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Uma nova agenda global


Paulo de Tarso Pinheiro Machado

Economista, MSc em Agronegócios, PÓS-MBA em Governança Corporativa e Riscos
Corecon-RS Nº 3639

 

Qual o tamanho dos estragos na economia mundial decorrentes da crise gerada pela Covid-19?

A pandemia da Covid-19 caracteriza-se como uma crise sanitária, portanto, distinta de crises anteriores, como a da Grande Depressão, em 1929, do petróleo, em 1973 e 1979, e do sistema financeiro norte-americano, de 2008 a 2009, considerando que aquelas foram crises cíclicas e endógenas ao funcionamento do sistema econômico. Quanto aos seus impactos, em nível global, a pandemia atingiu mais de 150 países no mundo, gerando um expressivo contingente de pessoas infectadas, ceifando vidas, bem como disseminando fortes impactos à economia global. Os impactos mais expressivos na economia mundial, ainda estimados, estão a indicar que a paralização da economia global atingiu 50% do PIB mundial, segundo a consultoria inglesa Oxford Economics, excluindo a China que retomou sua atividade mais cedo em relação a outros países. O Fundo Monetário Internacional (FMI) prevê que a economia mundial experimente o pior desempenho desde a Grande Depressão, observando que o PIB mundial deva recuar 3% diante de uma projeção anterior de crescimento de 3,3%.

E os efeitos dessa crise na América Latina?
A Comissão Econômica para a América Latina (Cepal), uma das cinco comissões regionais das Nações Unidas para o desenvolvimento da América Latina e do Caribe, antevê sob forte desalento, o baque que esta crise sanitária provocará em uma região sempre exposta aos vaivéns das matérias-primas, da manufatura, do turismo e das remessas, diante da “freada brusca” da atividade econômica em escala global. O choque será particularmente forte em uma métrica-chave do desenvolvimento social, a pobreza extrema. Segundo os dados do organismo, se o avanço da pandemia provocar uma queda de 5% na renda média da população ativa, o número de latino-americanos em extrema pobreza passará dos 67,5 milhões atuais para 82 milhões. Se a diminuição da renda da população economicamente ativa for de 10%, o número disparará para 90 milhões de pessoas, ou seja, 22 milhões de pessoas a mais em relação ao número atual. No plano macroeconômico, a Cepal prevê um golpe múltiplo para a América Latina, basicamente através de seis eixos: diminuição da atividade econômica em seus principais parceiros, Estados Unidos, Europa e China, barateamento das matérias-primas, interrupção das cadeias globais de valor, menor atividade turística, redução das remessas e intensificação da aversão ao risco nos mercados mundiais.

De forma geral, o que esses órgãos estão estimando para o Brasil?
O FMI também estima queda de 5,3% na atividade econômica brasileira em 2020 cotejada com a projeção anterior que apontava crescimento de 2,2% no PIB. O Fundo calcula que a taxa de desemprego do país vai alcançar 14,7% no ano. Outra tendência de impacto expressivo é a grande desmobilização no segmento de micro e pequenas empresas (MPEs), onde estimativas preliminares apontam que até o último mês de abril, mais de 70% do faturamento deste grupamento foi afetado, podendo ser maior ainda caso a pandemia se prolongue até a metade deste ano. A pandemia da Covid-19 representa a postergação para o tão necessário e desejado processo de retomada do crescimento do PIB brasileiro, onde a expansão da atividade econômica, o nível de ocupação, cuja a tendência é de um aumento inevitável da taxa de desocupação e no número de desalentados, e a capacidade de investimento tendem a ser fortemente impactados pelos efeitos da crise pandêmica. Diante deste panorama é possível antever que os efeitos econômicos não serão de curta duração e que seus impactos poderão trazer prejuízos irreversíveis a estrutura econômica mundial e brasileira.

O que fica, dessa crise, de positivo para países em desenvolvimento?
Em que pese todos os efeitos deletérios à vida da humanidade gerados pela pandemia da Covid-19, a mesma poderá se caracterizar como um aspecto “acelerador de futuros”, pelo fato de antecipar e acelerar mudanças que já estavam em curso, como o trabalho remoto, a educação à distância, a busca por sustentabilidade e a cobrança, por parte da sociedade, para que governos, organizações e empresas sejam mais responsáveis do ponto de vista social. Proporcionará, ainda, uma reflexão e revisão dos atuais Modelos Econômicos e de Governança Global, a fim de acelerar o processo de recuperação e retomada da normalidade econômica e social do planeta. Nesse sentido, a predição da professora e futurista Amy Webb, da Escola de Negócios da Universidade de Nova York, sintetiza que “a vida depois do vírus será diferente”, onde “teremos uma escolha a fazer: queremos confrontar crenças e fazer mudanças significativas para o futuro ou simplesmente preservar o status quo?”

O que muda no cenário internacional no período pós-pandemia?
A pandemia alerta e impacta a governança global, sobre uma maior atenção à integração das ações comunitárias e a capacidade do Estado, em especial, no papel central dos estados-nação e das cidades como primeiros socorristas. A Covid-19 traz evidências, como a reintrodução do debate sobre o papel do Estado diante de uma crise sanitária, onde a cidadania recorre diretamente aos governos - e não ao setor privado - gerando expectativas, insegurança e desconfiança sobre a capacidade de atendimento dos mesmos. Isso, no Brasil, agravou-se, gerando tensionamentos políticos e administrativos entre o Governo Federal e os Estados e Municípios, os quais procuraram seguir critérios científicos e técnicos para tentar proteger seus cidadãos. Da mesma forma, apontou as falhas globais de cooperação e a capacidade de respostas internacionais e regionais diante do grau de deterioração do multilateralismo, anterior à pandemia, que implica em um elevado custo econômico e social.

Estamos caminhando para uma nova agenda global?
Embora ainda não seja possível pautar que mudanças poderão ocorrer, existe algumas crenças otimistas, difusas e compartilhadas por analistas internacionais de que poderá haver um "boom" econômico pós-coronavírus, embora ninguém saiba dizer quando e a que custo. Por sua vez, uma corrente com uma visão menos otimista destaca os entraves e demandas para uma possível reconfiguração da ordem econômica mundial depois de passada a crise. No entanto, a agenda global pós-crise da Covid-19 deverá conter, entre outros, pontos de pauta anteriores e novos a crise, tais como o acirramento da guerra comercial entre EUA e China, com desdobramentos decorrentes das idiossincrasias de Washington e Pequim, cujos efeitos podem reconfigurar a estrutura das cadeias de abastecimento espalhadas pelo mundo, a partir da narrativa do Presidente dos EUA, Donald Trump, afirmando que “We will need to do things at home” (“Precisaremos fazer as coisas em casa"), ao declaração expressa na reativação do Defense Production Act (Ato de Defesa da Produção dos EUA - abril de 2020), tema que, também, desperta interesse marginal da Inglaterra; maior frequência de comportamentos protecionistas, face aos problemas gerados pela pandemia; a agenda de reorganização da União Europeia após a saída da Inglaterra com as preocupações econômicas da Itália e Espanha; a reorientação da governança global para uma atuação mais ativa, assertiva na mediação de conflitos internacionais com o apoio de seus organismos multilaterais; esforço da China em demonstrar para a percepção global, maior protagonismo humanitário pós-crise, junto a OMS, valendo-se do vácuo promovido pela renúncia colaborativa e financeira dos EUA ao organismo.

Até que ponto a China sai ainda mais fortalecida dessa crise?
O surto afetou a China num momento delicado para sua economia, cujos danos impactam, fortemente, seus indicadores de consumo e atividade econômica. A economia chinesa, antes da pandemia, já experimentava um período de desaceleração e os efeitos causados pela pandemia da Covid-19 registraram a primeira contração em quase 30 anos, tendo o PIB chinês desabado 6,8% no 1º trimestre de 2020, na comparação com o mesmo período do ano passado. A disseminação do surto de coronavírus e as rigorosas medidas de quarentena impostas para contê-lo, bem como o menor consumo de empresas e indivíduos, levantam dúvidas sobre a força de uma possível recuperação. Os dados da atividade econômica mundial sinalizaram recentemente uma recuperação moderada, graças ao fato de que a primeira fase do acordo comercial entre a China e os EUA foi mais ampla do que o esperado. Entretanto, a China, como a segunda maior economia do mundo, elevada capacidade de investimento e, grande centro de produção e suprimento das cadeias globais, deverá observar uma recuperação gradativa na sua atividade econômica, em função da sua magnitude, mas principalmente pelo abalo a demanda agregada. Mesmo que o País tenha uma pequena vantagem competitiva pelo fato de ter encerrado a crise pandêmica mais cedo, em relação a outros países, a demanda doméstica levará algum tempo para normalizar, visto que o consumo relacionado aos agrupamentos sociais ficou contido, bem como a demanda externa foi prejudicada pela disseminação externa do surto.

Como fica a disputa pela hegemonia mundial, especialmente entre EUA e China?
Sob o enfoque geopolítico, EUA e a China se tem, reciprocamente, como adversários estratégicos, sendo que nos últimos anos cresceu a competição entre os dois países pela hegemonia global. Os EUA, com políticas de isolamento e ampliação de ações confrontacionistas, protecionistas, nacionalistas e xenófobas, que dificultam a interdependência dos países, como ocorre com a globalização. A China desenvolve uma política agressiva com a expansão e consolidação das suas relações de comércio externo com o resto do mundo. Esta nova faceta de uma “guerra fria” econômica, propõe uma nova fase da confrontação, evidenciada por iniciativas chinesas como a Rota da Seda, pela competição nas redes 5G e, de parte americana, por conflitos sobre propriedade intelectual e inovações tecnológicas.

E onde o Brasil entra, nessa disputa?
A economia brasileira, desde 2015, vem submetida a um desempenho crítico expresso no comportamento do seu PIB, tendo apresentado, no período 2015-2019, taxa média de crescimento negativa de 0,9 % ao ano, em relação à ocupação. Embora tivesse havido um declínio, o Brasil vem experimentando uma elevada taxa de desemprego de 11,2%, segundo dados de fevereiro, do IBGE, o que corresponde a 12 milhões de pessoas e, somados a 11,6 milhões de empregados sem carteira assinada e 24,2 milhões são trabalhadores por conta própria, o que contribui para a queda da massa salarial e da renda média do trabalho. Ainda neste cenário sombrio, o País registra uma das piores trajetórias das taxas de investimento da economia na última década. O Brasil apresentou uma taxa de investimentos média durante o período 2010-2014, de 20,5% do PIB. Porém, com a recessão que se iniciou no segundo trimestre de 2014 e foi até o fim de 2016, a taxa de investimento desabou, sendo de 15,5% no primeiro trimestre de 2019, portanto 5% menor que a média do período 2010-2014. Foram quatro anos, de 2014-2017, de queda real dos investimentos.

Até que ponto as medidas que vinham sendo tomadas pelo governo federal para recuperação da economia antes da crise se refletem positivamente para o enfrentamento deste atual momento?
Antes da Covid-19 chegar ao Brasil, o Governo Federal, com o objetivo de retomar o crescimento, vinha buscando implementar uma agenda de ajustes necessários, entre os quais o controle dos gastos públicos para a obtenção do equilíbrio fiscal, o encaminhamento, ao final de 2019 ao Senado, de uma proposta de emenda à constituição do Pacto Federativo (PEC 188/2019), visando direcionar aos estados e municípios até R$ 400 bilhões em 15 anos, e propondo uma flexibilização orçamentária para “desengessar” a gestão pública através das contas do Tesouro as quais, 67% das despesas primárias da União são indexadas. A PEC proposta pelo Governo tem como foco descentralizar, desindexar e desvincular o orçamento e como resultado reestruturar o pacto federativo. Com a chegada da pandemia, o Governo teve que reorientar sua estratégia ao liberar, no início de abril, cerca de R$ 200 bilhões em medidas para socorrer trabalhadores e empresas e ajudar estados e municípios no enfrentamento aos efeitos da crise provocada pela pandemia do novo coronavírus. O Governo Federal, também, transferiu R$ 16 bilhões para os fundos de participação dos estados e dos municípios, para reforçar os sistemas de saúde e segurança. Com todo este cenário o Brasil deverá ter, no pós-pandemia, muitos obstáculos para se recuperar economicamente devido ao agravamento das condições de setores como o comércio, serviços, turismo e, alguns segmentos da indústria. Perspectivamente, o setor externo onde o agronegócio brasileiro tem forte competitividade, a partir de um provável acirramento da guerra comercial entre China e EUA, a qual gerou oportunidades para o Brasil em 2018 com o crescimento das exportações brasileiras para a China em 35% na comparação com 2017, gerando uma balança comercial positiva para o Brasil em US$ 30 bilhões.

A atual crise está provocando mudanças na concepção de investimentos?
A pandemia da Covid-19, embora se caracterize como uma crise de natureza sanitária, em termos econômicos tem o mesmo efeito de uma guerra, onde a mobilização é intensa e exige a intervenção maciça do Estado na economia para impulsionar os esforços de combate, neste caso, pela saúde e preservação das vidas. Nos casos de crises originadas por guerras, com proporções ampliadas, às quais tiveram seus efeitos disseminados ao mundo inteiro, resultaram em medidas adotadas pelos governos, voltadas ao aumento de impostos para pagar seus custos e controlar a inflação decorrente da assimetria entre a demanda e a escassez de estoques. Essa dinâmica, por vezes, gerou a retomada do emprego com a melhoria na taxa de ocupação e aumento da massa salarial, bem como um redirecionamento nos investimentos para a reconstrução econômica dos países afetados. Agrega-se a isso, a constatação de que a experiência compartilhada, de medo, mortes, racionamento e estar sob ataque, provocou uma mudança de atitude dos agentes econômicos no sentido de haver mais apoio no pós-guerra a políticas de redistribuição de renda. Esta dinâmica, observada logo após a Segunda Guerra Mundial, levou o Ocidente a estimular maciços investimentos em saúde pública, educação, previdência e uma rede de proteção culminando no desenvolvimento de um Estado de Bem-Estar Social. No caso dos efeitos da Covid-19, os países afetados e seus Bancos Centrais promoveram “pacotes” econômicos, como forma de compensar os impactos da pandemia através de medidas e instrumentos fiscais voltados ao combate do vírus, bem como assistir segmentos sociais pela perda de renda, como foi o caso do Brasil. Tais medidas foram importantes para corrigir alguns problemas imediatos na Renda Fixa, visto que mercado passou a apresentar alta volatilidade e preços com pouca referência devido à falta de liquidez. Nesse sentido, alguns Bancos Centrais passaram a prover a necessária liquidez à Renda Fixa, em busca do retorno à normalidade dos preços destes ativos.

Mas essas medidas certamente trarão impactos ali na frente?
Como decorrência, face à magnitude das medidas adotas, deverá ocorrer um aumento do endividamento público, como forma de financiar esse esforço. No caso das economias emergentes, estas podem ter um rebaixamento de seu risco-país, uma vez que a demanda por seus títulos de crédito não é tão alta e recorrente quanto a das economias desenvolvidas. Sob a ótica dos investimentos, todo este contexto aponta para um cenário de incertezas, onde poderá ocorrer, desde a priorização de títulos de países desenvolvidos em setores não cíclicos e papeis do tipo investment grade em empresas de tecnologia, energia elétrica, farmacêuticos e supermercados. Por sua vez, setores que foram fortemente impactados pela crise, como aéreo, turismo, petróleo, automotivo, varejo e de químicos, podem se caracterizar como investimentos atrativos a partir da necessidade de sua recuperação e de capital. Entre as expectativas do cenário pós-pandemia, o mundo deverá estar com a atenção voltada para os movimentos de retomada econômica pela China e pelos EUA, cujos desdobramentos deverão ter papel decisivo no cenário econômico e no rumo dos investimentos.