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SELO ENEF

O mercado e o novo governo

gustavo moraes

 

Gustavo Inácio de Moraes

Economista, Coordenador Curso de Ciências Econômicas PUCRS
Corecon-RS Nº 7863

 

O recado sobre economia dado pelo candidato eleito Jair Bolsonaro em seu discurso de vitória tem como objetivo confirmar suas pretensões liberais?

Sem Dúvida, tem pretensões de acalmar e estimular o mercado na tentativa de angariar o seu apoio no encaminhamento das propostas que o governo pretende apresentar, especialmente na busca pelo melhor ordenamento das contas públicas federais. Uma vez que dispõe do apoio popular, o apoio do mercado financeiro é uma outra maneira de criar legitimidade para melhor comunicar o que se pretende nas medidas em relação à sociedade. As pretensões liberais, contudo, serão confirmadas no decorrer do governo. Há, talvez, uma tensão dentro dos grupos de assessoramento e apoio político sobre a condução da política econômica, item reconhecido como de frágil compreensão própria pelo novo presidente. Assim, pode-se esperar polêmicas em temas como privatização, orçamento das forças armadas e previdência do regime próprio, civil e militar.

Como o mercado recebe a eleição do Bolsonaro?
Acredito que o mercado receba com a melhor das impressões, mesmo que o candidato, agora eleito, não tenha aprofundado suas temáticas durante a campanha. Por incrível que possa parecer, a crise econômica não foi o principal item de discussão e análise, mas antes pautas como segurança pública e questões de comportamento.

Mas e por que o otimismo do mercado?
A principal razão para o otimismo do mercado é a companhia de Paulo Guedes ao candidato e sua equipe de assessores, dentre os quais destaco a presença do professor e ex-deputado federal Marcos Cintra, com propostas para a reforma tributária. A perspectiva de, portanto, o novo governo adotar pautas liberalizantes, especialmente privatizações e reformas tributárias e previdenciárias, são potenciais agentes de atração de recursos na forma de investimentos em portfólio ou investimentos diretos estrangeiros. Contudo, é preciso cautela, pois essa mesma equipe econômica tem limitada vivência política, bem como a base de deputados aliados ao Bolsonaro, sobretudo em seu partido, o PSL, formada em sua maioria por novatos no processo político parlamentar. Outro risco é ainda a perda de popularidade, visto que estamos falando de alguém que até o momento cresceu politicamente conectado ao sentimento popular. Na hipótese de a popularidade diminuir, acredito que a perspectiva de um populismo econômico não estaria descartada. As pesquisas de popularidade serão um termômetro para o mercado também.

O empresariado já pode se sentir mais seguro para investir ou ainda deverá esperar a posse propriamente dita?
Acho que dependerá da forma como o governo irá se consolidar. O candidato demonstra uma maturidade inédita em sua carreira política, em seus pronunciamentos recentes. Há que se observar a consistência desse estado de espírito. De outra parte, o governo reúne excelentes condições para alcançar maioria no Congresso, realizando uma aliança com partidos como DEM, PP, PR, PRB, PTB, PSC e, até mesmo, o MDB e o PSD, pelo menos, que, juntos ao PSL, somam 239 cadeiras, ou seja, próximos da maioria.

Que cuidados o governo Bolsonaro deve priorizar neste primeiro momento?
Será importante o novo governo diminuir, entretanto, o cenário de indefinição relacionado ao clima de confronto na sociedade e entender que pautas envolvendo comportamento e segurança podem ser encaminhadas posteriormente, legitimadas pelos resultados na economia. O primeiro grande nó da economia brasileira é um nó fiscal. As propostas que equacionem esse aspecto são as mais urgentes. O segundo grande nó é como encaminhar as questões relativas à produtividade e obtenção de crédito consistente para permanente atualização do parque produtivo da indústria e dos serviços.

Que setores deverão reagir com maior velocidade à expectativa de recuperação da economia?
Acredito que o setor de não duráveis já possui um comportamento que mostra reação. A recuperação dos demais setores dependerá da retomada do emprego. Minha expectativa pessoal é de que a reforma trabalhista, recentemente aprovada, possa contribuir positivamente para a criação de empregos em um momento de recuperação, embora exponha o trabalhador em momentos de recessão. De toda forma, pode-se evidenciar que os resultados fiscais equilibrados contribuem para a geração de empregos, uma vez que estimulam investimentos e sua previsibilidade. Os setores de investimento dependentes do crédito, como construção civil, bens duráveis e serviços e produtos de tecnologia serão os maiores beneficiados da retomada.