Campanha de Valorizacao do economista

As lições europeias no enfrentamento da Covid-19

 

Pedro Pita Barros
Economista, Catedrático da Universidade Nova de Lisboa,
Membro do Conselho Nacional de Saúde de Portugal,
Editor do International Journal of Health Economics and Management

 

 

Qual a contribuição da economia da saúde para o entendimento da dinâmica e das consequências da epidemia da Covid?

A economia da saúde ajuda a colocar na discussão os elementos de valorização dos vários equilíbrios, que é preciso ir estabelecendo, e a compreender efeitos menos evidentes. Por exemplo, ajudar na priorização para vacinação, segundo a capacidade para beneficiar individualmente e em termos de quebrar as cadeias de transmissão; também chamar a atenção para desvio de recursos para atender os doentes com Covid-19 tem custos escondidos de outras doenças que ficam por tratar; a importância das questões de equidade no acesso a cuidados de saúde necessários, e às vacinas, são igualmente um tema em que a economia da saúde contribui para melhores decisões.

Como a Europa, e Portugal em particular, estão vendo a situação brasileira atual?

Do lado de cá do Atlântico, a situação do Brasil é vista com preocupação. Por um lado, preocupação com os custos (e a dor) para a população brasileira de não terem uma resposta adequada à pandemia. Essa resposta tinha que passar, quer por medidas de contenção da difusão do vírus, quer por apoio social a quem fica mais afetado na componente econômica. Por outro lado, a preocupação também com a possibilidade de serem geradas variantes que criem dificuldades adicionais no controle da pandemia.

Qual o efeito das vacinas sobre o número de mortes e de novos casos na Europa?

Tem havido um claro efeito de redução de mortes face ao que sucederia se não houvesse as vacinas. Nos novos casos, a situação é mais complicada por causa da nova variante Delta, que tem gerado um aumento muito rápido de novos casos. Começou no Reino Unido e está agora a espalhar-se pela Europa Continental.

Como tem sido feita a compra de vacinas na comunidade europeia e quais os critérios de distribuição?

A Comissão Europeia coordenou a compra conjunta, antecipada, de vacinas a várias empresas, ainda na fase de desenvolvimento (como forma de gerar fundos que permitissem terminar os processos de criação das vacinas, e como forma de garantir acesso dos países da União Europeia participantes às novas vacinas). A distribuição entre países é feita segundo o critério de população de cada um. Esta regra permite que os países da União Europeia participantes estejam sensivelmente no mesmo nível de vacinação (dependendo da rapidez dos processos de cada país e não da disponibilidade de vacinas diferente).

Quando a Europa e Portugal irão atingir a chamada imunidade de rebanho?

Honestamente, não sabemos. As novas variantes, como a Delta ou outra que a venha a substituir – esperamos que não, mas a biologia não é complacente com as nossas esperanças – alteram os níveis necessários de pessoas imunes para se criar essa imunidade de grupo ou de rebanho. Para as estirpes originais, falou-se muito em ter 70% da população vacinada. Agora, com a variante Delta, há quem estime que poderá ser necessário 85%, ou mesmo mais, da população imunizada para se conseguir esse efeito de imunidade de grupo. E claro, haverá sempre o risco de surgirem mais tarde variantes vindas de outras geografias que compliquem essas contas.