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Existe saída, via exportação, para a indústria automobilística brasileira?


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Rodrigo Morem da Costa
Economista, Pesquisador da FEE
Corecon/RS nº 6592

 

Essa crise vem sendo sentida na indústria automobilística ou no setor como um todo?
É uma crise que vem afetando o setor automotivo como um todo. A indústria automobilística, no seu processo produtivo, organiza-se através do sistema just in time, que requer a quantidade de insumos demandados no tempo requisitado, trabalhando com um mínimo de estoque. Com isso, as montadoras acabam transferindo esse sistema também aos seus fornecedores, fazendo com que eles se organizem dessa forma. Portanto, é praticamente impossível a queda do desempenho das montadoras não afetar, de modo praticamente simultâneo, os fabricantes de sistemas e fornecedores de autopeças, de partes e componentes.

O que aconteceu com o setor automotivo brasileiro?
Após o grande crescimento ocorrido do ano de 2003 ao de 2012, a partir de setembro de 2013, o setor automotivo brasileiro vem experimentando sucessivas e intensas quedas em seu desempenho, culminando com um cenário de crise. Tanto que de uma redução de 0,8% nas vendas de veículos de janeiro a novembro de 2013, comparado ao mesmo período do ano anterior, o setor chegou a uma queda de 8,4% em 2014 e de 25,2% em 2015. Com base neste cenário, ocorreram ajustes na produção, que acabou encolhendo 50% de setembro de 2013 a outubro de 2015, e no emprego no setor automotivo, com redução drástica do emprego formal e adoções de medidas de readequação, como lay-offs, férias coletivas, adesões ao Plano de Proteção ao Emprego e outras.

O que explica essa retração?  
Entre outros fatores, estão a crise política, a desaceleração da economia, o aumento do desemprego, as restrições ao crédito e a elevação nos preços dos veículos. Somado a isso, as exportações caíram, de setembro de 2013 a novembro de 2015, 38,3% em quantidade e 44,7% em valor.

E a que se deveu a queda das exportações?
Esse movimento de queda das exportações está relacionado principalmente à crise econômica e de evasão de divisas internacionais, com imposição de barreiras por parte da Argentina, que respondeu por 70% das exportações brasileiras na média de 2011 a 2014. Soma-se a isto, o baixo dinamismo do comércio internacional na América Latina, desde 2009.

O que aconteceu no Brasil a partir de 2013, com a retração mais intensa do setor automobilístico, pode ser caracterizado como o início de uma grande bolha no setor?
O mercado brasileiro apresenta potencial para o crescimento do setor. A indústria automobilística percebe os cinco habitantes por  veiculo como um potencial de crescimento das vendas, já que o nível de saturação do mercado – considerando os países mais desenvolvidos – fica abaixo de dois habitantes por veiculo. Então, considerando o tamanho da economia brasileira, há a percepção de que existe oportunidades para o aumento do mercado. Então, mais do que uma bolha, o que vem ocorrendo no setor no momento atual é uma redução da demanda por veículos automotores: no mercado nacional, em razão da crise econômica e política do Brasil; e no mercado externo, devido às dificuldades da Argentina e da desaceleração do comércio internacional na América Latina após a crise financeira mundial de 2009.

O que está sendo feito para superar essas dificuldades do setor?
Em função da desaceleração da economia brasileira, foi lançado, em junho de 2015, o Plano Nacional de Exportações (PNE), que tem como um dos principais objetivos a retomada de seu crescimento via exportações. Nesse contexto, o aumento das exportações da indústria automobilística, por seu peso na economia, elevado número elos de encadeamento com outras atividades econômicas em seu complexo de produção e por sua média-alta intensidade tecnológica, surge como um dos alvos preferenciais no PNE. Assim, foram renovados acordos de exportação com a Argentina, México, Uruguai e Colômbia e estão sendo feitas negociações com o Paraguai. As montadoras estão pleiteando, também, a abertura de negociações com o Peru e o Equador.

Por que a América Latina e a África são boas opções de exportações para o setor brasileiro?
Isso está ligado à forma de organização internacional da cadeia de valor da indústria automobilística. Desde a metade dos anos 1990 ela vem se organizando em bases regionais, com produção automotiva em suas principais economias. Isso se deve a esta indústria ser de média-alta intensidade tecnológica e intensiva em capitais, gerando elevados custos fixos, que requerem larga escala de vendas para a sustentabilidade financeira das empresas. Além disto, a organização em bases regionais visa mitigar o risco de queda nas exportações, por desvalorizações cambiais ou medidas protecionistas por países individuais, bem como promover maior adaptação dos veículos ao mercado local. Assim, o Brasil foi escolhido como plataforma regional de produção, por seu tamanho, inserção no Mercosul, e proximidade com as nações da América Latina, para atender à demanda dessa região. No caso da África, a produção ocorre em alguns países, mas é relativamente pequena. Assim, as vendas internacionais brasileiras tendem a se concentrar mais na América do Sul, onde estão as maiores economias, com exceção do México. Em relação a este país, sua produção se destina a atender à demanda dos EUA, do Canadá e da própria classe alta mexicana, o que lhes retira a escala necessária para produzir os veículos mais simples, os chamados “populares”. Então, é ai que entram as exportações do Brasil para o México.

A melhora das exportações, apesar de ser positiva, não é o suficiente para tirar o setor da crise?
Os acordos comerciais estabelecidos no âmbito do PNE, juntamente com a desvalorização cambial, tendem a ser positivos para as exportações de veículos, mas insuficiente para tirar o setor da crise no curto prazo, considerando o próximo ano. O primeiro fator é que as exportações hoje respondem por apenas 15% de veículos produzidos aqui no Brasil. O segundo ponto é que, com a queda das vendas, acumularam-se estoques elevados de veículos prontos nos pátios das montadoras, e elas necessitam, agora, vender esse excesso para poder recuperar a produção e o nível de emprego. E num terceiro aspecto, o dinamismo da América do Sul no próximo ano tende a ter um desempenho fraco. Destaca-se o caso da Argentina, destino de 70% das nossas exportações, cuja projeção de crescimento do PIB em 2016 é de apenas 0,8%, de acordo com a CEPAL. Assim, a meu ver, a saída da crise do setor automotivo passa mais pela recuperação do mercado brasileiro, mediante estabilização política, ajuste fiscal e retomada das políticas de desenvolvimento econômico e social.

Quando vamos retornar aquele patamar de crescimento atingido em 2012?
Neste momento é muito difícil de prever, em função do quadro de forte incerteza e da crise econômica brasileira. Mas há espaço para crescimento, na medida em que melhorar o desempenho da economia brasileira e o mercado externo vier a se fortalecer com um câmbio competitivo.