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Um choque de realidade

 
Roberto Rodolfo Georg Uebel
Economista, professor da ESPM-POA
Corecon-RS Nº 8074

 

 
Que tipo de modificações o presidente eleito dos EUA, Joe Biden, deve imprimir à política internacional?

Qualquer governo que assumisse após a gestão de Donald Trump, mesmo que fosse um republicano, promoveria mudanças na política de seu antecessor. Tudo indica que o governo Biden tem uma agenda para deixar a sua marca. E essa agenda é no campo da economia,  muito atrelada  à questão ambiental, à questão das mudanças climáticas. De levar firmemente os EUA para uma agenda econômica mais verde, se e que se pode chamar assim, mais renovável. Não se pode esquecer que, na última semana, os EUA abandonaram oficialmente o acordo da agenda climática de Paris, que foi uma das primeiras ações, lá do início do governo Trump. E, no dia seguinte, Biden já postou em seu twitter que a primeira medida de seu governo, quando tomar posse, em 20 de janeiro próximo, será retornar ao Acordo de Paris. E essa pegada ambiental, sustentável, ficou muito evidente na campanha eleitoral dele. Então, o que acho que vai predominar, tanto na economia como na política externa do novo governante, é a ideia de preservação ambiental. Aliás, este é o aspecto central da sua política econômica.

E como deve ficar a relação dos EUA com a China?

Sobre essa conturbada relação entre EUA e China, a tendência é de que o novo governo dos EUA deva buscar um tratamento de normalidade entre os dois países. O que se viu, ao longo desses últimos quatro anos da gestão Trump, foi um embate direto e duro dos EUA com a China. Um embate muito mais político e ideológico que comercial. E é claro que esse comportamento acaba respingando diretamente nas relações comerciais dos dois países. Basta lembrar a polêmica questão do 5G, por exemplo, que foi o grande disputa entre eles. Mas o que vejo para este novo cenário é um retorno da normalidade entre Washington e Beijing, relações diplomáticas, cordiais. Lógico que não é uma relação de amizade, de parceria, como a relação dos EUA com o Japão, por exemplo, ou com a Coréia do Sul. É uma volta à normalidade, o que pode e deve estabilizar o comércio entre os dois países e, também, estabilizar a própria economia internacional.

E de que forma o Brasil entra nesse novo cenário?

Eu acredito que o Brasil vá sofrer um choque de realidade, em função das novas políticas a serem adotadas pelo governo Biden no novo cenário mundial. E o choque de realidade é acordar rapidamente para o que estará acontecendo nesse novo cenário mundial. Hoje, o Brasil tem uma agenda de política externa, de política econômica internacional muito própria. Diria, até idealista, para usar um termo mais adequado, que foge da realidade e que existe desde 2019, quando assumiu o  governo Bolsonaro. Porque os EUA, ao longo do governo Trump, apoiaram e garantiram que o Brasil tomasse uma série de proposições internacionais, como um embate com a China, afastar-se do Mercosul,  da União Europeia. Enfim, poderá acordar e redefinir uma política externa comercial mais condizente com a realidade internacional e, evidentemente, retomar uma negociação normal com a China. Fiquei muito preocupado quando, há poucos dias, a China anunciou que irá comprar soja da Tanzânia, um país que não é um dos maiores produtores, mas cuja iniciativa representa  uma sinalização muito clara para o governo brasileiro de cessar manifestações que entendam como desagradáveis ao regime e à sua política internacional. Trata-se de um cenário extremamente preocupante para o Brasil e, especialmente, para nós, do RS. Então, é uma relação de pragmatismo, de acordar para a nova realidade do sistema internacional. Isso não significa que precise ter um alinhamento entre Biden e Bolsonaro, ou entre Bolsonaro e Xi Jinping. É uma questão muito mais de usar uma lente realista para o mundo, o que é muito importante para a política externa brasileira acordar e voltar a olhar num trilho de projeção do Brasil no mundo.

Isso vai exigir uma mudança bem efetiva de postura do Brasil com relação à sua política internacional. Existe ambiente interno favorável para isso?

Bom, é uma questão interessante. A China possui um regime de caráter autoritário, mas tem recursos para comprar do Brasil.  Acho que hoje não tem ambiente favorável para isso. Mas o Brasil vai ter que se reposicionar, sob o risco de ficar isolado. Por mais questionável que seja o posicionamento do Ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, ou se troca o ministro já no governo Biden, ou ele volta a defender suas posições do passado, quando foi um dos maiores defensores do Mercosul, do comércio com a China. Então, é muito mais que uma readequação de discurso. É o Brasil se voltar novamente para o mundo.