamento existente, gerando breve fôlego ao tomador do recurso, com uma carência de três a seis meses, mas mantendo o prazo total da operação na casa de 24 meses, atualizando os encargos financeiros para o padrão de 2017. Em períodos de crise econômica, a demanda de crédito de capital de giro por parte das empresas tem por objetivo, principalmente, a manutenção em dia das obrigações de curto prazo, fato que gera desconforto aos analistas de crédito dos agentes financeiros, visto que o cenário econômico ainda se apresenta nebuloso, apesar da tendência de melhora a médio prazo. A soma de todos esses fatos acaba gerando restrição de acesso ao crédito para as empresas e mesmo para as pessoas físicas.

Neste momento em que começam a surgir os primeiros sinais de recuperação da economia brasileira, as empresas têm recursos para investimentos?

Os recursos para investimento nunca deixaram de estar disponíveis. O que reduziu foi o apetite das empresas para investir. Evidentemente, isso retrata a média do mercado. Num cenário geral de baixa demanda, redução da receita, maior impacto dos custos fixos no total de dispêndios e tendência a prejuízos ou resultados pequenos, as empresas tendem a manter seu foco na solução dos seus problemas de curto prazo e evitam ou postergam a realização de investimentos com retorno de longo prazo. Numa economia cíclica, como é a brasileira, onde muitas vezes um cenário com projeções de somente dois a três anos se torna nebuloso, investir em períodos de crise torna-se ainda mais arriscado pela dificuldade de perceber quando teremos o ponto de inflexão, que vai trazer o País de volta ao crescimento. Além disso, os bancos comerciais e de fomento tornaram-se mais criteriosos na análise de projetos de investimento.

Que alternativas as empresas que se descapitalizaram, em função da longa recessão, têm para retomar seus investimentos?

Acredito que a retomada dos investimentos fixos passa pela percepção de que efetivamente estamos saindo da crise.

Essa é uma tendência, mas quando isso efetivamente vai acontecer?

Não temos certeza. A queda de 7,2% do PIB no período 2015 / 2016 foi muito expressiva, embora não surpreendente, pela abrangência da crise. Porém, confesso que imaginei que o PIB apresentaria melhor resultado no último trimestre de 2016. Mas a queda de 0,9% frente ao trimestre anterior tende a demonstrar que o caminho para superar a crise ainda é árduo.

Há uma leve percepção de que a economia está reagindo. Haverá crédito para financiar este crescimento?

A Selic reduziu em 1,5% ao ano, na soma das duas últimas reuniões do Copom, fruto principalmente da queda da inflação. E a tendência é de queda dos juros. Mas a inflação, no meu entendimento, baixou por causa da crise, tendo em vista que a demanda segue contida. No momento, não se pode estimar, ao certo, prazo para a retomada do crescimento, mas há crédito para financiar empresas dispostas a investir. Os agentes financeiros comerciais e de fomento permanecem sendo alternativas para financiarem investimentos em aumento da capacidade produtiva. Fundos de investimento são ótimas alternativas para aportarem recursos nas empresas que possuem bons projetos de longo prazo, com capacidade de boa geração de caixa e elevada taxa interna de retorno. O momento presente, mais do que em épocas de crescimento, pede que as empresas se planejem e se organizem, elaborando estudos bem estruturados, que considerem a sua situação atual e onde quer chegar, com base em sólida análise de mercado. Estudos financeiros realistas, que sustentem com credibilidade o pleito de financiamento ou aporte de recursos e gerem conforto não só aos agentes financeiros e fundos de investimento, mas, também às empresas, são muito importantes e se tornam excelente ferramenta de gestão.

De que forma o governo pode atuar como regulador desse mercado?

Nas linhas de longo prazo, o Governo, via Banco Nacional do Desenvolvimento (BNDES), tende a regular o mercado. De fato, o BNDES é o agente repassador direto e indireto, via agentes financeiros, das linhas de crédito com foco não só em investimentos, mas também, no capital de giro (Linha de Crédito Progeren). O Banco determina os encargos e os prazos das operações de financiamento. Recentemente, o BNDES adotou medidas para flexibilizar o acesso ao crédito e agilizar a tomada do financiamento. Mas tais medidas não surtiram o efeito desejado até o momento e algumas nem foram implementadas ainda.

E por que ocorre isso?

Acontece que grande parcela da demanda de crédito por parte das empresas junto ao BNDES obrigatoriamente tem que ser pleiteada via agentes financeiros, que estão com política de restrição ao crédito, conforme já comentado. Mesmo no BNDES, em operações diretas, o acesso ao crédito por parte das empresas vem sofrendo análise mais criteriosa. É bom lembrar que, em função da crise, muitas empresas estão apresentando balanços que geram índices econômico-financeiros pouco atrativos, baixa liquidez, alto grau de alavancagem, EBITDA reduzido, com baixa geração de capital próprio. Enfim, atualmente, e esse cenário já não é de agora, os bancos de fomento vêm analisando o projeto ou o pleito de capital de giro numa escala secundária em relação à análise do “rating” gerado pelos números contábeis das empresas que pleiteiam recursos de longo prazo. E isso vem sendo feito mesmo nas linhas de crédito que foram ajustadas pelo BNDES para o atual momento da economia. Logo, essa situação acaba reduzindo a parcela de empresas que têm aprovadas as operações de financiamento.

Como estão os juros desses financiamentos?

Os juros, quer seja para capital de giro ou para investimentos, estão elevados, fruto principalmente do atual cenário econômico.

Quando começa a surtir efeito a redução da Selic nos custos dos financiamentos?

Já começou a surtir efeito nas operações de capital de giro em agentes financeiros, mas a redução dos juros na ponta final, do consumidor, de pessoa jurídica ou pessoa física, tende a acontecer lentamente.