slogan

SELO ENEF RGB 01

Seja qual for o seu motivo, faça um mundo com mais Economia.

Governo Trump e o novo cenário econômico mundial

pedro

 

Pedro Cezar Dutra Fonseca
Economista, ex-presidente Corecon/RS, professor da UFRGS
Corecon/RS nº 3263

 

 

Qual o impacto da eleição de Donald Trump para a economia brasileira?
Neste primeiro momento, o que se falar sobre cenários econômicos, deve passar pelas incertezas do momento. Na verdade, como Donald Trump não possui uma tradição na política, não se sabe ao certo de que tudo o que ele disse foram apenas promessas de campanha ou até que ponto elas realmente serão efetivadas na prática. O problema é que nos EUA, ao contrário do Brasil, a tradição é de os candidatos cumprirem o que dizem na campanha. Por isso, o clima de incerteza. Acho que mesmo o Partido Republicano tendo as duas câmaras, do Senado e dos Deputados, não significa que o novo presidente terá apoio majoritário nessas duas casas porque ele tem muita resistência dentro do próprio Partido, especialmente em sua plataforma econômica. Isso não acontece com relação à sua plataforma política, que é conservadora e que vai se refletir muito na Suprema Corte, especialmente em questões relacionadas aos direitos individuais, porte de armas, LGTB, entre outros. É que esse tipo de plataforma, dentro do Partido Republicano, é mais ou menos consenso.


As incertezas ficam por conta da política econômica internacional?
Com relação à questão econômica, ainda não se sabe ao certo. O Partido Republicano tem tradição de ser liberal, mas liberal no sentido brasileiro, não no sentido americano. Nos EUA, liberal é o que nós chamamos aqui de social-democrata, keynesiano, intervencionista. E o Partido Republicano tem um perfil do que nós chamamos de liberal, ou seja, eles querem o livre comércio, menos impostos, menos gastos públicos, etc. E o Trump tem sinalizado contrário do Partido Republicano, num viés mais protecionista, com proposição de um programa de substituição de importações nos EUA e de afastamento com relação a principais parceiros comerciais, o que difere da plataforma republicana. Então, nessa relação com o Congresso e com o Partido Republicano, parece-me que com relação à questão política e à questão dos direitos individuais, não vai haver muita mudança, mas na área econômica deve haver surpresa com relação a essa resistência ao liberalismo.


Eventual tendência de prevalecerem as propostas do presidente eleito Donald Trump pode trazer impactos negativos à economia brasileira?
Acho que sim. Existe uma boa dose de incertezas. Aliás, não é por acaso que temos acompanhado declarações recentes por parte de integrantes de expressão dos três maiores partidos políticos brasileiros, o PMDB, PT e PSDB, de posicionamentos contrários a Trump, inclusive posições de dentro do próprio governo Temer, como, por exemplo, as do ministro José Serra, feitas recentemente. É que se os EUA, que são o segundo maior parceiro comercial do Brasil, resolverem ampliar barreiras comerciais, conforme sinalizações de campanha do presidente eleito, isso trará repercussões negativas para a economia brasileira e para as relações dos dois países. O Brasil teria, então, que aprofundar suas relações comerciais com outros países, especialmente com a China. Teríamos que ver, também, qual seria a reação chinesa diante desse novo cenário. Ao também sair prejudicada num primeiro momento nessa relação com os EUA, pode vir a concentrar aumento de sua influência com outros países, inclusive na América Latina.