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Como organizar os compromissos de final de ano

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Alexandre Reis
Economista, professor universitário, consultor financeiro
Corecon-RS Nº 7273

 

Quando uma pessoa pode ser considerada que está endividada?
Não há um critério único que estabeleça o endividamento de uma pessoa ou empresa. Porém, quando de fato as despesas superam as receitas e esta pessoa não possui renda extra para suprir essa demanda, com toda a certeza, este indivíduo encontra-se em situação de endividamento. Quando, por exemplo, alguém deixa de pagar uma conta no mês, isso não se caracteriza endividamento, mas a continuidade desse ato, ou seja, o acúmulo da dívida por falta de renda será sim uma questão de endividamento. Da mesma forma, quando uma pessoa adquire muitas dívidas, por exemplo, com carro, habitação, cartão, crédito consignado, etc, e essas contas, somadas, superam a sua renda mensal, também se torna um caso de situação de endividamento. O endividamento pode ser passageiro. O problema é quando se torna contínuo. Muitos fatos levam o indivíduo a se endividar. Porém, a falta de um planejamento pessoal é o principal fator desencadeante e explicativo do aumento do endividamento. De fato, temos que introduzir, na cultura e nos princípios das famílias, o aprendizado da educação financeira.

Quais os cuidados que as pessoas devem ter para não se endividarem com compras de final de ano?
O primeiro passo é ter organização financeira. Fazer um detalhamento de suas rendas e daquilo que você vai receber de extra, como o 13º salário. Não comprar por impulsão e sim o que realmente se está precisando. Procurar avaliar os produtos e serviços, como preço e qualidade, e ter certeza de que está necessitando mesmo daquele produto. Procurar comprar à vista e buscar condições que estão de acordo com o seu orçamento. Em suma, planejar é a melhor receita.

Que tipo de produtos costumam ser a "maior tentação" nesta época do ano?
Varia muito. Mas considero que, dado o momento de hoje, são os produtos tecnológicos que chamam mais atenção. A oferta desses produtos é constante e contínua e sempre tem uma oferta diferente.

Como separar os gastos destinados às festas de fim de ano dos principais compromissos financeiros que se renovam a cada início de ano, como tributos, impostos, despesas escolares, entre outros?
O ideal e o certo seria listar todas as despesas e fazer uma previsão de quanto se vai gastar com elas. Caso tenha promoção de algum produto indispensável, seria interessante antecipar sua aquisição. No caso dos materiais escolares, é importante, primeiramente, verificar esses preços, avaliar e acompanhar a lista solicitada na Escola para, depois sim, tomar a decisão de compra. Nem sempre optar pelo estoque pode ser uma boa alternativa. Normalmente, nesta época do ano, por se ter muitos compromissos financeiros, uma avaliação mais agregada pode ser a melhor resposta para a tomada de decisão, até porque podem surgir várias promoções nos meses posteriores. No caso dos tributos, como IPVA e IPTU, seria interessante verificar o percentual de desconto das contas a pagar, acompanhado de uma análise de compensações com aplicações financeiras. Comparar esses ganhos com juros do parcelamento e, depois, decidir de forma ponderada e de acordo com a sua organização orçamentária. É importante lembrar que cada família possui uma estrutura de contas. Podem existir semelhanças, porém a avalição é pontual e específica em cada família e empresa.

Que épocas do ano são mais propícias ao endividamento?
Todos os momentos podem gerar endividamento. No entanto, o final e início de ano normalmente são períodos mais complicados pelo acúmulo de compromissos a serem pagos pelas famílias e pelas empresas. É importante ressaltar que o cuidado com o orçamento doméstico deve ser diário e mensal para que se evite maiores problemas. Fazer qualquer tipo de poupança, por exemplo, pode minimizar esse fenômeno.

Depois de três anos de crise na economia brasileira, como estão os níveis de inadimplência das famílias?
Ainda se encontram bem acima do normal. Muitas famílias têm dívidas, em sua maioria, com os cartões, habitação, veículos e outros financiamentos. Ainda há o problema do desemprego, que é muito alto no país, e os parcelamentos de salários, que dificultam muito a organização financeira da família. Nas grandes cidades, a inadimplência e o endividamento são altos. Neste ano, principalmente no segundo semestre, percebeu-se uma leve retomada da trajetória da economia, mas uma retomada de forma lenta e gradual. Melhorando a distribuição de renda e o emprego, a tendência é a volta da dinâmica econômica e, assim, a diminuição da inadimplência e do endividamento, que de fato é o problema maior em nossa sociedade.

Qual o recado que fica?
Não esmorecer na tarefa de se preocupar e organizar a sua gestão financeira. Pode ser complexo, mas muito necessário para o seu futuro.