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Cenários e linhas de financiamento em momentos de crise



Rogério Tolfo
Economista, consultor de empresas na área Financeira e de Projetos,
ex-presidente do Corecon-RS
Corecon-RS Nº 5773


Como planejar cenários para empresa em momentos de crise?

Planejar cenários é extremamente desafiador. A crise não tem causa econômica. É uma pandemia que está gerando sérios problemas financeiros e econômicos em escala mundial. Há severas restrições ao funcionamento do comércio e de empresas em geral, bem como à circulação de pessoas. Funcionários estão sendo colocados em férias, estão com atividades paralisadas ou, mesmo, sendo demitidos. Não sabemos ao certo o tempo que vai levar e menos ainda como se dará o processo de retomada. Mas não podemos nos iludir com uma retomada rápida, pois pode levar um tempo muito grande para os mercados voltarem ao normal. Considerando toda essa situação, fica muito difícil planejar, ao mesmo tempo em que é fundamental traçar cenários, encolher e adaptar o negócio à esta nova situação, gerada por eventual queda nas vendas e nas receitas. Entendo que analisar o mercado em que a empresa está inserido, conversar com fornecedores e clientes seja fundamental.

Que tipo de cuidados o empresário deve ter para manter o funcionamento da cadeia produtiva neste momento de crise?

Tenho percebido muita cobrança das empresas junto a seus clientes e não vejo o mesmo cuidado médio com os fornecedores. Ou seja, muitas vezes a cobrança é forte, bem sucedida, mas não há contrapartida em honrar os pagamentos. Se as ações de entender o novo porte do mercado e a carência de recursos nesse momento não for coletiva, a produção pode vir a parar, mesmo havendo mercado para vender e girar. Para grande parte das empresas, o mercado mudou, encolheu, logo, é necessário se adaptar. E sugiro que isso seja feito coletivamente, englobando fornecedores e clientes, pois, assim, todos tendem a se manter atuando.

Qual a maior preocupação do empresário neste momento de crise?

Acredito que seja honrar os custos fixos e salariais. Mesmo que a produção pare abruptamente, a empresa segue tendo obrigações que não estão diretamente atreladas à geração de receita, como aluguel, por exemplo, ou despesas administrativas em geral, entre outras. Além disso, as vendas caem, mas as empresas carregam do mês anterior custos e despesas a pagar num cenário de incerteza de que os clientes vão efetivamente cumprir com os pagamentos. Para empresas de menor porte, que giram através de sua receita imediata, é fundamental criar alternativas para manter um certo nível de receita. Crises tendem a propiciar momentos para empresas e negócios se reinventarem, fazerem diferente, serem criativas e se manterem no mercado. E aí pode estar a solução para muitas sobrevirem a essa "tempestade".

Como está hoje a situação das linhas de crédito no Brasil, neste cenário de crise econômica, agravado pelo coronavírus?

Há recursos disponíveis em bom volume e muitas empresas interessadas. O BNDES foi ágil nessa crise gerada pela pandemia e fez ajustes em sua linha de capital de giro, elevando o potencial dos tomadores para empresas/grupos econômicos que faturem até R$ 300 milhões anuais. Porém, grande parte das empresas que pleiteiam o recurso tendem a ser atendidas por agentes financeiros repassadores, que abraçam o risco da operação. E, isso, num momento de dificuldades econômicas, tende a gerar uma seletividade dos bancos na concessão do crédito, foco em bons clientes e boas empresas. Isso é ajudado pela forte demanda por crédito. Não estou afirmando que isso é errado. O mercado é assim. Mas tende a fazer com que muitas empresas não sejam atendidas. Agrava a situação o fato de que há exigência, em grande parte dos casos, de que as empresas que pleiteiem crédito apresentem bens imóveis em garantia.

Como obter, neste momento, sucesso na busca das linhas de crédito?

Acredito muito em planejamento. Antes de qualquer coisa, cabe à empresa traçar cenários (mesmo que o melhor cenário seja muito complicado, melhor lidar com a realidade), analisar o mercado onde está inserida, conversar com clientes, fornecedores. Perceber o que está acontecendo e se inserir nesse contexto. Entender em que grau vai precisar encolher sua operação, em função de queda nas vendas, e negociar, reduzindo custos e despesas e eliminando aqueles desnecessários. Fazer o dever de casa, como se diz. E calcular a real necessidade de capital de giro, com base nos cenários traçados. Aí sim, tendo um plano de negócios, de ações, transformado em números, buscar o financiamento necessário. Isso tende a ter uma aceitação muito melhor por parte dos agentes financeiros. Não garante aprovação do crédito, já que bancos inicialmente analisam o risco, mas ajuda. Tenho visto casos de pleitos de capital de giro, com base em solicitar dois meses de receita em financiamento. Mas se o problema perdurar no terceiro mês, como fica? Por mais que o financiamento tenha carência, não aconselharia uma empresa a tomar financiamento com base nesse critério ou falta de um, pois a conta para pagar vai chegar. Não se pode ficar esperando a crise passar sem fazer o dever de casa. É necessário se adaptar ao momento.

Qual a importância da ação do governo neste momento?

Sou favorável ao ajuste fiscal que o governo federal vinha implementando. Mas o momento agora requer ação (gastos) e que o mesmo seja posto de lado para ser retomado oportunamente. Ficando na linha empresarial, que foi o foco dessa entrevista, vale ampliar valores e facilitar o acesso ao crédito. Impulsionar esse mercado usando os bancos públicos. Importante ter em mente que micro e pequenas empresas geram empregos em volume expressivo no país e que a manutenção do funcionamento dessas empresas é importante na manutenção do emprego e renda. E justamente esse perfil de empresa muitas vezes possui restrição e dificuldades de tomar financiamento. Saúdo as medidas tomadas até o momento pelo Governo Federal, na área econômica. Entendo que serão ampliadas e acredito que todos os segmentos, empresarial, trabalhadores públicos e privados, governos, terão que, de alguma forma, dar sua parcela de colaboração para que o país passe pela crise do melhor modo possível.