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A indústria gaúcha e perspectivas de crescimento

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André Luis Contri

Economista, pesquisador da FEE, professor da Escola de Negócios da PUCRS
Corecon-RS Nº 4884

 

Como foi o comportamento da indústria gaúcha no ano passado?
A produção física da indústria de transformação no Rio Grande do Sul, em 2016, apresentou uma queda de 3,9% em relação a 2015. Esta queda veio somar-se a outras duas observadas em 2014 e 2015. Assim, no acumulado dos últimos três anos, a atividade industrial no Estado teve uma redução de 18,6%. Com isso, o volume de produção industrial no RS retornou, aproximadamente, ao nível de 1999.

Que setores se destacaram positivamente?
Em 2016, apenas quatro atividades apresentaram crescimento no volume de produção, com destaque para a atividade de Produção de celulose e produtos de papel, a qual teve um aumento de 33,8%. Convém destacar que esta atividade já havia apresentado um crescimento, de 37,9%, em 2015, sendo a atividade industrial com maior crescimento no Estado ao longo dos últimos dois anos. As demais atividades que apresentaram desempenho positivo foram Metalurgia (3,5%), Fabricação de produtos de couro e calçados (2,4%) e Produtos alimentares (1,3%).

E quais setores tiveram resultados negativos?
Todas as demais atividades apresentaram queda no volume de produção, sendo as mais significativas as observadas na Fabricação de produtos do fumo (-35,0%), Fabricação de móveis (- 11,8%), Fabricação de bebidas (- 11,8%) Veículos automotores (- 10,0%) e Fabricação de derivados do Petróleo (-10,3%).

Os números da indústria brasileira no ano passado seguiram essa mesma tendência?
É importante frisar que o parque industrial instalado no RS representa segmentos da indústria nacional e, portanto, tende a refletir o desempenho desta última. A indústria de transformação nacional também apresentou queda no volume físico de produção ao longo dos últimos três anos. Em 2016 a queda foi de 6,1% em relação a 2015 e no acumulado dos últimos três anos a queda foi de 19,0%, portanto, bem similar ao que aconteceu no RS. Com isso, o volume de produção nacional voltou a níveis inferiores aos de 2004. A partir desta constatação, torna-se inútil esperar que haja uma recuperação da produção industrial no RS sem que a mesma ocorra em nível nacional.

Tem-se percebido alguma tendência de recuperação dos diferentes setores para este ano?
A crise não afeta todos os setores com a mesma intensidade, conforme foi destacado anteriormente. O que se observou em 2016 foi uma taxa menos acentuada na queda da produção. Quando se observa a partir desta perspectiva, através das taxas acumuladas em 12 meses, verifica-se que já se iniciou uma reversão do ciclo. Se for continuada esta trajetória, tal fato sinaliza para um possível retorno ao crescimento, ainda que modesto, em 2017. De qualquer forma, é importante ter presente que a queda acumulada nos últimos anos foi extremamente acentuada. A recuperação dos níveis de produção e, consequentemente, do emprego dos anos pré-crise ainda irá requerer muitos anos de crescimento econômico.

O que falta para uma recuperação definitiva do setor industrial?
Esta é uma questão complexa, uma vez que a recuperação definitiva irá requerer uma melhora em um conjunto grande de fatores, que vão desde o cenário macroeconômico e político nacional até o cenário internacional. Faz-se necessário a retomada dos investimentos da Petrobrás, com o direcionamento da sua demanda por máquinas, peças e equipamentos para a indústria nacional, de forma a estimular a produção doméstica. Será necessário, ainda, equacionar os problemas ocasionados para as grandes empreiteiras pelos escândalos de corrupção. São necessários, também, maiores investimentos governamentais, sobretudo em infraestrutura. Somente a partir disso se poderá esperar uma retomada substancial dos investimentos. Por fim, as elevadas taxas de juros reais na economia brasileira, com seu impacto sobre o câmbio, tem tirado a competitividade do parque industrial nacional e dificultado uma maior inserção no mercado externo. Também é importante se ter presente que o desemprego aumentou significativamente nos últimos anos e que continua em ascensão. Somando-se isto à redução do rendimento médio real do trabalhador e ao elevado nível de endividamento das famílias, teremos muito dificuldade em reaquecer o mercado interno.

E a conjuntura internacional?
Pois é. Também é necessária uma melhora no quadro econômico mundial. Apesar de haver muitos indicadores positivos na economia mundial, é importante se ter presente que a economia mundial ainda está apresentando baixas taxas de crescimento relativamente à sua trajetória histórica da segunda metade do século XX. Verifica-se, também, que este crescimento mundial tem sido extremamente desigual em termos geográficos, estando mais concentrado em países como China, India, EUA e Alemanha. Os demais países, ou estão com taxas negativas de crescimento, ou extremamente baixas. Além disso, o comércio mundial também apresentou uma substancial desaceleração nos últimos anos.

Qual a expectativa do setor com relação às políticas econômicas do governo Trump?
Esta é outra grande incógnita. Se o presidente Trump for bem sucedido na sua política protecionista, isto poderá implicar em uma redução nos investimentos estrangeiros norte-americanos, bem como em uma redução na demanda por bens finais de outros países. Os EUA ainda são um importante parceiro comercial do Brasil. Existe ainda a ameaça por parte do governo norte-americano de fazer uma guerra cambial, o que iria tornar ainda mais vulnerável a posição brasileira no comércio mundial. Por outro lado, se as medidas do novo governo norte-americano estimularem o crescimento econômico naquele país, isto poderá ter reflexos positivos na economia mundial e, consequentemente, no Brasil. Mas ainda é muito cedo para afirmar qual será o resultado líquido destas medidas.