Sem euforia, apenas esperança

maria carolina gullo

 

Maria Carolina Rosa Gullo

Economista, diretora Conhecimento de Ciências Sociais/UCS,
Diretoria de Economia, Finanças e Estatísticas CIC/Caxias do Sul
Corecon-RS nº 5779

Qual o perfil da economia da região de Caxias do Sul?
A economia de Caxias do Sul está baseada na indústria de transformação, em torno de 40% do VAB, pelo setor de serviços, cerca de 55% e, por último, pelo setor agrícola, 5%, em números mais arredondados. Na região de Caxias do Sul, na maioria dos municípios persiste esta configuração, variando um pouco a participação do setor agrícola em alguns deles. Mas, o setor chave da indústria de transformação tem nuances diferentes em cada município, enquanto em Caxias do Sul, o metal mecânico e automotivo predomina. Já, em Farroupilha, município limítrofe, a indústria de embalagens é mais forte, e em Bento Gonçalves, essa força vem do setor moveleiro.

Depois de quatro anos no vermelho, a economia da região começa a dar sinais de recuperação. Que setores vêm se destacando positivamente?
É característico da economia local e regional entrar primeiro numa crise, mas, da mesma forma, é a primeira a sair. Isso, porque a produção regional está baseada em bens de capital que demandam investimentos, crédito e um cenário mais estável. A indústria caxiense, sobretudo, sentiu a crise muito cedo por ter no setor metal mecânico e automotivo a sua maior força econômica e um grande efeito multiplicador. Fabricamos e somos fornecedores locais, regionais e nacionais. O sentimento de retomada de confiança na economia, a busca e reconquista de novos mercados, sobretudo no mercado externo, bem como a necessidade de “descolar” a instabilidade política da crise econômica, têm possibilitado alguns investimentos e uma leve retomada na economia. Porém, ressalta-se que não há espaço para euforia, mas para esperança em um ano melhor. Por fim, o bom desempenho do agronegócio vem promovendo a recuperação local e regional. Seu efeito multiplicador é significativo e tem impactos na economia da região em todos os segmentos da indústria de transformação.

Passados os piores momentos, quais os grandes desafios?
Podemos dizer que o pior já passou, mas a retomada tem sido lenta e gradual a tal ponto que esculpimos o termo “despiora na economia” para nos referirmos a atual situação. No entanto, grande desafios precisam ser vencidos. Estamos perdendo competitividade por perda de produtividade na mão de obra, por questões relativas ao câmbio e, sobretudo, pela infraestrutura de escoamento da produção existente na Serra. Houve um aquecimento do mercado de trabalho antes da crise que levou à contratação de mão de obra não qualificada, e com salários mais altos. Isso contribuiu para a perda de produtividade na indústria e até no terceiro setor.

Problemas de transporte da produção é um deles?
Há muito a região discute seu modal de transporte. Nossas estradas estão em situação precária e, dependendo das variações climáticas, ficamos com acesso reduzido aos principais mercados nacionais e internacionais. Não dispomos de ferrovias, hidrovias e aeroportos que possam complementar esta matriz de transporte. No entanto, Caxias e região recebem cerca de 60% do aço que vem para o nosso Estado, ou seja, algo em torno de 700 mil toneladas/ano, que chegam por aqui e são processadas, agregando valor, gerando emprego, renda e riqueza. Mas, para distribuir esta produção nessas condições, perde-se nos custos da logística, reduzindo a competitividade. Somado a todas estas questões, o câmbio é sempre uma preocupação, pois, dependendo do seu valor, a competitividade fica ainda mais comprometida. Mas, tempos de crise também são tempos de oportunidades. Esta crise foi muito forte porque comprometeu o setor de transformação de forma imperativa. Ao mesmo tempo, os desafios citados acima acabam por inibir a instalação de novas empresas, sobretudo em Caxias do Sul, a maior cidade da serra gaúcha. A partir deste diagnóstico, estamos discutindo a matriz econômica da cidade, bem como a elaboração de um plano de desenvolvimento para os próximos 30 anos.

As empresas já voltaram a contratar?
Há um movimento ainda de ajustes no mercado de trabalho, mas já se tem sinais de contratação. No ano, até junho, o setor da indústria, somado a serviços e agropecuária acumulam um saldo positivo de 1.121 vagas. O comércio apresenta até junho saldo negativo, embora pequeno, de 18 vagas. No entanto, as perdas foram grandes nos últimos quatro anos. Em 2013, Caxias do Sul tinha 183 mil pessoas com carteira assinada e, em junho de 2017, são pouco menos de 160 mil. A retomada das contratações dá esperança de retomada, mas é cedo para saber se conseguiremos repor toda as vagas fechadas na crise. Nos demais municípios da região, esta retomada também está sendo sentida, mas cabe ressaltar que o ajuste no mercado de trabalho não foi tão intenso quanto em Caxias do Sul.

Quais as expectativas?
Embora já se perceba um certo “descolamento” da crise política da crise econômica, as expectativas em relação aos próximos capítulos da crise política atual dominam o cenário econômico. O setor produtivo quer entender como cada novo movimento pode impactar na produção. A reforma trabalhista, ainda que não tenha sido a ideal, traz certo alento ao diminuir as incertezas nas relações trabalhistas. Mas a grande questão ainda está em como o governo vai corrigir o seu déficit, em que setores ele vai mexer e que outras reformas vai propor.

Qual a sugestão aos empresários?
Temos sugerido ao empresariado local e regional que preste atenção aos sinais da retomada, pois isso se traduz em oportunidades. Mas, para tanto, deve estar preparado com investimentos, produtos inovadores e capacidade produtiva ajustada, sem claro, deixar de mensurar os riscos e gerir com controle rígido dos seus custos/despesas.

A economia está andando e os políticos estão ficando

gorski

 

Gustav Gorski

Economista-Chefe GAP Economics
Corecon-RS Nº 6931

Como iniciou o processo de desindustrialização no Brasil?
Se olharmos os primórdios da indústria brasileira, nos anos 30 talvez um pouco antes, vamos perceber que o movimento de industrialização no Brasil sempre foi um processo induzido. O Brasil sempre teve o desejo de ser indústria, por mais que nunca tivesse aptidão. Só que aptidão é ser produtivo, ter condições de negócios que se consiga relacionar com o resto do mundo da mesma maneira que o resto do mundo se relaciona. E o Brasil nunca conseguiu fazer isso, embora sempre tenha desejado ser industrializado. Então se deslocou uma enorme quantidade de recursos da sociedade para subsidiar esse setor. O processo, lá nos anos 30, começou assim, ganhou muito corpo no final dos anos 50, principalmente dos anos 60, e veio o Milagre Econômico, com o governo trazendo muitas indústrias para o Brasil. E toda a década de 80, e principalmente nos últimos anos, reviveu-se essa ideia, através da qual foram injetadas quantidades absurdas de recursos na indústria, provocando uma ineficiência gigante para a economia.

O que gerou essa ineficiência?
No momento em que se dá dinheiro subsidiado, com 2, 3, 4, 5% ao ano, enquanto a inflação é superior a isso, a relação é de um juro real negativo. Ou seja, se está fornecendo recursos da sociedade para a indústria, para que ela seja produtiva. Só que ela não é produtiva, principalmente quando se compara com os pares internacionais. Do ponto de vista econômico, o ideal é que esses players que não são produtivos frente a seus pares deixassem de existir, o que seria muito melhor para o País e para a população. Vamos ser muito mais eficientes do ponto de vista econômico fazendo aquilo que a gente é melhor, que é agro e serviços. Não podemos pensar simplesmente que quem trabalha na indústria vai perder o emprego. Perde o emprego, mas vai conseguir ocupação em outro lugar, e os filhos deles estarão muito mais bem posicionado nos anos à frente. Por mais que ter a indústria seja importante, ela tem que ser competitiva. Não podemos transferir dinheiro da sociedade para um setor que não multiplica esse retorno que a sociedade está proporcionando a ele.

A indústria está reduzindo de tamanho no Brasil?
A nossa indústria, que já chegou a ser 30% do PIB, hoje está perto de 20% e deve reduzir ainda mais. Esses campeões nacionais que estão por aí há bastante tempo e que agora estão se desmanchando, como JBS e outros, não deveriam ter iniciado por serem projetos improdutivos. É que o governo, através do BNDES, injetou grande quantidade de recursos, que acabaram se perdendo por aí. A nossa sociedade, para as quais as demandas sociais são muito fortes e necessárias, é extremamente pobre. Então, é muito mais eficiente, do ponto de vista econômico, subsidiar essas famílias para que seus filhos tenham boas condições de estudo e de trabalho ali na frente do que subsidiar um grande empresário que efetivamente só traz prejuízos para o país.

Que cenário econômico nos espera?
O mercado está olhando que a economia vai voltar a crescer e que vai se estabilizar num patamar próximo de 2,5% ao ano. Dado o movimento que tem se apresentado, de uma economia que está se depurando e se ajustando, acredito que o Brasil vá crescer bem menos que isso nos próximos 5, 6 ou 7 anos. Eu trabalharia com um cenário de crescimento da ordem de 1,5%, o que talvez seja algo mais razoável. Temos que entender que sempre que saímos de um processo recessivo como o que passamos, existe muita volatilidade do crescimento. Talvez venha um ano com crescimento de 2%, um outro ano com crescimento menor, mas o que importa mais dentro desse processo talvez nem seja manter esses níveis de crescimento, mas sim, voltar a crescer sem trazer instabilidade para as relações econômicas.

Qual a importância do comportamento dos juros nesse contexto de retomada do crescimento?
Durante muito tempo as taxas de juros oscilaram muito e sempre que ocorria uma queda um pouco mais forte, como em 2012 e 2013, o mercado entendia que se tratava de um artificialismo. Isso não acontece hoje. Os juros estão caindo de forma nada artificial, e isso é o mais importante. Podem cair talvez até abaixo de 8%, mas a grande questão é que eles vão se manter baixo durante um longo período de tempo. Então, colocar essa nova realidade dentro de um planejamento financeiro faz uma grande diferença, e é a perspectiva que se começa a trabalhar hoje, com inflação mais baixa, juro mais baixo, por um longo período de tempo, e crescimento mais ameno.

Que vantagens isso traz para a sociedade?
Traz muito mais eficiência para a sociedade. Estamos todos trabalhando e buscando eficiência, melhorando custos, buscando novos mercados, adicionando novas tecnologias. E todo esse processo, em conjunto com melhores condições financeiras, com juros mais baixos, inflação mais baixa, proporciona ao mercado maior e melhor previsibilidade nos negócios. Vamos conseguir olhar dois anos, três anos, para a frente, e, assim, poderemos fazer um planejamento mais eficiente. Com movimentos econômicos mais amenos, vai-se retomar o emprego e a estabilidade de toda a cadeia que está hoje corrompida. Vamos conseguir mais eficiência para a economia. Do ponto de vista econômico, essa é a grande novidade.

Mas isso, se a economia conseguir se descolar da crise política?
Eu vejo que se descolou. Obviamente, que pode se colar novamente. Mas, é bom lembrar que as denúncias do mês de maio foram extremamente fortes. O mercado sentiu bastante, mas se esperava um impacto bem mais agressivo na economia e isso não veio. A inflação continua leve, a taxa de juros continua caindo e não houve esse cunho político. A atividade econômica estava amena, mas não piorou. Os índices de confiança pioraram um pouco, mas devem voltar a melhorar ali na frente. Então, descolou um pouco, sim. Estava muito colado em 2015, 2016, mas agora se percebe que a economia está andando para a frente e os políticos estão ficando para trás.

Por uma tributação mais justa da renda?

gobetti

Sérgio Gobetti
Economista, jornalista, especialista em finanças públicas
Corecon/DF Nº 6399

 


De que forma tem evoluído a discussão em torno da progressividade e tributação da renda no Brasil?
Esse tema de discussão esteve adormecido nas últimas décadas pela força de algumas ideias econômicas que influenciaram na redução da progressividade em todo o mundo, com o pressuposto de que a tributação sobre os mais ricos poderia ser ineficiente, por desestimular o crescimento econômico. No limite, muita gente acreditou que a desoneração dos mais ricos seria o caminho para a prosperidade e para um mundo melhor para todos. A realidade dos fatos, entretanto, foi outra, como têm demonstrado uma série de estudos econômicos sobre a desigualdade produzidos desde então. Aqui no Brasil, a divulgação recente dos dados de imposto de renda também passou a revelar que, ao contrário do que imaginávamos, a desigualdade não vinha caindo, pelo menos não no ritmo indicado pelas pesquisas domiciliares. E por um motivo óbvio: embora o governo viesse conseguindo reduzir a pobreza e a desigualdade entre aqueles que vivem de salário, os ricos que vivem do lucro de suas empresas e de rendimentos financeiros proporcionados pelas altas taxas de juros estão cada vez mais ricos e pagam pouquíssimo imposto. Em função disso, o debate sobre a tributação da renda voltou à pauta.

E qual é a principal polêmica nesse debate?
Sem dúvida que é a tributação dos lucros e dividendos. Atualmente, no Brasil, o lucro é tributado na empresa, mas quando distribuído aos acionistas, fica isento de imposto. Poucos países no mundo fazem isso. A maioria tributa o lucro em duas etapas, e a tendência é de reduzir a tributação ao nível empresa e elevar ao nível da pessoa física. Inclusive porque isso permite tornar a tributação da renda mais progressiva e mais equânime entre as distintas formas de renda. Hoje, os rendimentos do capital sofrem distinta tributação, dependendo se o investimento ocorre numa empresa ou num ativo financeiro, e mesmo a renda do capital aplicado na empresa recebe um tratamento diferente conforme o porte e o regime tributário da empresa, se o lucro é retido ou se é distribuído, o que gera uma série de distorções sobre as decisões de investimento.

Qual o modelo de tributação mais viável para o Brasil lidar com esses problemas?
Existem vários modelos, que têm sido testados no mundo. Um modelo que eu identifico hoje como um bom ponto de partida para uma reforma no Brasil é o adotado pelos países nórdicos. Ao contrário do que se pode imaginar, o modelo dual nórdico, que é associado à social-democracia, é relativamente mais amigável com o capital do que o dos Estados Unidos e de alguns países do oeste europeu, como França, Alemanha e Inglaterra. A Noruega e a Finlândia, por exemplo, tributam o lucro em duas etapas, mas ao nível das pessoas físicas isentam parcialmente o dividendo. A isenção não é total como no Brasil ou na Estônia, mas parcial. Enquanto na Noruega se tributa o dividendo quando ele ultrapassa em rentabilidade os ativos financeiros, na Finlândia se tributa o dividendo acima de certo patamar de valor. Além disso, ambos países tributam o patrimônio das pessoas em bases anuais. Creio que ambos modelos podem servir de referência para uma mudança inicial no nosso país.

O que falta para o Brasil chegar mais próximo desse modelo?
Em primeiro lugar vontade política e menos conservadorismo da classe política e da burocracia governamental. No Brasil, as pessoas e as instituições resistem muito a inovações. E falo com a experiência de quem já passou pelo executivo e tentou introduzir mudanças e aperfeiçoamentos no regime fiscal e tributário que nos aproximassem das nações mais desenvolvidas. Há muita resistência, que extrapola um pouco aquela divisão que nós, economistas, estamos acostumados a fazer entre heterodoxos e ortodoxos. Além disso, eu diria que existe um certo “emburrecimento” no país a respeito de vários temas relevantes na área fiscal e tributária, e um apego a visões teóricas ultrapassadas. Na realidade, pouquíssimos especialistas no país estão acompanhando os grandes debates internacionais e as mudanças de posição nesse debate.

O que fazer para mudar essa realidade?
Temos tentado fazer esse debate com o máximo de racionalidade possível, o que já é bastante complicado nos dias de hoje, de extrema polarização política, de conflito distributivo, de maniqueísmo. Tanto de um lado do debate quanto do outro, a resistência em se abrir e ouvir um ao outro é muito grande.

Nessas propostas político partidárias que se tem vivenciado no Brasil, tens visto algum modelo que se aproxime dessa ideia?
Não. Nessas feições, não. Em geral, o debate se dá entre o binômio tributar ou não tributar dividendos e não sobre como tributar da maneira mais correta e equilibrada. E isso se reflete em diversos equívocos.

Que tipo de equívoco?
Eu já vi, por exemplo, propostas de elevar as alíquotas do imposto de renda sem tocar nos lucros e dividendos, o que significa cobrar mais imposto apenas de quem já paga. Por outro lado, alguns projetos de lei no Congresso propõem acabar com a isenção de dividendos distribuídos para acionistas, mas excepcionam os acionistas das micro e pequenas empresas. Uma proposta dessas não entende que o problema mais grave, de não tributação de dividendos, ocorre justamente com as micro e pequenas empresas, que já não pagam quase imposto. Então, nesse caso, trata-se de um caso evidente de dupla não tributação do lucro. Por isso, as empresas do Simples não poderiam, de forma alguma, ser excepcionadas numa mudança desse tipo. Mas os interesses eleitorais e o apelo sobre a ótica do “pequeno” são muito fortes e acabam prevalecendo. Veja que há uma confusão entre o porte da empresa e o porte do acionista que está por trás da empresa. Posso ter acionistas pobres de grandes empresas e milionários acionistas de pequenas empresas. São esses últimos que precisariam pagar mais impostos no Brasil, dependendo de quanto estão ganhando e da rentabilidade do negócio.

Mercosul de cara nova?

andre 2

 

André Luis Forti Scherer
Economista, pesquisador FEE
Corecon-RS Nº 4888

 


Como se encontra hoje a situação do Mercado Comum do Sul (Mercosul)?
Surpreendentemente, o Mercosul hoje apresenta um estado de efervescência. Não se pode dizer que esteja bem, mas está muito ativo e mais ativo do que se poderia pensar, dado às crises internas existentes em diversos membros como Brasil, Argentina e Venezuela.

O que muda no contexto do Mercosul?
A presença do presidente argentino, Maurício Macri, e do Brasil, Michel Temer, em certo sentido faz com que se tenham algumas modificações nas questões das relações internas do Mercosul, que, aparentemente, levam para um determinado caminho, de maior consenso em torno de uma agenda mais liberalizante. O que ocorre é que existe um processo de transformação muito grande no cenário mundial que tem imposto uma série de dificuldades, colocando essa agenda em segundo plano. Internamente, existe uma série de reuniões que leva essa questão do Mercosul e União Europeia (UE), por exemplo, a agendas importantes que vêm sendo tentadas, em busca de solução, entre os países membros do Mercosul.

Por que esses acordos agora, depois de tanto tempo paralisados?
A posse do Macri marca a mudança de postura da Argentina, que vinha trancando algumas iniciativas liberalizantes do Brasil desde alguns anos. Macri representa o setor industrial argentino, que depende fundamentalmente da indústria brasileira, de quem é fornecedor. E eles precisam negociar e integrar mais suas ações com o Brasil. Essa retomada, em 2015, do acordo Mercosul com a União Europeia é uma iniciativa muito forte do país vizinho. Se, por um lado, a prioridade da Argentina é o Mercosul, para o Brasil de Temer a prioridade eram as negociações com os EUA, o que veio a se modificar após a ascensão de Trump. Trump é o grande fiador, tanto do interesse latino-americano, quanto do interesse europeu, dessa tentativa de destravar o acordo Mercosul-UE.

Quais as chances de negociação com blocos internacionais?
A chegada de Trump ao governo norte americano, a eleição de Macron na França, assim como Macri e Temer, muda todo o cenário e a agenda prevista para o Mercosul. O Brasil, assumindo a presidência do bloco, vê como prioridade para o Mercosul os acordos com a UE e a resolução d situação em relação à Venezuela. Na Europa, tem-se uma situação muito complicada no que diz respeito à ratificação desses acordos, que têm que passar pelos parlamentos dos países-membros, inclusive regionais. Nesse sentido, superar a multiplicidade de interesses locais dentro dos diferentes países leva a um processo intrinsecamente demorado e, por vezes, tortuoso.

Que tipo de benefícios um acordo desse porte traria ao Brasil e Rio Grande do Sul?
Alguns setores, como o calçado gaúcho, especialmente, poderiam ser beneficiados com uma redução progressiva de tarifas. É interessante ressaltar que o Mercosul tem colocado a abertura em sentido amplo, com a redução de barreiras tarifárias e não tarifárias. Mas a Europa colocou várias salvaguardas no acordo para determinados produtos sensíveis, como o óleo de girassol, carnes e alguns tipos de vinhos. O fortalecimento do Mercosul é crucial para a superação de uma localização desfavorável de parte do Rio Grande do Sul. Evidentemente, setores da indústria brasileira teriam de se adaptar a um processo concorrencial ainda mais intenso.

Domicílios rurais da Zona Sul do RS

camila2

 

Camila Horst Toigo

Economista, doutoranda em Economia do Desenvolvimento (PUCRS)
Corecon-RS Nº 8149

 

Qual o objetivo do trabalho “Domicílios rurais do Território Zona Sul: condições de vida e percepções”?
O objetivo do trabalho foi verificar, a partir da análise do Índice de Condição de Vida, que é um índice multidimensional, se as percepções sobre as condições de vida diferiam entre os domicílios rurais com produção (familiar e não familiar) e os domicílios sem produção. Para isso, foram realizados testes “T” para comparação de médias, supondo variâncias diferentes entre os dados dos domicílios rurais. A hipótese nula pautou-se na igualdade entre as médias, corroborando a não divergência de percepções entre os grupos. Em contraponto, a hipótese não nula indicava que as condições de vida eram percebidas diferentemente para os diferentes grupos de domicílios.

Que período e qual a amostragem utilizada do estudo?
A pesquisa de campo, realizada por uma equipe de professores, pesquisadores e alunos do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Rural da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, foi realizada no ano de 2010 e o número de famílias em domicílios rurais totalizou 280. A partir dos dados primários, elaborou-se o Índice de Condição de Vida, em cima do qual o estudo foi feito.

Quais as principais características das famílias rurais da zona sul do RS?
Do total das 280 famílias entrevistadas, 238 inseriam-se no grupo de domicílios com produção agropecuária; 189 deles foram classificados como pertencentes à agricultura familiar, enquanto 49 domicílios, como produtores não familiares. Os 42 domicílios restantes inseriram-se no grupo sem produção agropecuária.

O que os resultados apontaram sobre as condições de vida?
Os resultados mostraram que as famílias residentes em domicílios rurais que exerciam alguma produção agropecuária percebiam suas condições de vida de forma diferente das famílias residentes em domicílios rurais com "função" de lazer ou moradia. As primeiras apresentaram-se mais resiliente por, principalmente, possuírem dinâmicas produtivas dentro do domicílio. Porém, os resultados também mostraram más condições de acesso aos mercados, políticas e programas do governo, o que apontou um contexto preocupante, uma vez que poderia induzir situações de exclusão social, baixos níveis de desenvolvimento humano e níveis significativos de pobreza e desigualdade, além de reduzir, por consequência, a habilidade e resiliência para lidar com choques, riscos e eventos adversos. Comparando-se as famílias produtoras com características da agricultura familiar e famílias produtoras com características da agricultura não familiar, constatou-se que ambas não mostraram diferenças nas percepções sobre suas condições de vida. A diversificação das estratégias exercidas pelas famílias produtoras, independentemente de praticarem agricultura familiar ou não, em buscar outras alternativas de sustentação e reprodução social, foi uma das reflexões levantadas para justificar tais resultados.

Ainda tem espaço para otimismo na indústria?

andre nunes de nunes

 

André Nunes de Nunes

Economista-Chefe Sistema Fiergs
Corecon-RS Nº 7567

 

 

Como o setor está vendo o cenário político e econômico nacional?
O cenário político e econômico nacional é muito delicado ainda. Se por um lado percebemos que o pior da crise econômica já passou e se tem uma perspectiva de retomada ainda que lenta da atividade, existe muita incerteza vinda do lado político e das finanças públicas. Acreditamos que isso vai continuar sendo um dos principais limitadores para um ciclo de crescimento mais intenso e mais longo, principalmente, dos investimentos.


As reformas que estão se desenhando são suficientes para o retorno da esperança do empresariado de forma que ele volte a investir?
Essas reformas são o mínimo necessário para que se possa chegar até o próximo ciclo econômico, até o próximo governo sem o país quebrar. Essa reforma da previdência não será a última. Teremos que fazer outras, simplesmente por uma questão de equilíbrio financeiro e demográfico. Para o Brasil passar para outro patamar de crescimento são necessárias muitas outras reformas além dessas. Nós precisamos melhorar muito o ambiente de negócios para criar um cenário propício para o empreendedorismo e para o investimento.


Porque o custo operacional da indústria gaúcha é maior que o de outros estados?
Infelizmente, o custo operacional da indústria no Rio Grande do Sul ainda é ligeiramente mais alto na comparação com outros estados. Aqui temos um maior custo com logística, já que a localização geográfica das empresas em relação ao centro mais dinâmico da economia nacional acaba refletindo no custo final das empresas. Há também exigências e impostos mais altos que afetam o custo de produzir aqui.


O setor tem sinalizado positivamente com relação a investimentos?
Realizamos mensalmente sondagens com os empresários da indústria gaúcha e elas nos mostram que o otimismo aumentou. Os industriais estão mais confiantes, principalmente pelas expectativas com relação à economia brasileira. Mas esse otimismo já esteve maior e isso se percebe quando se compara os números do final do ano passado em relação aos atuais. Entretanto, a intensão de investir ainda é bastante baixa. A conjuntura melhorou, mas ainda não há um ambiente para forte crescimento nos investimentos.


Diminuir o tamanho do estado ajudaria na busca da eficiência?
É difícil sabermos qual o tamanho ideal do estado. Essa discussão é polêmica entre os economistas e trata-se de uma escolha que a população faz ao longo dos anos através das urnas. Mas a questão não é puramente de ele ser maior ou menor, mas sim de ele caber dentro dos seus recursos. E, além do equilíbrio, o principal desafio é que ele dê um salto de eficiência. Isso vale para o Rio Grande do Sul e o Brasil. Hoje em dia, o sentimento das pessoas é de que o estado é mínimo. Falta estado para todos. Falta educação, falta segurança, falta saúde. Precisamos de um estado presente naquilo que as pessoas mais demandam e valorizam. Para isso, precisaremos elencar prioridades, o que significa enxugar muito as áreas de presença estatal. Esse enxugamento pode liberar recursos para áreas prioritárias, mas sabemos que só dotar essas áreas de maiores recursos não é suficiente. Precisamos criar a mentalidade da eficiência e da boa prestação de serviços.

Já se pode comemorar o resultado do PIB gaúcho?

roberto rocha

 

Roberto Rocha
Economista, pesquisador FEE
Corecon-RS Nº 6788

 


Pode-se encarar como positivo esse resultado do Produto Interno Bruto (PIB) gaúcho no primeiro trimestre do ano?
A taxa de crescimento do PIB foi nula, nesse primeiro trimestre, em comparação com o mesmo período do ano passado e o Valor Adicionado Bruto teve uma variação positiva de 0,2%. Em outras palavras, a economia ficou no mesmo nível, frente a um contexto de quase três anos de queda. Pelo menos paramos de cair. Então, pode-se dizer sim, que este resultado é positivo, na medida em que não aprofundou a queda.

Já se pode comemorar?
Isso é positivo, porque tivemos, há quase três anos, a cada trimestre, produzindo menos por habitante. Se formos olhar esse comportamento do ponto de vista per capita é o mesmo volume para distribuir entre as pessoas. Então, volto a dizer, é positivo.

E comparado ao Brasil?
Esse resultado foi melhor que o brasileiro, que apresentou uma variação negativa de 0,4%, completando 12 trimestres de quedas consecutivas. Quando comparada com o trimestre anterior, o crescimento da economia gaúcha no primeiro trimestre de 2017 foi de 0,6%, e o do Brasil, 1,0 %.

O que chamou mais a atenção nesses números do trimestre?
Os números da agropecuária já eram esperados. Da mesma forma, para o Brasil foi um ano muito bom para a agropecuária. Já temos uma sequência de anos de bons resultados da agropecuária, especialmente da soja, tanto em nível de volume como de preços no mercado internacional. Mas, nesses números, percebe-se também um resultado importante, que é o crescimento da indústria nos dois últimos trimestres. Como a parte mais forte da recessão foi sobre a indústria e tivemos esses resultados de crescimento da indústria de transformação, também é um sinal muito positivo, pois mostra um sinal de maior sustentação desse movimento. O crescimento da indústria, associada à exportação, puxado pelo setor automotivo, que vem exportando especialmente para a Argentina.

E como foi o comportamento do serviços?
O comércio e serviços, associado à renda interna, ainda sofre muito com os rendimentos reais, que estão muito baixos. Comparado com o início da crise, a taxa de desemprego ainda está muito alta. Mas comparado com o Brasil, nosso resultado, tanto em termos de rendimento, como em termos de taxa e nível de ocupação, ainda é mais positivo, porque tem a ver com a estrutura do nosso mercado de trabalho.

O que esperar agora?
Se a indústria continuar pelo menos mantendo esse comportamento ou não tiver uma queda muito significativa na exportação, como vamos ter o impacto maior da agropecuária, a expectativa é de que a gente passe, pelo menos no próximo trimestre, a uma taxa positiva, impactado pela safra da soja, conforme os dados já consolidados. Então, a agropecuária e a soja vão impactar positivamente. Os dados da indústria, por enquanto, estão muito inseguros. Um mês se recupera, outro não. Vamos ver como será quando fecharmos os dados de junho. Temos, ainda, todo o setor de carnes, que vem sofrendo desde maio e, agora, o fechamento do mercado americano. Por outro lado, as exportações do setor automotivo continuam muito boas. Temos que saber como isso tudo vai acabar impactando neste trimestre.

De que forma essa crise política pode impactar nessa trajetória dos números?
Temos um setor industrial muito associado ao investimento no Brasil, com um setor metal mecânico mais forte e robusto, que é o setor de máquinas e equipamentos. Também, o setor de transporte automotivo, como carrocerias e acessórios, que se concentra na região da serra gaúcha e que sofre muito com a queda da taxa de investimento e com a não retomada desses investimentos. O grau de incerteza sobre a situação política do país aumenta a dificuldade de retomada de investimento, que já vive um cenário não muito promissor, em função da queda muito abrupta da economia. Só que uma retomada da taxa de investimento significativa vai demorar, até porque existe uma grande capacidade ociosa a ser ocupada antes. Outro problema é saber como todo esse processo vai implicar na política econômica. Em que medida a política pode ser mais expansionista, queda juros, aumento de investimentos e outras ações de incentivo ao consumo. Na forma como essa crise política está colocada, não se percebem grandes possibilidades de reverter a tendência de uma retomada muito lenta e instável.

Privatizações: agora é a hora?

andre

 

André Moreira Cunha
Economista, professor UFRGS
Corecon Nº 5243

 


Até que ponto a privatização de empresas é importante para a eficiência do Estado?
Fazer privatizações não necessariamente torna o Estado mais eficiente. Não creio que se possa generalizar situações que devem ser analisadas em seus contextos específicos. Se olharmos em uma perspectiva histórica, vamos notar que o estado ampliou e diversificou suas formas de atuação. Até a Primeira Guerra Mundial, o gasto público correspondia a menos do que 10% da renda nas economias avançadas. Hoje, esse número parte de 25% do PIB e pode atingir mais de 40%. É a partir do pós-Segunda Guerra que tal processo ganha força, inclusive com a participação estatal na produção e provisão de bens e serviços finais.

Por que o Estado resolve aumentar o seu tamanho?
O Estado passou a ter um tamanho bastante maior porque a sociedade se tornou mais complexa e passou a demandar, agora em ambientes democráticos, a provisão de saúde, educação, previdência etc. Ademais, no pós-guerra havia a combinação da destruição na infraestrutura física e a ameaça de disseminação de regimes socialistas. Isso assustou o establishment político e os detentores da riqueza privada, o que criou as condições políticas para o maior ativismo estatal. No lado das receitas públicas, foi possível adotar regimes mais progressivos, com a taxação das altas rendas. As populações eram mais jovens e os efeitos multiplicadores dos investimentos públicos eram elevados. Nos países periféricos, a busca da modernização, particularmente via o binômio industrialização e urbanização, implicava na ampliação de infraestrutura e a maior demanda por bens intermediários e bens de capital, cuja produção foi também assumida pelos Estados Nacionais. O setor privado não tinha musculatura e mesmo disposição para assumir os riscos de realizar investimentos de longo prazo. Ou o Estado entrava ou não tinha jogo. Por isso o processo foi tão disseminado. Em síntese, com trauma da crise de 1929, as duas guerras mundiais e o medo do comunismo, os Estados passaram a atuar na regulação macroeconômica para evitar crises profundas e prolongadas, reduzir o desemprego, dar proteção social, garantir o avanço tecnológico e a moderna infraestrutura necessária para que o setor privado pudesse florescer

Essa formatação se mantém nos dias de hoje?
Sim, ainda que com importante diversidade, em termos de tamanho e formas de atuação. Por exemplo, enquanto nos EUA o gasto público equivale a um quarto de seu PIB, na Europa, principalmente os países nórdicos, pode-se chegar a mais de 40% do PIB, tanto pelo lado do gasto como pelo da arrecadação.

E como surgiu a onda de privatizações?
A partir do final dos anos 1970, e com mais intensidade nos anos 1980 e 1990, vamos ter uma onda de privatizações, oportunidade em que o Estado vai se afastando de certas funções produtivas, especialmente em serviços e infraestrutura como telefonia, produção, transmissão e distribuição de energia, transportes, setor bancário, entre outros. Tal dinâmica ocorre também no Brasil, ainda que de forma um pouco retardatária e menos intensa do que o observado no nosso entorno regional.

Qual o tamanho ideal de Estado?
Voltando ao teu questionamento inicial, há que se ter o cuidado de não confundir tamanho e eficiência. Eu posso ter um Estado com 25% do PIB, incapaz de atender às demandas da sociedade com eficiência, e um Estado com mais de 30% ou até 40%, em países que crescem de forma estável e com níveis elevados de desenvolvimento humano, eficiência produtiva etc. Sendo mais específico, pode-se ter um Estado tipicamente latino-americano ou algo mais próximo do modelo europeu, especialmente dos países mais ao norte. Ademais, não podemos esquecer que em sociedades que se pretendam democráticas, compete à sociedade, por meio dos processos eleitorais, definir tais limites, vale dizer, o que o estado deve fazer e como financiar seus gastos por meio da tributação. Atualmente, a própria dinâmica eleitoral está muito contaminada por debates de pouca qualidade, que dificultam a construção de percepções mais maduras sobre essas questões. Ainda assim, não devem ser tecnocratas, mas a sociedade que deve ter a palavra final.

É quando surge o caso chinês?
Na virada do século XX para o século XXI, emerge a China como um ator capaz de afetar a dinâmica econômica global, o que contribui para recolocar o tema do ativismo estatal. No meio disso, a crise financeira de 2007/2009 lança dúvidas sobre a eficiência do modelo ultraliberal e comandado pelas finanças. A crise ocorre nos EUA e no setor financeiro privado. Como a China seguiu forte e cada vez mais aberta ao mundo, passou-se à contraposição entre o assim-chamado Consenso de Washington, e o Consenso de Pequim. Tal debate pode ser muito simplista, mas penso que a China, com suas estatais em setores estratégicos (bancos, energia, comunicação, construção, infraestrutura etc.) e forte atuação indutora do governo central, controlado pelo Partido Comunista, é um desafio para o mundo liberal do Ocidente.

Não seria uma boa hora de diminuir o tamanho do Estado brasileiro para amenizar a crise fiscal?
Vivemos uma crise fiscal. Não há dúvidas sobre isso. Em parte, ela é resultado da própria crise econômica, política e institucional que se explicita a partir 2014. Em outra, é estrutural. Desde o começo dos anos 1980, deixamos de crescer de forma dinâmica. São 35 anos com uma taxa média de variação da renda ao redor de 2,5% ao ano, menos do que a média mundial. Estamos nos desindustrializando e reprimarizando nossas exportações. Em alguma medida, voltamos a ser uma economia “primário-exportadora”. Alguns economistas acham que as políticas de austeridade e uma forte redução do Estado animariam o setor privado, que voltaria a investir. Acho que tal caminho é arriscado e com elevado potencial de produzir uma regressão social profunda. Ademais, não há evidências sólidas na literatura internacional que sustente tal conclusão de forma inequívoca. Trabalhos recentes do FMI e de pesquisadores independentes lançam dúvidas sobre a combinação entre liberalização financeira e austeridade fiscal gerar progresso material e social. Pelo contrário, tais políticas só ampliam a instabilidade e a desigualdade. No Brasil, a participação estatal esteve muito atrelada ao processo de urbanização e de industrialização. O Estado, tanto o governo central, quanto os locais, se transformou em grande provedor de infraestrutura e de bens industriais, como no caso da siderurgia. E isso ocorreu, por um longo período de tempo, em grande medida porque o setor privado não se revelou potente o suficiente ou mesmo disposto a assumir os elevados riscos daquele processo de modernização. Ao mesmo tempo, a população cresceu, o país se urbanizou, ficou mais complexo, e as demandas por inclusão e proteção social passaram a crescer. Agora estamos num momento de crise econômica, de crise fiscal, em que alguns economistas entendem que esta é a oportunidade para liquidar o que sobrou das empresas estatais e avançar em uma agenda de redução da proteção social. Os argumentos associados à corrupção e à eficiência voltam à baila. Acredito que temos que combater fortemente a corrupção e buscar a eficiência da atuação estatal. O modelo brasileiro tem sido muito ruim em ambos os aspectos. Só que isso pode (e deve) ser feito com a garantia de que o Estado poderá prover segurança social, o que implica investir em educação, cultura, saúde, proteção ambiental e ciência e tecnologia. Também temos enorme defasagem em infraestrutura, que demandará uma atuação combinada entre os setores privado e público. E, para completar, uma estrutura tributária que protege os ricos e penaliza as classes baixas e remedidas. Assim, o debate correto é menos em termos de tamanho, pois sendo realista, não consigo imaginar o Estado brasileiro passar da faixa de 30% do PIB para perto dos 20%, que seria o mundo ideal dos ultraliberais, ou subir para 40%, como seria o sonho dos que estão no espectro oposto. A questão é garantir que com o tamanho atual haja mais eficiência social e que se consiga estabilizar a trajetória dívida/PIB. Eu posso estabilizar a dinâmica da dívida gerando superávits primários de, digamos, 3% do PIB. Porém, para atingir os 3%, as receitas podem ser de 33% e os gastos de 30%; ou de 23% e 20%; ou, ainda, de 43% e 40%. São escolhas que a sociedade deveria fazer com maior consciência, sem as simplificações e mistificações do debate em curso.

Que tipo de setores poderiam ser dispensados da atuação do Estado?
Existem setores em que o estado deve continuar atuando. Acho que na área de intermediação financeira, por exemplo, devem ser preservados os grandes bancos, como BNDES, Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal, que têm importante papel a cumprir no desenvolvimento, inclusive na gestão macroeconômica por sua atuação contra-cíclica. Em algumas outras áreas, não vejo muito sentido no período contemporâneo, como na siderurgia, por exemplo. Em outros setores, trata-se de avaliar caso a caso, analisar custos e benefícios com muito cuidado e critério. É muito ruim que a discussão sobre privatizações volte num momento de crise, já que os preços dos ativos estão muito baixos. Seria entregar o patrimônio público sem uma discussão mais aprofundada e a um valor muito mais abaixo do que deveria. E pior, isso tudo sem resolver o problema fiscal. Não estou dizendo que não tenhamos enormes distorções de gestão nas estatais. O modelo não me satisfaz. A interferência política na gestão dessas instituições é muito ruim para as próprias instituições e para a sociedade.

E, no Rio Grande do Sul, as privatizações da CRM, Sugás e CEEE, pretendidas pelo governo do estado?
É uma questão de estudar caso a caso. Mas é sempre bom não esquecer que as privatizações ocorridas aqui no estado nos anos 1990 não resolveram o problema fiscal. Tenho profundas dúvidas se uma nova rodada de privatizações iria resolver. De qualquer forma, vender empresas públicas no momento em que os preços estão em baixa e a economia está deprimida é muito ruim. E, além disso, eu desconheço se o governo tem algum tipo de estudo minimamente fundamentado sobre o tema. Digo isso porque nos casos das fundações, os argumentos eram semelhantes, mas até o momento, pelo menos até onde tenho conhecimento, o governo ainda não ofereceu para a sociedade e os órgãos competentes, como Ministério Público e Judiciário, nenhum tipo de evidência de que realmente o estado vai “economizar” e que as funções que eram exercidas por essas instituições serão providas pela administração direta. Acho que tem muita ideologia em dizer que o estado é sempre o vilão ou, no extremo oposto, que vai resolver tudo, sem custos para a sociedade. Os economistas deveriam estar contribuindo para qualificar tal debate com evidências e não simplesmente pela reprodução de argumentos estritamente ideológicos. Estes são importantes, mas insuficientes. E nem sempre as posições estão claras, pois alguns vendem ideologia com roupagem de ciência, especialmente no mercado doméstico de ideias.

O mercado de capitais e a turbulência


jose junior

José Junior de Oliveira
Economista, analista de Mercado de Capitais, presidente da Apimec-Sul
Corecon/RS Nº 5500

Como está o cenário de mercado de capitais nesse contexto de turbulência política que vive o País?
Acredito que o mercado ainda não tenha conseguido, neste momento, desmembrar a economia da política. Ele está tentando dissociar, mas é um cenário muito complicado. Infelizmente, a política está dando o norte para a economia. Ou seja, se o governo conseguir passar alguma reforma, como, por exemplo, a da previdência, que envolve problemas estruturais que o país precisa superar, vai melhorar a expectativa. Apesar de tudo isso, o investidor ainda está avesso ao risco. Para melhorar a confiança e o mercado deslanchar, precisa ter um cenário político mais claro. Tudo isso ainda está muito nebuloso no Brasil.

Como se explica o fato de o investidor estrangeiro ter uma visão mais positiva da conjuntura econômica brasileira?
É porque o investidor estrangeiro olha o mercado brasileiro numa perspectiva de longo prazo. Ele entende que essa crise será ultrapassada e vê oportunidades adiante disso, que nós, infelizmente, ainda não conseguimos ver.

Por que isso acontece?
É que os investidores domésticos têm uma visão mais de curto prazo. O investidor brasileiro quer liquidez e garantia no curto prazo. Isso é muito difícil em investimentos, pois, no mercado de capitais principalmente, o resultado vem a longo prazo, e quando se trata de investimentos, existem riscos inerentes que devem ser administrados. Já o investidor estrangeiro não tem essa visão imediatista. Ele aceita correr esse risco e passar um tempo esperando ou aguardar o tempo necessário de maturação do investimento, desde que o retorno seja atrativo, e ter um resultado maior. Os brasileiros, não querem risco, querem liquidez e retorno rápido.

Qual a composição de investimentos em bolsa de valores existente no mercado brasileiro?
Atualmente, do total dos recursos em bolsa, 50% são oriundos de investidores estrangeiros, 17% de pessoas físicas, 25% institucional e o restante são fundos de instituições financeiras, empresas e outros.

Com que olhos são vistos os imensos gargalos existentes no Brasil, especialmente na área de infraestrutura?
Ao contrário do investidor brasileiro, o investidor estrangeiro consegue vislumbrar isso e tem a paciência para ficar 10 ou 15 anos esperando o retorno, já que investimento em infraestrutura requer tempo para a contra partida. Os estrangeiros estão investindo na área de energia e infraestrutura. Mas o volume de recursos tende a se intensificar quando o cenário para o Brasil se tornar mais previsível. Existem muitos gargalos que o país precisa superar para reduzir custos e melhorar a eficiência da economia. Quem investir nessa área certamente obterá ótimas oportunidades e bons retornos.

Onde o investidor brasileiro prefere colocar seus recursos?
No mercado financeiro, principalmente através de títulos de renda fixa (CDBs de bancos), títulos do governo via Tesouro Direto e muitos, ainda, em caderneta de poupança. Esta última tem rentabilidade um pouco menor, mas o investidor prefere a segurança. Uma minoria investe em mercado de capitais, como ações.

Isso é uma característica cultural?
Em grande medida sim. Talvez devido ao fato de o Brasil ter convivido por muitos anos com inflação elevada e com juros estratosféricos. O investidor acostumou-se a investir seus recursos com taxas elevadas, e o governo corrobora com isso quando paga taxas altas pelos títulos de sua dívida, devido a problemas fiscais que não resolve. Isso, de preparar o investidor para situações de maior risco e que vão trazer maior retorno lá na frente é uma questão de cultura e de cenário. Conforme já falamos, o mercado de capitais tem risco embutido pela sua característica. Não tem como fugir disso. Em finanças, um conceito básico é que para obter maior retorno, o investidor terá que se expor à maior risco. Como o investidor não quer risco, vai para a renda fixa, empresta dinheiro para o governo ou coloca na caderneta de poupança, ganha uma taxa alta e, teoricamente, não corre risco, e o país não investe no setor produtivo.

Se passar algum tipo de reforma esse cenário pode mudar?
Vai depender de como esse governo vai conseguir passar todo esse processo de denúncias envolvendo desde o presidente da república até sua base de sustentação. É um governo turbulento, com um grande número de ministros envolvidos em denúncias, e isso complica o cenário, mesmo para conseguir aprovar reformas que são necessárias e essenciais para o país voltar a crescer e gerar empregos. As reformas propostas, talvez serão aprovadas, mas não da forma que se esperava. Isso poderá trazer certa estabilidade e melhorar as expectativas para a economia, mas está difícil fazer qualquer previsão. Infelizmente, estamos em um momento de instabilidade política no país, que deverá se estender, no mínimo, até o próximo ano. O resultado dessa incerteza é a aversão ao risco por parte dos investidores, principalmente, para investimentos diretos.

E a equipe econômica?
A equipe econômica é o que tem de mais positivo em todo esse contexto. Está trabalhando sério, tentando melhorar o cenário. Tentando fazer com que o mercado acredite que as reformas estruturais e econômicas vão acontecer e gerar estabilidade para o governo conter o déficit nas contas públicas e retomar o caminho do crescimento. Aliás, o que tem de mais crível no governo atualmente é a equipe econômica.

Como empresas envolvidas nos escândalos, como a Petrobras, estão sendo vistas pelo mercado?
A Petrobras está sendo reestruturada e, seguindo nessa linha, vai melhorar. Está vendendo ativos que não davam resultados em um grande processo de desinvestimento e dedicando sua atenção onde tem expertise. Certamente, voltará a ser uma empresa que proporcionará bons retornos a seus acionistas.

Como o mercado vê as mudanças no BNDES?
É muito importante para o mercado que o BNDES tenha linhas de crédito para incentivar o investimento, com taxas de juros competitivas, principalmente nas áreas em que o país é mais carente, como infraestrutura, e para pequenas e médias empresas, que são geradoras de emprego e precisam de crédito. O que não é aceitável é o governo, via Tesouro Nacional, emita dívida a um custo elevado e repasse recursos para o BNDES emprestar a uma taxa de juros menor. Quem paga a conta? Isso só agrava a situação fiscal do país e não proporciona resultado prático para a economia. O BNDES precisa desconcentrar suas linhas de crédito, escolher projetos rentáveis e com critérios técnicos.

Privatizar, por si só, resolve?


marcelo portugal1

 

Marcelo Portugal
Economista, professor da UFRGS
Corecon nº 7760

Até que ponto a privatização é uma forma de tornar o estado mais leve, mais eficiente?
Acho que o ponto central é descolar a questão da privatização da questão da crise fiscal em que o estado está inserido hoje. Quando se fala em privatizar simplesmente para utilizar o dinheiro da venda de empresas e pagar a folha de salários dos servidores, não adianta. O que acontece é que, neste caso, se paga a folha e, dentro de dois ou três anos, o problema está de volta. A diferença é que, desta vez, não se tem mais as empresas.

A privatização tem que vir acompanhada de outras ações de gestão?
Sou a favor de privatizar, já que não vejo por que o estado tem que administrar cartão de crédito, conta corrente ou entregar gás a domicilio. São todas ações que podem e devem ser feitas por empresas privadas, ficando o estado simplesmente com a responsabilidade de regular esse processo. O que estou querendo dizer é que a privatização não pode ser vista como uma válvula de escape do problema fiscal de curto prazo. Ela tem de ser vista em um contexto em que o Estado vai se concentrar na produção de Bens Públicos de segurança, saúde e educação básica.

Então a simples privatização das nossas estatais CEEE, CRM e Sulgás não resolveria a situação do estado?
Não é que não adiantaria. É que realmente temos que separar os problemas. Como disse, o problema da crise fiscal não está junto com o da privatização. A privatização tem como objetivo fazer o estado se concentrar naquilo com que ele deve se preocupar. Aprendemos com a Lava-Jato que os políticos gostam de ter empresas porque eles as utilizam de uma forma política. Acho que essas empresas têm que deixar de ser públicas. Isso é uma coisa. Outra coisa é que o estado precisa se ajustar fiscalmente. Essas duas coisas não estão conectadas. Na minha cabeça pelo menos, não estão.

A eficiência do estado passa pela privatização?
Devemos privatizar porque isso ajuda na eficiência, sim. Assim como ajuda no combate à corrupção. E é até mais fácil controlar as empresas quando elas são privadas do que quando são públicas. Quando ela é pública, começam a surgir as corporações que passam a defender os seus próprios interesses e não propriamente os da sociedade. O que não pode acontecer é que os recursos oriundos da privatização sejam consumidos no curto prazo. O ideal seria fazer como um fundo, de onde se retira dois ou três por cento do valor, mensalmente, durante 10 ou 15 anos. Esse recurso tem que ser sacado por um período longo, sob o risco de o gestor gastar tudo e não fazer os ajustes fiscais necessários.

O foco principal é a gestão?
Acho que existe, sim, um foco de gestão, um foco de diminuição de corrupção. Basta olharmos o que aconteceu com estatais como Petrobrás, Eletrobrás, BNDES. Como o dirigente da empresa é indicado pelo político, passa a existir uma influência política na gestão da empresa, e isso é inevitável. Há um conflito de interesses para o gestor da empresa estatal. Ele vai gerir com olhos na produção de bens e serviços de qualidade para a população ou com vistas a agradar quem o nomeou para o cargo? Então, deveríamos eliminar esse processo e fazer com que o estado só se preocupasse com a regulação desses serviços. A empresa de energia tem que entregar energia de boa qualidade, a empresa de telefonia tem que entregar serviços de telefonia de boa qualidade, e assim, sucessivamente. Aliás, basta lembrarmos que telefonia já foi 100% pública e hoje é 100% privada. E agora todo mundo tem telefone e o telefone funciona. A mesma coisa tem que acontecer com a energia elétrica, com os bancos, com o gás, e outros tantos serviços e atividades que não são típicas de Estado.

Como fica a retomada?


mauro salvo

 

Mauro Salvo
Economista, ex-vice-presidente Corecon-RS
Corecon-RS Nº 5630

Quando o país se preparava para uma retomada da economia, surgem novas denúncias na lava-jato, atingindo diretamente o Palácio do Planalto. Que tipo de impacto isso pode trazer à economia?
Na realidade, um ciclo de crescimento robusto e contínuo ocorrerá somente quando houver reformas que modernizem as instituições e as relações micro e macroeconômica. O que estávamos vivenciando era um início de retomada baseada na expectativa de reformas. Nesse sentido, o impacto das denúncias foi negativo, pois colocam as expectativas no “modo de espera”. Não obstante, é imperativo destacar que a “Força Tarefa Lava-Jato” trará ganhos institucionais no médio e longo prazos que afetarão positivamente a economia brasileira.

Nesse novo contexto, como ficam as expectativas dos empresários?
O desafio do Poder Executivo é concretizar uma agenda capaz de reverter as expectativas negativas, num ambiente de desconfiança quanto à continuidade do governo e/ou de sua capacidade de superar dificuldades.

O governo Temer conseguirá união de suas bases na Câmara e Senado para concluir as reformas programadas?
Este talvez seja o grande nó do momento. Numa conjuntura em que há crise simultânea do capitalismo de compadrio, do presidencialismo de coalisão e crise fiscal, o Planalto fica temporariamente sem suas moedas de troca para convencimento de uma base congressual reconhecidamente sem perfil ideológico nem compromisso com os eleitores que deveriam representar. Tanto executivo como legislativo perderam seus tradicionais parâmetros de negociação – o chamado toma-lá-dá-cá. Assim, há um enorme ponto de interrogação quanto ao resultado das reformas no governo Temer.

Qual a avaliação da situação política/econômica por que está passando o País?
A situação é bastante crítica, dado o cenário delineado anteriormente. A certeza é que todos os players da política nacional estão obrigados a fazer algum movimento, o que pode ser bom (ou não!). Diferentemente de outras ocasiões de crise, creio que na atual não há a alternativa da postergação, tendo em vista que ainda há a pressão dada pela aproximação do calendário eleitoral, que, aliás, já está em pauta.

Que impactos pode trazer para a economia a saída da presidente do BNDES, que vinha adotando uma postura considerada mais rígida nas concessões de financiamentos?
No curto prazo não deve ter impacto negativo. No médio e longo prazos talvez ocorra uma mudança de visão, tendo em vista que o episódio da saída da presidente do BNDES chamou a atenção para a forma questionável como a instituição opera sua política de crédito. Sem dúvida, teria sido melhor que ela tivesse continuado. Porém, no mínimo, criou-se uma oportunidade para revisão dos métodos utilizados pelo Banco.

A economia consegue se recuperar num período de curto ou médio prazo?
Creio que não. Embora tenham sido observados alguns indicadores positivos nos meses recentes, a análise do conjunto dos dados e sua perspectiva apontam para uma recuperação lenta. De positivo, pode-se crer que o pior já tenha passado. Todavia, a economia brasileira ainda está longe da bonança.

Teoria dos Jogos e Operação Lava-Jato

luiz renato

 

Luiz Renato de Oliveira Lima
Professor Titular Departamento de Economia da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), coordenador do intercâmbio UFPB/The University of Tennessee

 

Por que a relação da Teoria dos Jogos com a Operação Lava Jato?
Entre as várias formas de jogos não cooperativos estudados por John Nash, existe um chamado de "dilema dos prisioneiros". Este jogo consiste em colocar dois criminosos em salas separadas e oferecer-lhes incentivos para que confessem o crime. Em outras palavras, se um prisioneiro confessar e o outro não confessar, então aquele que confessou fica com a pena menor, ao passo que aquele que não confessou ficará mais tempo na cadeia. John Nash mostrou que o resultado desse jogo é que ambos os prisioneiros acabam confessando o crime porque temem ficar mais tempo presos e porque desconfiam que o seu oponente (o outro prisioneiro) acabará confessando o crime. Este jogo é similar ao processo de delação premiada implantado pela operação Lava-Jato. Neste jogo, os jogadores (criminosos) confessam o seus crimes até se chegar ao chefe da quadrilha, que é o alvo principal da operação Lava-Jato.

Por que o senhor detecta nesse fato a presença do Equilíbrio de Nash?
Um equilíbrio de Nash ocorre quando um jogador não tem interesse em se desviar da sua estratégia no jogo, pois, ao tentar fazê-lo, obtém um resultado pior. Na operação Lava-Jato, a estratégia ótima é de confessar o crime, caso contrário ficará mais tempo preso na medida que outros criminosos confessem a sua participação. Durante um jogo, cada jogador observa as jogadas do seu oponente e ajusta as sua ações em função da ação do oponente. Por exemplo, Renato Duque ficou muito tempo sem confessar até perceber que esta estratégia lhe renderia um resultado pior. No final, ele teve que mudar de estratégia e acabou confessando o crime. Isso caracteriza um equilíbrio de Nash.

John Nash, em Dilema dos Prisioneiros, já preconizava a eficácia da delação premiada?
São jogos semelhantes. John Nash desenvolveu uma solução para jogos não cooperativos, entre eles o dilema dos prisioneiros. Mas a aplicação da teoria dos jogos vai muito além. Por exemplo, ninguém entende porque Israel revida com muita força aos ataques inofensivos dos palestinos. A resposta está na teoria dos jogos, ou seja, se a reação não for muito forte, se cria um incentivo para que os ataques hoje inofensivos se tornem mais perigosos no futuro. Essa estratégia militar deu origem ao que hoje popularmente se chama de teoria da janela quebrada.

De que forma a tomada de decisão, no momento de cometer o delito, está relacionada à sensação de impunidade?
O crime pode ser interpretado com um bem de consumo. Você compra um sorvete quando o benefício de consumir um sorvete é maior do que o valor que você paga para consumi-lo. Com o crime acontece a mesma coisa, ou seja, você decide cometer um crime quando o seu benefício (enriquecimento, poder, etc) é superior ao seu custo (ser preso, ter patrimônio confiscado, etc). Criminosos são agentes inteligentes e extremamente racionais.

Pela ótica da Teoria dos Jogos, a impunidade ao agente público colabora para a continuidade do delito?
Sim, claro. A estratégia do jogador visa maximizar o benefício e minimizar o custo. Impunidade reduz o custo do crime e, portanto, altera a estratégia do jogador. Por exemplo, se o ministro Gilmar Mendes mudar o seu voto sobre a necessidade de prisão após condenação em segunda instância, então muitos que decidiram delatar podem mudar de opinião. Note que delatar tem um custo alto, pois o criminoso acaba sendo visto pela organização criminosa como um traidor.

Qual a principal mensagem que os fundamentos da Teoria dos Jogos nos passa sobre a situação por que passa o Brasil?
A principal mensagem é que não é possível prender o chefe da organização criminosa sem um mecanismo de delação premiada. Por sua vez, a delação premiada só se torna eficaz quando o sistema judiciário oferece formas de punição mais rápidas e pesadas.

Aumento das passagens de ônibus em Porto Alegre


andre augustin

André Coutinho Augustin
Economista, pesquisador da FEE
Corecon-RS Nº 8247

 

Por que a tarifa do ônibus em Porto Alegre é hoje uma das mais caras do País?
A tarifa é calculada dividindo o custo das empresas de ônibus pelo número de passageiros pagantes. Aqui em Porto Alegre nós temos dois problemas. O primeiro é que esse custo não é calculado corretamente. O segundo é que o número de passageiros está caindo há algumas décadas, resultado do aumento do uso do carro e da moto, mudança que aconteceu tanto pelo aumento da renda da população quanto pelas políticas de incentivo ao transporte individual. Desde os anos 50 que o Brasil incentiva a indústria automobilística, vista como um pólo de desenvolvimento e de geração de empregos. A política urbana segue a mesma linha. Para citar só um exemplo, a Prefeitura de Porto Alegre pretende construir novos estacionamentos no centro da cidade, em locais como o Cais Mauá e o Mercado Público, para permitir que mais gente chegue ao centro da cidade de carro e não precise pegar ônibus. Todas essas políticas têm gerado vários problemas, como o aumento dos engarrafamentos e da poluição. Outro resultado é que, com menos gente andando de ônibus, o custo é dividido por poucos e a passagem sobe, o que acaba sendo mais um incentivo para não se andar de ônibus.

Qual a metodologia utilizada para a medição do custo da passagem? Essa metodologia é padrão em todo o País?
A Prefeitura de Porto Alegre – assim como a maioria das grandes cidades – usa uma metodologia baseada na planilha do antigo GEIPOT, um órgão de Governo Federal que já foi extinto. O problema é que essa planilha precisa ser alimentada com coeficientes e preços que variam para cada lugar, e aqui entram as minhas principais críticas. O custo do diesel, por exemplo, é claramente superestimado pela EPTC. Não só o coeficiente de consumo de combustível por quilômetro aumentou muito nos últimos anos sem nenhuma justificativa técnica, como o preço do diesel informado pelas empresas de ônibus é muito acima do preço de mercado. Antes a Prefeitura usava a pesquisa de preços da Agência Nacional de Petróleo como fonte de informação, mas desde 2015 as próprias empresas de ônibus passaram a informar o preço do diesel. Em todos os reajustes desde então, foram usados valores acima do preço de mercado. Outro problema é que receitas extratarifárias que deveriam ser consideradas ficam de fora do cálculo da tarifa. Os rendimentos das passagens vendidas antecipadamente, por exemplo, hoje vão para a ATP, embora a licitação de 2015 e os contratos digam que esse dinheiro deveria ir para uma conta da Prefeitura e ser usado para reduzir a tarifa. Há ainda outros itens da licitação e do contrato que têm sido desrespeitados para beneficiar as empresas e aumentar a tarifa de forma ilegal.

A tarifa da passagem não recebe subsídios públicos?
Em Porto Alegre o transporte público quase não recebe subsídios. Hoje, toda a receita do sistema de transporte por ônibus vem da cobrança de passagem. O único subsídio que a Prefeitura dá é a redução do ISS, o que não tem um impacto muito grande na tarifa. Isso se repete na maioria das cidades do país. Segundo o IPEA, no Brasil o subsídio para o transporte privado é cerca de 12 vezes maior do que o subsídio para o transporte público.

Esse custo da passagem tem relação com o fato de o salário dos rodoviários de Porto Alegre ser um dos mais altos do Brasil ou com o excesso de isenções?
O salário dos rodoviários em Porto Alegre é maior do que a média nacional, o que também ocorre com outras categorias profissionais, mas isso não explica o aumento da passagem nos últimos anos. De agosto de 1997 até o último reajuste da tarifa, os rodoviários tiveram um aumento real de 7,7%. Nesse mesmo período, o salário mínimo cresceu cerca de 130% acima da inflação e, a passagem de ônibus, mais de 80%.
Sobre os isentos, a participação deles realmente aumentou em relação ao total de passageiros, como diz a Prefeitura. Em 1998, os isentos representavam 23% dos passageiros e hoje já chegam a 34%. Mas isso aconteceu muito mais pela queda no número de pagantes – que foi de do que quase 40% – do que pelo aumento dos isentos – que não chegou a 10%. As estimativas da EPTC sobre o impacto das isenções no preço da passagem supõem que, se retirarmos as isenções, o número total de passageiros continuará exatamente o mesmo, ou seja, eles usam o pressuposto de que a elasticidade-preço da demanda é igual a zero, o que não faz nenhum sentido econômico. Se as isenções realmente acabarem, é provável que uma parte considerável desses passageiros que hoje são isentos deixem de andar de ônibus (assim como fizeram os passageiros pagantes nos últimos anos), fazendo com que o impacto na tarifa seja muito menor do que o prometido pela Prefeitura.

O que falta para o ônibus ser o transporte mais viável e barato para a população?
Falta os governos (municipal, estadual e federal) priorizarem o transporte público, ao contrário da atual política de incentivo ao carro. Isso passa tanto pelo aumento do espaço para os ônibus, priorizando a construção de novos corredores em vez de priorizar a construção de viadutos para carros e de estacionamentos, quanto por subsídios financeiros ao transporte público, como ocorre na maioria dos países. O Brasil é um dos poucos lugares do mundo em que se gasta mais dinheiro público com o carro do que com o transporte público.

O sistema de transporte público da Capital corre risco de entrar em colapso?
Se a política atual se manter, a tendência é que a cada ano o número de passageiros de ônibus caia e, consequentemente, a tarifa aumente. Em alguns anos, essa tendência pode tornar o sistema de transporte de ônibus inviável. Então, a não ser que a política mude, há motivos para temer um possível colapso do sistema nos próximos anos.

Economia e gestão da saúde

ricardo englert

 

 

Ricardo Englert
Corecon-RS Nº 2724
Economista, ex-conselheiro Corecon-RS, diretor financeiro da Santa Casa de Misericórdia de POA

Qual a importância de um economista na administração hospitalar?
O papel do economista numa administração hospitalar, ou em um grande hospital como o complexo da Santa Casa, é fundamental porque não existe lugar onde mais se tenha que resolver aquele famoso problema da economia, em que as necessidades são ilimitadas e os recursos são escassos. Aqui, nós lidamos diariamente com a administração da escassez. A diferença é que na sociedade comum, a falta de alguma recurso pode significar apenas um produto de menor qualidade ou, mesmo, algo que não deu certo. Aqui, quando os recursos faltam, o ônus pode ser a vida de uma pessoa. Então, esse conceito é levado à exaustão, mas sempre com risco e com o cuidado no tratamento de grande valia, na visão de aproveitar ao máximo os fatores que se tem disponíveis. Num hospital, esses fatores de produção são exercitados ao extremo.

Quantos hospitais compõem o complexo da Santa Casa?
A Santa Casa é integrada por sete hospitais, compostos por serviços de ambulatório e de internação, que atuam em diferentes especialidades. São eles o Hospital Santa Clara (hospital geral de adultos e materno infantil), Hospital São Francisco (cardiovascular e cirurgias de grande porte), Hospital São José (neurocirurgia e neurologia), Pavilhão Pereira Filho (pneumologia e cirurgia torácica), Hospital Santa Rita (oncologia), Hospital da Criança Santo Antônio (pediatria geral) e o Hospital Dom Vicente Scherer (transplantes e procedimentos ambulatoriais). A Santa Casa é um hospital de alta complexidade, que tem 1,2 mil leitos, seis mil funcionários e mais de dois mil médicos fazendo parte de seu corpo clínico. Os hospitais têm foco nas suas especialidades assistenciais, mas são suportados na sua estrutura administrativa, econômica e financeira por unidades compartilhadas.

Qual o orçamento da Santa Casa?
No ano de 2016 o orçamento da Santa Casa foi da ordem de R$ 805 milhões. Tivemos R$ 805 milhões de receita e um resultado de balanço de R$ 16 milhões positivos. Nós, economistas, sabemos que R$ 16 milhões em R$ 805 milhões é praticamente empate, ou seja, qualquer descuido transforma esses R$ 16 milhões positivos em R$ 16 milhões negativos. A Santa Casa investiu no ano passado cerca de R$ 40 milhões, o que foi um grande desafio econômico-financeiro.

Como é lidar com esse imenso complexo e as respectivas peculiaridades de cada hospital e de cada especialidade?
Esses hospitais, com o ponto de vista de suas especificidades, têm que trabalhar de forma harmoniosa, com suas áreas de suporte sendo comuns a todos eles. Quando começamos a discutir a gestão de processos, sabemos que, num lugar desses, onde todos trazem sua expectativa em torno da vida de pessoas, existe uma regra básica, que é a de que os procedimentos devem que ser simples e eficientes porque se a gente complicar demais não conseguiremos fazer com que as pessoas realizem suas tarefas. Então, por mais complexo que seja um procedimento, ele tem que ter detalhamento do seu passo a passo. Ele vai ser mais complexo quanto mais passos devem ser seguidos. Mas esses passos devem estar bem definidos. E você poderá fazer algo com grande complexidade, com alto grau de acerto, quando você tiver o passo testado pelo volume, pela quantidade de vezes que se faz e, evidentemente, por um treinamento adequado e importante.

O uso diário da tecnologia em favor da vida?
Sim. Com a tecnologia, os ganhos de produtividade são determinantes. Hoje, nós temos condições de saber o que é produzido em cada lugar aqui dentro, quanto cada profissional produz, quem tem os melhores resultados e, assim, comparar um com o outro. No ano passado inauguramos, em conjunto com a Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA), um novo espaço para treinamento de acadêmicos, residentes, médicos e demais profissionais da saúde. O Centro de Simulação Realística Clínica e Cirúrgica, localizado dentro do complexo da Santa Casa, conta com os mais modernos equipamentos para simulação de procedimentos clínicos e cirúrgicos e uma infraestrutura totalmente projetada para oferecer as melhores práticas de ensino. O local proporciona uma formação prática, simulando diagnósticos, resoluções, bem como a tomada de decisões. O profissional sai de lá capaz de atuar em uma cirurgia de alta complexidade, pois ele já testou suas habilidades em mecanismos de simulação com emprego dessa tecnologia.

Qual o grande desafio da instituição?
O nosso grande desafio é atender o Sistema Único de Saúde (SUS). Por não reajustar tabelas de preços e não remunerar adequadamente a relação contratual, o SUS nos deixa um prejuízo a cada ano. De cada R$ 100 que temos de custo pelo SUS, somente recebemos R$ 65. Isso significa que a Santa Casa paga para atender o SUS entre R$ 10 e R$ 11 milhões por mês. Somando isso tudo, em um ano temos um prejuízo da ordem de R$ 124 milhões, que foi o que tivemos em 2016.

E como a Santa Casa sobrevive nesse cenário de dificuldades?
Tudo o que perdemos com o SUS, ganhamos com o atendimento de convênios e de outras receitas acessórias. A nossa rentabilidade com os convênios cobre parte desse déficit e, além disso, ainda exploramos todas as nossas possibilidades. Como esse complexo é de grandes dimensões e circulam por este espaço cerca de 25 mil pessoas por dia, essas pessoas precisam se alimentar, estacionar seus carros, etc. E nós exploramos comercialmente as cafeterias e os estacionamentos. Esses são os dois principais serviços que nos ajudam na remuneração. Além disso, a Santa Casa tem, como concessão desde sua origem, nos seus 214 anos, um cemitério. E a administração do cemitério também provê recursos para auxiliar no exercício da nossa missão, que é atender o SUS.

Os convênios permitem essa compensação de perdas?
Nós temos uma margem e quando se trata de convênios essa margem, embora não seja a que desejássemos, é boa. Apenas para se ter uma ideia do tamanho do financiamento do SUS, na média, o que um convênio paga por um procedimento é cerca de três vezes o que o SUS paga. É uma luta constante e diária para aportar os recursos que faltam do SUS. Se ele pagasse o dobro do que paga atualmente, nós já alcançaríamos um equilíbrio.

Isso obriga a ter um foco muito forte sobre os custos?
Nós temos um cuidado muito grande com os custos. Se não cuidarmos disso e tivermos desperdício, não conseguiremos aguentar o prejuízo ocasionado pelo SUS. Agora, administrar custo não quer dizer não conceder o que é necessário para o atendimento ao paciente. A Santa Casa trabalha com protocolos médicos. E o protocolo é aplicado ao doente que está aqui, independentemente das condições financeiras desse doente. Quando temos um paciente grave do SUS, que precisa ter um exame de alta complexidade, sem a cobertura do Sistema, para nós não há diferença. Ele vai receber o atendimento e o exame será providenciado.

Quem é o público da Santa Casa?
Nos hospitais da Santa Casa, 65% dos atendimentos acontecem via SUS e em torno de 35% através de convênios. Na assistência, é um pouco mais próximo. Em torno de 55% de tudo o que se faz é através do SUS e 45% por convênio. Atendemos praticamente pacientes de todos os municípios do Rio Grande do Sul e de todos os estados brasileiros, especialmente nas altas complexidades, como cirurgia cardíaca pediátrica. Crianças que nascem com má formação congênita, por exemplo, vêm de diversas partes do Brasil para serem atendidas no Hospital da Criança Santo Antônio. Os transplantes de pulmão com doador vivo, por exemplo, são feitos em poucos centros do mundo e nós o fazemos aqui na Santa Casa de Porto Alegre. Nestes casos, nós recebemos pacientes de todos os estados brasileiros e, até, de fora do Brasil, já que, quando o doador é falecido, o procedimento somente pode ser feito com pacientes brasileiros.

A Santa Casa trabalha com captação de recursos para investimentos?
Sim. A Santa Casa tem um trabalho muito forte nessa área de captação de recursos para fazer seus investimentos. Se ela dependesse exclusivamente de sua geração própria, teria muitas dificuldades de fazer esses investimentos.

De que forma acontece isso?
Realizamos um trabalho permanente junto às Bancadas Federais visando a emendas aos projetos do legislativo e do executivo, que permitam a compra de equipamentos e reformas. Trabalhamos com todos os programas de renúncia fiscal, como o Funcriança, o Fundo do Idoso e o Pronon, que é voltado a tecnologias de câncer. Montamos projetos de viabilidade e buscamos aprovação junto aos organismos federais. Temos uma área especifica dentro da casa para elaboração desses projetos, inclusive com estudos de viabilidade, principalmente quando se trata de produtos que envolvem alta tecnologia, onde existe todo um esforço para conhecer o retorno financeiro de determinados investimentos, seja do SUS ou dos planos de saúde.

Reformas e a busca da eficiência

fernandes

 

João Souza Fernandes
Economista Quantitas Asset Management
Corecon-RS Nº 8151

 

Como vês o momento atual da economia brasileira?
Estamos vivendo um momento de inflexão no país. Estamos saindo de dois anos da recessão mais severa que tivemos na história brasileira, mas criando condições, tanto conjunturais quanto estruturais, para uma melhora do crescimento. A nossa expectativa é de que ainda neste ano de 2017 o Brasil cresça ao redor de 0,8%, um movimento ainda incipiente, mas relevante. Principalmente se analisarmos que o país está saindo de uma recessão de mais de 7% de queda do PIB em dois anos, 3,8% em 2015 e 3,6% em 2016. E vou um pouco além disso. Se continuarmos vendo as reformas sendo implementadas, o que deverá permitir que os juros caiam, que o ajuste fiscal continue acontecendo, e considerando um contexto de cenário externo estável, deveremos assistir a uma migração do crescimento em 2018 para um patamar entre 2% e 3%.

Já é um patamar de crescimento considerado sólido?
Sim. Se olharmos, por exemplo, para os EUA, nos últimos 50 anos eles cresceram um média de 3% ao ano e se tornaram a maior economia do mundo. Então, se o país conseguir crescer ao redor de 2% a 3% pelos próximos 10 anos, será uma grande conquista e conseguirá sair gradualmente desse patamar em que se encontra. Mas isso passa por todas as reformas, principalmente no âmbito fiscal, e também pela melhora do ambiente de negócios, tornando o país mais competitivo, mais produtivo. Trazer novamente um ar empreendedor para um país que historicamente se viu muito dependente do estímulo do Estado para alcançar momentos de crescimento. Estamos falando de crescimento mais sustentável e que será muito mais positivo para o país do que o próprio crescimento que tivemos nos últimos anos, mais sustentado por consumo do que por questões de oferta. Entram aí investimentos em infraestrutura, educação, redução da burocracia, diminuição da carga tributária e, consequentemente, mais produtividade. A questão da perspectiva, no final das contas, é positiva, mas obviamente tem que vir com cautela porque existem ainda muitos desafios pela frente.

As reformas estão relacionadas diretamente à eficiência da economia?
A PEC dos gastos, que foi a primeira grande reforma aprovada, foi de fato conquistada com força, já que o governo conseguiu aprová-la com bons resultados na Câmara e no Senado. A PEC vai nos ajudar a colocar a dívida pública numa trajetória de crescimento cada vez menor. Deverá continuar subindo até 80% ou 90% do PIB, para, depois, iniciar uma trajetória gradual de queda. O próximo desafio que temos à frente é a reforma da previdência, que já teve uma etapa de desidratação, com uma série de emendas que foram propostas. Está tramitando na Câmara com mais ou menos 60% de sua força original, embora, ainda assim, seja o suficiente para o País atingir uma situação de orçamento público muito mais equilibrado, se compararmos ao formato dos últimos três ou quatro anos.

Qual o grande desafio agora?
O grande desafio agora é ter uma boa aprovação da reforma da previdência na Câmara e no Senado. Embora hoje a perspectiva seja boa, a situação ainda é desafiadora. O governo tem uma perspectiva de aprovação mas, por não ter muitas garantias, tem feito um trabalho muito intenso para dar mais força e mais segurança na sua aprovação na Câmara, o que deve acontecer até o final de junho. A reforma trabalhista foi aprovada na Câmara e agora vai migrar para o Senado, onde também achamos que será aprovada. A próxima que virá por aí, mesmo que ainda não tenha sido anunciada, mas que também é muito importante, é a tributária.

Que tipo de sinalização essa movimentação de reformas pode passar à economia?
O cenário é positivo para as reformas. Só é desafiador e devem ser acompanhadas com muita cautela. Não se tem a menor dúvida de que a aprovação muda totalmente a perspectiva que se tem para a economia brasileira. Viu-se, nos últimos três ou quatro anos, uma deterioração muito grande da credibilidade do país, tanto da parte do investidor interno como do investidor externo. A consequência disso foi um forte aumento do risco-país, um crescimento das taxas de juros e uma desvalorização cambial, muito disso por conta da deterioração das nossas contas públicas. O que se está tentando fazer com essas reformas é mudar estruturalmente a trajetória da situação das contas públicas, e isso tem como consequência natural o aumento da confiança e da credibilidade do país, levando naturalmente a uma valorização dos ativos financeiros.

Que tipo de ativos?
O principal deles é a taxa de juros, que é um preço na economia, e que, com a melhora dessa credibilidade, tende a migrar para patamares menores. O Brasil tem uma das maiores taxas de juros reais do mundo, justamente em função dessa diferença que a credibilidade das contas públicas passa em relação a outros países. Se você muda essa situação, consegue trabalhar com taxas de juros progressivamente menores, refletindo numa série de impactos positivos que a gente bem conhece, sendo o principal deles as melhores condições para o país crescer. Mas também tem outros efeitos positivos, como diminuir o risco-país e a tendência de valorizar nossa taxa de câmbio. Então, as consequências são boas e elas vêm basicamente pela credibilidade. E as reformas provocam isso e é por isso que são tão importantes.

Por que a queda de juros é tão importante para a eficiência da economia brasileira?
Primeiro, precisamos trazer para o país mais produtividade, mais competitividade e uma situação estrutural melhor em termos de ambiente de negócios, para que os juros possam cair. A taxa de juros é um preço que reflete os fundamentos da economia. O que acontece é que muitas vezes acabam revertendo essa relação sob a alegação de que a taxa de juros precisa cair antes para o país poder crescer e, consequentemente, ter mais produtividade. Na realidade, a relação é absolutamente inversa. A produtividade é o principal determinante do preço do capital de um país, sendo o preço do capital a taxa de juros. Ou seja, se temos uma produtividade muito baixa, o que acaba acontecendo é que o preço do capital fica alto, levando inexoravelmente a uma taxa de juros elevada.

Se melhorar a produtividade a taxa de juros cai?
Se você muda essa situação e consegue melhorar a produtividade e a competitividade do país, o custo do capital começa a diminuir progressivamente e você alcança uma taxa de juros menor. Em outras palavras, ainda, a taxa de juros é consequência da melhora da produtividade e não a causa dela. E a melhora da produtividade vem de reformas no âmbito fiscal, de maiores investimentos em infraestrutura, da melhora da nossa situação em termos de educação básica e da burocracia, ajudando no ambiente de negócios. O mesmo acontece com a melhor complexidade fiscal em termos de pagamentos de tributos ou uma maior liberalização comercial com o resto do mundo. Então, tudo isso ajuda a aumentar a nossa competitividade, levando a uma redução das taxas de juros, que é para onde achamos que o país está migrando.

Maximizar lucro e não apenas produção

antonio da luz

 

Antonio da Luz
Economista-Chefe Sistema Farsul
Corecon-RS Nº 7549

 

Quais as perspectivas para a próxima safra de grãos?
Devemos ter uma safra recorde neste ano, já que temos uma previsão de faturamento de R$ 39 bilhões. E, melhor ainda, junto com essa maior safra deverá acontecer também a maior demanda por fertilizantes, máquinas, por químicos, agroquímicos, fármacos, pessoas, etc. Acontece é que uma supersafra não é feita só de grãos. Ela é feita por dezenas de segmentos econômicos e por milhões de gaúchos que se envolvem no processo produtivo, e que, por emprestarem seu trabalho à agricultura, acabam sendo também co-responsáveis por um resultado de volume como esse que teremos agora. Por isso que a agricultura é tão importante. Ela é altamente entrelaçada com outros setores, o que faz com que uma supersafra também seja um importante eixo de crescimento e de desenvolvimento econômico para o estado e para o País. Dessa previsão de faturamento, cerca de R$ 24,5 bilhões deverão ser absorvidos por esses setores indiretos. Após uma análise da distribuição dos números pelas diferentes cadeias produtivas e a aplicação de uma projeção da taxa de crescimento do setor, chegou-se a uma expectativa de um PIB do agronegócio de R$ 153,1 bilhões a partir desta safra, o equivalente a 40,95% do PIB gaúcho, o que demonstra, sem dúvida, uma força econômica extremamente significativa e bastante entrelaçada.

E como essa produção excedente será recebida no mercado internacional?
Temos uma expectativa para os próximos 10 anos de manutenção do crescimento muito forte na demanda mundial por alimentos, sobretudo na Ásia. Estamos falando, portanto, em aumentar a demanda para o mercado internacional e, consequentemente, a nossa capacidade de produzir para o mundo inteiro. O mercado mundial está se ampliando e, portanto, nós teremos excelentes oportunidades nessa próxima década. Nesse período, nós deveremos ter uma safra de 9,3 milhões de toneladas a mais do que temos hoje aqui no Rio Grande do Sul, e 68,5 milhões de toneladas no Brasil.

O Brasil está preparado para colocar esse produto lá fora?
Lógico que, para colocar esses produtos de forma competitiva no mercado internacional, os desafios ainda são muito grandes. Precisamos ter logística e infraestrutura. Precisamos ter modais que funcionem de maneira eficiente e uma logística que seja mais barata se quisermos competir no mercado global nos próximos anos. Em outras palavras, temos uma grande oportunidade, mas também, grandes desafios. Se não vencermos os desafios, teremos perdido uma janela de crescimento econômico pelo simples fato de não termos nos organizado para ela. E isso passa por uma mudança até meio revolucionária se pensarmos na forma como tratamos infraestrutura em nosso País e aqui no Rio Grande do Sul, em especial.

Que forma de mudanças?
Já temos hidrovias, basta apenas utilizá-las. E um dos grandes desafios é termos equipamentos adequados a nossas hidrovias, que são um dos nossos grandes gargalos. O principal deles é a questão legal. Por incrível que pareça, quem quiser utilizar uma hidrovia terá que enfrentar uma série de empecilhos do ponto de vista ambiental e legal, que outros países não têm. Temos tanta água em nosso país, com rios navegáveis que não são utilizados em função de uma série de restrições. Poderíamos transportar milhões de toneladas, com muito menos impacto ambiental e com custos infinitamente mais baixos. As pessoas sabem disso, mas não conseguem executar por conta das dificuldades que enfrentam no campo ambiental, legal e comercial.

Tem espaço para a atividade de economista na agricultura?
Não temos que crescer em produção, temos que crescer em produtividade, em lucro, e esse é o papel do economista no setor agropecuário. Todo esse crescimento do agronegócio tem que ser visto pelos economistas como uma oportunidade. O produtor é um grande maximizador de produção e não um maiximizador de lucro. E essa visão que ele tem de maximizar a produção e não o lucro se deve à ausência dos economistas para orientá-lo. Essa é a nossa arte, o nosso conhecimento. E por esse conhecimento e pelo treinamento que tivemos ao longo do tempo, sabemos que o caminho de maximizar o lucro não é o mesmo caminho de maximizar a produção. O produtor rural é um grande gerador de emprego de alta performance. O salário de um operador de máquinas voltadas à agricultura, por exemplo, é muito alto e, da mesma forma, o que ele paga para um agrônomo é muito dinheiro. Ele só não paga para um economista maiximizar sua lucratividade porque o economista não está lá no campo oferecendo o seu trabalho. Vejo os cursos de economia formarem burocratas, pessoas que se graduam em cidades do interior e vão trabalhar em grandes centros, nos bancos, no mercado financeiro, ao invés de atuarem no agronegócio, que é um setor que remunera muito bem e que é tão importante para a nossa economia.

 

Efeitos da Carne Fraca, o pior já passou?

sergio

 

Sérgio Leusin Jr,
Economista, pesquisador da FEE
Corecon-RS Nº 6528

 


O pior já passou ou ainda continuaremos sentindo algum impacto da operação Carne Fraca em nossas exportações?
Aparentemente, o pior já passou. Porque os piores impactos teriam que ocorrer nesses primeiros meses e as estatísticas nos revelam que as exportações de carnes cresceram no mês de março. Lógico que não se pode supor que não vá haver impactos dessa operação. Na verdade, o que se percebe melhor agora é que talvez a operação Carne Fraca tenha sido propagada de maneira muito pouco cuidadosa pela mídia nacional. Tanto que, se olharmos a lista dos 21 frigoríficos que estavam envolvidos na operação, poucos deles são exportadores e quase todos eles estão concentrados no estado do Paraná. Então, é muito provável que o impacto seja bem pontual para alguns destinos que importavam desses frigoríficos.

O Brasil é o maior exportador de carnes bovina e de frango e o quarto de carne suína. Esse ranking poderá sofrer algum impacto?
Sim. Temos que considerar que esse problema não foi sanitário, que envolvesse questões relativas ao nosso rebanho, mas foi em função de desvio de conduta ou corrupção. A construção da imagem de um país, assim como a liberação da exportação para determinado local no exterior, leva vários anos para ser efetivada. Por exemplo, em 2015, pela primeira vez em muito tempo, o Rio Grande do Sul exportou as três proteínas para a China. Esse processo foi longo e trabalhoso. Da mesma forma que se leva bastante tempo para construir e consolidar uma imagem de sanidade animal para um país exportador, os países importadores também se mostram mais resistentes para descartar esse fornecedor. É que não é um mercado tão fácil assim de encontrar substituto com rapidez e escala suficiente.

Mas não permanece uma desconfiança?
Essa é a leitura que se faz internamente. Como havia duas marcas, a BRF e a JBS, bastante conhecidas no Brasil e com um apelo de qualidade bastante forte, com a participação de atores globais, poderia se dizer que, no plano domestico, tivemos uma reação mais impulsiva. Já, no plano internacional, como eles não têm essa percepção que temos internamente, tiveram uma reação mais racional, mais técnica e diplomática. Nós não tivemos, no plano nacional, essa leitura mais racional, como, por exemplo, questionar quais foram os frigoríficos, quais carnes, para onde eles exportam, ou seja, não houve preocupação com esse tipo de informação. No plano externo o Ministério da Agricultura brasileiro conseguiu atender imediatamente os países compradores através de um trabalho diplomático interessante, o que ajudou muito.

Quem são nossos principais compradores?
Com relação à carne de frango, o nosso principal comprador é a Arábia Saudita, responsável pela aquisição de 20% das nossas exportações, seguida da União Europeia e da China. No setor de carne suína, vem a Rússia, que comprou 44% das exportações gaúchas em 2016, seguida de Hong Kong e da China. Com relação à carne bovina, nosso principal destino é União Europeia, responsável por 36%, seguida de Hong Kong e da China.

De que forma a sanção dos EUA à Rússia pode influenciar em nossas exportações?
O impacto dessas sanções poderia ter sido muito maior se a Rússia, que passa por uma crise interna, tivesse numa condição melhor. Como o Rio Grande do Sul é um dos maiores produtores de carne suína do Brasil, teoricamente deveria ser um dos mais impactados. Acontece que, se olharmos os números dessas exportações para a Rússia, principalmente em volume, percebe-se que houve um crescimento, apesar da crise deles, mas modesto se considerado o potencial de crescimento. Então, essa sanção colaborou apenas marginalmente para o crescimento das nossas exportações.

O que se pode destacar na movimentação do setor de carnes no mercado internacional atualmente?
O que está mexendo mais o mercado hoje é o fato de que a China está importando muito a carne suína. Como a produção doméstica de frango da China caiu muito, associada ao fato de que dezenas de países exportadores de carne de frango também estão com problemas em função da gripe aviária, houve uma diminuição da oferta mundial desta proteína, o que fez com que ocorresse uma compensação com a carne suína. Só para termos uma ideia, a China, maior produtora mundial de carne de porco há várias décadas, passou, em 2016, a ser também a maior importadora desta proteína, o que acabou dando uma mexida no mercado internacional. Então, nós vivemos atualmente uma situação de anormalidade no setor mundial de carnes.

Então, de uma maneira ou de outra, a operação Carne Fraca acabou impactando nas exportações brasileiras?
Causou impacto, sim. Se formos olhar de maneira geral o impacto da operação nas exportações, percebe-se que houve uma diminuição do ritmo de crescimento das exportações brasileiras. Nós vínhamos exportando num ritmo mais acelerado no primeiro bimestre do ano se compararmos com os resultados de março. Se formos fazer uma análise mais aprofundada, veremos que, para alguns países, como a China e Hong Kong, houve queda, sim. Então, aparentemente, para esses dois destinos a operação causou certo impacto. Não sabemos explicar, ainda, por que houve impacto negativo nos números do Rio Grande do Sul, uma vez que aqui não houve nenhum frigorífico atingido pela operação. Mas foi um impacto indireto, talvez fruto de uma cautela momentânea, mas que acabou impactando o comércio em função do tamanho do mercado consumidor da China.

Que estados vêm liderando o ranking de exportações de carnes no Brasil?
São Paulo lidera as exportações de carne bovina. Em seguida temos Mato Grosso e Goiás, que, somados, respondem por 60% das exportações de 2016. Para a carne suína, ressalta-se que as exportações concentram-se na região Sul, com Santa Catarina responsável por 37% do valor exportado em 2016, seguido do Rio Grande do Sul com 31% e Paraná com 13%. Cenário semelhante se observa para a carne de frango, no qual Paraná lidera as exportações, com 34%, seguido de Santa Catarina com 25% e do Rio Grande do Sul com 17%.

Comunidade, empresa e universidade pelo desenvolvimento do Alto Jacuí

luisa 042017

 

Luísa Cristina Pieniz
Economista, professora Unicruz, coordenadora Start/Unicruz
Corecon-RS Nº 5458

 

De que forma vem acontecendo a interação da universidade com as empresas e a comunidade da região de Cruz Alta?
Toda essa integração vem ocorrendo através da Agência de Empreendedorismo, Inovação e Transferência de Tecnologia da Universidade de Cruz Alta (Start), cuja criação foi aprovada em agosto do ano passado pelo Conselho Universitário da Universidade de Cruz Alta (Unicruz). A Start vai funcionar, crescer e ter ações efetivas no momento em que a comunidade apresentar iniciativas inovadoras, contribuindo, assim, com o desenvolvimento, o empreendedorismo e a inovação da região do Alto Jacuí.

Qual o papel da Start?
A Agência tem como objetivo promover a articulação entre o espaço acadêmico, as empresas e diversos setores da região com vistas ao aprimoramento de processos, produtos e serviços necessários para o atendimento das demandas da região. Também tem como meta criar sinergias entre pesquisadores, extensionistas, profissionais da instituição e empreendedores, atuando como agente facilitador e congregando esforços pró desenvolvimento regional.

Quantas empresas estão inseridas hoje nesse projeto?
Atualmente, mais de 80 empresas da Região do Alto Jacuí estão envolvidas em mais de um projeto da Start.

A Agência está subordinada a que área da Universidade?
Está subordinada à Pró-Reitoria de Pós-Graduação, Pesquisa e Extensão da Unicruz, integrada pelas unidades de captação de recursos, empreendedorismo, inovação e transferência de tecnologia, serviços sociais e tecnológicos, polo de inovação tecnológica do Alto Jacuí, incubadora social e incubadora tecnológica.

Qual a área de abrangência da Agência?
A Start se estende por toda a região do Corede Alto Jacuí, além de municípios de regiões, tais como Pejuçara, Júlio de Castilhos, Tupanciretã, Panambi, entre outros.

Como vem sendo recebido pela comunidade o projeto de incubadora social?
Em reação ao termo incubadora social, ainda é algo novo para a comunidade. Sendo assim, estamos trabalhando com o objetivo de divulgar ao público interno e ao externo a sua proposta e seus objetivos. À proporção que acontece o entendimento, com base nas ações que vêm sendo realizadas pelos projetos, vai havendo um engajamento das pessoas. O Projeto de Incubadora Social está ganhando cada vez mais credibilidade e auxílio da comunidade, não só em situações de comunicação corpo a corpo, mas também na mídia local e estadual, que tem demonstrado interesse na veiculação das ações dos Projetos. Os trabalhos continuam em busca de mais resultados positivos.

Que tipo de ações têm a incubadora?
A nossa Incubadora tem seu projeto precursor, o Profissão Catador, como porta de entrada na comunidade, o qual abre caminhos para a apresentação dos demais projetos. A exemplo disso, temos a relação com instituições como o Rotary, que inicialmente apoiava o Profissão Catador e, em virtude dele, hoje tem dimensão do que é uma Incubadora Social, contribuindo, dessa forma, com outros projetos da Inatecsocial. Conforme vamos avançando e divulgando conceitos e práticas da economia solidária e criativa e do comércio justo, vamos ganhando cada vez mais parceiros para a Incubadora. A Feira de Economia Solidária e Criativa (Fesol), que já teve a sua quarta edição, conta com apoio cultural de grandes artistas do município, que ajudam a propagar nossos princípios. A comunidade acadêmica também teve ótima aceitação e contribui em termos da aquisição dos produtos e propaganda dos mesmos.

De que forma a crise econômica por que vem passando o país e o estado do RS tem impactado na busca de recursos e ampliação das relações?
A necessidade da recuperação econômica e o resgate da confiança dos empresários neste momento em que passa o País, somado à falta de credibilidade política, leva instituições de ensino, em parcerias com os governos estadual e municipal, Sebrae, entre tantas outras instituições, implementarem estratégias de desenvolvimento econômico regional, através de projetos que tenham objetivo de apoiar o aumento da eficiência e da competitividade das empresas, oportunizando assim, aumento da produção, do emprego e da renda.

Estrutura tributária e justiça social

rober

 

Róber Iturriet Avila
Economista, professor adjunto de Economia da UFRGS
Corecon-RS Nº 7884

 

Qual o objetivo do seu trabalho “Estratificação centílica de renda e de patrimônio dos declarantes de IR no Brasil e no RS”?
Somente a partir do final de 2014, a Receita Federal do Brasil passou a disponibilizar mais dados brutos dos declarantes de Imposto de Renda Pessoa Física. Essa novidade é muito relevante, não apenas por ampliar a transparência de informações públicas, mas também porque diversos países já disponibilizam tais dados e, dessa forma, é possível efetuar comparativos internacionais. Os objetivos do estudo são apresentar o histórico do tributo sobre a renda das pessoas físicas no Brasil, observar as isenções tributárias, verificar a proporção de alíquotas de imposto pagas por faixas de salário mínimos e segmentar as informações de renda e patrimônio dos declarantes em 100 partes iguais, ou seja, em intervalos centílicos. Cabe destacar que tais informações mais detalhadas foram divulgadas em 2016 e que estudos desse tipo são inéditos.

O que ficou constatado?
Desde as primeiras sistematizações mais acuradas sobre o funcionamento da economia, ainda no século XVIII, preconiza-se que os tributos devem ser proporcionais à renda dos indivíduos. A instituição de impostos progressivos sobre a renda e sobre o capital conformam componentes relevantes para a constituição de um Estado Social, o qual visa reduzir desigualdades através de políticas públicas. No Brasil, os rendimentos tributáveis são compostos, principalmente, por rendas provenientes do trabalho. Por sua vez, os rendimentos isentos reúnem, majoritariamente, rendas do capital na forma de aplicações financeiras, lucros, dividendos, ações e poupança. Isso porque desde 1995, os dividendos passaram a não integrar a base de cálculo do imposto de pessoas físicas, sendo tributado, exclusivamente, na fonte, submetidos à alíquota inferior às máximas aplicadas ao rendimento do trabalho.

Os tributos nem sempre são proporcionais à renda dos declarantes?
Exatamente. A alíquota paga é crescente até os indivíduos que ganham entre 30 e 40 salários mínimos, com alíquota média de 10,51% nessa faixa. Depois, passa a cair, chegando a uma alíquota média de 1,87% para quem ganha mais do que 320 salários mínimos. Outro ponto relevante é que a exposição das declarações de bens e direitos é o único dado preciso existente sobre patrimônio dos brasileiros. No que concerne aos bens e direitos, é possível observar uma elevação acentuada nos quatro últimos centis, a média patrimonial do último centil é 14 vezes superior à média de todos declarantes. Já a média de patrimônio declarado do último decil do último centil (0,1% dos declarantes) é 60,96 vezes superior à média de todos os declarantes.

Por que acontecem disparidades nas alíquotas das classes mais elevadas?
A partir de 1990, o Brasil passou a não adotar mais o sistema clássico como uma forma de tributar os dividendos, o qual é dos “juros sobre o capital próprio”, uma maneira criativa de redução do imposto distribuído como um juros ao capital e isento de imposto para as empresas. Adicionalmente, no final de 1988 e no início de 1989, houve uma redução de faixas de imposto de renda, passando de oito para duas. A alíquota máxima caiu de 45% para 25% dos rendimentos. Posteriormente, em 1998, a máxima passou a 27,5%. Chama atenção também, nas declarações de imposto de renda, o volume de subsídio existente com uma série de despesas. As deduções totais, em 2014, totalizaram R$ 323,26 bilhões. Somente as despesas com gastos privados em saúde e em educação chegaram a R$ 69,35 bilhões. Esse valor representa 59,38% do imposto devido total, sendo R$ 2.778,52 a média de dedução dessas duas despesas. Mesmo que a maior parte dos declarantes do IRPF esteja na faixa entre 15 a 20 salários mínimos, as 28,4 mil pessoas mais ricas declararam deduções na ordem de R$ 405,56 milhões em despesas médicas e R$ 33,41 milhões com instrução.

Qual seria o arranjo tributário ideal?
A cobrança de tributos conforma um relevante aspecto da relação do Estado com a sociedade. Ao longo da história, os papeis do Estado foram se alterando, absorvendo, cada vez mais, funções sociais, tais como saúde, educação, previdência, assistência social, políticas de moradia, para além das básicas, como segurança, defesa territorial e mediação de conflitos. Nessa medida, alterações da estrutura tributária envolvem interesses diversos e são, em última instância, decisões políticas. Mas de forma objetiva é possível observar que a alíquota máxima de IRPF no Brasil é mais baixa do que nos países desenvolvidos e mesmo do que os países da América Latina. Na Alemanha, é de 45%, na Turquia, é de 35% e no México é de 35%. Na Suécia, existe alíquotas subnacionais, podendo o total atingir 57,2%. O mesmo vale para os tributos sobre o patrimônio, que no Brasil são muito mais baixos do que a média internacional. Os impostos sobre herança e doação, por exemplo, têm alíquota de 40% no Reino Unido, nos Estados Unidos, a média é de 29%, no Chile, 13%. No Brasil a cobrança de ITCMD no Brasil varia de acordo com o estado. A alíquota média é 3,9%. As disparidades se mantêm para outros impostos sobre o patrimônio. Já os tributos sobre o consumo, que oneram proporcionalmente mais os mais pobres, são mais altos do que nos países citados.

As realidades do Brasil e do RS seguem essa mesma tendência?
Os dados da Receita Federal do Brasil por estados são mais limitados do que os gerais. Dessa forma, as análises sobre eles são mais restritas, sendo possível apenas observar as médias das declarações e algumas proporções.
Ressalta-se que a participação dos declarantes em relação à população total é maior em Porto Alegre (30,21%), seja em relação à média do Estado (17,40%), seja em relação com a média brasileira. Observa-se também que as declarações de rendimento dos indivíduos residentes em Porto Alegre é 43,37% superior à média do Rio Grande do Sul. Já o patrimônio declarado é 55,13% maior do que a mesma média.

O estudo está disponível para acesso ao público?
Além de ser apresentado em congressos científicos, o estudo está publicado na última edição da Revista Indicadores Econômicos FEE, com acesso gratuito no portal da Fundação de Economia e Estatística (acesse o link).

Setor imobiliário, o imbróglio da retomada

assilio

 

Assilio Luiz Zanella de Araújo
Corecon RS nº 8168
Economista, doutorando em Economia PPGE/UFRGS

 

Como se encontra a situação da indústria da construção civil no RS?
A Construção Civil no Rio Grande do Sul apresentou uma queda acumulada de 8,9% no período 2014-2016, a quarta maior entre os setores da atividade econômica no estado e mais expressiva do que a contração do PIB da economia gaúcha, que foi de 6,7% neste período. Porém, o setor em nível nacional registrou um recuo ainda mais significativo, de 13,8% nos últimos três anos. No mercado imobiliário de Porto Alegre, os lançamentos e as vendas voltaram aos patamares de 2006-2007, época em que se iniciou o processo de abertura do capital das grandes empresas do setor e que o crédito imobiliário passou a ter uma participação mais significativa.

Já surgem alguns sinais de recuperação do setor?
O setor está apresentando dificuldades para iniciar uma nova fase crescimento, principalmente em função da situação em que a economia se encontra. Entretanto, é claro que se procurarmos entre os diversos indicadores encontraremos sinais positivos. Por exemplo, o Índice de Expectativas do Mercado Imobiliário de Porto Alegre, que estava em 74,6 pontos em janeiro do ano passado passou, para 108,8 pontos no final do ano. Mas, assim como ocorre com outros índices de expectativas/confiança, separados em condições atuais e expectativas, o que está melhorando é o segundo e não o primeiro. A percepção em relação ao momento atual permanece abaixo da linha da estabilidade da pesquisa.

A queda dos juros não tem se refletido positivamente no setor?
A queda dos juros certamente é uma das melhores notícias para o setor imobiliário nos últimos tempos. Porém, até onde tenho notícias, as condições dos bancos para a concessão de financiamento imobiliário permanecem mais restritivas do que no passado recente. Essa situação deve apresentar uma alteração mais significativa quando a captação líquida da caderneta de poupança (principal fonte de funding para o setor) tornar-se positiva novamente. Em 2015 e 2016, registrou-se uma captação negativa de R$ 50,1 bilhões e R$ 31,2 bilhões, respectivamente. O acumulado nos dois primeiros meses de 2017 é de R$ -9,2 bilhões.

Como está a inadimplência no setor?
A inadimplência nos bancos relacionada ao setor imobiliário permanece inexpressiva se comparada a outros segmentos. Mas o nível de distratos, ou cancelamento de contratos de comercialização, é o mais alto dos últimos anos. Aqui no Brasil, ao contrário de outros países, o comprador do imóvel de maneira geral toma o financiamento ao final do ciclo obra. Assim, quando, por algum motivo ele não consegue tomar o financiamento - ou porque perdeu o emprego ou porque as próprias condições do financiamento mudaram ao longo deste período - o consumidor se vê obrigado a cancelar o contrato com a incorporadora e é ressarcido de parte do valor pago. Isso, obviamente, tem um impacto sobre o caixa das empresas e recoloca um produto no mercado que talvez já tenha passado seu tempo. Ou seja, além do impacto no presente, as empresas têm que pensar como fazer para liquidar essa unidade, o que normalmente o fazem com preços bem abaixo do inicial.

Isso não pode retardar a retomada de crescimento?
Certamente. Na última Pesquisa do Mercado Imobiliário divulgada pelo Sinduscon-RS, em março, 32% das unidades em oferta já estava concluída. Isso leva as empresas a adiarem seus lançamentos até conseguirem comercializar parte dessas unidades. Isto é, o esforço acaba se concentrando nas vendas, e não no lançamento de novos produtos. Neste particular, é importante destacar que nem todas as empresas são impactadas da mesma forma, nem tampouco todas as cidades. O problema de maneira geral está concentrado nas grandes cidades, onde houve um surto de lançamentos puxado pelas grandes empresas no período anterior.

O que está faltando para um sinal claro de retomada?
Um sinal mais claro de retomada da própria economia. É claro que há problemas específicos do setor (alguns deles foram abordados anteriormente), mas a Construção Civil sempre seguiu os ciclos da economia brasileira e do estado. Enquanto o mercado de trabalho e o crédito, de um lado, e o investimento público ou programas de parcerias público-privadas, de outro, não deslancharem, fica difícil imaginar uma retomada do setor.

Produção de equipamentos de saúde expande emprego no RS

aurea2

 

Áurea Breitbach
Economista, Pesquisadora da FEE
Corecon-RS Nº 2489

 

 

A que se deve o aumento do emprego na produção de equipamentos de saúde no Rio Grande do Sul?
O setor produtor de equipamentos médicos, hospitalares e odontológicos no Rio Grande do Sul não tem uma elevada representatividade no contexto econômico global do Estado, uma vez que detém apenas 0,48 % do emprego industrial. Porém, é uma atividade produtiva que está se expandindo, tendo ampliado em quase 28% os postos de trabalho entre 2010 e 2015, segundo dados da RAIS. Acredita-se que o aumento no emprego revele uma expectativa bastante positiva para o setor, tanto no Rio Grande do Sul como no País como um todo.

O crescimento do setor tem relação com o aumento da expectativa de vida?
Sim. E com a renda também. Por um lado, temos mudanças no perfil etário da população ao longo das últimas décadas, provocadas pelo aumento da esperança de vida ao nascer. Para se ter uma ideia, a expectativa de vida, que era de 62,5 anos em 1980, passou para 75,5 anos em 2015. Como a população vive mais tempo, é natural que aumente a incidência de doenças crônico-degenerativas e, com isso, a necessidade de tratamentos e de equipamentos e materiais de apoio, nas mais diversas áreas da medicina. Por outro lado, observou-se um expressivo aumento na renda das camadas mais pobres da população, especialmente entre 2001 e 2011, o que alavancou a demanda por serviços de saúde e, consequentemente, por equipamentos para a saúde. Cabe lembrar que o SUS é um dos maiores sistemas públicos de saúde do mundo em número de beneficiários, o que representa uma demanda potencial a ser melhor explorada.

Esses resultados demonstram um cenário de recuperação da economia gaúcha ou seria apenas mais um setor que começa a se destacar?
Como foi dito antes, a produção de equipamentos de saúde tem um peso relativo muito pequeno frente ao conjunto das atividades econômicas do Rio Grande do Sul. Porém, é um setor produtivo muito importante localmente, em algumas regiões do Estado.

Em que regiões do estado esse setor tem se destacado?
A região de Pelotas é uma delas. Ali se situa uma aglomeração de empresas do setor, que, em 2015, representava 21% do emprego em equipamentos de saúde no Estado. No polo urbano Pelotas-Rio Grande, existem três universidades com inúmeros cursos relacionados às ciências da saúde, o que é um fator importante para o desenvolvimento tecnológico desse tipo de produção. Desse modo, pode-se considerar que o crescimento da produção de equipamentos de saúde contribua para estimular a atividade industrial na região. Além do município de Pelotas, tem-se muitas empresas localizadas na Região Metropolitana de Porto Alegre e arredores, que, de acordo com dados de 2015, empregavam 57% da mão de obra do setor no RS.

Que tipos de bens são produzidos pelo setor de equipamentos de saúde?
A indústria de equipamentos médicos, hospitalares e odontológicos produz bens cuja utilização está relacionada às práticas médicas, ou seja, prevenção, diagnóstico e tratamento de doenças. Trata-se de uma gama muito diferenciada de produtos, que passa por equipamentos de alta complexidade, como aparelhos de ressonância magnética, chegando aos materiais de uso corrente, como seringas, luvas e aventais, entre muitos outros. Cabe esclarecer, no entanto, que a indústria farmacêutica, ou de base química e biotecnológica, não faz parte da produção de equipamentos de saúde.

Que tipos de bens o Rio Grande do Sul vem produzindo?
No Rio Grande do Sul, os principais produtos da indústria de equipamentos de saúde são equipamentos eletromédicos, cadeiras para testes otoneurológicos, instrumentos e acessórios para infusão, monitor de sinais vitais, paramentação cirúrgica, aparelho para esterilização de endoscópios, cadeiras de rodas manuais e motorizadas, aparelhos auditivos retro e intrauriculares, entre outros.

Como vem se comportando a produção nacional de equipamentos de saúde?
A produção nacional tem um perfil muito diferente do Rio Grande do Sul nesse setor. Em São Paulo, por exemplo, têm-se grandes empresas produtoras de equipamentos sofisticados para diagnóstico por imagem, algumas de capital internacional, coisa que não acontece aqui no estado. Entretanto, os fatores que geram uma expectativa positiva para o setor são os mesmos, tanto para o RS como para o Brasil.

Este trabalho faz parte de uma pesquisa do Núcleo de Análise Setorial?
Sim. Trata-se de um trabalho, integrado em uma pesquisa mais ampla, produzida em co-autoria com o economista Álvaro Garcia, do Núcleo de Análise Setorial da FEE, inclusive com resultados já publicados no site http://www.fee.rs.gov.br/publicacao/aglomeracoes-e-arranjos-produtivos-locais-no-rio-grande-do-sul/. Estamos, agora, desenvolvendo e aprofundando o estudo sobre o setor de equipamentos de saúde, abrangendo o estado como um todo, e sobre suas perspectivas, incluindo elementos de comércio exterior. Essa linha de pesquisa será, muito provavelmente, interrompida, caso se realize a extinção da FEE, como deseja o Governo do Estado.

Brasil, à espera da retomada

ivo

 

Ivo Chermont
Economista-Chefe Grupo Quantitas
Corecon-SP Nº 34965

 


Quais são as expectativas para a economia em 2017?
Achamos que o Brasil deverá ter um crescimento de 0,2% no ano como um todo, na média de 2017 contra a média de 2016, com a economia melhorando ao longo do segundo semestre.

Essa melhora deverá ser puxada por que setores?
Pelos setores mais sensíveis a taxas de juros, principalmente a partir do quarto trimestre, quando tiver mais impacto sobre a atividade econômica. Não podemos esquecer que a economia brasileira sai de um uma base muito baixa, quando contraiu quase 4% por dois anos seguidos e, neste contexto, alguns setores que sofreram mais começam a reverter um pouco as expectativas. O setor agropecuário certamente apresentará resultados muito fortes, a despeito de todos os problemas recentes que tivemos, como o da carne. O setor certamente será muito dinâmico, assim como acho, também, que a indústria começa a se recuperar, por efeito base, já que as questões financeiras melhoraram um pouco, somada ao processo de estoques, que já chegaram a um patamar em que precisam ser recuperados.

Qual o impacto desse escândalo da carne na economia brasileira?
Sinceramente, acho que o impacto para a economia agregada será relativamente pequeno. Para o setor, seguramente será importante porque você começa a aumentar as desconfianças externas. Como dano de imagem, é evidente. E isso pode levar a uma queda de preço da carne brasileira no exterior, já que, durante o processo de negociação, o processo de barganha aumenta para o lado do comprador. Então, o setor pode sofrer um pouco, eventualmente com algum fechamento de fábrica. Mas a economia agregada, em si, terá um impacto pequeno.

Nesse contexto de pequena melhora da economia, como fica o emprego?
O emprego é sempre o último, tanto a piorar como a melhorar. Não podemos esquecer que a taxa de desemprego é construída por dois índices: as pessoas que estão procurando emprego e as que estão fora da força de trabalho e voltam para o mercado, à procura de emprego. É que, na medida em que o processo econômico vai melhorando, as pessoas que se encontravam fora da força de trabalho, ou seja, que, em função do desalento, desistiram da procura de emprego, recomeçam a procurar, incorporando, com isso, uma massa de pessoas às que já estavam procurando emprego antes. Isso faz com que a taxa de desemprego aumente, mesmo num momento em que a economia está melhorando. Então, é absolutamente natural que a taxa de desemprego demore sempre a ceder e é necessário que a economia melhore ainda mais para absorver todas essas pessoas. Acreditamos que o desemprego ainda continue subindo até chegar a algo como 13,5% ou 14% até meados do ano, estabilizando-se por alguns meses, em função dessas pessoas que estão voltando para a força de trabalho, e começando a ceder a partir do quarto trimestre. E é claro eu, quanto mais a taxa de desemprego começa a melhorar, mais pessoas voltam a procurar, especialmente os jovens que anualmente passam a ser incorporados pelo mercado de trabalho.

E o efeito Trump na economia brasileira?
Confesso que já estive mais preocupado. O Trump veio com uma campanha bem agressiva, que sugeria que nossa moeda poderia sofrer, protecionismo, excesso de estímulo numa economia que já vem andando bem, o que poderia levar a uma elevação mais rápida das taxas de juros e uma consequente desvalorização da nossa moeda, enfim. Mas penso que a realidade falou mais alto e as instituições nos EUA funcionaram. Trump tentou a política de imigração, a justiça barrou. Tentou os projetos de banir o programa de saúde de Obama e os próprios republicanos ainda estão discutindo sem chegar a grandes conclusões. A reforma tributária que ele pretendia fazer, os republicanos também estão discutindo. Então, as instituições norte-americanas colocaram um cerco. E quando falamos, no Brasil, em termos instituições fortes é por causa disso. Não ficar refém ou dependente da cabeça de uma pessoa. Hoje estou um pouco menos preocupado e acho que o Trump tem muito problemas para se preocupar e, certamente, o Brasil não é um deles, até porque a relação da balança comercial dos EUA com o Brasil é de superávit.

A “despiora” da atividade econômica



Patrícia Palermo

Economista-Chefe da Fecomércio-RS, Economista do Ano Corecon-RS/2016
Corecon-RS Nº 6589



Quais suas expectativas para 2017?

O quadro de 2017 pode ser resumido em um tripé: incerteza, crescimento fraco e desinflação. A incerteza vem da política, tanto no cenário externo quanto no cenário interno. No âmbito da economia brasileira, deveremos observar um crescimento frágil, fraco e lento, em decorrência das próprias características da crise que vivenciamos nos últimos anos. Uma crise que se prolongou por muito tempo, fragilizando, inclusive, empresas sólidas e que resultou em uma grande ociosidade nas empresas, que vai retardar o processo de retomada do mercado do trabalho. Por outro lado, estamos experimentando uma situação de desinflação na economia, que se apresenta muito robusta e que abre espaço para diminuirmos de maneira forte e rápida a taxa de juros e que, com certeza, irá nos encaminhar a taxas de crescimento mais elevadas num futuro próximo.

Alguns setores já estão demonstrando sinais de recuperação?

Nós já temos, basicamente, um cenário de retomada. Entretanto, o que vivenciamos está mais ligado à ideia de uma “despiora” do que de uma melhora. Existe uma série de sinais positivos e alguns números já demonstram que a economia começa a reagir. Há três meses seguidos a arrecadação do governo federal mostra expansão, ainda que marginal, refletindo aumento da atividade. O ritmo da destruição líquida de empregos também tem diminuído, e a indústria, ainda que motivada pelo ciclo de estoques, também apresentou melhora. Tudo isso acaba por refletir numa melhora na confiança, tanto dos consumidores como dos empresários da indústria e do comércio. Ainda que se espere aumentos do investimento, a ociosidade presente na economia funciona como um limitador natural da formação bruta de capital fixo. Assim, acreditamos que ao longo de 2017, a economia deverá ser impulsionada pelo aumento do consumo, motivado pela desinflação e pela redução dos juros.

Que setores deverão se destacar?

Particularmente, o que se acena como bastante positivo ainda para este ano de 2017 são os números provindos da agropecuária. No Brasil, esperamos um aumento do PIB agropecuário de 6%, conquistados a partir de uma safra recorde, e muito boa em relação ao ano passado, quando tivemos uma base bastante deprimida. Além disso, apesar dos preços das commodities agrícolas estarem bem longe dos picos históricos, não estão ruins, principalmente quando medidos em reais. Outro ponto que deve ser ressaltado é que o mundo continua crescendo e parece robusto nessa taxa de crescimento que vem apresentando recentemente, o que tem ajudado, de forma efetiva, os preços das commodities a aumentarem. Com isso, estamos sendo favorecidos nos termos de troca. Os outros setores deverão desenhar ao longo de 2017 uma recuperação mais tímida. Os serviços, por exemplo, maior setor no PIB, deverão apresentar crescimento de 0%, depois de cair mais de 2% em 2016. O que precisamos é que a política não atrapalhe a economia, o que é algo bem difícil de acontecer!

O que está faltando para o empresário começar com investimentos de maior peso?

Existe ainda muita ociosidade dentro do mercado. Só vai-se começar a investir quando essa ociosidade tiver acabado e isso sabemos que ainda está longe de acontecer. Em função da longevidade dessa crise, as empresas, mesmo as mais sólidas, se fragilizaram muito do ponto de vista econômico-financeiro. Então, vai demorar ainda algum tempo para uma retomada do crédito da pessoa jurídica e do investimento doméstico. O que pode acontecer é que, melhorando o quadro de perspectivas futuras, o Brasil consiga aumentar sua capacidade de atrair investimentos estrangeiros. O risco-país caiu bastante nos últimos tempos e, aprovando as reformas, a atração de investimento estrangeiro deverá se intensificar.

E o Efeito Trump?

O discurso de Trump, assim como de outros políticos de países desenvolvidos, é de que na verdade os que foram prejudicados pela globalização foram os países desenvolvidos, que exportaram emprego e renda para os emergentes. Para reverter isso, a solução seria a implementação de práticas protecionistas, embaladas no fervor nacionalista de criar nações “greats again”. O que a teoria econômica tem mostrado é exatamente o contrário. Economias mais abertas são historicamente as economias que menos fazem guerra (com aqueles que comerciam) e que mais prosperam. Então, se construirmos uma cultura de muros, o mundo terá a perder. É bom lembrar, no entanto, que, no caso brasileiro especificamente, o efeito é mais indireto do que direto. O Brasil tem uma taxa de exportação sobre o PIB próxima de 12,5%. Nossas exportações para os EUA são aproximadamente 12,5% de nossas exportações totais de bens. Nós temos uma relação comercial deficitária, e, portanto, não andamos na mira do novo presidente americano. Mas o problema é que se eles se fecharem, isso pode gerar o “empoçamento” de produtos que tinham aquele país como destino. Isso pode aumentar oferta mundial desses produtos e, com certeza, baixar preços, o que seria altamente prejudicial para a nossa indústria local, que há tanto tempo vem remando para tentar sair dessa crise em que vive.

Crise e restrição ao crédito

 

 

Rogério Tolfo

Economista, vice-presidente Corecon-RS, consultor econômico-financeiro
Corecon-RS N° 5773

 

Até que ponto existe escassez de crédito no mercado?

Recursos para emprestar não faltam. O que está restrito é o acesso ao crédito. Os agentes financeiros estão muito criteriosos na análise de novos financiamentos, optando por manter sua posição de risco nos clientes ou até mesmo reduzir os limites apresentados. Há uma nítida preferência, ainda, por alongar o perfil do endividamento existente, gerando breve fôlego ao tomador do recurso, com uma carência de três a seis meses, mas mantendo o prazo total da operação na casa de 24 meses, atualizando os encargos financeiros para o padrão de 2017. Em períodos de crise econômica, a demanda de crédito de capital de giro por parte das empresas tem por objetivo, principalmente, a manutenção em dia das obrigações de curto prazo, fato que gera desconforto aos analistas de crédito dos agentes financeiros, visto que o cenário econômico ainda se apresenta nebuloso, apesar da tendência de melhora a médio prazo. A soma de todos esses fatos acaba gerando restrição de acesso ao crédito para as empresas e mesmo para as pessoas físicas.

Neste momento em que começam a surgir os primeiros sinais de recuperação da economia brasileira, as empresas têm recursos para investimentos?

Os recursos para investimento nunca deixaram de estar disponíveis. O que reduziu foi o apetite das empresas para investir. Evidentemente, isso retrata a média do mercado. Num cenário geral de baixa demanda, redução da receita, maior impacto dos custos fixos no total de dispêndios e tendência a prejuízos ou resultados pequenos, as empresas tendem a manter seu foco na solução dos seus problemas de curto prazo e evitam ou postergam a realização de investimentos com retorno de longo prazo. Numa economia cíclica, como é a brasileira, onde muitas vezes um cenário com projeções de somente dois a três anos se torna nebuloso, investir em períodos de crise torna-se ainda mais arriscado pela dificuldade de perceber quando teremos o ponto de inflexão, que vai trazer o País de volta ao crescimento. Além disso, os bancos comerciais e de fomento tornaram-se mais criteriosos na análise de projetos de investimento.

Que alternativas as empresas que se descapitalizaram, em função da longa recessão, têm para retomar seus investimentos?

Acredito que a retomada dos investimentos fixos passa pela percepção de que efetivamente estamos saindo da crise.

Essa é uma tendência, mas quando isso efetivamente vai acontecer?

Não temos certeza. A queda de 7,2% do PIB no período 2015 / 2016 foi muito expressiva, embora não surpreendente, pela abrangência da crise. Porém, confesso que imaginei que o PIB apresentaria melhor resultado no último trimestre de 2016. Mas a queda de 0,9% frente ao trimestre anterior tende a demonstrar que o caminho para superar a crise ainda é árduo.

Há uma leve percepção de que a economia está reagindo. Haverá crédito para financiar este crescimento?

A Selic reduziu em 1,5% ao ano, na soma das duas últimas reuniões do Copom, fruto principalmente da queda da inflação. E a tendência é de queda dos juros. Mas a inflação, no meu entendimento, baixou por causa da crise, tendo em vista que a demanda segue contida. No momento, não se pode estimar, ao certo, prazo para a retomada do crescimento, mas há crédito para financiar empresas dispostas a investir. Os agentes financeiros comerciais e de fomento permanecem sendo alternativas para financiarem investimentos em aumento da capacidade produtiva. Fundos de investimento são ótimas alternativas para aportarem recursos nas empresas que possuem bons projetos de longo prazo, com capacidade de boa geração de caixa e elevada taxa interna de retorno. O momento presente, mais do que em épocas de crescimento, pede que as empresas se planejem e se organizem, elaborando estudos bem estruturados, que considerem a sua situação atual e onde quer chegar, com base em sólida análise de mercado. Estudos financeiros realistas, que sustentem com credibilidade o pleito de financiamento ou aporte de recursos e gerem conforto não só aos agentes financeiros e fundos de investimento, mas, também às empresas, são muito importantes e se tornam excelente ferramenta de gestão.

De que forma o governo pode atuar como regulador desse mercado?

Nas linhas de longo prazo, o Governo, via Banco Nacional do Desenvolvimento (BNDES), tende a regular o mercado. De fato, o BNDES é o agente repassador direto e indireto, via agentes financeiros, das linhas de crédito com foco não só em investimentos, mas também, no capital de giro (Linha de Crédito Progeren). O Banco determina os encargos e os prazos das operações de financiamento. Recentemente, o BNDES adotou medidas para flexibilizar o acesso ao crédito e agilizar a tomada do financiamento. Mas tais medidas não surtiram o efeito desejado até o momento e algumas nem foram implementadas ainda.

E por que ocorre isso?

Acontece que grande parcela da demanda de crédito por parte das empresas junto ao BNDES obrigatoriamente tem que ser pleiteada via agentes financeiros, que estão com política de restrição ao crédito, conforme já comentado. Mesmo no BNDES, em operações diretas, o acesso ao crédito por parte das empresas vem sofrendo análise mais criteriosa. É bom lembrar que, em função da crise, muitas empresas estão apresentando balanços que geram índices econômico-financeiros pouco atrativos, baixa liquidez, alto grau de alavancagem, EBITDA reduzido, com baixa geração de capital próprio. Enfim, atualmente, e esse cenário já não é de agora, os bancos de fomento vêm analisando o projeto ou o pleito de capital de giro numa escala secundária em relação à análise do “rating” gerado pelos números contábeis das empresas que pleiteiam recursos de longo prazo. E isso vem sendo feito mesmo nas linhas de crédito que foram ajustadas pelo BNDES para o atual momento da economia. Logo, essa situação acaba reduzindo a parcela de empresas que têm aprovadas as operações de financiamento.

Como estão os juros desses financiamentos?

Os juros, quer seja para capital de giro ou para investimentos, estão elevados, fruto principalmente do atual cenário econômico.

Quando começa a surtir efeito a redução da Selic nos custos dos financiamentos?

Já começou a surtir efeito nas operações de capital de giro em agentes financeiros, mas a redução dos juros na ponta final, do consumidor, de pessoa jurídica ou pessoa física, tende a acontecer lentamente.

Expectativa e ansiedade movem a economia da Região Sul do RS

 

 

João Carlos Medeiros Madail
Corecon RS Nº 3356
Economista, conselheiro Corecon-RS


Qual o cenário econômico atual da Região Sul do RS?

Embora tenha sido a primeira região gaúcha a ser colonizada no estado, já viviam por aqui tribos indígenas, que presenciaram a chegada de militares que já haviam servido ao país, enviados pela Coroa portuguesa, para tomarem posse de grandes extensões de terras na forma de sesmarias, com a finalidade de assegurar as fronteiras brasileiras. Desde esse período, formou-se uma estrutura fundiária de extensões que até o presente não passou por mudanças expressivas. Em consequência, a matriz produtiva da região, baseada na monocultura agrícola e na pecuária extensiva, carece da diversificação para torna-la dinâmica e atrativa para novos negócios. Vários movimentos da sociedade organizada da região estão em andamento, visando à sua recuperação econômica. Entre eles a “Aliança Pelotas-Rio Grande”; o “Programa Líder Sul”, promovido pelo Sebrae; a “Azonasul”, Associação dos Municípios da Região Sul do RS e Corede Sul, Conselho Regional de Desenvolvimento da Região Sul do RS. Todos com projetos em andamento sinalizando a revitalização da região.

Quais os resultados dessas políticas implementadas pelo governo federal para o desenvolvimento dos polos navais na região? 

Esta política de recuperação da indústria naval brasileira, implementada em 2002, durante a gestão do presidente Lula, no município do Rio Grande, trouxe, num primeiro momento, grande alento para a economia de toda a região. Vários segmentos foram beneficiados, com destaque para os da construção civil e infraestrutura, onde os empregos diretos foram multiplicados por três. Outros segmentos, como o da alimentação e saúde, registraram acúmulo de demandas, atendidos por empresas e hospitais dos municípios vizinhos. Ao todo, foram mais de 20 mil empregos gerados, o que atraiu mão-de-obra de vários estados. Novas empresas foram criadas enquanto outras foram deslocadas para o município. Com a finalidade de buscar maior qualificação da mão de obra local, cursos específicos foram implantados nas escolas da região, como de soldadores, eletricistas, segurança do trabalho, sem contar o aumento da procura pelos cursos superiores de engenharia mecânica e elétrica nas universidades de toda a região. Só que, pouco tempo depois, toda esta euforia sucumbiu com a crise política-financeira instalada no governo federal, que culminou com a paralisação das obras no polo naval, assim como outras, em todo o território nacional. 

Como está a situação econômica neste momento?

No momento apenas duas empresas continuam operando. Uma em Rio Grande e outra em São José do Norte, responsáveis por uma geração total de cerca de dois mil empregos diretos. Evidentemente, são de extrema importância para o contexto da região, mas como ainda reina o desencanto com o fracasso anterior, não se tem a garantia da continuidade destes empreendimentos no médio e longo prazo.

Quais as expectativas futuras para a região?

A economia da região, mesmo inserida no cenário nacional de recessão, tem mostrado sinais de crescimento, se aproveitando do bom momento da soja, do arroz, das frutas e da pecuária de corte, principais produtos agrícolas da região, mantendo o PIB na média de estado e na 17ª posição entre os 28 Coredes do Rio Grande do Sul. 

Quais os diferenciais apresentados pela região para a atração de negócios e empreendimentos? 

A região é muito rica nos seus aspectos naturais, com fontes quase que inesgotáveis de água doce, solos férteis, concentração na produção de energias limpas, como os atuais parques eólicos. Da mesma forma, possui redes de ensino fundamental, médio e técnico de qualidade, uma expressiva concentração de universidades públicas e privadas, centro nacional de pesquisa da Embrapa Clima Temperado, sem contar o inquestionável potencial para o turismo. A presença do Porto Marítimo do Rio Grande é o grande diferencial para o escoamento da produção nacional e gaúcha para os mercados do Mercosul e resto do mundo. 

Quais os principais entraves para o pleno desenvolvimento da Região?

Por se tratar de uma vasta região, onde os municípios se encontram distantes uns dos outros, carece de infraestrutura de estradas com qualidade que os aproximem e, também, do porto do Rio Grande e da capital do Estado. Nesse sentido, a conclusão da duplicação da BR116, que liga a região à Capital, paralisada depois de significativos avanços, tem registrado prejuízos econômicos, já que 70% da produção gaúcha exportável circulam por ela. Outro grande problema tem sido os riscos inevitáveis de acidentes fatais registrados quase que diariamente ao longo da rodovia.

A região sul do estado pode voltar a ter uma economia pujante?

Pode sim e existem atrativos para tal, sendo o porto do Rio Grande um deles. No momento a economia do estado está concentrada na Grande Porto Alegre e na Região da Serra. A Região Sul do RS é a grande alternativa para a desconcentração da economia gaúcha, principalmente pela proximidade dos países do Mercosul, com os quais o Brasil tem intensas transações comerciais. A Região Sul do RS é uma das mais belas e ricas do estado, mas carece de oportunidades de negócios que estimulem a manutenção dos talentos nela gerados com o compromisso do desenvolvimento espacial. Dentro dessa meta, pode-se citar como objetivos a redução da concentração urbana do eixo Pelotas-Rio Grande e o desenvolvimento da consciência da fragilidade ambiental da faixa litorânea que a cerca e dos demais recursos naturais que a enriquecem sobremaneira.

 

Recursos do FGTS e impactos no comércio


victor

Victor de Fraga Sant'Ana
Corecon-RS n° 8287
Conselheiro do Corecon-RS, Economista da CDL Porto Alegre

 

Qual o montante de recursos oriundos das contas inativas do FGTS que estará sendo liberado para o Rio Grande do Sul e o Brasil?
Segundo a Caixa Econômica Federal, R$ 43,6 bilhões de contas inativas estarão disponíveis para serem sacados este ano, a partir do mês de março. Desse montante, a Caixa estima que R$ 30 bilhões serão sacados de fato. Não há dados oficiais sobre o somatório de contas no estado ou na capital.

Que tipo de expectativa essa medida está levando ao comércio?
Na situação de recessão em que o país se encontra, esses bilhões de reais que devem entrar na economia nacional serão importantes para a recuperação de famílias que hoje estão com dívidas decorrentes do desemprego. Este foi o maior motivo para a geração de inadimplência no ano passado no país, segundo dados da Boa Vista Serviços (BVS/SCPC). Com essa injeção de recursos, uma boa parte deve ser utilizado para consumo direto, mesmo após a quitação de dívidas em atraso.

Isso pode trazer impactos positivos em termos de contratação de mão de obra no setor?
É difícil precisar o impacto dessa medida no nível de emprego, dado a situação na qual o país se encontra. Como a liberação das contas inativas não será uma medida recorrente, a influência dela sobre o mercado deverá ser de curto ou médio prazo e sem influências diretas sobre o mercado de trabalho. Porém, essa medida pode fazer com que a recuperação da economia ocorra mais rapidamente, o que aceleraria também a recuperação do nível de emprego.

Esses resultados são transitórios ou podem mudar positivamente a realidade de dificuldades por que vem passando o setor?
Em parte, a liberação dos inativos do FGTS deve ser vista como um ato com efeitos transitórios, já que corresponde a uma quantidade limitada de renda sendo liberado apenas este ano. No entanto, nos aproximamos de um momento de recuperação da economia, que pode ser adiantado por essa medida do governo.

Quais as expectativas do comércio em relação a mudanças mais estruturais que vêm sendo adotadas pela área econômica do governo Temer?
Mudanças estruturais que facilitem a relação do varejista com seus funcionários e os consumidores são sempre bem vindas. No final do ano passado, foi permitido que o comércio cobre valores diferentes de acordo com o meio de pagamento escolhido pelo cliente. Essa mudança é muito positiva, já que meios de pagamento diferentes geram custos diferentes aos lojistas. Com essa permissão, ganham o lojista e o consumidor, por poderem realizar as transações comerciais com o preço melhor para ambos.

 

Foto: Karen Horn

A indústria gaúcha e perspectivas de crescimento

contri

 

André Luis Contri

Economista, pesquisador da FEE, professor da Escola de Negócios da PUCRS
Corecon-RS Nº 4884

 

Como foi o comportamento da indústria gaúcha no ano passado?
A produção física da indústria de transformação no Rio Grande do Sul, em 2016, apresentou uma queda de 3,9% em relação a 2015. Esta queda veio somar-se a outras duas observadas em 2014 e 2015. Assim, no acumulado dos últimos três anos, a atividade industrial no Estado teve uma redução de 18,6%. Com isso, o volume de produção industrial no RS retornou, aproximadamente, ao nível de 1999.

Que setores se destacaram positivamente?
Em 2016, apenas quatro atividades apresentaram crescimento no volume de produção, com destaque para a atividade de Produção de celulose e produtos de papel, a qual teve um aumento de 33,8%. Convém destacar que esta atividade já havia apresentado um crescimento, de 37,9%, em 2015, sendo a atividade industrial com maior crescimento no Estado ao longo dos últimos dois anos. As demais atividades que apresentaram desempenho positivo foram Metalurgia (3,5%), Fabricação de produtos de couro e calçados (2,4%) e Produtos alimentares (1,3%).

E quais setores tiveram resultados negativos?
Todas as demais atividades apresentaram queda no volume de produção, sendo as mais significativas as observadas na Fabricação de produtos do fumo (-35,0%), Fabricação de móveis (- 11,8%), Fabricação de bebidas (- 11,8%) Veículos automotores (- 10,0%) e Fabricação de derivados do Petróleo (-10,3%).

Os números da indústria brasileira no ano passado seguiram essa mesma tendência?
É importante frisar que o parque industrial instalado no RS representa segmentos da indústria nacional e, portanto, tende a refletir o desempenho desta última. A indústria de transformação nacional também apresentou queda no volume físico de produção ao longo dos últimos três anos. Em 2016 a queda foi de 6,1% em relação a 2015 e no acumulado dos últimos três anos a queda foi de 19,0%, portanto, bem similar ao que aconteceu no RS. Com isso, o volume de produção nacional voltou a níveis inferiores aos de 2004. A partir desta constatação, torna-se inútil esperar que haja uma recuperação da produção industrial no RS sem que a mesma ocorra em nível nacional.

Tem-se percebido alguma tendência de recuperação dos diferentes setores para este ano?
A crise não afeta todos os setores com a mesma intensidade, conforme foi destacado anteriormente. O que se observou em 2016 foi uma taxa menos acentuada na queda da produção. Quando se observa a partir desta perspectiva, através das taxas acumuladas em 12 meses, verifica-se que já se iniciou uma reversão do ciclo. Se for continuada esta trajetória, tal fato sinaliza para um possível retorno ao crescimento, ainda que modesto, em 2017. De qualquer forma, é importante ter presente que a queda acumulada nos últimos anos foi extremamente acentuada. A recuperação dos níveis de produção e, consequentemente, do emprego dos anos pré-crise ainda irá requerer muitos anos de crescimento econômico.

O que falta para uma recuperação definitiva do setor industrial?
Esta é uma questão complexa, uma vez que a recuperação definitiva irá requerer uma melhora em um conjunto grande de fatores, que vão desde o cenário macroeconômico e político nacional até o cenário internacional. Faz-se necessário a retomada dos investimentos da Petrobrás, com o direcionamento da sua demanda por máquinas, peças e equipamentos para a indústria nacional, de forma a estimular a produção doméstica. Será necessário, ainda, equacionar os problemas ocasionados para as grandes empreiteiras pelos escândalos de corrupção. São necessários, também, maiores investimentos governamentais, sobretudo em infraestrutura. Somente a partir disso se poderá esperar uma retomada substancial dos investimentos. Por fim, as elevadas taxas de juros reais na economia brasileira, com seu impacto sobre o câmbio, tem tirado a competitividade do parque industrial nacional e dificultado uma maior inserção no mercado externo. Também é importante se ter presente que o desemprego aumentou significativamente nos últimos anos e que continua em ascensão. Somando-se isto à redução do rendimento médio real do trabalhador e ao elevado nível de endividamento das famílias, teremos muito dificuldade em reaquecer o mercado interno.

E a conjuntura internacional?
Pois é. Também é necessária uma melhora no quadro econômico mundial. Apesar de haver muitos indicadores positivos na economia mundial, é importante se ter presente que a economia mundial ainda está apresentando baixas taxas de crescimento relativamente à sua trajetória histórica da segunda metade do século XX. Verifica-se, também, que este crescimento mundial tem sido extremamente desigual em termos geográficos, estando mais concentrado em países como China, India, EUA e Alemanha. Os demais países, ou estão com taxas negativas de crescimento, ou extremamente baixas. Além disso, o comércio mundial também apresentou uma substancial desaceleração nos últimos anos.

Qual a expectativa do setor com relação às políticas econômicas do governo Trump?
Esta é outra grande incógnita. Se o presidente Trump for bem sucedido na sua política protecionista, isto poderá implicar em uma redução nos investimentos estrangeiros norte-americanos, bem como em uma redução na demanda por bens finais de outros países. Os EUA ainda são um importante parceiro comercial do Brasil. Existe ainda a ameaça por parte do governo norte-americano de fazer uma guerra cambial, o que iria tornar ainda mais vulnerável a posição brasileira no comércio mundial. Por outro lado, se as medidas do novo governo norte-americano estimularem o crescimento econômico naquele país, isto poderá ter reflexos positivos na economia mundial e, consequentemente, no Brasil. Mas ainda é muito cedo para afirmar qual será o resultado líquido destas medidas.

A racionalidade na tomada de decisão

ingrid

 

Ingrid Rafaele Rodrigues Leiria
Corecon-RS Nº 8383
Economista, 1º Lugar “Prêmio Corecon-RS 2016” Monografias ou Trabalhos de Conclusão de Curso

 


Sobre o que trata o trabalho “A racionalidade na tomada de decisão: um experimento para avaliar o efeito de cenários econômicos da decisão dos eleitores em uma eleição presidencial”?
O trabalho busca, através do método experimental, analisar o impacto dos cenários econômicos nas decisões de voto dos eleitores em uma eleição presidencial. A pesquisa procurou explorar os pressupostos políticos e econômicos da racionalidade na tomada de decisão, fundamentando não apenas as contribuições das Ciências Econômicas, mas também das Ciências Políticas, referentes ao processo de votação e as principais variáveis presentes no processo decisório dos agentes. A pesquisa obteve a participação de 446 alunos da Escola de Gestão e Negócios da Unisinos e contou com três procedimentos distintos, sendo o “procedimento 1” sem comunicação, o “procedimento 2” com comunicação apenas entre participantes, e o “procedimento 3” com total comunicação entre os participantes e candidatos. Também foram previamente elaborados os cenários econômicos e os discursos dos candidatos, a fim de realizar todos os procedimentos de forma padronizada.

Por que a escolha deste tema?
Devido a minha curiosidade em buscar entender de maneira mais detalhada a Economia Comportamental e o Método Experimental, sendo que ambos os assuntos tem ganhado força na área econômica a partir da segunda metade do século XX, ocasionando o Nobel de Economia para Daniel Kahneman em 2002. Meu interesse surgiu devido a constantes questionamentos que possuía e ainda possuo sob a Teoria Econômica Tradicional, pois acredito que há outras alternativas que possam explicar de maneira mensurável e clara o comportamento dos agentes tomadores de decisão. Como tinha por objetivo desenvolver um projeto diferenciado, que saísse do laboratório e tivesse alguma interação com os agentes, após algumas discussões referente a Economia Comportamental e ao Método Experimental, eu e Prof. Dr. Tiago Wickstrom Alves chegamos ao desenho do experimento desta pesquisa.

Qual o impacto dos cenários econômicos nas decisões de voto dos eleitores em uma eleição presidencial?
O cenário que foi apresentado aos participantes continha indicadores econômicos, como taxa de câmbio, inflação, crescimento da dívida pública com relação ao PIB, taxa básica de juros, crescimento do PIB e taxa de desemprego. A ideia era que, a partir dos cenários apresentados, os participantes pudessem distinguir de forma racional qual a melhor política a ser aplicada para a economia daquele país. A partir dos resultados, foi possível testar a hipótese de tendência à aversão à perda, que especifica que as pessoas são mais suscetíveis a perdas que aos ganhos. No caso do experimento, a perda se daria pela escolha da proposta 2, tida como a pessimista, pois a mesma enfatizava que o cenário não era favorável, necessitaria de ajustes de curto prazo e que os benefícios desta política só seriam sentidos no médio e longo prazo. Portanto, era de se esperar que os eleitores refutassem essa proposta. No entanto, ela obteve a maior concentração de votos, sendo possível verificar que em sua maioria, os alunos utilizaram do modelo racional de tomada de decisão para sua escolha.

Por que o homem e a mulher possuem análises distintas ao formarem sua decisão no momento do voto?
A identificação de gênero não era um dos objetivos da pesquisa. Devido a isso, não saberia dizer qual a análise realizada entre gêneros votantes ao formarem sua decisão. É algo que poderia ser realizado em uma pesquisa futura. No entanto, com relação ao gênero dos candidatos, um dado que identificamos foi a diferença na aceitação das propostas vindas de candidatos do gênero masculino e do gênero feminino. De acordo com uma análise preliminar dos dados, as propostas tidas como positivas eram melhor aceitas quando defendidas pelo gênero feminino.

Qual a constatação do trabalho?
Através da participação dos 446 alunos, identificamos a presença de shortcuts na tomada de decisão quando utilizamos o procedimento que não permitia comunicação entre os participantes. E quando permitíamos a comunicação entre os participantes, identificamos que a decisão em grupo poderia levar a decisões menos embasadas, ou seja, irracionais. Isto ocorre, já que pode haver falhas em avaliar o risco de uma alternativa selecionada, podendo ainda restringir o pensamento crítico dos membros do grupo, de uma maneira que as opções mais fáceis sejam as preferíveis. Já, quando utilizamos a comunicação entre candidatos e eleitores, identificamos um maior nível de racionalidade nas decisões. Os participantes são instigados a serem mais críticos na medida em que aumenta o nível de informações disponíveis para a tomada de decisão. Também analisamos o comportamento das turmas na pesquisa, quando houve a oportunidade de questionamento aos candidatos, através doprocedimento 3, em que nem todas as turmas questionaram. Tendo em vista que na Teoria das Decisões Racionais é sustentado que os tomadores de decisão sempre buscarão por informações relevantes antes de decidirem por algo, ou seja, a possibilidade de questionamento do grupo em um experimento, sendo a mesma não utilizada, indica que os agentes nem sempre buscam compreender melhor o assunto ou sanar dúvidas antes de uma tomada de decisão.

A teoria monetária e financeira de Marx

henrique

 

Henrique de Abreu Grazziotin
Corecon-RS Nº 8060
Economista, 1º Lugar “Prêmio Corecon-RS 2016” Dissertações de Mestrado

 

Sobre o que trata o trabalho “Sistema de Crédito, Ciclos Industriais e Institucionalidade Financeira: uma sistematização da teoria monetária e financeira de Marx”?
O objetivo da dissertação foi sistematizar a teoria monetária e financeira de Marx, buscando definir com maior precisão a concepção desse autor sobre o Sistema de Crédito, sobre as crises financeiras cíclicas ocasionadas pelo Sistema de Crédito, que são os ciclos industriais, e sobre a Lei Bancária de 1844, que é um dos únicos exemplos de uma institucionalidade financeira debatida por esse autor. Para isso, foi necessário definir também com maior precisão o que significa pra Marx a categoria dinheiro, tratando detalhadamente dos seus diversos determinantes em uma economia capitalista desenvolvida.

Por que um espaço de tamanha relevância dada ao capítulo Dinheiro, dentro da teoria monetária de Marx?
Antes de iniciar a dissertação, a ideia era realizar uma comparação entre os elementos monetários e financeiros da teoria do Marx com os elementos da teoria de Hyman Minsky, autor pós-keynesiano, conhecido principalmente por sua teoria de Fragilização Financeira e de crises cíclicas endógenas criadas por esse processo financeiro. Já sabíamos que existia no Marx uma teoria análoga de crises financeiras, que poderia ser encontrada em sua maior parte na Seção 5 do Livro III de O Capital, conforme me orientou o Prof. Ronaldo Herrlein Jr., que já tinha uma leitura prévia desse trecho e sabia que havia elementos a serem explorados e compreendidos do mesmo. Por isso, tínhamos em mente realizar essa comparação entre as duas abordagens. No entanto, encontramos uma dificuldade maior. Esse trecho, que é uma publicação póstuma de manuscritos de Marx, editada e publicada por Engels, é de difícil compreensão, pois é bastante desorganizado e complexo.

O foco foi a teoria de Marx propriamente dita?
Decidimos retroceder em nossa ambição de pesquisa e buscar organizar e sistematizar a teoria do Marx sobre esse tema. Fazer isso seria não só suficiente para atender os fins de uma dissertação, que era meu objetivo naquele momento, como também seria uma etapa necessária para a pesquisa inicial de comparação entre as duas abordagens. Decidimos que não nos apropriaríamos da teoria de Marx de forma indireta, ou seja, com base nas interpretações de outras autoras ou autores, pois há diversas interpretações divergentes sobre a teoria, que redundavam em controvérsias teóricas das quais não era nosso objetivo tratar. Assim, seria necessário estudar e organizar diretamente a própria abordagem de Marx. Com isso em mente, foi realizado um esforço na dissertação de sistematizar os elementos teóricos presentes não só na Seção 5 do Livro III de O Capital, como também revisar a teoria monetária de Marx desde seus elementos mais básicos, pois isso se mostrava uma condição necessária para compreender a sua teoria de forma plena.

O que prega a teoria monetária de Marx sobre o conceito de dinheiro?
Em relação à teoria monetária de Marx, pode-se afirmar que a categoria dinheiro é uma categoria complexa, dotada de múltiplas determinações. Isso significa dizer que, para entender, a partir da teoria de Marx, o que de fato são as cédulas bancárias que usamos em nossas transações diárias nos dias de hoje, os saldos em conta-corrente que temos nos bancos ou até mesmo o que são cartões de crédito, é necessário entender como surge algo chamado “dinheiro” nas relações de troca de mercadorias, diferenciando-se de relações de troca simples (escambo), e como isso se desenvolve até essas formas mais avançadas existentes atualmente. Assim, para entender as formas mais avançadas do que se chama dinheiro em economias capitalistas desenvolvidas, é necessário entender como essas formas emergem a partir da sua forma mais simples. Essa evolução das formas do dinheiro é consequência, para Marx, da “complexificação” das relações de produção, com a emergência do capital e da forma capitalista de produção. Dessa maneira, na medida em que as relações de produção se tornam mais complexas, surgem novas relações nas quais o dinheiro está inserido e, consequentemente, novas determinações sobre essa categoria teórica, que é o dinheiro, tornando-a também mais complexa.

O trabalho explica esse processo através de grupos?
Para compreender mais facilmente o que significa esse processo, separamos esses determinantes do dinheiro em quatro grupos. O primeiro é de determinações relacionadas ao dinheiro na chamada “circulação simples de mercadorias”. O dinheiro surge aí, como uma mercadoria que assume o papel de equivalente geral, com funções específicas no processo de trocas. A troca de mercadorias mediada pelo dinheiro é uma relação social mais desenvolvida do que o escambo. O segundo é de determinações relacionadas ao surgimento do capital e da forma capitalista de produzir mercadorias. O capital é, para Marx, um valor cujo objetivo é ampliar-se, expandir-se. Assim, quando o dinheiro é utilizado como capital no processo de produção capitalista, ele não é mais mero dinheiro, mas é também “capital-dinheiro”, pois o processo de acumulação capitalista dá ao dinheiro novas funções. O terceiro é de determinações relacionadas ao fato de que o “capital-dinheiro” se torna ele mesmo uma mercadoria através da forma de capital de empréstimo. Isso significa que o dinheiro passa a ser emprestado, sendo um capital para seu proprietário original e cobrando juros sobre esse capital. Esse processo também representa uma complexificação das relações capitalistas de produção e gera novas determinações para entender o dinheiro em Marx, como a forma do Capital portador de juros. O quarto e último grupo de determinações tratadas por Marx em relação ao dinheiro é a emergência do Sistema de Crédito, que envolve tanto o crédito comercial, como a emissão de letras e títulos de dívida no comércio, quanto o crédito bancário, com a emergência de um capital bancário que se valoriza através de empréstimos e de atividades de desconto. Surgem aí os bancos, as contas de depósito, as câmaras de compensação de dívidas, os mercados de capitais, assim como o Dinheiro de Crédito, que é uma forma ainda mais avançada do dinheiro. Exemplos seriam cédulas bancárias emitidas pelo banco central ou saldos em conta corrente. Assim, há uma complexificação ainda maior do que Marx entende por dinheiro, e isso está relacionado ao surgimento de novas relações sociais que se constroem sobre as existentes anteriormente. Assim, o dinheiro só pode ser completamente compreendido na teoria de Marx quando se entende cada uma dessas partes de sua teoria, ou seja, quando se compreende essa multiplicidade de determinantes. Isso é um exemplo do que pode ser entendido como o “método dialético” em Marx, no qual “o todo é complexo e dotado de múltiplas determinações”.

Sob a ótica de Marx, qual a relação entre o Sistema de Crédito e os Ciclos Industriais?
Na teoria de Marx, o Sistema de Crédito, através do crédito bancário, principalmente com desconto de letras (duplicatas) com vencimentos futuros, leva periodicamente as economias capitalistas a uma etapa de superprodução, em que a renda existente é incapaz de absorver o produto. Esse processo eclode em crises periódicas, geradas endogenamente, ou seja, pela própria lógica da produção capitalista. Assim, Marx tem uma descrição detalhada das etapas do ciclo industrial: estagnação, estabilidade, crescimento, superprodução/especulação e crise. Na teoria de Marx, essa causalidade está relacionada ao movimento das taxas de juros decorrentes da desaceleração/aceleração da circulação do capital industrial em de cada etapa do ciclo, que afeta a oferta e a demanda por capital-dinheiro de empréstimo e por operações de desconto bancário.

E crises ocorridas na Inglaterra ao longo do Século XIX também serviram de base para o estudo?
Há uma descrição histórica extensa em relação às crises existentes na Inglaterra no Século XIX, com enfoque principal na crise de 1847. A análise de Marx de reportagens do período e de depoimentos dados por banqueiros e homens de negócios nas comissões de inquérito da Câmara dos Comuns na Inglaterra apresentam diversas evidências que corroboram a sua interpretação teórica sobre essas crises. Cabe ressaltar que essa teoria dos Ciclos Industriais que encontrei em meu trabalho apresenta poucas referências e pouco debate na literatura atual sobre Marx, o que é algo espantoso. As crises ocasionadas pelo Sistema de Crédito não costumam aparecer na literatura que trata de crises em Marx. Normalmente atribui-se a Minsky a ideia de crises endógenas ocasionados pelo sistema financeiro. No entanto, Marx apresentava uma teoria análoga sobre o tema já em 1864, quando redigia esse trecho de O Capital.

Por que, na teoria de Marx, as crises são consideradas inevitáveis?
Além das crises industriais ocasionadas pelo Sistema de Crédito, Marx apresenta outras razões para a existência de crises no modo de produção capitalista, como crises de desproporção setorial e crises decorrentes da queda tendencial da taxa de lucro. Essas crises podem ser ditas inevitáveis, pois decorrem das leis de movimento estruturais do modo de produção capitalista. Ao estudar a Lei Bancária de 1844, que é uma lei muito criticada por Marx, o objetivo no trabalho foi buscar evidências em relação ao entendimento de Marx sobre a capacidade de instituições e regras, geradas racionalmente e deliberadamente, afetarem o resultado econômico. Como a descrição de Marx tem enfoque primordial em leis de movimento estruturais, é comum a interpretação de que sua teoria é determinista, no sentido de que todas as relações de causa e efeito estão dadas no processo econômico e de que não cabe nenhuma forma de regulação da produção capitalista. No entanto, a descrição da Lei Bancária de 1844 mostra que regras criadas institucionalmente podem afetar o processo econômico, apesar das limitações estruturais existentes no modo de produção capitalista desenvolvido.

Qual a conclusão do seu trabalho?
De forma resumida, o que o trabalho revela é que, em primeiro lugar, em relação à teoria monetária de Marx, pode-se afirmar que a categoria dinheiro é uma categoria complexa, pois, para compreendê-la em sua totalidade no modo de produção capitalista, é necessário compreender as suas múltiplas determinações. Essas determinações estão relacionadas ao dinheiro na circulação simples, como forma da mercadoria, ao dinheiro enquanto forma do capital, ao capital-dinheiro na forma de capital de empréstimo e ao Sistema de Crédito em geral. Assim, o dinheiro só pode ser completamente compreendido na teoria de Marx quando se entende cada uma dessas partes de sua teoria. Também, a partir da descrição do Sistema de Crédito, o trabalho sistematizou a teoria de Marx acerca dos Ciclos Industriais. Trata-se de uma teoria de crises endógenas impulsionadas pelo crédito, com resultados periódicos de crise e de pânico financeiro, que ocorrem em fases sucessivas de estabilidade, crescimento, superprodução, especulação e crise. Embora faça parte de O Capital, que é a principal obra de Marx, essa é uma teoria que apresenta poucas referências na literatura internacional especializada. Por fim, o trabalho apresenta a descrição e as críticas de Marx sobre a Lei Bancária de 1844. A partir dessa descrição, pode-se perceber que, embora as crises sejam algo inevitável na teoria de Marx, a institucionalidade financeira apresenta uma eficácia própria e é capaz de alterar os resultados econômicos durante as crises.

Criminalidade nos municípios gaúchos

mauricio saraiva ed

 

 

Mauricio Vitorino Saraiva
Corecon-RS Nº 8150
Economista, 1º Lugar “Prêmio Corecon-RS 2016” Artigos Técnicos ou Científicos

 

Sobre o que trata o trabalho “Os determinantes da criminalidade nos municípios gaúchos: evidências de um modelo econométrico espacial”?
O artigo analisou quais são os determinantes da criminalidade nos municípios do Rio Grande do Sul, a partir de uma variável que é capaz de agregar múltiplos tipos de delitos e controlá-los pela severidade das penas previstas no Código Penal Brasileiro.

Por que a escolha desse tema?
O tema é particularmente relevante, considerando-se a atual crise na segurança pública do Rio Grande do Sul. Segundo o Atlas da Violência 2016, por exemplo, este foi o estado que apresentou o maior crescimento no número de homicídios nos últimos anos, destacando-se negativamente inclusive em outros indicadores da criminalidade. Sendo assim, o artigo investiga os determinantes da criminalidade no estado, com o objetivo de auxiliar em possíveis diretrizes para políticas públicas.

Por que o combate ao crime nas localidades com maior índice não soluciona, por si só, o problema da violência?
As evidências apresentadas no trabalho indicam que combater o crime somente nas localidades onde há os maiores índices, agindo localmente, não evita a difusão da violência porque existe dependência espacial do crime no estado, isto é, o nível de criminalidade de um município é afetado pelo nível de criminalidade das cidades vizinhas. Assim, o combate local ao crime em cada município não seria suficiente para reduzir o nível estadual de criminalidade, por conta da possibilidade de se “exportar” criminalidade de uma cidade para outra.

Qual a conclusão do trabalho?
O trabalho evidencia que a criminalidade nos municípios gaúchos é positivamente determinada pela criminalidade nos municípios vizinhos e por um conjunto de variáveis socioeconômicas locais, como o abandono escolar do ensino médio em escolas públicas, a instabilidade dos vínculos de emprego, a desigualdade de renda, o grau de urbanização e o nível de desorganização dos núcleos familiares. De maneira geral, o estudo aponta que as políticas de segurança pública precisam ser pensadas regionalmente, e não apenas localmente, atribuindo especial atenção às condições conjunturais de educação, trabalho e assistência social nos municípios.

Pagina 1 de 4