Indicadores Econômicos RS

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Mais do que nunca, investimentos!


Antonio Carlos Fraquelli

Economista, Advogado, professor
Corecon-RS Nº 1108 

 

Pode-se dizer que Donald Trump perdeu as eleições nos EUA por causa do desemprego?

Antes da chegada da pandemia, o mundo estava numa desaceleração global, e quem vinha dando suporte ao cenário econômico mundial era a economia americana, que, naquele momento, crescia a pleno emprego. É bom lembrar que, naquele momento, a China também continuava crescendo, mas em ritmo de desaceleração. Então, o cenário era o mundo numa desaceleração, a China numa desaceleração e os EUA, crescendo a pleno emprego. Naquela situação da economia norte-americana, com uma taxa de desemprego de 3,6% ou 3,7% ao ano, o presidente americano Donald Trump estava apto a se candidatar à reeleição ou, no mínimo, tinha excelentes condições para se reeleger. É que, com uma taxa de desemprego abaixo de 4%, os presidentes tendem a se reeleger nos EUA. O que não acontece quando a taxa está superior a 6%. Apenas para lembrar, na grande recessão de 2009, o desemprego nos EUA chegou a 10% e o então presidente Obama demorou muitos e muitos meses para reduzir a taxa a patamares aceitáveis. Quando Trump assumiu, beneficiado por esse cenário de baixo desemprego, alcançou o pleno emprego e passou a trabalhar de forma unilateral, atropelando a tudo e a todos, e gerando atritos e rupturas com os parceiros históricos, como os europeus e o México. Veio a pandemia, que acabou elevando a taxa de desemprego nos EUA às alturas, em torno de 14%, o que fez com que ele perdesse a âncora que mantinha na economia.

E isso acabou sendo decisivo para a chegada de Joe Biden ao governo?

Sim, sem dúvida. Com a taxa de desemprego nas alturas, ele perdeu a âncora e passou, então, a negar a crise sanitária, acreditando que logo passaria e que a situação econômica se reverteria em seguida, a tempo das eleições de 03 de novembro, o que acabou não acontecendo.

Que mudanças o governo de Joe Biden traz ao cenário internacional?

Estou otimista porque creio que o Biden vai partir para retomar as tradicionais alianças políticas que os EUA mantinham, como se reaproximar dos europeus, dos asiáticos, das lideranças que forem convergentes às ideias dele. Ao mesmo tempo, vai injetar um novo auxílio na economia, algo em torno de um trilhão de dólares. Com Biden, além de alianças pela democracia, suas ações convergirão em novos auxílios, em harmonia com o Federal Reserve System (FED), o Banco Central dos norte-americanos, que tem como presidente o Jerome Powell que, embora tenha sido indicado por Trump, é absolutamente independente, e que tem sinalizado sobre a necessidade de injeção de novos recursos na economia.

Qual a importância desses recursos para o novo cenário econômico?

A injeção de recursos, que também deverá passar pelo novo Secretário do Tesouro norte-americano, que assumirá o cargo com a posse do novo presidente americano, é importante porque, junto com as alianças políticas e o alinhamento econômico, o governo Biden poderá retomar à Organização Mundial do Comércio (OMC), abrindo caminho para uma negociação com a China, portanto, uma estratégia bem diferente da tradicionalmente utilizada por Trump. Lógico que a chegada de Biden não tornará a China uma aliada, mas, no entanto, a negociação com instituições multilaterais, da OMC à Organização Mundial da Saúde (OMS), passará a ser mais factível.

E onde o Brasil entra neste novo cenário?

O governo Bolsonaro não tem proposta de retomada da economia. Estamos numa crise de seis anos. O número da previsão do PIB divulgado recentemente pelo IBGE demonstra que nós saímos da recessão técnica, mas, de qualquer maneira, essa movimentação não significa que o Brasil volte ao período anterior à pandemia. E, pior, nós não temos a capacidade de resiliência. O mundo com o Biden provavelmente vá apresentar uma recuperação em formato de letra K, na queda até o fundo do poço e uma linha de recuperação quando sobe, chegando até à metade do caminho da saída, e. aí, uma parte da atividade econômica se recupera e a outra permanece na crise. Então, a expectativa que se trabalha, no cenário mundial, é de aumento da desigualdade social, onde os mais ricos se recuperariam e os mais pobres ficariam mais pobres ainda. E o Brasil, não tendo um programa de crescimento, vai enfrentar ainda mais sérios problemas com o déficit público, que não para de crescer. Lembremos que o ministro Guedes disse, pouco antes das eleições, que, se vier a segunda onda para o Brasil, será estendido o auxílio emergencial. Só que, a partir de agora, qualquer dinheiro que for destinado com esse propósito irá fazer com o déficit público quebre qualquer compromisso com o ajuste das contas públicas ao longo de 2021. Neste momento, o maior problema do Brasil é justamente a dívida pública, já que os gastos não param de crescer e chegarão a 100% do PIB, gerando uma incerteza muito grande junto às agências de riscos internacionais, com a séria possibilidade de rebaixamento da nota do risco Brasil.

Neste momento, o mais importante seria atração de investimentos imediatos para o Brasil?

O Brasil precisa, mais do que nunca, de investimentos estrangeiros, chinês e norte-americano, inclusive, até para garantir a retomada da economia, que estamos esperando há seis anos. Toda essa visão do Biden para buscar a retomada da economia mundial, vai pregar otimismo e reações positivas nas bolsas, nos preços do petróleo e nas commodities em âmbito mundial. Mas, para o Brasil se beneficiar desse quadro, terá que convergir para a agenda americana em termos de sustentabilidade, de contas públicas, com uma proposta convincente que mostre aos investidores internacionais que o País tem um caminho definido para sair da crise. O Brasil, nesta época da pandemia, teve saldos comerciais expressivos porque as importações caíram e, como os chineses são responsáveis por 40% do nosso agronegócio, temos que continuar negociando com a China e os EUA, principalmente porque sabemos, e eles também sabem, que o Brasil é ator importante na alimentação global. Então, o Bolsonaro pode dispor dessa carta na manga, que ele precisa utilizar para que o País possa aproveitar, através de um projeto econômico coerente, e encontrar o caminho da retomada do crescimento. Imagino que, nesse cenário internacional que está aí, teremos alguma agenda global, de grande impacto, com a liderança de Biden, algo como um centro global de negociação para a saída da crise, com a aglutinação das principais lideranças mundiais.

O Brasil só se beneficiará se tiver um programa de recuperação?

Após a vacinação de todos e dos testes necessários, eu imagino que poderemos vivenciar um mundo com a inclusão da África, e o Biden estará acessível a isso. O Brasil só vai se beneficiar se tiver um programa para a retomada, com uma proposta para as contas públicas, além de alguma certeza de que a dívida pública voltará a ficar dentro do controle. A partir daí, trabalhando a sustentabilidade, numa agenda convergente para aquela que o Biden tem se referido sistematicamente, eu penso que o caminho estaria mais ou menos sinalizado. Mas a proposta tem que ser clara e condizente.

Mas o Bolsonaro tem que amenizar o seu discurso?

O que o Bolsonaro diz, ou deixa de dizer, não tem a menor importância porque não chega a ter qualquer relevância no cenário global. Percebo, por exemplo, que o vice-presidente Mourão sempre teve uma agenda convergente para as negociações internacionais. Então, é preciso minimizar o discurso do Bolsonaro, e as propostas surradas do Paulo Guedes, já que nenhum deles tem demonstrado estar articulado com alguma agenda de retomada da economia.

Mas como não se preocupar com o discurso do Ministro da Economia?

Paulo Guedes teve dois anos pra construir uma agenda de crescimento e não o fez. Os conflitos entre Guedes e outra autoridades têm emperrado algumas alternativas, mas se trata de um quadro mais voltado para o consumo interno, totalmente desligado de uma agenda para a retomada da economia global. Como a economia mundial vai decolar se a vacina chegar, temos que aproveitar e decolar junto. E é aí que entra uma proposta de retomada, de equilibrar as contas públicas, de limitação da dívida em patamares mais aceitáveis e alinhados com os parceiros internacionais tradicionais.