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Reservas brasileiras em cenário de pandemia


Fábio Pesavento
Economista, professor da ESPM
Corecon-RS Nº 6562

 

 

Como está se comportando a balança comercial do Brasil neste cenário de pandemia?

Os efeitos da crise econômica causada pela pandemia do Covid-19 levaram os agentes econômicos a uma profunda revisão de suas estimativas para o desempenho da economia em 2020. Os primeiros sinais da intensidade do impacto do distanciamento social sobre a atividade econômica são visíveis e preocupantes. O Fundo Monetário Internacional (FMI), por exemplo, aponta uma queda de 11% no comércio internacional. No Brasil não será diferente e, para piorar, o preço dos principais produtos que o Brasil exporta (commodities) estão caindo em função da projeção de uma demanda global menor ao longo deste ano. A boa notícia vem do câmbio que tende a ficar desvalorizado, compensando parte do arrefecimento no preço de produtos importantes na nossa pauta de exportação. O volume exportado até o final de maio está bom, contudo, o preço mais baixo acaba reduzindo o valor das exportações brasileiras. Apesar disso, a balança comercial deve fechar o ano positiva, na medida em que a queda nas exportações será menor que o tombo das importações (que está sentindo a forte retração da atividade econômica interna). Esse movimento já pôde ser visto em abril e maio, e deve prosseguir no curto prazo.

O que nos aguarda no mundo pós pandemia com a guerra comercial entre EUA x China?

Quando os efeitos do isolamento arrefecerem, um ponto importante, e que estava interferindo antes do Covid-19 na nossa pauta externa, será a guerra comercial entre EUA e China, que voltará ao debate. Temporariamente interrompido pela Covid-19, sua retomada pode prejudicar o fluxo de comércio em função da ampliação do protecionismo. Em resumo, o câmbio tende a continuar beneficiando as exportações, por outro lado, a expressiva retração da economia mundial e o possível aumento de medidas de restrição ao comércio, podem prejudicar nosso desempenho comercial externo no curto e médio prazo. Esse cenário fica menos animador quando observamos os desdobramentos de uma política externa que foge do padrão que quase sempre foi adotado pelo Brasil. É o tempero final, com gosto amargo, que pode colocar em xeque as relações com a China, além de prejudicar o andamento de acordos comerciais não finalizados, como o do Mercosul com a União Europeia.

Qual a importância das reservas especialmente neste momento de pandemia?

O Brasil é um dos poucos países em desenvolvimento que dispõem de um patamar confortável de reservas internacionais. Isso representa um custo que temos que ‘carregar’, porém neste momento de grande instabilidade e de queda no ingresso de divisas, possuir a capacidade de disponibilizar um aumento na oferta de moeda estrangeira no mercado doméstico é de fundamental importância. Esse movimento pôde ser percebido nos últimos meses pelo Banco Central do Brasil, que veio atuando, depois de muito tempo, no mercado à vista, auxiliando na contenção de uma desvalorização mais acentuada do Real. De todo modo, sabemos da saída significativa dos investimentos em portfólio, que em 12 meses encerrados em abril, acumulamos perdas de mais de US$ 49 bilhões, e da perspectiva de redução do fluxo de investimento direto para o Brasil em 2020.

Por que essa mudança tão repentina no comportamento das reservas?

Um ponto importante para entendermos o motivo da redução no volume do ingresso de divisas no país em 2020 é o atual diferencial de juros. Tradicionalmente, o país tinha uma diferença significativa entre os juros domésticos com as taxas praticadas nas economias centrais, dos Estados Unidos, em especial. Contudo, implementamos uma agenda de controle de gastos que permitiu a estabilização da dívida pública, possibilitando uma redução mais agressiva da taxa de juros Selic. Além disso, temos uma perspectiva deflacionista para a economia brasileira, que abre espaço para uma nova redução da Selic, sinalizando uma taxa de juros que deve permanecer em seu piso nominal histórico. Para finalizar, temos um risco país que cresceu nos últimos meses e a perspectiva de crescimento da dívida pública. Fica nítido que o investidor estrangeiro está mais desconfiado em direcionar seus recursos para o Brasil, associado a um ambiente de prolongamento da crise da economia brasileira. Nesse sentido, a tendência é de queda na entrada de investimento em portfólio e direto. Mais um motivo para entendermos a importância de possuirmos um nível elevado de reservas. Em resumo, a tendência das reservas internacionais do Brasil é de diminuir em função dos movimentos que prejudicam o ingresso de divisas no país em 2020.

Qual deverá ser o tamanho dessas perdas?

Vai depender da melhora da atividade econômica mundial e brasileira, no andamento de uma vacina para a Covid-19, da continuidade de medidas anticíclicas implementadas pelas principais economias e seus bancos centrais e pela disponibilidade do mercado doméstico em financiar nossa dívida com trajetória crescente.

Que setores da economia brasileira poderão ser mais beneficiados?

Pontualmente, alguns segmentos da economia brasileira serão beneficiados pela crise. Por exemplo, a indústria de álcool gel, equipamento de proteção individual, plástica e papel ondulado, equipamentos e acessórios hospitalares e o varejo de bens de consumo não duráveis, especialmente os essenciais. De todo modo, esses resultados não são significativos no conjunto da economia e, para piorar, são impactos de curto prazo e que não terão uma continuidade em função da forte retração que vai acontecer com a renda e expectativas.

O agronegócio não pode mudar esse cenário?

Mesmo o agronegócio está sentido os impactos adversos da crise provocada pelo Covid-19. Existe um visível esforço empresarial para contornar as dificuldades impostas pelo distanciamento controlado, mas ele não é suficiente para fazer frente ao tombo das expectativas dos consumidores sinalizando um resto de 2020 muito difícil. Não por acaso, os resultados do produto interno bruto (PIB) para o primeiro trimestre do presente ano já apontam uma forte queda no consumo das famílias.