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Impactos da crise na região de Caxias do Sul

maria carolina gullo

 

Maria Carolina Rosa Gullo
Economista, diretora do Centro de Ciências Sociais/UCS, diretora da CIC/Caxias do Sul
Corecon/RS nº 5779

 

De que forma a crise econômica, nacional e internacional, tem afetado a economia da região serrana?

Aqui em Caxias do Sul, e até na região, essa crise está sendo muito mais sentida do que no resto do País. Esse é um movimento considerado natural porque a nossa região normalmente entra em crise antes do País, assim como também sai da crise antes. Isso, porque a indústria metal mecânica, que é a indústria mais forte de nossa cidade, é, preponderantemente, constituída de bens de capital, com alto valor agregado, bens que normalmente precisam de financiamento, portanto de linha de crédito e de taxa de juros adequadas para que eles sejam financiados. E, numa crise, normalmente o que falta em primeiro lugar é o crédito. Então, hoje nós temos uma indústria praticamente parada aqui na cidade e também na região, com uma faixa de 15 mil pessoas desempregadas do universo do trabalho formal somente em Caxias do Sul, e destas, cerca de 80% estavam na indústria.

E essa crise se reflete com a mesma intensidade nos demais setores?

A partir da redução da massa salarial com o fim das horas extras, as demissões e a flexibilização da jornada de trabalho, os demais setores da economia local sentem o impacto. O comércio vem apresentando números negativos há mais de um ano e, de alguns meses pra cá, o setor de serviços, o último a entrar na crise, também vem acumulando prejuízos. Em abril deste ano 75 mil CPFs estão negativados no sistema do SPC/Serasa. Este número já esteve em 67 mil em 2012. De lá pra cá, ele vem aumentando num claro indicador do esgotamento da capacidade da população de honrar compromissos assumidos. Ou seja, para nós a crise é bem forte, e estamos aguardando as novas medidas que o novo governo está prometendo adotar, como esperança de que haja a retomada da economia em nossa cidade e região. E, obviamente, que todas essas dificuldades refletem inclusive no setor educacional, com a redução das matrículas e menos dinheiro disponível para que as pessoas possam estudar.

Quais as expectativas do empresariado da região?

O empresário local tem visto com bons olhos a nova equipe econômica do governo e aposta numa retomada da economia a partir da adequação das contas públicas e dessas propostas que a equipe econômica está pretendendo adotar. Mas eles precisam e pedem com muita urgência que essas novas medidas sejam colocadas em prática e, principalmente, que sejam viabilizadas novas linhas de crédito para a compra dos equipamentos que são produzidos em nossa região. Como produzimos bens de capital, temos caminhões, carretas, ônibus, guindastes, máquinas que produzem outras máquinas, enfim, toda a sorte de bens de capital que normalmente o cliente se utiliza de um financiamento para poder adquirir. Se não tem esse financiamento ele não consegue comprar. Fora isso, obviamente que a queda de consumo impacta diretamente sobre essa produção e isso está hoje nos preocupando porque as indústrias estão com alta capacidade ociosa. Estão demitindo porque já passaram pelo processo de flexibilização o quanto elas puderam, mas chegou o momento em que isso não foi mais possível. Inclusive, temos notícias de que, neste momento, muitas empresas estão optando por não demitir porque faltam recursos para operacionalizar esse processo. Portanto, estão tentando sobreviver a este período. A esperança que o empresariado está depositando neste momento é na mudança de rumo da economia e da política, como forma de reaver a retomada da economia.

Qual o perfil dessa massa de desempregados?

Há alguns anos, num primeiro momento, a indústria demitiu o chamado chão de fábrica, mas neste segundo momento, em função da crise, ela está demitindo o intermediário e até as mais altos escalões, cujos salários são mais elevados, no nível de gerente para cima. Trata-se de mão de obra qualificada, mas que hoje encontra muita dificuldade para se recolocar no mercado devido aos salários que recebiam.


Então, a situação das empresas está no limite?

Sim, isso demonstra que a situação está no limite. Ao mesmo tempo, está sendo trabalhado junto ao empresariado, e eles estão aceitando como sugestão, que é repensar a matriz produtiva local. Pensar na possibilidade de inovação, de tecnologia, de superar a crise, buscando novos nichos de mercado, aperfeiçoando seu produto, redirecionando a produção para outros setores complementares, etc.. Só que isso leva um tempo. Nós reduzimos as exportações e, agora, temos que reconquistar esses mercados. Mesmo com o dólar atrativo, competitivo, isso tem um tempo até conseguir colocar o produto lá fora. No entanto, todo um movimento de busca por soluções tem sido capitaneado pela Câmara de Indústria e Comércio, principalmente, e pela Universidade, para incentivar os empresários a se reinventar, pois a crise vai passar e teremos que estar preparados para “largar na frente” e recuperarmos o tempo perdido.

Qual a estrutura do PIB da região e qual a sua participação no PIB do estado?

Hoje nós temos um Valor Adicionado Bruto em torno de 45% de indústria, 55% de serviços e 5% de agricultura. A agricultura da nossa região é formada principalmente por hortifrutigranjeiros e somos grande abastecedores da região metropolitana de Porto Alegre. Mas também temos uma bacia leiteira muito interessante, além de outros produtos, como o caso da fruta uva, que é muito conhecida e que se transforma no vinho e no suco, agregando valor. O PIB de Caxias do Sul é o segundo maior PIB do estado, atrás apenas de Porto alegre.

Não falta diversificação na economia da região?

O nosso maior problema é que a nossa indústria está muito centrada no metal mecânico que, por sua vez, tem uma relação muito forte com o setor automotivo, que é o setor que mais está sofrendo no momento. Nós temos trabalhado com a ideia de diversificar a nossa matriz metal mecânica, saindo um pouco do automotivo para outros setores que precisam do metal mecânico para que, assim, a nossa dependência do setor adquira mais gorduras para eventualmente suportar crises. Estamos trabalhando também a questão do turismo que é uma atividade forte na região, mas não em Caxias. E a cidade recebe um volume de pessoas que vêm a trabalho e ficam por dias aqui, normalmente, nos dias de semana, caracterizando um possível turismo de negócios que precisa ser melhor trabalhado.