Mais imposto sobre renda e menos imposto sobre consumo

 

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Sérgio Gobetti
Economista IPEA
Corecon/DF Nº 6399

 

 

Qual a dimensão da crise fiscal atual?
A crise fiscal atual é grave, mas tem duas dimensões, uma estrutural e outra conjuntural, sem falar na política. Do ponto de vista estrutural, o principal problema é que as despesas crescem mais do que o PIB há duas décadas, principalmente pelo crescimento dos chamados benefícios sociais, como aposentadorias, pensões, seguro-desemprego etc, que hoje representam metade do gasto público federal. Controlar esse tipo de gasto não é algo trivial, inclusive pelo papel que esses gastos desempenham numa sociedade tão desigual como a brasileira e porque refletem direitos consagrados na Constituição.


E qual é o problema de ordem conjuntural?
Acontece que, enquanto a economia ou a carga tributária cresciam, o governo conseguia financiar esse gasto e ainda obter superávit primário. Mas com a desaceleração econômica dos últimos anos, as desonerações tributárias e, principalmente, a recessão atual, tornou-se virtualmente impossível equilibrar as contas. A tentativa atual de ajuste fiscal mostra isso, que quanto mais o governo tenta apertar os gastos naquilo que é possível no curto prazo, como investimentos públicos, mais a receita despenca, tornando inútil todo esforço de ajustamento. Por isso, mesmo considerando importante ajustar as contas para recuperar a credibilidade do governo, não existe forma de voltar a ter superávit sustentavelmente enquanto a economia não voltar a crescer acima de 2% ou 3%.


A solução dessa crise fiscal passa obrigatoriamente pelo aumento de receita através de impostos?
Essa é uma solução, pelo menos no curto prazo, melhor do que cortar investimentos públicos. Mas o aumento de impostos também pode ser contraproducente para o ajuste fiscal dependendo da forma como for implementado, se for por meio de impostos que afetem a demanda agregada e, dessa forma, as chances de recuperação econômica. Este pode vir a ser o caso da CPMF, um imposto cumulativo, que incide sobre todas as fases da produção e que tende a ser repassado ao preço dos bens de consumo, reduzindo principalmente a renda dos mais pobres.

E qual seria a alternativa?
Do meu ponto de vista, a melhor alternativa, não só pela questão conjuntural, mas também por uma questão estrutural, corretiva, seria voltar a taxar os lucros e dividendos distribuídos, que são isentos no Brasil desde 1996. Nosso país é um dos poucos do mundo que concede esse privilégio para as pessoas que vivem de rendas do capital, beneficiando os mais ricos. Os dados do impostos de renda mostram que dois terços dos rendimentos dos indivíduos mais ricos – 70 mil pessoas que em 2013 ganharam em média R$ 4,1 milhões – são isentos de imposto. Isso é uma enorme injustiça e cria também uma tremenda distorção no nosso sistema tributário. Se voltássemos a tributar os dividendos, como fazíamos até 1995, obteríamos uma receita de R$ 50 bilhões e afetaríamos muito pouco a demanda da economia, porque estaríamos retirando renda apenas dos mais ricos, reduzindo sua poupança e não seu consumo ou investimento.

A nossa carga tributária já não é bastante alta?
Sim, temos uma carga tributária elevada para os padrões dos países em desenvolvimento, em torno de 34% do PIB, enquanto a média da América Latina é de 21%. Mas no Brasil temos um estado de bem estar social mais consolidado. Arrecadamos 34% do PIB, mas transferimos de volta à sociedade, sob a forma de benefícios sociais, cerca de 15% do PIB. Algo semelhante aos países desenvolvidos da OCDE, onde a média da carga tributária coincidentemente é igual à brasileira. O principal problema é que nossa carga tributária é concentrada sobre o consumo e não sobre a renda e o patrimônio como nas nações avançadas. Aqui a carga sobre o consumo chega a 16% do PIB, na OCDE a 11%. Aqui a carga sobre a renda chega a 8% do PIB, na OCDE a 13%. Então, é possível melhorar a composição dessa carga tributária, trocando imposto sobre o consumo por imposto sobre a renda, por meio de uma reforma tributária mais ampla.

Qual a dificuldade de se promover uma reforma tributária como essa no Brasil?
As dificuldades são enormes porque os interesses são múltiplos. Mesmo reformas limitadas a modificar apenas um imposto, como o ICMS, enfrentam obstáculos para avançar, tal o grau de disputa e divergência que existe entre os estados e os lobbies contrários no Congresso. Mas talvez uma proposta de uma reforma tributária mais ampla que mobilize a sociedade em torno do princípio da justiça fiscal, por exemplo, possa ter alguma chance de sucesso. Nós fizemos um estudo, por exemplo, no qual mostramos que a receita obtida com a taxação de dividendos seria suficiente para financiar uma reforma que reduzisse o IRPJ das empresas e, ao mesmo tempo, o principal imposto federal sobre o consumo, o PIS/Cofins. Uma mudança desse tipo é boa para os mais pobres, para as empresas e para a economia, o que significa que também pode ser boa para os próprios empresários, embora no curto prazo eles pessoalmente tivessem que pagar mais tributos sobre seus dividendos.

Ideia, pesquisa e desenvolvimento

carlos nelson

 

Carlos Nelson dos Reis
Economista, Diretor do IDEIA/PUCRS
Corecon/RS Nº 2831

 

 

Qual o objetivo do Instituto de Pesquisa e Desenvolvimento (IDEIA/PUCRS)?
O objetivo do IDEIA é disponibilizar suporte técnico e científico para o ensino em nível de graduação, especialização, mestrado e doutorado, visando o desenvolvimento de projetos de pesquisa científica e aplicada, para as diferentes unidades da Universidade, para as empresas do Sistema Tecnopuc e para a sociedade como um todo. O propósito é transferir tecnologia e promover redes interdisciplinares de P&D na PUCRS.

Qual o universo de atendimento do Programa?
O IDEIA atende os públicos internos e externos da Universidade. Internamente, a alunos, funcionários e pesquisadores, por meio das diferentes unidades universitárias, e externamente, a empresas do Tecnopuc, e à sociedade como um todo, por meio da ação de "Interação Universidade Empresa".

Que tipos de serviços o IDEIA realiza na área de Pesquisa e Desenvolvimento?
Na área, presta diferentes tipos de serviços, como consultoria técnica, através de orientações em soluções para questões específicas de projetos ou pesquisas, de prospecção de soluções técnico-científicas, ou no desenvolvimento de protótipos e dispositivos, através de produtos especiais não encontrados no mercado ou que possuam características que os tornem únicos na gestão do uso compartilhado de equipamentos científicos. Com este serviço, se consegue, por exemplo, que um mesmo equipamento possa ser utilizado por diferentes unidades da Universidade, atendendo a diferentes pesquisas e otimizando os recursos já adquiridos.

E no atendimento específico às demandas das empresas?
Nessa área, o IDEIA promove a disponibilização de laboratórios da Universidade, com estrutura e suporte técnico capacitado e realiza a computação de alto desempenho, através de um grande conjunto de máquinas e dispositivos de armazenamento para a realização de tarefas que demandem alto processamento computacional. Disponibiliza, ainda, serviço de Microscopia Eletrônica e Metalografia, oferecendo soluções em microscopia eletrônica e áreas correlacionadas para atendimento de demandas de diferentes segmentos da sociedade.

Como funciona a relação do IDEIA com as empresas?
O primeiro contato de uma empresa com a Universidade é realizado por meio de um formulário eletrônico específico de “Interação Universidade Empresa”, disponibilizado no site do IDEIA, onde, uma vez identificada a necessidade e sua possível relevância à projetos institucionais, é iniciada a interação. O objetivo é disponibilizar o conhecimento técnico-científico da Universidade à sociedade, buscando aproximar a oferta de pesquisa da instituição às demandas tecnológicas do setor empresarial, em especial às empresas do Tecnopuc.

Cenários para a produção de grãos no Brasil e RS

lucilio alves

 

 

Lucilio Rogério Alves
Economista, professor da ESALQ/USP

 

 

De que forma a desvalorização do real pode afetar o agronegócio do Brasil e do RS?
Se por um lado essa taxa de câmbio maior encarece a importação de insumos para a agricultura, essa valorização do dólar deixa o nosso produto mais competitivo no mercado internacional, na medida em que reduz o custo para o importador. Já estamos percebendo uma dinâmica diferenciada no mercado, como os casos da soja, do milho e do algodão, cujos produtores já têm negociações fechadas para até o primeiro semestre de 2017. Trata-se de um ineditismo, especialmente no caso do milho. Nunca tinha acontecido antes, e, claramente, só estamos vendo isso devido à desvalorização cambial.

Neste contexto de desvalorização, qual o grande desafio?
O grande desafio que uma desvalorização da moeda traz para a economia e, especificamente para os produtores, é entender o timing de uma alta ou de uma queda. No ano passado, por exemplo, compraram-se insumos a uma taxa de câmbio muito menor que o preço do câmbio no momento da venda dos produtos finais, o que é muito bom para quem está produzindo. Este ano, a compra dos insumos ocorreu em um momento de taxa de câmbio alto, com atraso de liberação de crédito de custeio, o que acaba aumentando os custos. E o grande desafio é entender o que vai acontecer no primeiro semestre do ano que vem, especialmente quando se estiver vendendo a produção. Se a taxa de câmbio estiver em queda no momento da venda, vai haver um descompasso e podemos até ter endividamentos.

De que forma está estruturada a produção dos principais grãos no Brasil?
Soja e milho representam a maior parte da produção de grãos no Brasil, cerca de 181 milhões de toneladas, sendo que 209,5 milhões de toneladas são esperados para esse ano agrícola. A ocupação de área e o crescimento de produtividade vêm ocorrendo principalmente em função do uso do cultivo de grãos em segunda safra, o que não existe em outros países. A produção brasileira está crescendo devido a ganhos de produtividade, e não necessariamente à abertura de novas grandes áreas agrícolas. O Brasil vem intensificando o uso das áreas já disponíveis e com a meta de aumentar ainda mais o aproveitamento dessas áreas. Temos casos, inclusive no Rio Grande do Sul, de alguns milhões de hectares de áreas ainda não utilizadas em segunda safra.

Que produtos vêm sendo beneficiados pelo uso intensivo?
Claramente, se conseguirmos melhor aproveitar essas áreas, os custos fixos reduzem e teremos maior oferta numa menor área disponível. Em termos de Brasil, especialmente na região do Cerrado, há o cultivo, principalmente da soja no verão e uma sequência de milho na segunda safra. Estamos, a cada ano, reduzindo o uso do milho na primeira safra, em substituição principalmente pela soja, e intensificando na segunda safra. Temos, também, um cultivo de segunda safra de algodão, o que não existe em qualquer outro lugar do mundo. Os produtores do Cerrado, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, além de uma parte de Goiás, conseguem plantar soja no mês de setembro, colher em dezembro e janeiro, e entrar com algodão. E, o que é mais importante, mantendo uma produtividade do algodão como se o cultivo ocorresse em novembro e dezembro. Então, eles têm duas culturas em um mesmo período que tinham antes. Inclusive, recentemente, produtores passaram a cultivar arroz após a colheita da soja em Mato Grosso, algo não imaginado em anos passados.

Desde quando o Brasil vem utilizando essa estratégia da segunda safra?
A segunda safra era mais comum no Sul e Sudeste do país, especialmente com o cultivo de trigo como cultura de inverno. Também, sempre houve o cultivo de feijão e amendoim no Brasil em mais de uma safra, no mesmo ano agrícola. Porém, a partir da década de 90, produtores viram no milho uma alternativa ao trigo, no primeiro momento, e de maior uso da terra, num segundo momento. Elevando seu cultivo de forma expressiva nos últimos 10 anos. No caso do algodão, esse processo iniciou em 2008, 2009 e é algo inédito em termos mundiais. Isso reduz o custo fixo e, automaticamente, pode proporcionar melhor fluxo de caixa, além de, claramente, levar a uma maior sustentação e lucratividade do negócio agrícola como um todo. Num agregado, considerando os últimos 25 anos, a taxa de crescimento da área de segunda safra foi de 6,1% ao ano, enquanto a média do uso da área no verão, ou na primeira safra, foi de apenas 1,3% ao ano. E, em função dos ganhos de produtividade, a produção de segunda safra cresce a quase 12% ao ano, o que é algo extremamente espetacular.

O que falta melhorar?
Melhores resultados passam, obrigatoriamente, pela melhora na infraesturutra, tanto para armazenagem, quando para escoamento da produção, que está concentrada no Centro-Oeste do país e precisa ser transportada, e pela necessidade de um mercado comprador para absorver o excedente produzido, que não é pequeno. No caso do arroz, a maior parte do consumo é doméstico, mas se não tivéssemos tido crescimento das exportações nos anos recentes, os preços dos produtores estariam em níveis inferiores aos observados atualmente, com benefícios ao restante da população, mas sem sabermos o que poderia acontecer nos períodos seguintes. Por isso, temos que manter o crescimento do consumo (externo) para atender à crescente produção. No caso do trigo, a produção doméstica é praticamente a metade do que necessitamos e, mesmo com consumo mais estável nos anos recentes, tem se exportado o grão. É necessário, ainda, manter o estímulo à produção para minimizar os efeitos do clima e diminuir a dependência externa, principalmente em função da taxa de câmbio, que tem dificultado sua importação. Para a soja, a realidade é uma safra de margens muito apertadas devido aos mais altos custos da história, principalmente em função da deficiente logística, com altos custos do frete e do preço do combustível. Com relação ao milho, a ideia é o cultivo do grão para atender o consumo interno, que ainda é a maior parte da produção, e obter excedente para a exportação, o que deverá ser alcançado através de ganhos de produtividade.

Como está a concorrência com o mercado externo?
No mercado internacional, a concorrência por compradores tende a ficar mais acirrada. Os estoques mundiais de grãos estão crescentes, tanto nos principais países exportadores como nos maiores consumidores, fazendo com que a relação estoque final/consumo volte aos maiores níveis de 10 ou 12 anos. Com isso, as transações mundiais devem cair, reduzindo as oportunidades de vendas. Em função da tendência de aquecimento do mercado de bioenergia, os países estão crescendo sua produção de soja e de milho, em detrimento do trigo e do arroz, especialmente nos EUA, no caso do biodiesel, com a soja, e do etanol, com o milho. Essa relação estoque/consumo é que define o preço de todos os produtos agrícolas, ou seja, o quanto o estoque é o suficiente para atender o consumo de um determinado ano. Com uma produção crescente de soja, a relação estoque/consumo mundial está em mais de 30%, ou seja, se não produzir mais soja de 2016 para 2017 e se produzir o que se está esperando para 2015 e 2016, o estoque que vai ficar daria para atender 30% da demanda mundial. Esse é o maior nível já observado. Se a produção continuar aumentando e a demanda não crescer no mesmo ritmo, poderemos ter perspectivas de dificuldades em termos de preço de soja. Somente um problema climático que desse choque de oferta poderia reduzir esse estoque de forma que pudéssemos ter alguma alavancagem não esperada em termos de cotações.

Que cenários se apresentam para os grãos no mercado internacional?
No caso do milho, a oferta vai ficar um pouco menor, especialmente pelo crescimento do consumo industrial, o que vai fazer com que os estoques caiam um pouco, sinalizando melhores perspectivas de preços. O trigo também está com estoque mundial relativamente alto, melhor ainda que nos últimos 10 anos. Percebem-se alguns problemas climáticos nos EUA, na União Europeia e na Ásia, que podem mudar um pouco esse cenário. Para o arroz, o estoque está caindo pelo terceiro ano consecutivo, o que seria um cenário positivo se não tivéssemos países como a Tailândia, em que o governo paga e compra o produto do produtor, ficando com ele em estoque e colocando esse estoque no mercado. Há uma política muito forte, de subsídio aos produtores de arroz na Ásia, o que não acontece aqui no Brasil.

E como estão as exigências do mercado comprador internacional?
Cada vez mais rigorosas. A partir do próximo ano, deve haver restrição de crédito para o produtor que não se adequar às regras ambientais exigidas. Já temos uma série de empresas adotando exigências de rastreabilidade, de certificados de sustentabilidade muito mais exigentes do que as legislações governamentais, o que vai mudar o jogo do mercado, fazendo com que sobrevivam somente aqueles que conseguirem se enquadrar dentro dessas regras. E incluo aqui o mercado internacional exigindo produtos convencionais ou não geneticamente modificados. Isso exige toda uma rastreabilidade do processo de produção, escoamento e comercialização final, ente outros, que acaba elevando o custo, diante de um cenário comprador que exige e se dispõe a pagar por isso.

O que é necessário para se adequar a essas exigências?
É preciso manter o crescimento da produtividade, rendimento no câmbio, uso de tecnologia e melhoramento de capital humano, além da necessidade de se enquadrar às regras trabalhistas como um todo, o que é um desafio extremamente grande para o campo. É preciso elevar os investimentos em pesquisa e desenvolvimento, incrementar os financiamentos de custeio, comercialização e, principalmente, infraestrutura, com a implantação de armazéns e silos. Temos um cerrado jogando milho a céu aberto porque não tem onde estocar a produção. É preciso gerir e resolver esses problemas de infraestrutura, alguns deles sendo solucionados pelo setor privado, outros, à mercê do governo, que precisa fazer acontecer. É necessário mecanismo para que os produtores façam seguro de produtividade, com hedge de preços e seguros de renda, que é um grande desafio para mitigar riscos. Enquadrar-se às normas de controles fitossanitário e sanitário e ter uma política industrial consistente regional, estadual e nacional, para que se possa agregar valor.

Ações como investimento

manoel gil

 

 

Manoel Gil Costa Soares
Economista
Corecon/RS Nº 6021

 

Qual a importância do mercado de capitais para dinâmica do investimento?
A grande importância é a captação de recursos pelas empresas a um custo menor e sem data certa para liquidação dos mesmos. Os sócios do capital investido são remunerados pelos lucros gerados, sendo essa democratização do capital o que contribui para o desenvolvimento econômico. Por exemplo, a economia norte-americana tem o valor de mercado de suas ações maior do que o seu PIB, enquanto que a participação do mercado acionário do Brasil correspondeu, em 2014, a cerca de 40% do PIB.

O que são mercados primário e secundário e como as ações são negociadas nos segmentos operacionais, como mercados à vista, a termo, de opções e futuro?
O mercado primário é quando a empresa faz IPO (Initial Public Offering), ou seja, a primeira vez em que as ações são negociadas na bolsa; no mercado secundário as ações são compradas e vendidas entre investidores. No mercado à vista, os negócios são realizados e liquidados à vista (D+3), que significa terceiro dia útil. Os mercados a termo e futuro são parecidos, pois em ambas as ações são negociadas com preço fixado e prazo determinado; contudo, o que diferencia é a liquidação. No mercado a termo, a liquidação ocorre no vencimento do contrato ou antecipadamente, enquanto no futuro os contratos sofrem ajustes diários e têm vencimentos todos os meses, sempre na terceira segunda-feira. No mercado de opções, negocia-se o direito de exercer a compra (call) ou a venda (put) de um lote de ações com preços e prazos preestabelecidos.

Que critérios objetivos devem ser levados em consideração para o poupador considerar a compra de ações um bom investimento?
A taxa de juros é o balizador do investimento. A empresa que tem uma boa governança corporativa, que gera lucros consistentes e distribui parte dos lucros, os dividendos, acima da taxa de juros real, é um bom investimento.

Como o cenário econômico afeta o comportamento do mercado de capitais?
Quando a economia de um país está bem, ou seja, suas variáveis econômicas apresentam baixa taxa de juros, há crescimento do investimento, PIB e emprego, o que impacta positivamente as expectativas empresariais quanto à produção de bens e serviços, levando, assim, a uma maior lucratividade para seus negócios. Isso faz com que os investidores comprem ações de empresas sólidas. Contrariamente, dados econômicos negativos diminuem o interesse de investimentos em ações. É o caso atual do Brasil.

Quais são as perspectivas para o mercado de capitais e a BM&F?
São favoráveis, pois o mercado cresceu e está mais dinâmico, mas está longe do ideal considerando o tamanho do nosso PIB. Somente com uma base maior de investidores (no caso pessoas físicas), maior proteção aos acionistas minoritários, mais empresas com governança corporativa, menor tributação e também fiscalização mais punitiva pela CVM, o mercado deslancha. Como a BM&F está bem estruturada, a mesma só tem a beneficiar-se com um mercado mais eficiente.

Banco Central e Taxa de Juros

bruno paim

 

 

Bruno Paim
Economista FEE
Corecon/RS N° 7715

 

Qual a relação da taxa de juros com o Banco Central?
Conforme o Sistema de Metas de Inflação prevê, uma das responsabilidades do Banco Central do Brasil é o controle inflacionário via administração da taxa básica de juros (Selic), definida por meio de reuniões do Comitê de Política Monetária (Copom).

Esse mecanismo de controle inflacionário sempre foi consenso?
A teoria do mainstream demorou a admitir que a taxa de juros era o único mecanismo sob controle da Autoridade Monetária (AM), pois, até então, acreditava que poderia controlar a oferta de moeda, e de forma quase mecanicista, conter a inflação. Entretanto, na prática, desde 1950, algumas AMs reconhecem o papel do sistema financeiro na criação de moeda, o que limita a tentativa de controle sobre o agregado monetário. Décadas depois, o mainstream passou a admitir que o Banco Central não tem controle direto sobre a quantidade de moeda, embora ainda não reconheça o impacto disso na determinação do produto.

É a taxa de juros que sempre esteve sob controle da Autoridade Monetária?
Sim. Além disso, ao estabelecer o rendimento da dívida pública, título de menor risco no país, a taxa básica de juros determina o piso a partir do qual os demais agentes irão tomar fundos emprestados. Dessa forma, no Brasil, quando a taxa Selic é elevada para controlar a inflação, há dois movimentos concomitantes, a elevação do custo de rolagem da dívida pública e o aumento da remuneração dos detentores desta dívida.

E o que baseia a determinação da taxa de juros por parte do Banco Central?
Teoricamente, utiliza-se uma equação que considera dois pontos principais: os desvios perante o produto potencial e as expectativas de inflação. Do produto potencial, é derivada uma taxa de juros natural, que seria não-inflacionária. Ou seja, o Banco Central deveria perseguir uma taxa natural de equilíbrio dada pelas variáveis reais da economia. Já as expectativas de inflação derivam de consultas periódicas a instituições financeiras específicas, publicadas no boletim Focus semanalmente. Em uma visão mais realística, pode-se, também, considerar a restrição externa imposta pela flutuação cambial e seus efeitos sobre os preços internos.

O Banco Central tem autonomia na determinação da taxa de juros ou ela é resultado da estrutura da economia?
Convencionalmente, o Banco Central segue uma teoria na qual a taxa de juros resultaria da estrutura da economia real, materializada no produto potencial. Contudo, esta visão não prevê a influência da criação de moeda neste mesmo produto. Ademais, as expectativas utilizadas na determinação da Selic advêm das mesmas instituições financeiras que detêm os títulos do governo remunerados por essa taxa. Tal circularidade suscita a crítica quanto à interferência privada na decisão sobre a taxa de juros, da mesma forma que comumente se questiona a interferência governamental nela. Enfim, o caráter essencialmente técnico da determinação da taxa de juros é controverso. A nosso ver, o caráter político desta determinação deveria ser abertamente discutido por outros segmentos dos agentes econômicos, pois os impactos sobre a distribuição, o emprego, o crescimento e os preços é menos determinista do que alguns economistas podem supor.

O Relatório Focus e o Mercado Financeiro

marivia

 

 

Marivia de Aguiar Nunes - Economista, Analista do Banrisul - Corecon/RS Nº 8072

 

 

O que é o Relatório Focus?
O Relatório Focus é resultado de uma pesquisa iniciada em 1999 e realizada semanalmente pelo Banco Central do Brasil (BC), a qual inclui as projeções, ou expectativas, das principais variáveis macroeconômicas domésticas, utilizando, como fonte de dados, estimativas elaboradas por diversas instituições que atuam no mercado financeiro, como bancos, gestoras de recursos e consultorias.


Como ele é constituído?
As estatísticas divulgadas no Relatório incluem a mediana, a média, o desvio-padrão, o coeficiente de variação, o máximo e o mínimo para todas as projeções coletadas, sendo que a mediana é monitorada com maior atenção. Como principais variáveis do Relatório, pode-se citar índices de preços (entre eles, o IPCA e o IGP-M), taxa de câmbio (Real x Dólar americano), meta para a Taxa Selic, PIB, produção industrial e balança comercial.


Por que ele é relevante?
O monitoramento das projeções que constituem o Relatório tem expressiva relevância, na medida em que integra o conjunto de informações que subsidia as decisões de política monetária do BC, as quais visam ao cumprimento da missão institucional de assegurar a estabilidade do poder de compra da moeda. Para tanto, a autoridade monetária implementou, em 1999, o Regime de Metas para a Inflação, com a finalidade principal de ancorar as expectativas do mercado, que, de forma geral, orientam o processo de formação de preços na economia, contribuindo, em última análise, para que a inflação efetiva esteja em linha com uma meta pré-estabelecida e anunciada publicamente. Em suma, ao sintetizar as projeções das instituições, acaba sendo um importante balizador para o mercado, alimentando o processo decisório dos agentes econômicos, ao impactar suas expectativas.


Qual é o incentivo oferecido pelo BC para que as instituições mantenham suas projeções atualizadas e como estão classificadas as previsões do Banrisul?
O BC, com o propósito de incentivar o aprimoramento da capacidade preditiva dos participantes da pesquisa e reconhecer seu esforço, elabora um ranking (o Top 5) das instituições que mais acertam as projeções para a economia brasileira. Este ranking é elaborado e divulgado, mensalmente, pelo BC, com base em notas que variam de zero, para o maior desvio em relação ao resultado mensal efetivo, a dez, para o menor desvio em relação ao resultado mensal efetivo. O Banrisul integrou este ranking em junho último, na categoria “Índices de preços - IPCA - médio prazo”, refletindo o comprometimento do Banco em assegurar a qualidade das projeções econômicas produzidas internamente.


Quais são as perspectivas do mercado para os anos de 2015 e 2016?
De modo geral, o mercado espera, para este ano, uma queda relevante do PIB, condizente com um cenário em que o quadro político continua conturbado e a confiança pessoal e corporativa permanece em deterioração. A despeito disso, a inflação deve se manter pressionada, na esteira da continuidade dos reajustes dos preços administrados e da tendência de depreciação cambial, motivada, particularmente, pela persistência de incertezas no ambiente doméstico. Para 2016, a perspectiva é de manutenção do quadro recessivo, refletindo o prolongamento do atual contexto macroeconômico doméstico e a contribuição do setor externo ainda inferior à potencial. Nesse horizonte, prepondera a expectativa de algum arrefecimento dos preços, em linha com uma atividade que deverá seguir fragilizada e com os efeitos defasados da política monetária. Frente a esse cenário, o Banco Central deve manter a atuação vigilante sobre a política monetária, sustentando a taxa básica de juros no atual patamar por período considerável e, com isso, contribuindo para a acomodação da inflação em níveis mais próximos do centro da meta. Adicionalmente, há que se considerar que uma eventual perda do grau de investimento pode agravar este quadro.

Indústria brasileira e estagnação

david kupferDavid Kupfer - Economista, professor Instituto de Economia/UFRJ

 

Como se pode identificar o processo de desindustrialização da economia brasileira?
Verificamos isso pelo histórico de estagnação da indústria brasileira nos últimos anos e que, neste momento, encontra-se em recessão. A economia brasileira, aparentemente, mostrou a inflexão e a fase recessiva aproximadamente há um ano, mas a indústria já está no quarto ano de estagnação, e isso não é consequência de fatos conjunturais, mas estruturais, o que caracteriza a trajetória de desindustrialização.

Por que acontece isso?
A principal causa estrutural é um problema de custos elevados de produção, que é agravado pelo efeito câmbio que afeta, desfavoravelmente, os bens comercializáveis. Certamente que outros elementos formadores de custo também estão contribuindo para minar a capacidade de resposta da indústria. Temos observado uma perda de dinamismo da indústria não somente no mercado doméstico, mas também na pauta de exportações. Tanto é que o agronegócio tem “carregado nas costas” a atividade produtiva no Brasil. São problemas estruturais que poderiam ser corrigidos no médio prazo, de três a cinco anos no mínimo. Só que nos últimos cinco anos não conseguimos avançar e os problemas acabaram se aprofundando. E não é apenas uma questão da necessidade de tempo, mas também da falta de capacidade de se articular políticas industriais concretas, para que se possa construir um quadro mais favorável para um novo deslanche.

Qual a origem do problema?
Seguramente, esse processo tem mais de 10 anos de existência, embora, de fato, vem ocorrendo nesses anos mais recentes, especialmente a partir de 2011. Mesmo durante o período de crescimento recente, 2005 e 2008, a nossa indústria já apresentava problemas de competitividade bastante pronunciados, embora mascarados por uma evolução extremamente favorável dos preços transacionados pelo Brasil no mercado internacional.

Qual o impacto da desvalorização do real nesse processo?
O impacto da desvalorização do real será maior ou menor dependendo do setor. Alguns setores poderão ser beneficiados e poderão até se reequilibrar a partir de uma taxa de câmbio mais desvalorizada, com a retomada das exportações. Mas acredito que essa não seja a regra geral da indústria brasileira. Um conjunto minoritário de setores será beneficiado, mas a taxa de câmbio, sozinha, não tem condições de resolver esses problemas, também porque há muito tempo vem acontecendo um aumento importante da participação de bens importados na atividade produtiva no Brasil e, principalmente, no investimento. Para a maior parte da atividade industrial o câmbio competitivo é uma condição necessária, mas não suficiente para possibilitar a transformação e o deslanchar da indústria. É necessário de fato que outros gargalos estruturais sejam equacionados.

Como anda o sentimento do empresariado neste clima todo?
Entendo que conjunturalmente o quadro é muito confuso e as incertezas são muito pronunciadas. A credibilidade e o estado de confiança estão muito abalados, o que é uma questão conjuntural. Ademais, nós estamos vivendo uma crise política muito mais intensa que a própria crise econômica, o que acaba corroborando para recrudescer as incertezas. Nesse sentido, estamos beirando uma desorganização econômica em função da falta de coesão política. Esses fatos andam juntos e essa conjuntura tem que ser revertida de algum modo, o que é fundamental para que o processo de investimentos seja retomado. O investimento está parado e, em função disso, não há mudança possível na estrutura produtiva. O preocupante é que não há perspectivas, no curto prazo, para a uma saída desse impasse político.

Economia em Pauta - Agronegócio e redes sociais

O “Economia em Pauta” de setembro teve como painelistas o economista João Carlos Madail e a editora do Correio do Povo Simone Lopes. Madail falou sobre a atuação   dos economistas do CORECON/RS na Expointer como consultores de negócios. Segundo ele, a atividade em parceria  com a Farsul,  propiciou observar a evolução do setor agrícola “onde a eficiência econômico-financeira na condução de todas as etapas do processo de produção e distribuição no âmbito do agronegócio, busca garantir a competitividade do setor”. Madail comentou as várias etapas vividas pelo setor agrícola brasileiro, desde os primórdios caracterizados pelo extrativismo. No Brasil colônia, se desenvolveu a monocultura da cana-de-açúcar. O Brasil Império, marcado pela produção de café, proporcionou a primeira exportação brasileira. Ele citou também as etapas vividas pós 1950 “onde ocorreram os primeiros debates sobre o atraso do setor agrícola que, sequer atendia a demanda interna”.

Criação da Embrapa
O economista lembrou ainda que os períodos seguintes também foram marcadas pela estagnação do setor e pelo endividamento externo do país.  “Entretanto, foi no governo do general Garrastazu Médici (1969-1974) que ocorreu a grande mudança da política de pesquisa agropecuária no país, com a extinção do DNPEA – que coordenou a pesquisa no período de 1966 a 1973 e a criação da Embrapa”, acrescentou Madail.  Ao longo dos seus 40 anos, a Embrapa  promoveu uma verdadeira revolução na pesquisa com reflexos diretos na produção e nas exportações de grãos.

“Na etapa atual vivida pelo setor agrícola brasileiro, a produção deixou de ser vista como atividade pontual. “Num contexto de agronegócio que envolve as etapas que iniciam na produção de insumos se estende nas atividades dentro da porteira e se conclui na disponibilidade do produto ao consumidor”, completa Madail. Segundo ele, este processo exige não só o crescimento na geração de tecnologias que impactem positivamente na produtividade e na qualidade da produção, mas principalmente, na eficiência econômico-financeira “variáveis indispensáveis para elevar o Brasil ao tão falado celeiro de alimentos para o mundo”.

Parceria
Conforme Madail, os economistas do CORECON/RS em parceria com a FARSUL deram a sua parcela de contribuição na condução de investimentos, neste ano, na Expointer. “A iniciativa que poderá ser repetida, nas próximas edições, contou com a presença da AECONSUL, através da atuação de seus técnicos desde a  preparação dos economistas analistas até a execução prática das análises”, finaliza Madail.

Redes sociais
Com uma visão holística, a jornalista Simone Lopes afirmou que tudo está interligado. Em sua fala, ela comentou a importância que as redes sociais ganharam nos últimos anos com a facilidade de acesso ao mundo virtual. “Com a agilidade da Internet e em especial, das redes sociais – ao  darem instantaneidade às notícias – o  jornalismo interpretativo e opinativo devem ganhar mais espaço nos jornais”, aposta Simone. A jornalista revelou que, muitas vezes, busca nas redes informações para subsidiar seu trabalho. “Os jovens estão lá. Nas redes se descobre  quais são seus interesses”, constata. Simone disponibilizou um espaço na sua editoria do Correio do Povo ao CORECON/RS para falar sobre Plano de Carreira.

Cangurus
O presidente Leandro de Lemos comentou o recente fenômeno do  comportamento que tem ampliado o  ‘período’ de juventude. Nos últimos anos, pessoas com mais de 25 anos permanecem morando na casa dos pais. Muitas retardam o ingresso no mercado de trabalho. Esta mudança de hábito se reflete na economia, consequentemente na previdência social  e no consumo de bens.

Conforme matéria publicada na revista Veja “São os chamados jovens cangurus, uma analogia com os mamíferos da Austrália que andam de carona na bolsa abdominal da mãe. Segundo o instituto de pesquisas LatinPanel, de São Paulo, há hoje no Brasil 3,3 milhões de famílias das classes média e alta com filhos cangurus. Isso equivale a 7% das famílias do país. A maioria deles se encontra na faixa dos 25 a 30 anos, mas, entre os já quase quarentões, 15% ainda moram com os pais”.

 

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