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SELO ENEF

Ambiente escolar e obesidade

Giovana Menegotto

Economista, Doutoranda em Economia/UFRGS

Corecon-RS Nº 8673

 

Sobre o que trata a tese de mestrado “Ambiente obesogênico escolar e obesidade em adolescentes brasileiros: teoria e evidências”?

A dissertação avaliou a relação entre ambiente escolar e excesso de peso em adolescentes, analisando o caso brasileiro a partir de um modelo econométrico.

Como estão os parâmetros de obesidade em adolescentes no Brasil?

Estimativas recentes realizadas a partir da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar, em 2015, mostram que 23,7% dos escolares, de 13 a 17 anos, têm excesso de peso. Ou seja, quase um em cada quatro escolares nessa faixa etária já estão acima do peso. A prevalência de obesidade estimada foi de 7,8%.


É um problema da escola ou da família?

A obesidade decorre de uma interação de fatores, tanto individuais quanto ambientais. Aspectos individuais têm um peso maior no desenvolvimento da obesidade, enquanto aspectos ambientais têm menor peso. As escolas, mesmo com uma menor participação relativa no desenvolvimento do problema, fazem parte da solução. A mudança de hábitos familiares é algo extremamente difícil. o ambiente escolar, por sua vez, pode se adaptar, sendo o local ideal para incentivar e oportunizar comportamentos diferentes que levem a escolhas mais saudáveis.

Quais os principais aspectos do ambiente escolar que estão associados ao excesso de peso?

A configuração de um ambiente escolar, seja física ou em termos de políticas, tem influência sobre o comportamento dos alunos. Em estudos transversais com escolares adolescentes, embora não haja homogeneidade de resultados, a disponibilidade de alimentos não saudáveis nas escolas é o aspecto mais frequentemente apontado como associado ao excesso de peso pelos resultados de estudos transversais. Além desse, políticas e práticas alimentares, assim como políticas relativas à atividade física, também são identificados como associados ao problema, de forma que, apesar de não haver uma única questão, a literatura aponta para a importância do ambiente escolar em relação ao excesso de peso.

Existe falta de disciplina familiar ou falta de controle governamental?

A questão da obesidade é muito complexa para ser reduzida a uma coisa ou outra. Uma conduta externa ao hábito de uma família tem chances limitadas de se tornar um comportamento recorrente, ou seja, disciplina familiar sozinha não tem força para fazer frente ao problema da obesidade. Não há como falar em falta de controle governamental, mas sim de esforços focalizados que contribuam para frear a obesidade. Afinal, sem esforço, a epidemia da obesidade não recuará e, portanto, seus altos custos aumentam – não apenas os diretos, mas também os prêmios de seguradoras de saúde e perdas de produtividade.

A obesidade está relacionada à faixa socioeconômica?

Em países desenvolvidos, a literatura aponta para uma relação inversa, ou seja, melhores condições socioeconômicas, menor associação com obesidade. em países em desenvolvimento, os estudos indicam uma relação direta, de forma que menores taxas de obesidade estão associadas a maiores faixas socioeconômicas.

O que fazer para amenizar o problema?

Apesar de o combate à obesidade exigir esforços sinérgicos, a escola é um dos locais focais para fazer frente ao problema. As escolas são o lugar onde crianças e adolescentes passam grande parte do seu dia. Nesse ambiente, aspectos não saudáveis incentivam comportamentos de risco ao excesso de peso, de forma que diferentes configurações do ambiente escolar podem fazer diferença sobre o estado nutricional dos alunos. Assim, deve haver um direcionamento para que as escolas adotem políticas e ações que oportunizem hábitos e escolhas saudáveis. O caminho, para tanto, passa pelo fortalecimento do Programa Saúde na Escola (PSE), principal programa nacional de promoção à saúde do escolar, combinado a medidas mais assertivas, como, por exemplo, regular a venda de produtos não saudáveis nas cantinas.

Que tipo de políticas públicas vêm sendo aplicadas no País?

O principal programa, em âmbito nacional, que tem o combate à obesidade como um dos seus eixos, é justamente o PSE, criado em 2007. Com diretrizes nacionais, a atuação acontece na rede pública de ensino sob a gestão dos municípios, juntamente com as equipes de Saúde da Atenção Básica. Além disso, é importante destacar que há um esforço crescente do Ministério da Saúde em alinhar com a comunidade científica a agenda de pesquisa sobre o combate à obesidade, seus custos e avaliações de custo-efetividade de programas e ações.

Qual a importância da participação do Economista na elaboração dessas políticas públicas?

As políticas públicas precisam ser baseadas em evidência, utilizando técnicas econométricas apropriadas é possível identificar, a partir dos dados, quais são os aspectos que merecem atenção e, assim, orientar a alocação de recursos dessas políticas. A falta de conhecimento não pode ser uma barreira à formulação de políticas públicas assertivas. Os recursos são escassos, temos de saber identificar onde alocá-los.