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2017, o tão esperado ano da inflexão?


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Ricardo Hingel
Economista, diretor Financeiro e de Relações com os Investidores do Banrisul
Corecon-RS Nº 3022


O que esperar da economia brasileira em 2017?
Acho que 2017 é um ano de inflexão. Nós estamos em recessão desde o segundo trimestre de 2014 e de lá para cá acumulou-se uma queda na ordem de 8% do PIB. E a raiz de tudo isso é o descontrole do gasto público e o afrouxamento da política monetária na hora errada. Isso fez com que a inflação disparasse e, na sequência, para tentar consertar, na época, o governo Dilma jogou a taxa de juros para cima e teve que começar a desacelerar no gasto. Isso gerou um processo recessivo, especialmente em cima de uma política monetária extremamente restritiva. Tentou-se debelar a inflação via política monetária bastante forte, com taxas de juros muito elevadas, provocando uma retração do desempenho econômico. Hoje Eu diria que a gente praticamente chegou no chão.

Mas como a economia chegou a essa situação?
Em 2015, vivíamos um período de inflação extremamente alta, fechando o ano com uma taxa de 10,8%. A taxa de juros continuava bastante elevada, mesmo num processo recessivo que, na prática, é deflacionário, teria que puxar a taxa para baixo e não para cima, o que realimenta a recessão. E foi exatamente o que aconteceu, explosão e descontrole do gasto público. E o que acontece com o gasto é que são incorporadas novas despesas e não se consegue mais retornar. Então, esse quadro, potencializado pelo desequilíbrio fiscal e pelo desequilíbrio da previdência, que também vem debilitando as contas públicas, torna-se um coquetel explosivo. O desequilíbrio fiscal, mais o processo inflacionário, taxas de juros elevadas, provocando a recessão, tudo isso acabou fragilizando a presidente da época, assim como a sua própria base política, que acabou contribuindo para o processo de impeachment, mas não sem antes provocar uma grave crise institucional de caráter político que impactou diretamente e comprometeu fortemente a economia. A partir da resolução do processo de impeachment, o que acontece é que agentes econômicos passam a enxergar que um novo governante tenderia a ser positivo porque, antes de qualquer coisa, passaria a ter uma base política para construir as reformas econômicas necessárias, que a então presidente Dilma não conseguiria pela perda do controle político.

Até que ponto expectativas de reformas mudam o cenário econômico?
Essas propostas, em termos de mercado, de economia, são favoráveis porque buscam um equilíbrio fiscal, diminuindo a participação do gasto público em relação ao PIB. A PEC dos Gastos é o primeiro grande passo para a conquista do equilíbrio fiscal. Outro ponto, que tem sido implementado e que tem sido muito pouco divulgado, mas é extremamente importante, é o ajuste na legislação trabalhista, que foi construído em conjunto com centrais sindicais, e que tende também, na medida em que for implementado, a alcançar benefícios de médio e longo prazos para o país. Da mesma forma, a reforma da previdência, que é tão ou mais delicada que a PEC dos Gastos. Se não tivermos uma reforma adequada da previdência, os ganhos que se terão com a PEC dos Gastos serão neutralizados ou comprometidos. A previdência, na condição em que se encontra hoje, nesse regime de repartição, é inviável. O governo já definiu que vai encaminhar e ele tem base política para isso. Apenas não se sabe qual tipo de reforma da previdência será aprovada pelo Congresso, já que, na medida em que entra no processo legislativo, mesmo aprovada, parte do seu conteúdo pode ser alterado. Não devemos esquecer que, mesmo com a aprovação das reformas que possuem efeito fiscal, provavelmente só voltaremos a ter superávit em 2020.

A partir de quando já se perceberá melhoras efetivas na economia?
No cenário atual consegue-se enxergar que essas reformas têm efeito no médio e longo prazo. Mas elas têm um efeito interessante por devolverem a credibilidade da economia. O investidor sabe que o período de retorno de seus empreendimentos é longo, de cinco, 10 ou 20 anos, dependendo do tipo de investimento. Mas se ele também conseguir vislumbrar um cenário de mais certeza na economia passará a fazer com que esses investimentos, que estavam até então engavetados, venham para a vida real. Mas o efeito de curto prazo, fundamental para uma mudança de cenários, é exatamente a redução da taxa de juro, a política monetária. Mesmo com toda essa recessão, já se conseguiu trazer a inflação para dentro da meta prevista, com fechamento em 6,4% no ano passado e, mais que isso, com tendência para este ano muito próximo de 4,5%. Isso já permitiu uma redução da taxa de juros, que estava em 14,25% e em dois meses foi a 13%, com o Banco Central surpreendendo ainda mais o mercado com a redução em 0,75% da taxa Selic na última reunião. Existem condições econômicas, a meu ver, para se fazer esse processo de forma ainda mais rápido. Porque, quanto mais acelerado for o processo, mais estimulados ficam os agentes econômicos. Se analisarmos, tudo o que o governo fez até agora ainda não surtiu efeito concreto, pois são de médio e longo prazo. Quando o Banco Central surpreende, baixando a taxa para 0,75%, enquanto o mercado aguardava 0,5% e parte para um ciclo mais rápido, acelerando a redução, é uma ação com efeitos de mais curto prazo. A política monetária vai impactar na economia mais rapidamente do que o ajuste fiscal, que viabiliza a estabilidade de médio e longo prazo.

Que setores já devem sentir esses primeiros efeitos na economia?
Os setores vão reagir lentamente, até porque as empresas saíram muito machucadas desse período. O problema não é a recessão em si, mas o prolongamento da recessão. Uma coisa é uma recessão durante dois ou três trimestres. Outra, uma recessão de oito trimestres, muito longa, muito ampla, que fez com que as empresas se descapitalizassem e diminuíssem de tamanho. Da mesma forma, do lado das pessoas. No Brasil há 12% da população desempregada e temos que baixar esse índice para 6%. No aspecto externo, o Brasil tem tido algumas vantagens, especialmente com relação ao setor exportador de commodities, já que esses produtos começaram a recuperar seus preços no mercado internacional. No setor industrial também, uma estabilidade do câmbio pode ajudar o lado exportador. O governo vem fazendo um trabalho de comunicação, e quanto mais eficiente ele for nesse quesito, conectado com esses tipos de ações, principalmente como a taxa de juros, que tem uma eficácia muito grande na economia, isso vai favorecer a recuperação. Teremos que ficar muito focados na evolução da demanda interna para ver de que forma acontecerá a reação dos diferentes setores.

Que impactos imediatos o governo Trump terá na economia brasileira?
Na relação comercial direta, embora importantes, os EUA deixaram de ser há muito tempo o principal parceiro do Brasil. E é sempre bom lembrar que a nossa economia é uma economia relativamente fechada. Trump poderá proporcionar dois efeitos que devem ser bem monitorados para sabermos o que pode acontecer. O primeiro, que é mais provável, é que ele promova um afrouxamento na questão fiscal, elevando o gasto e reduzindo impostos, liberando empresas e pessoas para gastarem mais, como forma de provocar o aquecimento da economia. Ao fazer isso, pode ocorrer pressão inflacionária, impactando na taxa de juros. A intensidade com que será feito esse processo é que vai definir o ritmo de elevação da taxa de juros nos EUA. De alguma forma ele estará estimulando a demanda por produtos que, para o Brasil, são muito importantes, como as nossas commodities. Tanto que, desde a eleição do Trump, as principais commodities como metais, petróleo e até mesmo celulose subiram de preço no mercado internacional. Então, essa proposta de estímulo à economia que me parece que seja o mais provável de acontecer. O lado mais difícil de avaliar é a questão do protecionismo que não é tão simples já que envolveria uma série de tratados, acordos, relações comerciais, investimentos de empresas americanas em todo o mundo, enfim. É sempre bom lembrar que nas últimas décadas, com a colocação de seus produtos em quantidade e a preços muito baixos no mundo e no mercado norte-americano, a China teve um papel preponderante no controle da pressão inflacionária , em especial no período em que as economias cresciam e a demanda estava em alta.

A economia brasileira está preparada para eventuais oscilações desse cenário internacional?
Num cenário básico, sim. Pode subir um pouco a taxa de juros norte-americana, com uma consequente apreciação do dólar em relação a outras moedas. Mas o Brasil tem dois instrumentos importantes para se defender desse processo. A valorização das commoditiesque exportamos e uma balança comercial bastante positiva, mas as reservas internacionais próximas de U$ 400 bilhões, que nos dão segurança em termos de contas externas e protegem a economia brasileira. E o que se observa é que existe um fluxo muito interessante e forte de investimentos em direção ao Brasil, já que está barato comprar ativos aqui dentro, em função dos preços que caíram com a recessão. Ao garantirmos que em 2017 definitivamente a questão da inflação esteja resolvida, com a taxa de juros caindo, além das reformas e do equilíbrio fiscal de longo prazo estabelecidos, não há porque não se enxergar uma retomada. Acredito que se houver a manutenção dessas reformas e uma política monetária de redução até mais rápida da taxa de juros, acho que podemos encarar 2017 como efetivamente um ponto de inflexão.
Ressalto que a qualidade da recuperação dependerá ainda de uma série de outros problemas que deverão ser enfrentados, como o programa de concessões, de forma a acelerar o investimento e a melhoria do sistema de infraestrutura brasileiro, desinvestido, bem como a reforma tributária, no sentido de ao menos simplificar a legislação, pois temos um dos sistemas mais caros e complexos do planeta, o que ajuda a onerar ainda mais a sociedade brasileira.