Negócio Fechado: Inovação no mercado da pecuária

Leandro Antonio de Lemos
Diretor do Negócio Fechado, Professor, Consultor de Empresas,
Ex-Presidente Corecon-RS
Corecon-RS Nº 4667

 

Foi lançado, no dia 6 de setembro último, o aplicativo "Negócio Fechado", o primeiro "app" exclusivo de compra e venda de bovinos do País. Com o objetivo de auxiliar o mercado pecuário, o programa foi anunciado na Expointer como resultado de uma parceria entre o Instituto Desenvolve Pecuária (IDPec) e da SafeWeb Segurança da Informação. O Corecon-RS entrevistou o economista Leandro Antonio de Lemos, Ex-Presidente do Corecon-RS e atual diretor do Negócio Fechado, que contou mais sobre as funções e objetivos do aplicativo.

 

Qual o objetivo do "Negócio Fechado", primeiro aplicativo de compra e vendas de bovinos no Brasil?

O objetivo do aplicativo “Negócio Fechado” é permitir a comercialização entre produtores da pecuária para compra e venda de gado, tanto para reposição como para corte. Esse é o primeiro aplicativo do Brasil que permite o processo completo. Desde o cadastramento, certificado. Ou seja, consegue-se identificar através da administração do aplicativo se quem está anunciando realmente é a pessoa jurídica ou física, com a certificação da SafeWeb.

Como funciona?

Pode-se fazer o download do aplicativo direto pelas lojas IOS ou Android ou diretamente no site do aplicativo. Você faz o cadastro, coloca seus dados, que são protegidos em alto nível de segurança, criptografados. A partir daí, a pessoa pode fazer o anúncio no aplicativo, colocando fotografias e vídeos do seu gado para venda.

Qual o nível de segurança das informações contidas no App?

As informações são completamente seguras, tanto para quem quer comprar como para quem vai vender. O comprador entra em um chat privado com quem está vendendo, chat este também criptografado, permitindo um alto nível de segurança e impossibilitando qualquer tipo de acesso de um terceiros nas conversas entre os negociantes.

Todos as etapas envolvendo a transação podem ser feitos por ali?

A grande vantagem é que a parte interessada pode fazer o pagamento direto pelo próprio aplicativo. Nós temos uma ferramenta de segurança, de transações digitais, integrada com os sistemas bancários, o que permite o pagamento de forma muito segura. E quem está vendendo vai ter informação instantânea de que o recurso entrou em sua conta bancária. Temos a possibilidade de pagamento por TED, DOC, boleto bancário e cartão de crédito. O fato de possibilitar negociações com cartões de crédito também é um diferencial, já que o comprador pode acumular seus pontos ou “milhas” para seu cartão.

Qual a importância da certificação adquirida pelo "Negócio Fechado"?

A importância de ter a certificação do Negócio Fechado é impedir fraude e impedir que impostores entrem no sistema e abram negociação, obtendo dados dos produtores ou de seu patrimônio, protegendo-se, então, de possíveis crimes, tanto cibernéticos quanto patrimoniais.

O App é utilizado apenas dentro do Brasil ou pode ser utilizado também por clientes do exterior?

O aplicativo pode ser usado também no exterior. Inicialmente, estamos com 1800 produtores cadastrados dentro do RS e, gradativamente, estamos agregando outros estados do Brasil. E como é uma plataforma na web, ele pode ser acessado de qualquer lugar do mundo, por qualquer interessado no aplicativo.

O Talibã, a economia e o Afeganistão

 

Roberto Rodolfo Georg Uebel
Economista , Doutor em Estudos Estratégicos Internacionais,
Pós-doutorando em Geografia Política, Professor da ESPM-POA 
Corecon-RS Nº 8074

 

Qual a importância política e econômica do Afeganistão no cenário mundial?

Economicamente o Afeganistão não tem uma importância muito significativa no cenário mundial. É um país muito pobre, com um dos piores indicadores de desenvolvimento econômico, um índice de Gini muito baixo, e se localiza numa região cercada de potências econômicas, como o Irã, Paquistão e Índia, e fazendo fronteira com a China, que foi um dos primeiros governos estrangeiros a reconhecer o Talibã como governo legítimo do Afeganistão. Economicamente não tem importância tão grande como a de seus vizinhos, o que não quer dizer que o país não tenha uma importância regional e internacional. O Afeganistão é um grande produtor de commodities minerais, tanto de metais, como também de minérios, que fornece para seus países vizinhos parceiros tradicionais, e, também, na prospecção do solo, como gás e, numa quantidade bem menor, em petróleo.Politicamente, o Afeganistão está localizado no meio da Bel and Road, a iniciativa da China de expansão de suas rotas comerciais para o Oriente Médio, Norte da África e Europa. Também está na rota dos gasodutos russos em direção ao Oceano Índico, estando, portanto, o território afegão, tanto na rota da expansão comercial chinesa como da expansão energética russa, e, por isso, foram os dois primeiros países a reconhecerem o Talibã como regime de fato daquele país.


Quais os principais impactos econômicos da crise no Afeganistão?

Podemos perceber alguns impactos no sentido em que a partir do momento em que assume o governo, não tem mais acesso às reservas bancárias antes atribuídas ao governo afegão, já que as contas foram bloqueadas pelos EUA, assim como foram congelados os empréstimos do FMI, pelo fato de que não há o reconhecimento do governo Talibã como um governo legítimo, o que os coloca numa situação muito próxima à da Venezuela, do governo Maduro, que, da mesma forma, não tem acesso às suas contas bancárias. Então, os recursos que eles têm internamente são garantidos justamente por China e Rússia. Como consequência, percebe-se aí uma crise econômica que vai se transformar numa crise orçamentária, até porque sem recursos o governo afegão não consegue fazer políticas públicas. Não consegue, por exemplo, garantir acesso da sua população à vacina contra a COVID-19 ou garantir o mínimo dos serviços básicos. Por isso, deve buscar alternativas via Rússia e via China para tentar conter esses bloqueios.


Quais as consequências à economia dos EUA ao cessar gastos de mais de 20 anos de intervenção no Afeganistão?

Com relação às consequências à economia norte-americana, se estima que os EUA gastaram U$ 6,4 trilhões em 20 anos nas guerras do Afeganistão e do Iraque. Estimativas dão conta de que os EUA tenham dispendido U$ 3 trilhões na guerra do Afeganistão em 20 anos, o que foi um impacto muito grande no orçamento de defesa daquele país. Justamente por essa razão, há um clamor domésticonos EUA, do eleitorado norte-americano, tanto de democratas como de republicanos, para que os EUA deixasse aquele país. Então, os 20 anos de 11 de setembro tem a simbologia da data, mas também já havia uma pressão doméstica, no mínimo há 10 anos,desde a morte de Bin Laden, para sair do Afeganistão. Foi um impacto muito significativo no orçamento norte-americano, que, evidentemente, deixou de ser gasto em outras áreas. Cabe lembrar que o próprio sistema de saúde dos EUA é muito falho, também pelo fato de não possuir um sistema universal como o do Brasil, e, justamente, um dinheiro que poderia ter sido utilizado para o AlffordableCareAct ou Medicare, programa de saúde criado pelo governo Obama.


De que forma essa crise pode afetar economias dos países em desenvolvimento, como o Brasil?

Eu não vejo a crise geopolítica e geoeconômica do Afeganistão afetando o Brasil diretamente. Já temos as nossas próprias crises, com um governo que flerta com o autoritarismo, então eu diria que não tem como traçar um comparativo com isso. O que poderia nos afetar, aí sim,seria eventual instabilidade no Oriente Médio ou nos países vizinhos, como Índia, Irã, ou demais países, como Arábia Saudita, Jordânia, Líbia, Turquia, Bangladesh, enfim, países que são grandes compradores de commodities brasileiras, como carnes e grãos, ou, ainda, num eventual bloqueio de transporte marítimo naquela região - muito embora Afeganistão não tenha costa marítima -, que poderia afetar o transporte de commodities. Mas isso seria um cenário hipotético. Num cenário factual, verídico, não vejo impacto na economia brasileira, já que o Afeganistão não é parceiro estratégico do Brasil. Tanto que o Afeganistão teve durante três anos uma embaixada no Brasil, que acabou fechando porque as relações nunca se adensaram. O Brasil, por sua vez, nunca teve Embaixada em Cabul. As nossas relações diplomáticas são realizadas pela Embaixada do Paquistão, esse sim, um parceiro importante do Brasil. Aliás, penso que seria interessante o Brasil se posicionar recebendo os refugiados afegãos, como fez no passado. Uma demanda pequena, que contribuiria muito para a imagem do Brasil no cenário internacional.


Por que a estrutura montada pelos EUA ao longo dos últimos 20 anos não foi o suficiente para o talibãs não voltar ao poder?

Os EUA ficaram mais tempo que deviam no Afeganistão. Invadiram o Afeganistão para caçar o Bin Laden e dar uma resposta à população norte-americana, em resposta às agressões sofridas no 11 de setembro de 2001, mas ficaram mais tempo do que o necessário. Foram 20 anos de muito gasto sem conseguirem treinar efetivamente as forças armadas afegãs, ou conseguir garantir a transição às instituições democráticas afegãs preservando as características locais. Não obtiveram sucesso nessas questões. Acho, portanto, muito difícil pensar numa solução de curto prazo para o Afeganistão, que não envolva ou que deixe de envolver a participação de organizações internacionais. Não uma missão humanitária, estilo a do Haiti, mas que se tenha a permissão de organizações como a ONU e outros organismos internacionais, autorizados pelo Talibã, a conduzirem políticas de reassentamentos de deslocados internos, que já são 5 milhões de pessoas. Os interesses de China e Rússia não são meras ideologias, muito pelo contrário. Mas de garantir seus negócios na região. Então, com a saída dos EUA, esse espaço deverá ser ocupado pelas duas nações, bem como pela Turquia, Irã e Arábia Saudita.

 

A economia dos Azeites & Olivais

Eduardo Mauch Palmeira
Economista da Unipampa, Professor do Instituto de Desenvolvimento Educacional de Bagé (IDEAU/Bagé),
Editor Revista Azeites & Olivais, Consultor e Palestrante, Mestre em Integração Econômica Global e Regional (UNIA-ES)
e Gestão de Organizações Públicas (UFSM)

Qual a importância da olivicultura para a economia do Brasil e do RS?

O Brasil é o segundo maior importador de azeite no mundo, perdendo apenas para os EUA. Desta forma produzir azeitonas para a extração de azeite e para a conserva, é uma alternativa viável de produção. A olivicultura veio como uma alternativa, pois diversifica a matriz produtiva, o que é muito bom. Na época da colheita, a maioria dos produtores, ainda colhem de forma não mecanizada, o que proporciona um grande número de postos de trabalho. O país poderá crescer muito em termos de área plantada, e mesmo assim não conseguirá atender a toda a demanda nacional.

Em que época o Brasil começou a se voltar para a produção de azeite de oliva?

A história da olivicultura no país não é nova, como muitos pensam. Nós, da Revista Azeites & Olivais, estamos participando do resgate desta história, que tem sim uma importância muito grande no que diz respeito a esta cultura. Já achamos relatos de produção nas décadas de 1940 e 1950, aqui no estado do RS. Porém, em São Paulo, no mesmo período, foram encontrados os relatos de produção de azeitonas e de extração de azeite. Na fase atual, já no início dos anos 2000, alguns produtores, retomaram o cultivo da oliveira e com o sucesso que os pioneiros do século XX não o tiveram. São vários os fatores que podem ter influenciado, lá no passado. Não havia a tecnologia e o conhecimento técnico que possuímos na atualidade, bem como acesso a estudos e equipamentos, que estão fazendo a diferença no atual momento da olivicultura brasileira.

Que regiões do RS se destacam na produção de azeite de oliva?

A maior concentração, em termos de área plantada, está na metade sul do RS. Porém, a cultura da oliveira vem ganhando espaço em todo o Estado. A cada ano mais produtores/investidores estão aderindo ao plantio, e, claro, sempre em áreas que sejam propícias para isso. O município de Bagé, onde resido, poderá chegar a mais de mil hectares nos próximos dois anos. Mas se contarmos com a região da Campanha Gaúcha, esse número poderá ultrapassar os 4 mil hectares. No município de Encruzilhada do Sul há cerca de 1000 hectares plantados e em expansão.

Em que nível de qualidade se encontra o azeite gaúcho em relação aos maiores produtores mundiais?

O azeite produzido no país, isto é, não só no RS, tem se destacado em concursos internacionais, o que demonstra a qualidade do produto aqui produzido. Concursos estes realizados em diversos países, com degustadores qualificados, que identificam as qualidades do azeite extra virgem, bem como se há defeitos nas amostras. Um bom azeite não pode ter cheiro de ranço, de vinagre, por exemplo. E estes são defeitos que um azeite extra virgem não pode ter. O cuidado que os produtores gaúchos e dos outros estados produtores, como Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Minas Gerais, Bahia e Espírito Santo, têm, desde a escolha das variedades, do plantio, da colheita e do processamento (extração e envase) faz com que nosso azeite seja um extra virgem de qualidade.

Quais as expectativas dos olivicultores gaúchos para a safra deste ano?

A cada ano as expectativas são as melhores. Porém, a olivicultura também depende das condições climáticas. Vale salientar que a cada ano que passa, vamos acompanhando a chegada de novos azeites ao mercado. Isso se dá em virtude de que a produção/colheita leva em torno de cinco anos para obter a primeira safra. Esta última safra foi, para muitos produtores, uma surpresa, pois colheram bem acima do que esperavam.

O governo tem estimulado a produção do azeite de oliva?

O governo gaúcho criou a Lei Nº 15.309, de 29 de agosto de 2019, que institui a Rota das Oliveiras no Estado do Rio Grande do Sul. Os municípios integrantes são Bagé, Barra do Ribeiro, Cachoeira do Sul, Caçapava do Sul, Camaquã, Candiota, Canguçu, Dom Feliciano, Dom Pedrito, Encruzilhada do Sul, Formigueiro, Pantano Grande, Pinheiro Machado, Piratini, Rosário do Sul, Santa Margarida do Sul, Santana do Livramento, São Gabriel, São Sepé, Sentinela do Sul, Vila Nova do Sul, São João do Polêsine, Restinga Seca e Hulha Negra. O próprio Instituto Brasileiro de Olivicultura (Ibraoliva) destaca que o setor produtivo dos azeites de oliva produzidos no Rio Grande do Sul será contemplado pelo Programa Produtos Premium, do governo do Estado e que o projeto, da Secretaria de Inovação, Ciência e Tecnologia (SICT), de Agricultura, Pecuária e Desenvolvimento Rural (Seapdr), Desenvolvimento Econômico (Sedec), Meio Ambiente e Infraestrutura (Semai) e a Fundação de Amparo à Pesquisa (Fapergs), tem o objetivo de organizar e promover a produção, agregando valor aos produtos agropecuários gaúchos, por meio da inovação e do conhecimento. E, como consequência, estimular a economia e todos os elos que participam dessa cadeia. É importante salientar que, na época, a decisão foi aprovada por unanimidade pelo comitê gestor do programa. O azeite de oliva será o segundo produto a ser chancelado. O primeiro foi a carne, que já está em andamento.

Existe, então, uma integração por parte dos órgãos de diferentes esferas governamentais trabalhando nesse sentido?

Notamos, sim, que há um trabalho integrado sendo realizado, entre o governo do Estado e governos municipais e, ainda, o setor privado, para que não só a produção de azeite seja reconhecida, mas, também, a produção de azeitonas em conserva e produtos elaborados com compostos da oliveira.

Como está o olivoturismo no RS e em que regiões está acontecendo de forma mais efetiva?

Os empreendimentos voltados para o olivoturismo são uma nova opção para quem gosta de azeite, mas não só para estes apaixonados pelo ouro líquido. Os empreendimentos atraem por suas estruturas e belas paisagens. A região metropolitana de Porto Alegre, na cidade de Viamão, a menos de 30 km, está localizada a Estância das Oliveiras. Já, na serra gaúcha, na cidade de Gramado, o Olivais de Gramado. Esses dois empreendimentos têm ótimas atrações, com acesso fácil e diversão garantida. Na região central do Estado, em São João do Polêsine, os amantes do olivoturismo encontram o Recanto Maestro, e ainda podem desfrutar das termas. Na metade Sul do RS está a pousada Vila do Segredo, em Caçapava do Sul. Visitar a estrutura de processamento de azeites (chama-se Lagar), passando no primeiro momento pelo pomar, para ter o contato com as plantas de oliveira, e, depois, participar de uma degustação, são uma maneira de entender um pouco mais sobre este produto, o azeite. As rotas de olivoturismo vem sendo desenvolvidas e apresentadas ao turista, com o apoio de agências de turismo receptivo, que estão proporcionando várias experiências neste segmento, que incluem além do azeite, o vinho, a carne e queijos. Esta é uma harmonização que traz novas experiências, e as terras gaúchas oferecem todas elas.

Qual a importância de participar como editor de uma revista especializada?

Participar de um projeto desafiador é muito bom e estando ligado à área da educação foi uma maneira de continuar ao que nos propusemos como profissionais, uma vez que já fazia parte de conselhos editoriais de revistas acadêmicas.

Como surgiu a Revista Azeites& Olivais (A&O)?

A revista surgiu como o produto de um mestrado. A Diretora/Esposa, a Administradora Luciane Gomes, após a conclusão do seu mestrado, propôs a criação da revista, e, prontamente, o desafio foi aceito, e envolveu a família. Assim, em 2019, no mês de março, na abertura oficial da colheita, no município de Formigueiro, entregamos os exemplares da Edição 00 da Revista Azeites & Olivais (A&O). Nossa expectativa foi superada e a Revista A&O ultrapassou as fronteiras e, também, o Atlântico. E convido a quem quiser conhecer um pouco mais sobre azeites e sobre a cultura de oliveiras, que acesse as edições no site da revista. O leitor tem a opção de baixar os exemplares para sua leitura, além das edições especiais, só com receitas que em sua elaboração têm, é claro, um bom azeite. A revista é um meio de divulgar os azeites produzidos no país e no continente sul-americano, sempre levando informações para que, cada vez mais, o consumidor tenha as melhores informações sobre a temática. Visite https://azeiteseolivais.com.br
Consuma azeite! É muito bom e saudável!! Azeite em tudo!!!

O consumo de vinho sob a ótica de um Economista


 

Mauro Salvo
Doutor em Economia, Analista do Bacen,
Ex-Vice-Presidente Corecon-RS
Corecon-RS Nº 5630

 

 

De onde vem seu interesse pelo mercado de vinhos?

Frequentemente me perguntam o motivo que levou um economista a se interessar por vinhos. Costumo dizer que foi o mesmo que levou um adolescente a se interessar pelas ciências econômicas: a curiosidade e a inquietude diante de um assunto tão “misterioso” quanto fascinante. No caso do vinho, também havia a desconfiança, a dúvida de como poderia caber tanta informação, história, ciência, trabalho e paixão dentro de uma taça? Assim como quando decidi entender mais sobre economia, o mesmo se deu em relação ao mundo de Baco: no meu cérebro pairava uma dúvida sobre o que faria sentido e o que, de fato, era enganação nas falas dos especialistas.

E como surgiu a ideia do e-book?

A ideia de fazer esta pesquisa nasceu quando, ao perguntar aos agentes que atuam no setor vitivinicultor sobre o comportamento padrão do consumidor de vinho, recebia respostas pouco conclusivas. Faltavam dados robustos sobre diversas questões vitais para a análise econômica da atividade. Os vendedores, sejam eles lojistas ou produtores, conhecem os números de suas vendas, mas na maioria das vezes não sabem por qual motivo as pessoas demandam seus produtos. Esta lacuna de conhecimento pode não inviabilizar seus negócios, mas é pouco provável que otimize o retorno sobre o capital investido. Por isso o objetivo do questionário aplicado ao consumidor de vinhos no Brasil (e aos não consumidores) foi entender por que ele age de determinada maneira e quais condições seriam necessárias para mudar seu padrão de consumo. Sucintamente, a pesquisa visa delimitar as possibilidades para expansão da oferta e quais ações fomentadoras de vendas poderiam ser adotadas. Sem conhecer os números, muitas ações se tornam um “tiro no escuro”.

Quais as principais conclusões dessa pesquisa?

Sou suspeito porque acho que todas as informações do livro são muito úteis. Todavia, para ser mais específico, eu ressaltaria: as respostas que possibilitam medir a elasticidade-preço e a elasticidade-renda da demanda por vinho; os resultados referentes às preferências por gênero; e os resultados que relacionam as faixas de renda com as faixas de preços. Quanto às elasticidades, observa-se que os consumidores se mostraram pouco propensos a aumentos no consumo, seja por redução de preços, seja por aumento em suas rendas. No que tange à preferência por gênero, o resultado destrói o mito de que mulheres preferem espumantes quando mostra que cerca de 70% delas optam por vinhos tintos. Por fim, quando se confronta faixas de renda com faixas de preços, verifica-se que mesmo entre consumidores de renda alta parece haver um teto para o preço de uma garrafa de vinho, ou seja, não é uma relação proporcionalmente linear.

Qual o impacto da pandemia no mercado de vinhos no Brasil?

No que se refere a mudanças de consumo durante a pandemia, embora muitos tenham aumentado o consumo, uma boa parcela reduziu e outra manteve a demanda inalterada. A pesquisa mostrou que 42,1% aumentaram o consumo, 37,1% mantiveram a demanda inalterada, 15,5% diminuíram a compra e 5,2% pararam de consumir. No geral, durante a pandemia, o consumo de vinhos no Brasil cresceu muito. A expectativa é saber se continuará crescendo ou diminuirá, ou, ainda, para qual patamar irá no pós-pandemia.

Como os produtores brasileiros buscam atender a essa demanda?

Na realidade, a demanda por vinhos no Brasil supera em muito a capacidade de nossa oferta. A produção brasileira tem crescido, tanto nas regiões tradicionais como em novas regiões produtoras. Os produtores nacionais têm investido em novas tecnologias, seja nos vinhedos, seja na elaboração na adega. Novas castas têm sido plantadas, assim como vem surgindo novos terroirs. Mais produtores têm investido nas regiões Sul, Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste, bem como novos estilos de vinho vêm sendo lançados e testados no mercado brasileiro. Ações de marketing e “enoeducativas” também vêm ajudando no aumento do interesse dos consumidores. O desafio dos stakeholders do mercado é descomplicar o consumo do vinho, mostrando que o vinho pode ser “normalizado”, ou seja, pode ser consumido para comemorar um evento importante na vida das pessoas, mas, também, pode e deve ser consumido hedonisticamente no nosso cotidiano.

Quem tiver interesse em conhecer o seu trabalho, como pode fazer?

Pode fazer o download, clicando no buscador da Amazon o título do e-book, “Visitando o que pensa O CONSUMIDOR DE VINHO NO BRASIL: um olhar pela lente de um economista traduzido em estatísticas e gráficos”, https://www.amazon.com.br/dp/B09887CLV2 Haverá um custo de R$ 15,00, e a Editora é a Cinco Continentes, 1ª edição (28 junho 2021). Mais informações sobre o mercado de vinho podem ser encontradas no perfil do instagram @economista_na_adega

As lições europeias no enfrentamento da Covid-19

 

Pedro Pita Barros
Economista, Catedrático da Universidade Nova de Lisboa,
Membro do Conselho Nacional de Saúde de Portugal,
Editor do International Journal of Health Economics and Management

 

 

Qual a contribuição da economia da saúde para o entendimento da dinâmica e das consequências da epidemia da Covid?

A economia da saúde ajuda a colocar na discussão os elementos de valorização dos vários equilíbrios, que é preciso ir estabelecendo, e a compreender efeitos menos evidentes. Por exemplo, ajudar na priorização para vacinação, segundo a capacidade para beneficiar individualmente e em termos de quebrar as cadeias de transmissão; também chamar a atenção para desvio de recursos para atender os doentes com Covid-19 tem custos escondidos de outras doenças que ficam por tratar; a importância das questões de equidade no acesso a cuidados de saúde necessários, e às vacinas, são igualmente um tema em que a economia da saúde contribui para melhores decisões.

Como a Europa, e Portugal em particular, estão vendo a situação brasileira atual?

Do lado de cá do Atlântico, a situação do Brasil é vista com preocupação. Por um lado, preocupação com os custos (e a dor) para a população brasileira de não terem uma resposta adequada à pandemia. Essa resposta tinha que passar, quer por medidas de contenção da difusão do vírus, quer por apoio social a quem fica mais afetado na componente econômica. Por outro lado, a preocupação também com a possibilidade de serem geradas variantes que criem dificuldades adicionais no controle da pandemia.

Qual o efeito das vacinas sobre o número de mortes e de novos casos na Europa?

Tem havido um claro efeito de redução de mortes face ao que sucederia se não houvesse as vacinas. Nos novos casos, a situação é mais complicada por causa da nova variante Delta, que tem gerado um aumento muito rápido de novos casos. Começou no Reino Unido e está agora a espalhar-se pela Europa Continental.

Como tem sido feita a compra de vacinas na comunidade europeia e quais os critérios de distribuição?

A Comissão Europeia coordenou a compra conjunta, antecipada, de vacinas a várias empresas, ainda na fase de desenvolvimento (como forma de gerar fundos que permitissem terminar os processos de criação das vacinas, e como forma de garantir acesso dos países da União Europeia participantes às novas vacinas). A distribuição entre países é feita segundo o critério de população de cada um. Esta regra permite que os países da União Europeia participantes estejam sensivelmente no mesmo nível de vacinação (dependendo da rapidez dos processos de cada país e não da disponibilidade de vacinas diferente).

Quando a Europa e Portugal irão atingir a chamada imunidade de rebanho?

Honestamente, não sabemos. As novas variantes, como a Delta ou outra que a venha a substituir – esperamos que não, mas a biologia não é complacente com as nossas esperanças – alteram os níveis necessários de pessoas imunes para se criar essa imunidade de grupo ou de rebanho. Para as estirpes originais, falou-se muito em ter 70% da população vacinada. Agora, com a variante Delta, há quem estime que poderá ser necessário 85%, ou mesmo mais, da população imunizada para se conseguir esse efeito de imunidade de grupo. E claro, haverá sempre o risco de surgirem mais tarde variantes vindas de outras geografias que compliquem essas contas.

Mulheres da Economia e a I Enconexão

 

Cristiane da Silva
Doutoranda em Economia,
professora de Matemática e Estatística

 

 

Qual a proposta do I Enconexão, que será realizado em julho próximo?

O 1º Enconexão, que será realizado no dia 24 de julho próximo, tem como proposta promover e fomentar reflexões e debates relacionados à economia e sociedade, sob uma perspectiva de economistas, empreendedores(as) e gestores(as) de projetos sociais. O evento foi pensado no intuito de fomentar a discussão, a troca de conhecimento, fornecendo visibilidade aos estudos realizados ao garantir um espaço para divulgação em mídias digitais.

A que público é dirigido e que áreas serão abordadas?
O evento destina-se aos pesquisadores, profissionais e alunos da área de Ciências Econômicas, de áreas afins, integrantes de ONGs, projetos sociais, e ao público em geral. Além destes, espera-se que mais pessoas sejam beneficiadas pelos conhecimentos compartilhados através da divulgação nos meios de comunicação. Em outras palavras, esperamos a participação da sociedade como um todo, interessada em discussões de cunho econômico e social. Nossas áreas temáticas são Economia Feminista; Economia da Saúde; Economia do Trabalho e da Educação; Macroeconomia e Finanças; Economia, Política Social e Demografia Econômica; Desenvolvimento Econômico e Sustentabilidade Ambiental.

Vocês já estão recebendo trabalhos para submissão?
Sim. Foram submetidos trabalhos em todas as áreas temáticas, enviados por pesquisadoras de diferentes estados brasileiros, o que garantirá a pluralidade nas discussões enriquecendo o debate.

Como os interessados podem participar do evento?
A submissão de trabalhos encerrou no dia 14 deste mês, mas as inscrições para participação como ouvinte estarão abertas até o dia do evento, ou seja, até o dia 24 de julho. Destacamos que será fornecido certificado digital de participação como ouvinte, desde que esteja formalmente inscrito no evento.
O que é o Conexão Mulheres e Economia (CM&E), que está promovendo o Encontro?
É um grupo de mulheres interessadas em discussões econômicas e sociais, que se reúne periodicamente para debater assuntos relacionados. O propósito do grupo é divulgar o trabalho das integrantes, destacar suas contribuições para a sociedade, ampliando a rede de contatos, bem como evidenciar a participação feminina em diversos estudos.

Qual o objetivo do grupo?
Um dos principais objetivos do grupo é dar visibilidade à produção científica e atuação de mulheres na área da Economia, além de desenvolver a cooperação entre mulheres ligadas à economia e identificar a importância delas no mercado de trabalho e na academia.

Como devem fazer as mulheres economistas interessadas em participar do grupo?
Convidamos as interessadas a acessar a nossa página através do endereço https://conexaomulhereseconomia.com.br/?page_id=54. Clicando em “Faça Parte” será possível indicar como deseja participar (participar das reuniões, atividades e decisões do grupo; produzir conteúdos eventuais e/ou participar dos eventos e de cursos pontuais organizados pelo grupo; apenas compor a rede e/ou acompanhar; outro). Aproveito para convidar os(as) interessados(as) a nos acompanhar nas redes sociais, como no Facebook e Instagram. Agradeço a oportunidade e o espaço para falar sobre o I Enconexão, e sobre o nosso grupo, Conexão Mulheres & Economia. Será um prazer tê-las(os) conosco!

Novos cenários para a Região Sul do Estado


Marcelo de Oliveira Passos

Economista, Coordenador do Curso de Ciências Econômicas
Universidade Federal de Pelotas (UFPel)

 

 

Qual o perfil da economia da região Sul do Estado do RS?
.
Gostaria de enfatizar que muitas dessas informações sobre a economia da Região Sul do Estado do RS estão presentes em artigo sobre uma rede complexa, baseada na Matriz de Insumo Produto da Região, que estou produzindo, junto com os pesquisadores Rodrigo Rocha Gonçalves, da FURG, e Gabrelito Menezes, aqui da UFPel. Nós fizemos uma análise com todos os setores produtivos dos 28 municípios que fazem parte da região do Conselho Regional de Desenvolvimento da Região Sul do Estado (Corede Sul). Encontramos um indicador chamado “Encadeamento para a Frente”, isto é, o quanto um setor produtivo é demandado pelos outros. E ranqueamos os setores mais demandados por outros setores da região. Constatamos que, de longe, o mais importante é o comércio, com um índice de 3.8, seguido por agricultura e silvicultura, com 2.14, abate produtos, com 2.01, construção, com 1.8, transporte de carga rodoviário com 1.73, outros produtos alimentares, com 1.5 , manutenção recuperação e instalação de máquinas e equipamentos, além de produção de madeira, armazenagem, intermediação financeira, entre outros.

E, dentro desse cenário, que segmentos mais demandaram insumos de outros setores?

É o que, no estudo, chamamos de “Encadeamento para Trás”. Em primeiro lugar abate e produtos, com um índice de 1.63, o que demonstra que a a economia da região ainda é fortemente baseada no setor tradicional da pecuária. Depois, o setor da alimentação, com um índice de 1.3; outros produtos alimentares, com 1.26; produtos de madeira, com 1.23; outros equipamentos de transporte, 1.22; perfumaria higiene e limpeza, 1.22, entre outros. Simultaneamente, aqueles setores que tiveram os maiores índices de encadeamento para a frente e para trás, maiores que um, são os mais importantes. São os que mais demandam e são mais demandados. Pela rdem, são os seguintes: pecuária e apoio; abate e produtos; outros produtos alimentares; produtos de madeira, excluindo móveis e fabricação de químicos, resinas etc.

Como os diferentes setores da economia regional vêm reagindo a esse período de pandemia?

O comércio, que é o setor mais dinâmico da região, sofreu bastante com os lockdowns. E também com a própria queda da demanda, mesmo nos períodos em que não ocorreram o lockdowns. O comércio sentiu porque uma boa parte do setor de comércio e serviços gira em torno das atividades, como o caso de Pelotas e Rio Grande, que envolvem escolas e universidades. Cabe lembrar que Pelotas é o terceiro pólo universitário do RS. Tem uma série de bares, comércio de alimentação, casas de festas, papelarias, imóveis de aluguel etc. que sentiram muito a queda da demanda. Muitos alunos saíram da região, retornando às suas casas, às suas cidades, ficando com aulas à distancia. Já outros setores, como agricultura, silvicultura, produtos de madeira e atividades ligadas a abates e produtos defensivos agrícolas, tintas e químicos tiveram um impulso decorrente principalmente da maior demanda externa, com a recuperação das economias chinesa, indiana e europeia. Estamos vivendo um superciclo de alta da demanda e de valorização das commodities. Isso de certa forma atenua os impactos nocivos da pandemia no comércio e serviços. Na área de construção, também houve uma recuperação notável na região, desde o ano passado, com pessoas, sobretudo famílias de renda mais alta, buscando imóveis maiores para adaptar-se ao novo momento de trabalho em home office. Mas isso ocorreu em meados do ano passado. Agora, os preços do material de construção subiram bastante e também a mão-de-obra do setor encareceu, o que reduziu um pouco o ciclo de expansão do ano passado. Mas o setor ainda está aquecido na região.

Que cenários esse crescimento de 1,2% do PIB brasileiro no primeiro trimestre deste ano, recentemente divulgado pelo IBGE, sinaliza para a economia da região?

É um indicador muito importante, embora, para a nossa região, o que vai realmente afetar positivamente a atividade econômica é a vacinação em massa e a retomada de exportações de commodities. Felizmente, o RS vem liderando as estatísticas de vacinação, e a tendência é que tenhamos uma recuperação maior em nosso Estado. Com a vacinação, espera-se que gradativamente o consumo das famílias volte a crescer, o que pode reduzir os estragos que a pandemia causou ao comércio da região.

O reconhecimento por parte da Organização Mundial de Saúde Animal (OIE), que coloca o RS como uma das novas zonas livres de febre aftosa também traz grandes espectativas à Região Região Sul do Estado?

A região tem o setor pecuarista como uma atividade tradicional e ainda muito importante, como foi dito. Então, os efeitos desse indicador tendem a ser muito positivos, já que impacta diretamente no setor de abates e produtos, assim como na agricultura e em todos os setores relacionados. Lógico que, num primeiro momento, haverá uma tendência natural de aumento do preço da carne, em função da aceleração das exportações, mas que, logo depois deverá ocorrer um aumento da oferta, com maiores investimentos, e aí o preço volta a estabilizar-se no médio e longo prazos.

Passados os piores momentos, quais os grandes desafios para a Região?

Um dos principais desafios para região é a questão dos transportes. Estamos, há muitos anos, tentando uma melhora de infraestrutura para as nossas rodovias que ligam a capital à região do extremo sul do estado. Somente agora isso vem acontecendo, desde o início do atual governo, com as obras do trecho da BR116 que vai de Porto Alegre à Rio Grande sendo retomadas pelo Exército. É uma obra importantíssima para a economia de Rio Grande, que depende muito da atividade portuária, e também para o escoamento da produção agrícola e redução dos custos de transação no setor. Outro grande desafio é a questão da desindustrialização. Essa região, sobretudo Pelotas e Rio Grande, já foram regiões industrializadas, com indústrias alimentícias importantes regionalmente nos anos 80. Mas que entraram em crise após essa década. Muitos ainda vêem a desindustrialização como um problema que só se resolve com um novo ciclo de investimentos industriais. Mas isso não é mais assim, hoje em dia. Já há sinais em Pelotas e em outras cidades como Florianópolis e Buenos Aires, de investimentos importantes na chamada economia criativa, baseada na produção de serviços e bens com conteúdos tecnológicos, startups, aplicativos, games etc. Nós temos duas universidades federais e outras privadas com bons cursos de ciência da computação, com ótimos professores e pesquisadores, estrutura adequada de laboratórios, mas que, infelizmente, exportamos cérebros para outras cidades. Muitas pessoas se qualificam aqui e saem pra trabalhar em outras regiões do País porque não encontram emprego na região.

E como mudar essa realidade?

Os sinais já apontam para uma mudança e um caminho para melhorar isso seria fomentar o empreendedorismo voltado para startups, para a economia criativa, para o lazer, para a produção de games, enfim, uma série de atividades voltadas para domínios de informática, de programação, ciência de dados e, também, o domínio de atividades mercadológicas, como empreendedorismo, marketing digital, enfim, habilidades que levem a uma expansão desses setores. O fato de uma economia se desestabilizar não significa a sua sentença de morte. Buenos Aires, que foi uma cidade que no passado teve uma indústria importante, desindustrializou-se, e hoje encontra-se muito focada na economia criativa, com uma ótima produção de cultura, cinema, aplicativos, música. Outra cidade é Florianópolis, que não tem uma base industrial comparável à Joinville, mas que possui uma economia criativa e polos tecnológicos relevantes. Então, é um caminho para a economia aqui da região, especialmente Pelotas e Rio Grande. Mas isso depende de um apoio governamental, de iniciativas empresariais, e do fortalecimento de uma cultura voltada para o empreendedorismo e para a inovação.

A arte como investimento e valorização da cultura

Maria Fernanda Santin

Economista, mestre em desenvolvimento econômico,
MBA em finanças e gestão de negócios, empresária
Corecon-RS Nº 6864

 


Por que resolveste migrar da área de consultoria para empreender?

Desde muito cedo, sempre me interessei por atividades empreendedoras. Aos 16 anos, fui emancipada juridicamente para poder ter meu próprio negócio. A partir daí, sempre gostei de descobrir nichos que tivessem a ver com meu perfil, o que é muito importante no momento de empreender, visto que a dedicação precisa ser grande. Por isso, considero que fazer algo que se gosta é um dos fatores para ter sucesso. Ao longo da minha carreira de economista, sempre trabalhei em grandes empresas, e, em paralelo, atuava como consultora econômica, produzindo análises, estudos de viabilidade, avaliações econômicas. E a vivência nas grandes empresas foi muito importante para que eu aprendesse novos temas e os colocassem em prática, seja nas próprias empresas ou nas consultorias que eu praticava ou mesmo nos meus próprios negócios. Com meu amadurecimento, percebi que dificilmente me encaixaria 100% no mundo corporativo, como funcionária. Sempre fui muito questionadora. Aprendi que tudo na vida precisa ter um propósito. E, muitas vezes, trabalhando como funcionária, você trabalha pelo propósito dos acionistas ou proprietários das empresas e não pelo seu próprio.

De onde saiu a ideia de empreender através da galeria?

A oportunidade de trazer a Galeria Clima de arte contemporânea para Porto Alegre partiu de um convite do meu primo, que fundou a Galeria em Brasília há mais de 20 anos. A Galeria, que, atualmente possui unidades em Brasília, Rio de Janeiro, Miami e agora em Porto Alegre, trabalha com artistas que possuem visibilidade no mundo das artes, apresentam um trabalho consistente e potencial de valorização ao decorrer do tempo. Isso foi um fator que me motivou bastante: oferecer arte de qualidade como uma alternativa de diversificação de investimento. E, por coincidência, ainda na época da faculdade, sempre pesquisava o tema da arte como investimento. Então, fiquei bem animada em poder colocar isso em prática.

Como conciliar investimento e acesso à cultura?

Em países mais maduros, a aquisição de obras de arte como alternativa de diversificação da carteira de investimento já é algo muito comum. No Brasil, temos o desafio de aculturar o investidor neste sentido. Por exemplo, obras de arte com potencial de valorização são relativamente caras, pois são precificadas considerando diversos fatores, tais como as técnicas e os processos criativos utilizados pelos artistas, consistência da carreira, exposições realizadas, obras em acervos, dentre outros fatores. O investidor não precisa necessariamente entender destes fatores para investir em arte. Para isso, basta se assessorar com especialistas no assunto, como se faz ao investir em ações. No entanto, para que haja o interesse em dar o primeiro passo, é necessário despertar e ampliar o olhar e isso passa por consumir mais cultura. A boa notícia é que acesso à cultura nesta perspectiva está cada vez mais fácil graças à internet. Hoje, você consegue visitar os grandes museus virtualmente, há centenas de vídeos disponíveis no youtube, dezenas de filmes nos canais de streaming, todos os conteúdos das redes sociais... Então, se torna mais fácil o mergulho neste mundo fantástico. Inclusive, nós temos um blog em que falamos sobre a história da arte, quem são nossos artistas, como investir em arte, etc. (www.galeriaclimapoa.com.br)

Qual o próximo passo da Galeria Clima?
A Galeria Clima tem um braço institucional forte, no sentido de buscar parcerias com instituições locais para desenvolver o mercado da arte local e assim, contribuir para ampliar o acesso à cultura e desmistificar a ideia de que as artes plásticas é acessível apenas à elite. Atualmente, temos uma parceria forte com o Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul e ainda para este ano, queremos trazer uma exposição de arte que acontecerá na sede própria do MAC-RS, no IV Distrito, que visa colocar o museu no circuito de arte da Capital e também arrecadar fundos para a continuação da reformada do espaço.

Como é empreender neste setor no Brasil?
O Brasil é considerado um país criativo por natureza. São Paulo, Rio de Janeiro, Santa Catarina e o Rio Grande do Sul são os estados que possuem mais trabalhadores nos setores considerados criativos. Isso dá uma dimensão da efervescência do tema. Em específico, sobre o segmento de arte contemporânea no país, o mercado primário (quando a obra é vendida pela primeira vez) ainda é jovem. Porém, dinâmico e está em processo de expansão e internacionalização. Em torno de 75% das vendas acontecem no mercado primário. Neste mercado, as galerias possuem o desafio de identificar os artistas que julgam relevantes para representarem.

Quais os grandes desafios do setor?
No caso da Galeria Clima, o desafio de encontrar novos integrantes para compor nosso portfólio é um pouco maior, pois precisamos identificar os artistas que apresentam trabalhos consistentes, que possuem potencial de valorização ao longo de sua carreira, visto que um dos nossos direcionadores é oferecer arte como alternativa de diversificação de investimentos. Além de quê, a convergência entre a linha curatorial da Galeria e os artistas é muito importante. Em relação ao mercado secundário (quando a obra foi adquirida no mercado primário e está sendo revendida) este só é relevante quando falamos em obras de artistas de renome. Ao contrário, o valor das obras é baixo. Neste caso, ainda temos o desafio de lidar com a falsificação. Quanto maior o valor de uma obra, maior é o interesse dos falsificadores. Ao comprar uma obra falsificada, o investidor tem seu investimento reduzido a zero. Por isso, sempre é importante a aquisição por meio de galerias sérias, que se responsabilizam pela procedência das obras.

De que forma o curso de economia ajudou a entender melhor esse mercado?
O curso de economia me deu as bases para analisar e entender quaisquer mercados que eu venha a me interessar. Análises setoriais e concorrenciais, tendências de médio e longo prazo, retorno do investimento, formação de preços e tantos outros temas abordados pela economia são essenciais para se entender o setor que se pretende entrar e também para estruturar o negócio, que precisa ser viável do ponto de vista financeiro. A abrangência dos temas econômicos me deu base para expandir em diversos outros temas correlatos, uma vez que ensina a pensar nas relações entre agentes em diversos contextos. Se eu tivesse que escolher novamente um curso, com certeza, seria a economia.

 

De Circense à Economista

Amanda Schmidt Stevanovich
Economista, Especialista e Assessora de investimentos
na InvestSmart - XP Investimentos


De onde saiu o gosto pela economia?

A minha família é circense e vive da arte e da cultura há cinco gerações. Quando eu era criança, tinha vergonha de me apresentar no palco e o que eu gostava mesmo era de ficar escondida na bilheteria do circo e nos caixas da praça de alimentação, mexendo com dinheiro e atendendo o público. Buscando um caminho diferente da minha família e unindo a minha paixão por números, dinheiro, pessoas e estudos, escolhi o curso de Economia na Universidade Federal de Santa Catarina.

Como surgiu o projeto de trabalho, o Push Econômico, que você chegou a desenvolver?

O Push Econômico surgiu há um ano atrás, quando começou a pandemia e tínhamos muitas mudanças econômicas e políticas acontecendo no Brasil e no mundo. Quando vi que as pessoas não estavam entendendo por que a taxa de juros estava caindo, o dólar subindo e muitas outras mudanças acontecendo, senti a necessidade de expor meu conhecimento sobre economia nas redes sociais. O Push Econômico também serviu como um desafio. Queria vencer meu medo de me expor em público, e as redes sociais funcionaram como um palco, que eu não tinha vivido no circo. Em pouco tempo, mesmo sem ir atrás, recebi várias propostas de trabalho na assessoria de investimentos.

Por que a Assessoria de investimentos?

Três palavras definem a assessoria de investimentos e me instigam como profissional: dinâmica, conhecimento e desafios. Você precisa estar sempre informado e estudando o que está acontecendo nos mercados, e ainda precisa estar envolvido com o dinamismo de prospectar e conquistar novos clientes. Vejo, também, como a profissão do futuro. A profissão do assessor de investimentos é uma das mais nobres nos Estados Unidos. Cerca de 90% dos americanos investem com os “Financial Advisors”. Aqui no Brasil, os números ainda são o contrário, onde cerca de 90% das pessoas ainda investem em bancos tradicionais. Porém, existe o crescente interesse do brasileiro por investimentos e a mudança de mentalidade sobre o mercado financeiro. Esse movimento chegou para ficar e não tem mais volta.

O que faz o assessor de investimentos?

O assessor de investimentos é um elo entre o investidor e o mercado financeiro. Ele identifica as necessidades e objetivos de pessoas e de empresas, direcionando aos investimentos e produtos mais adequados de acordo com cada perfil e objetivo.

O que é necessário para a pessoa que quer investir?

Saber se planejar financeiramente é essencial. Saber suas receitas, despesas, capacidade de poupança e objetivos pessoais são essenciais para começar a traçar uma carteira e um plano de investimento. Não existe uma fórmula mágica de uma carteira de investimentos ou de um investimento em si. A pessoa tem que levar o valor que ela quer, mais o prazo e a finalidade, para resultar no objetivo. Essa é a fórmula. Claro que se tiver um excelente profissional que faça isso para você, certamente vai fazer muita diferença lá na frente. A ideia de procurar um médico especialista em joelho quando ele dói é a mesma de quando você procura um especialista nas finanças quando você tem necessidade de investir.

E o risco, onde entra?

É muito importante a pessoa identificar o tipo de investidor que é. Se você é do tipo conservador, moderado ou agressivo. Basicamente: “qual o tipo de restaurante você quer frequentar?”. O perfil conservador é aquele em que a pessoa aceita perdas, quer sempre rendimentos constantes. O moderado é um investidor que gosta de preservar a parte conservadora, mas aceita tomar um investimento com um pouquinho de risco. Não é avesso a perdas, mas gosta de manter a parte do seu perfil conservador. O perfil agressivo é o investidor que aceita melhor o risco para buscar maior retorno. Todo investimento tem risco, até mesmo comprar um imóvel ou colocar o dinheiro na poupança. Por isso é importante você entender em qual tipo de perfil você se encaixa para entender qual tipo de risco tomar.

Nesse período de pandemia, que tipo de investimento é mais interessante. A compra de um imóvel pode ser uma alternativa?

Existem investimentos interessantes no mercado financeiro o tempo todo. Tudo depende do que você quer. O investimento financeiro mais adequado faz parte do perfil e da finalidade de cada pessoa. Os juros baixos e as incertezas econômicas desencadearam o movimento da busca pelos imóveis e o investimento na economia real. Agora, entre comprar um imóvel ou aplicar o dinheiro, também vai depender do custo de oportunidade. Você pode comprar um imóvel ou um terreno em determinada região que vai dobrar, triplicar ou quadruplicar de valor em pouco tempo. Também tem que levar em consideração os planos pessoais. Muitas pessoas tem o sonho de ter a casa própria e não vejo nada de errado com isso. Hoje, com conhecimentos no mercado, não sinto a necessidade de ter um imóvel. Sei fazer uma carteira de investimentos com fundos imobiliários que me gera um aluguel mensal, com liquidez e isento de imposto de renda.

Qual a sugestão que deixas para estudantes de Economia que pretendem conhecer e aprender a trabalhar com assessoria de investimentos?

Estude e tenha bons relacionamentos. Certamente, essas duas qualidades te levarão ao caminho do sucesso na assessoria de investimentos.

As lições de Mundell, Nobel de Economia e “pai” intelectual do euro


Ernani Hickmann
Professor da Escola de Pós-Graduação em Economia (EPGE) Fundação Getúlio Vargas (FGV),
Coordenador dos Cursos de Graduação Latus Sensu da FGV

 

 

Qual o legado para a economia contemporânea, deixado pelo economista canadense Robert Alexander Mundell, Nobel de Economia em 1999 e considerado o “pai” intelectual do euro, falecido na última semana, na Itália?

Mundell nasceu em 24 de outubro de 1932, em Kingston/Ontário, no Canadá. Graduou-se pelo Departamento de Economia da Universidade Britânica de Colúmbia (UBC), em Vancouver. Obteve seu mestrado na Universidade de Washington, em Seattle, e frequentou o Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), onde obteve seu doutorado em economia. Suas principais contribuições foram, por um lado, a chamada economia da oferta, corrente econômica surgida na década de 70, por influência de Mundell e de Arthur Laffer, que analisava o efeito de diminuições da carga fiscal sem que houvesse necessariamente cortes na despesa pública. Em segundo lugar, a contribuição dele para a macroeconomia internacional, ao colocar seus modelos macroeconômicos para o desenvolvimento de economias fechadas, provocando uma mudança de comportamento de ideias nos demais países. E, depois, a própria criação, junto com Marcus Fleming, do chamado Modelo Mundell-Fleming, de economia aberta, e a criação dos desenvolvimentos das áreas ótimas de moedas. Uma análise sobre que condições e características devem ter determinados países, estados ou regiões, para que uma moeda única entre eles ofereça o que se espera de uma moeda.

Nos anos 70, ele teve uma participação muito direta junto ao governo Reagan. Como foi essa ação?

A maior contribuição de Mundell aconteceu, a meu ver, na época do presidente Reagan, nos EUA. Eu credito a ele boa parte do desenvolvimento da tecnologia a partir da década de 70. Ele, com suas recomendações ao presidente Reagan, criou as condições para que houvesse toda a grande revolução da informática, de internet, enfim, de tudo o que se seguiu em termos de modernização tecnológica do mundo.

Que mudanças foram propostas?

Até a época do presidente Reagan as empresas e grandes corporações dos EUA, eram taxadas pelo imposto de renda da pessoa jurídica, com uma alíquota marginal de mais de 70%. Isso quer dizer que os lucros superiores a um patamar relativamente baixo, o lucro adicional era tributado em 70 a 75%, o que levava a ausência total de investimentos. Se você vai fazer um investimento que vai ter que entregar 75% dos seus resultados para o governo, você não vai investir. E foi a recomendação dele, juntamente com Laffer, ao então presidente Reagan, sobre a necessidade de reduzir esta alíquota para uma faixa de tributação considerada normal, que era de 25%. Então, os lucros das empresas, que eram tributados em 75% baixaram para 25%, gerando um grande fluxo de investimentos privados no desenvolvimento de novas tecnologias. E foi por isso que as grandes empresas surgiram, investiram e criaram a revolução da informática, que mudou o mundo. Por isso, considero a principal contribuição dele à economia. Com esse ativo aos investimentos, e isso está ligado à economia da oferta, a qual Mundell era talvez o principal teórico.

O senhor, como amigo dele, discutia seguidamente esses pensamentos e contribuições?

Discuti longamente com Mundell essas contribuições, já que ele foi o meu orientador no Pós-Doutorado na Universidade de Columbia, lá pelos anos de 1991, 92, 93. Depois disso, o acompanhei em organizações de eventos internacionais. Participamos juntos do Reinventing Brettonwoods Commitee, que reunia algumas vezes por ano, em diversos países, um grupo de economistas do mundo inteiro, para discutir políticas cambiais e uma nova arquitetura financeira internacional para substituir a que tinha sido criada após a segunda grande guerra. O grupo se chamava Reinventando Brentwoods. Viajava pelo mundo todo, todas as semanas um país, ministrando aulas, dando conferências, assessorando governos e organizações privadas. Estava com ele no dia de seu aniversário, em 2014, e nos encontraríamos novamente no dia seguinte para almoçar com seus filhos. Só que, à noite, sofreu um grave AVC, fato que acabou tirando-lhe a capacidade de se locomover e de se comunicar, afastando-o definitivamente das reuniões e conferências, até o momento em que veio a falecer, na semana passada, aos 88 anos de idade.

Qual a relação do Modelo Mundell-Fleming com o keynesianismo?

Basicamente o modelo keynesiano, assim como as popularizações do mesmo, que a maioria das pessoas conhecem como sendo o modelo IS/LM, é um modelo de uma macroeconomia fechada, onde foi introduzido o setor externo. Mundell internacionalizou o modelo keynesiano, que tinha sido popularizado por John Hicks, passando a incluir as variáveis externas, permitindo formular políticas monetárias e fiscais adequadas para um mundo globalizado.

Como chegou ao Prêmio Nobel de Economia?

Mundell recebeu o Prêmio Nobel de Economia em 1999, por suas contribuições na área das políticas monetária, fiscal e cambial, e por ter criado a teoria das áreas monetárias ótimas, que serviu de base para a criação de moedas de âmbito multinacional, como o euro.

O professor Mundell esteve em Porto Alegre no ano 2000. O que o trouxe aqui?

Eu e ele organizamos, em abril e maio de 2000, pela Escola de Pós-Graduação em Economia da Fundação Getúlio Vargas, uma grande conferência internacional, "Mercosul - O Desafio de uma União Monetária”. Foi realizada no Hotel Plaza São Rafael, onde se discutiu as possibilidades da criação de uma moeda única para os países do Mercosul. Além da capital gaúcha, a conferência teve extensões no Rio de Janeiro e em São Paulo, e contou com a presença do então presidente Fernando Henrique Cardoso e de diversos economistas do mundo todo, inclusive o então todo poderoso ministro da Economia argentino, Domingos Cavalo. Foi o evento comemorativo ao lançamento do primeiro número do Jornal Valor Econômico.

O Economista e o mercado financeiro

Pedro Lutz Ramos

Economista-Chefe do Sicredi, Doutor em Economia,

Conselheiro do Corecon-RS
Corecon-RS Nº  7226

 

 

O que é exigido de um profissional para atuar no mercado financeiro?

O mercado financeiro exige um profissional, que eu diria, que, em termos de competência técnica, não necessariamente falando de conhecimentos que aprendemos na faculdade, mas construídos à base de estudos mais de educação formal, digamos assim. Acho que dentro desse aspecto, é um setor que tem uma demanda por muitos campos de conhecimento. Uma demanda de macroeconomia, de finanças, de matemática, de programação, e, até mesmo, conhecimento de direito. Então, é uma atuação bastante complexa, que engloba pessoas das mais diferentes formações.

E como se encaixa o profissional da Economia nesse mercado?

O economista, por ser um cientista, tem a sua vida facilitada pelo uso de ferramentas lógicas, como estatística, matemática, que estão, naturalmente, no campo do seu conhecimento. Também a macroeconomia, que é praticamente exclusividade de estudo do economista, e que acaba sendo o grande diferencial no mercado, já que se trata de uma área muito complexa e, por isso, acaba sendo mais difícil para os profissionais de outras áreas do conhecimento aprenderem de forma isolada. É que a macroeconomia, por exemplo, é uma bagagem que vai se construindo lá atrás, com o estudo da introdução à economia, a microeconomia, até chegar na macro. E é, sem dúvida, um diferencial muito grande conhecer a macroeconomia e saber como ela se relaciona com finanças ou com o gerenciamento de risco, com crédito, que são pontos extremamente importantes dentro das instituições financeiras. Portanto, o economista acaba tendo essa vantagem porque tem um certo monopólio sobre um assunto. Por exemplo, o estatístico pode ser muito bom em matemática, entender de finanças e até entender de direito, mas para chegar a entender de macroeconomia é uma jornada bem mais longa. Não que eles não aprendam, mas é uma jornada bem mais longa.

Até que ponto os cursos de Economia chegam a preparar os alunos para o mercado financeiro?

Acho que a graduação não consegue entregar tudo que precisa para seus alunos atuarem futuramente no mercado financeiro. Até porque, de alguma maneira, a intensidade do conhecimento exigida em cada um desses campos não é baixa. Embora ele não seja algo ultra complexo, ou seja, não precisa saber programar como um engenheiro da computação, ou conhecer estatística exatamente como um estatístico, não precisa entrar no modo pesado de desenvolvimento, mas, também, não será contemplado por um nível muito intermediário. Dependendo de onde você cai no mercado, para onde está direcionando a carreira, é importante, sim, intensificar. Se está indo para uma área de crédito, talvez deva ter que conhecer programação num nível que não seja tão básico, porque é exigida uma quantidade de dados muito grande nessas áreas. Por mais que se pense em criar produtos e que se use a racionalidade econômica do que se aprendeu em Economia, tem-se que navegar em base de dados, e, para isso, conhecer um pouco de programação, de estatística, enfim. O mesmo, vale para uma área mais financeira, onde tem-se que saber um pouco mais de macroeconomia. E, muitas vezes, o economista aprende finanças num curso formal de Economia, o que, não poucas vezes, é insuficiente para atuar dentro de uma área de finanças.

Aí tem que buscar uma especialização complementar?

Sim. Tem a pós-graduação, ou, mesmo, aproveitar, de forma complementar, os currículos de finanças oferecidos pelos cursos de Administração, de Contabilidade, ou, ainda, a possibilidade de vislumbrar um estágio que possa oferecer um up grade do nível de conhecimento, enfim. Só que, para dificultar, as próprias universidades possuem, entre elas, uma certa variação de ênfase em suas grades curriculares, umas mais voltadas para a macro e finanças e outras para estatística, história ou política de desenvolvimento econômico. O certo é que, por outro lado, toda essa complexidade torna a jornada do estudante de economia ainda mais desafiadora, mas não menos complexa e até intrigante.

Qual o recado que fica para os futuros profissionais de Economia, que pretendem atuar no mercado financeiro?

Especialmente para os estudantes de Economia, que eles procurem analisar bem o currículo, com foco nas cadeiras eletivas que a Universidade está colocando à sua disposição. Conversem com pessoas do mercado para saber se o que se está aprendendo é realmente aquilo que é necessário ou que é importante para conseguir uma carreira no mercado financeiro. Então, eu iria um pouco mais nessa abordagem.

E qual a dica para os profissionais, que querem se especializar nessa área?

Acho muito importante que o novo economista olhe para si próprio, para saber exatamente o que ele quer de sua carreira profissional. O economista é polivalente. Ao mesmo tempo em que pode sair da faculdade com aquela sensação de que não pode fazer nada aplicado, na verdade ele é um cientista, já que aprendeu muitos métodos de resolver um problema, mas não aprendeu necessariamente o método de resolver um problema específico. Então, deve se olhar e ver qual o tipo de carreira ele quer seguir. Se quer trabalhar para o governo, se quer ser um macroeconomista, ou se prefere trabalhar mais com finanças, ou, mesmo, no mercado financeiro. Isso é muito importante para ele buscar uma referência, uma complementação para conseguir atingir seus objetivos.

O mercado financeiro pode ser considerada uma área atraente?

O mercado financeiro agrega um leque de carreiras muito amplo e bem interessante. O crédito, risco de crédito, gestão de recursos, produtos de investimento ou, mesmo, o mercado financeiro propriamente dito, que são as mesas de operações. Cada um desses enfoques demanda uma quantidade de conhecimentos específicos necessários. Mas, apesar de ter uma trajetória mais longa, da qual muitas vezes o indivíduo sai pronto, o mercado financeiro acaba sendo uma carreira rentável, até porque os salários são muito atrativos e, mais importante, são profissões que, uma vez desenvolvida, acaba sendo envolvida com a escassez de pessoas. Então, a jornada pode ser mais penosa, mais desafiadora, mais longa, que envolvem temas complexos, mas que, uma vez adquirido tudo isso, torna-se um ativo muito difícil de ser trocado ao longo de sua caminhada profissional. São carreiras muito legais, muito bacanas de serem desenvolvidas e, ao mesmo tempo, muito compensadoras, em termos de aspectos financeiros e de gosto pessoal.

Economia da Oralidade


Jorge Cury Neto

Economista, Jornalista, professor,
autor do livro Economia da Oralidade

Corecon-PR 

 

Sobre o que trata a economia da oralidade?

A Economia da Oralidade é uma área do conhecimento dedicada ao estu­do da Economia aplicada ao uso econômico da Oralidade e as suas implicações sociais, políticas, culturais, tecnológicas e educacionais. Trata-se de uma área que tem a finalidade de propor, projetar, implementar, gerenciar e administrar a atividade de produção da oralidade e as suas implicações sistemáticas no processo de negociação, de comercialização e de troca de bens e serviços tangíveis e intangíveis.

Qual a importância da economia da oralidade para os profissionais da Economia e de outras áreas do mercado profissional?

Independente da área em que o profissional atua, desde aquelas que utilizam mais intensamente a fala como instrumento básico para o exercício da sua atividade, como aquelas que fazem pouco uso da palavra falada, tem igualmente o mesmo grau de necessidade. Desde o um professor em sala de aula, ou um contabilista, não podem presidir, se não quantitativa, mas qualitativamente, da sua voz para fins de uso profissional.

Para que público são destinadas as oficinas de Introdução à Economia da Oralidade que o senhor vêm produzindo?

Para todos os profissionais interessados em conquistar uma competência comunicativa geradora de riqueza, seja tangível ou intangível, e, em especial, para os economistas, por se trata de uma área econômica, podendo se tornarem economistas da oralidade.

Onde está inserido, dentro da economia da oralidade, o processo de voice design?

O Voice Design é o nome dado a área de desenvolvimento humano da Economia da Oralidade, onde todo o processo prático e de ensino é contemplado. O processo de aprendizagem e capacitação humana se dá pelas diversas etapa componentes do Voice Design.

Qual a importância do True News, especialmente numa época em que o mundo digital está tomado pelas fake news?

Trata-se de um antídoto contra a FAKE NEWS, que prescreve os procedimentos de apuração de notícias, adequada para o leigo que compreende motivar o indivíduo a buscar conhecimento, adquirir habilidade e ter atitude reflexiva diante da notícia consumida, seja, num primeiro momento, considerada falsa ou verdadeira. A proposta é que disciplinadamente aprenda a guardar uns instantes de silêncio, a fazer uma pausa estratégica para absorver adequadamente o impacto da notícia. Deste modo, evita-se uma reação impulsiva, levando o indivíduo a ter a devida cautela para propagar precipitadamente determinado fato, ou informação, que poderá lhe causar diversos danos, de diversos graus de intensidade, que podem ser irreparáveis, inclusive a terceiros. Com esta atitude comunicativa adquirida, o indivíduo está apto para checar a verdade, a realidade, com sinceridade e autenticidade as informações, os fatos que está tomando conhecimento, ao invés de reagir de modo precipitado diante de uma manifestação de fake News, o que, invariavelmente, gera algum nível de contrariedade, indignação, e, muitas vezes, sentimento de raiva, mesmo que inconscientemente, levando o indivíduo a tornar-se um disseminador de maledicência. Ao invés de agir, apenas reage.

Economia criativa e pandemia


Judite Sanson De Bem

Economista, professora da Universidade LaSalle
Corecon-RS Nº 4574

 

O que é economia criativa?

De uma forma clara e objetiva, pode-se definir economia criativa como todo tipo de negócio, ou atividade que produza algum tipo de valor, gerado a partir da criatividade, ou seja, atividades que envolvam criação, produção e distribuição de produtos e serviços, utilizando conhecimento e criatividade.

Que setores da economia estão representados pela economia criativa?

A atividade criativa está em todo lugar, mas a sua base tem foco mais definido nos serviços e, especialmente, nas mais diversas áreas da cultura, como música, artes cênicas, artes visuais, arquitetura, publicidade, gastronomia, enfim.

Por que o Brasil é considerado um dos berços da economia criativa?

A atividade produtiva no Brasil, por definição, é uma atividade que concentra uma grande soma de bens e serviços criativos. Uma questão importante é que não podemos desconsiderar que a economia criativa trabalha também com o lado cultural de uma sociedade, e a cultura, por sua vez, pode ser tanto material quanto imaterial. Então se nós formos usar como plano de fundo o patrimônio imaterial brasileiro, como festas, produção de doces, com suas receitas, como no caso de Pelotas, são uma parte do patrimônio cultural brasileiro. Então, o Brasil é um grande gerador, por ter uma grande parcela de sua renda advindo da economia criativa. Da mesma forma, nós temos um setor musical bastante forte, temos grandes arquitetos na cena mundial, somos produtores de moda e um dos maiores exportadores mundial de calçados. A gastronomia também é um grande segmento da indústria criativa. Temos essa atividade bastante desenvolvida, assim como a questão do turismo cultural. Então, nós somos importantes, sim, na geração de emprego e renda, nestes segmentos como um todo.

Como está a situação da economia criativa no Brasil?

Antes da pandemia, estávamos com uma participação ao redor de 3 a 4% do PIB advindo destasatividades produtivas. No entanto, nós tivemos um choque, um impacto muito grande, porque muitas atividades produtivas criativas foram sacrificadas durante a pandemia. Observamos que até o mês de fevereiro de 2021, portanto quase um ano depois, estamos sem a produção de eventos, sem a produção de peças teatrais, cinema. Então, tudo parou durante um bom tempo e ainda está muito aquém daquilo que era em fevereiro de 2020. No que diz respeito ao emprego, nos diferentes segmentos, houve uma redução bastante significativa, o que se traduziu em desemprego e, portanto, na falta de poder aquisitivo dessas pessoas que dependiam dessas atividades. Houve, também, durante esse período, uma tentativa de retomada. No entanto, essa tentativa fracassou porque, infelizmente, em alguns momentos houve um recrudescimento da pandemia e, até o presente momento,estamos com grandes dificuldades. Ao final do mês de agosto ou setembro, houve a Lei Aldir Blanc, que vem distribuir aos estados, que por sua vez repassarão municípios, recursos destinados aos artistas, que fazem parte da atividade criativa. É importante ressaltar também que algumas atividades criativas foram muito mais afetadas do que outras.

Que percentual do PIB brasileiro, e do RS, é representado pelo setor?

A participação do setor não é superior a 3 ou 4% do PIB, tanto brasileiro quanto do estado do RS. E essa rubrica também se verifica nas contas públicas, inclusive. Em termos de RS, não chegava a 2% das despesas do governo estadual. O Estado é gestor de alguns equipamentos estruturais, entre eles o Teatro São Pedro e a TV Piratini e, no grosso das despesas ou dos encaminhamentos destinados à cultura, é uma das secretarias que menos recebe recursos. E, em termos federais, o problema é mais complexo porque o atual governo dissolveu o Ministério da Cultura, passando a ser uma Secretaria. Estamos, também, na iminência de uma nova legislação, com um formato diferente de financiamento para atividades culturais. Assim, essas ações também são uma forma de não firmar o interesse e demandas que se fazem por parte da sociedade.

Impacto econômico do rompimento do Reino Unido com a União Européia (Brexit)

Marcos Vinícios dos Santos Soares
Bacharel em Economia, 2º Lugar Prêmio Corecon-RS 2020,
Categoria Monografias ou Trabalhos de Conclusão de Curso
Orientadora professora Angélica Massuquetti
Universidade do Vale do Rio dos Sinos - Unisinos

 

Qual a proposta do trabalho "Análise do impacto econômico do rompimento do Reino Unido com a União Européia (Brexit) por meio do modelo de equilíbrio geral computável", 2º Lugar categoria Monografias ou Trabalhos de Conclusão de Curso, no Prêmio Corecon-RS 2020?


Em 2016, os cidadãos do Reino Unido compareceram às urnas para votarem pela permanência ou não do Reino Unido na União Europeia (UE). O objetivo deste estudo é avaliar os impactos sobre o comércio internacional e os efeitos sobre o bem-estar no Reino Unido e na UE a partir da consolidação do Brexit. Nesta pesquisa, utilizou-se a classificação de produtos por grau de intensidade tecnológica, segundo os critérios da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), e o modelo de equilíbrio geral computável, mediante uso da base de dados Global Trade Analysis Project (GTAP), versão 9.

Qual a origem do termo Brexit?

O movimento da saída do Reino Unido da União Europeia foi denominado Brexit, devido à junção das palavras British com Exit (Saída Britânica). Esse movimento é muito antigo, mas ganhou força após a crise americana do subprime (2008/09) que deixou a economia europeia fragilizada. O movimento se consolidou em 2016, onde houve um referendo que perguntou a população britânica se queriam ou não permanecer no bloco. O resultado do referendo deu a vitória à saída do Reino Unido da União Europeia, com 51,9% dos votos. Esse processo,marcou a história do bloco europeu, pois foi a primeira vez que um país solicitou seu desligamento.

Por que optaste por utilizar a classificação de produtos por grau de intensidade tecnológica e o modelo de equilíbrio geral computável como base metodológica de análise?

Classificar os produtos com base em intensidade tecnológica de acordo com a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) permite-nos analisar os produtos de acordo com a intensidade em Pesquisa e Desenvolvimento(P&D), muito utilizada em estudos de Economia da Inovação no mundo todo. Essa classificação adota uma hierarquia entre os setores produtivos para classificá-los em grupos de intensidade tecnológica. Já, o modelo de equilíbrio geral computável utilizado, denominado Global Trade Analysis Project(GTAP) versão 9, é um modelo que mede os efeitos econômicos causados em um país que decide sair ou entrar em um bloco econômico. A partir desse modelo, é possível verificar os efeitos, por exemplo, das variações do volume de importação e do bem-estar do Reino Unido e de seus parceiros comerciais após o Brexit. Esta versão do GTAP possui uma base de dados que engloba 140 regiões e uma gama de 57 setores. O modelo funciona em uma economia com retornos constantes de escala e num ambiente de concorrência perfeita, englobando multirregiões e multissetores.

Por que o Reino Unido chegou a propor o desligamento do bloco se as desvantagens seriam muito grandes?

Os britânicos sempre tiverem uma relação tempestuosa com o bloco europeu desde a sua entrada em 1973. Após a crise do suprime de 2008/09, a União Europeia passou por sérios problemas econômicos e a onda eurocética ganhou força entre os britânicos. Uma prova disso foi o fortalecimento do partido UKIP United Kingdom Independence Party (Partido da Independência do Reino Unido), que ganhou muitos assentos no Parlamento Europeu. Devido a isso, os políticos britânicos resolveram realizar um referendo para perguntar aos eleitores se estavam de acordo em sair do bloco. Muitos estavam esperando que o Brexit saísse derrotado nas urnas e não levaram a sério o referendo, pois sabiam que as desvantagens seriam muito maiores. Os eleitores mais velhos e pertencentes ao euroceticismo votaram em peso, dando a vitória ao Brexit.

Quais as principais conclusões do seu estudo?

Os resultados revelaram que o Reino Unido seria o maior prejudicado com a ruptura, ocorrendo uma redução no volume de bens transacionados e uma diminuição do bem-estar – queda na eficiência alocativa e deterioração dos termos de troca. Identificou-se que a UE também seria prejudicada com o Brexit, porém com menor intensidade, devido ao seu mercado comum. Observou-se, também, que outras regiões obteriam vantagens comerciais e de bem-estar, como, por exemplo, RICS (Rússia, Índia, China e África do Sul), USMCA (Estados Unidos, México e Canada) e Brasil.

 

O mito da concentração tributária na União


 
Darcy Francisco Carvalho dos Santos

Economista, especialista em Finanças Públicas,
conselheiro do Corecon-RS
Corecon-RS Nº 3755

 


O Brasil sai totalmente quebrado dessa pandemia?

O Brasil já vinha em recessão desde 2014, quando o PIB cresceu apenas 0,5%. Caiu mais de 7% no biênio 2015-2016, crescendo pouco mais de 1% em médiano triênio 2017-2019, fruto de erros na condução da política econômica. Em 2020, quando era esperada uma recuperação da economia, surgiu a covid-19, que provocará, segundo o Boletim Focus do Bacen, uma queda de 4,6% no PIB. O crescimento previsto pela mesma fonte para 2021, de 3,3%, não será suficiente para compensar a queda ocorrida.O passado não é o que passou, mas o que fica do que passou, como dissera Alceu Amoroso Lima. E o que ficou foram grandes déficits, altos índices de desemprego e uma enorme dívida (DBGG), que, em termos brutos, passou de 51% do PIB, em 2013, para 75,8%, em 2019, e 88%, em novembro de 2020. E só não se aproximou de 100%, devido à taxa Selic, de apenas 2%, a mais baixa da história. Em termos absolutos, seu valor já passa de R$ 6,5 trilhões.

Quanto representa os gastos primários do governo federal em relação ao PIB brasileiro?

O resultado primário em 2013 era positivo, de 1,7% do PIB, e o nominal, quando se incluem os juros da dívida, era negativo, de -3% do PIB. Em 2016, o primário foi negativo, de -2,5%, tendo o nominal alcançado -9%. A economia do país começou a se recuperar em 2017, tendo reduzido o déficit primário para -0,9% e o nominal para -5,9% do PIB em 2019. No entanto, em 2020, a pandemia do coronavírus aprofundou essa crise, elevando o déficit primário para mais de 9% do PIB e o nominal para 14%, em 12 meses, apurados até outubro, em torno de R$ 1 trilhão. Colocando todos os algarismos envolvidos, temos uma ideia dessa cifra, que é de R$ 1.000.000.000.000,00, para apenas um exercício.

Como está distribuída a carga tributária nacional entre a União, estados e municípios?

É importante lembrar que há muita confusão entre arrecadação direta e receita disponível, sendo esta última o que fica com cada ente federado, após às redistribuições. Essa confusão foi provocada pela própria Receita Federal que, de alguns anos para cá, deixou de apresentar a última informação. Por isso, muita gente pensa que a arrecadação inicial é a que fica com cada ente. Então, buscamos em outra fonte, essa informação, que apresenta a carga tributária um pouco maior, de 35,07% do PIB, para 2018, sendo a arrecadação direta da União 65,7% do total, a dos Estados, 27,2% e a dos Municípios, 7,2%. Da receita disponível, coube à União 54,8% do total, aos Estados, 25,2% e aos Municípios, 20%. Então, os grandes beneficiários foram os Municípios, que, em 1960, detinham 4,6% do total da receita disponível. Na época, a União detinha 63,8% e os Estados, 31,6% desse total.

Por que os municípios se queixam tanto por falta de repasse de recursos?

Sobre esse assunto, a professora Mariza Abreu, especializada no assunto, afirma que ocorreu foi um aumento de atribuições dos municípios. No tocante à educação, ficou a cargo deles a educação infantil (creche e pré-escola) e ensino fundamental, compartilhado com os estados respectivos. Isso inclui educação especial e educação de jovens e adultos. A creche é a etapa mais cara, pois é a única em que predomina o tempo integral, tem menos crianças por professor ou adulto e precisa de mais equipamentos e alimentação. As matrículas municipais são predominantes na zona rural, onde, além de existir a despesa com transporte escolar, ainda há menos alunos por professor. Na saúde, os municípios são responsáveis pela atenção básica e a assistência social, assumindo, ainda, responsabilidades com infra-estrutura urbana, como, por exemplo, limpeza urbana.

O senhor escreveu artigo sobre a estrutura da carga tributária, publicado recentemente no Jornal do Comércio, onde informa que só restam 15% de recursos para a União. Como se explica isso, se o que se ouve é que a União é que concentra os recursos?

A carga tributária nacional, segundo a Receita Federal, foi de R$ 2.291.407,08 milhões, ou simplesmente R$ 2,291 trilhões. Desse total, é arrecadado pela União R$ 1.547,4 bilhões, ou 67,5%. No entanto, mais da metade desse valor, ou 35%, pertence à Seguridade Social, o que ainda é insuficiente para atender suas finalidades, que são cobertas por recursos complementares do Tesouro Nacional. Se retirarmos 5,5% do FGTS e 0,9% do Sistema “S”, mais as transferências aos estados e municípios, na ordem de 11,2%, restam R$ 342,8 milhões, ou 15%, de acordo com o Boletim do Tesouro Nacional.

E esse endividamento tem sido crescente?

Sim. E outra forma de demonstrar isso é comparar com a receita líquida do Governo Central, em que 80% são despendidos com seguridade social (previdência, saúde e assistência social). Acrescendo 5% de vinculação à MDE ( educação), temos 85%, restando 15% para todas as demais finalidades, compostas por 37 ministérios e órgãos especiais. Como não restam recursos para fazer superávit primário, o resultado é o endividamento alto e crescente. E isso se agravou com a queda do PIB, em que o atual é igual ao de 10 anos atrás, reduzindo a arrecadação e potencializando um problema que vem sendo denunciado há anos por alguns economistas, em especial, por Fábio Giambiagi, que é o crescimento contínuo dos gastos primários em proporção do PIB. Eles passaram de 13,7% em 1991 para 23,8% em 2019, num incremento anual de mais de 0,30 pontos percentuais. Isso é como caminhar numa grama, onde, primeiro forma uma simples marca, depois um rastro e, por fim, uma vala.

Por que a carga tributária brasileira é alta, mal distribuída e insuficiente para atender a todas as demandas da sociedade?

Segundo a Receita Federal do Brasil (Carga Tributária 2018), a carga tributária do Brasil em 2017 era de 32,3% do PIB, 42% ou 9,5 pontos percentuais acima da média da América Latina e Caribe. Segundo a OCDE (2016), o Brasil, na América Latina, fica apenas abaixo de Cuba no tamanho da carga tributária e um pouco acima da Argentina. Por isso, podemos dizer que a carga é alta. Ela é mal distribuída quanto à sua base de incidência, porque 73,5% têm origem na folha de salários e serviços, 24,9% na renda e propriedade, e apenas 1,6% nas transações financeiras. E a carga é insuficiente pelas razões citadas anteriormente. A seguridade absorve 80% da arrecadação, sem que, com isso, seja paga uma aposentadoria satisfatória para a maioria e se faça um atendimento adequado na saúde e na assistência social.

O que falta para resolver esse problema?

Para sair dessa crise, precisa acabar com esse desequilíbrio entre receita e despesa, em favor da primeira. Para a receita, as duas principais medidas são a redução das desonerações tributárias, que atualmente estão em 4% do PIB (1,8% em 2002 e 4,4% em 2015), em torno de R$ 300 bilhões. A outra medida é o aumento da arrecadação, que deve advir do crescimento econômico, mas dificilmente nos livraremos de algum aumento de tributo. O crescimento econômico, com o esgotamento da expansão populacional, deve ser buscado na produtividade, que exige mais equipamentos produtivos - o que implica mais poupança - e melhora na educação. É preciso que cada ente federado procure resolver seus próprios problemas, parando de passar para a União o resultado negativo de suas gastanças, ou dá má gestão de seus entes federados.

Cada um tem que fazer a sua parte, reduzindo despesas?

Sim. Todo o setor público precisa reduzir despesas, diminuindo substancialmente seu incremento anual, que deverá ser limitado à expansão do PIB, cujo crescimento potencial do Brasil é muito baixo. Nos últimos 18 anos, entre 2001-2018, o PIB brasileiro cresceu a uma taxa média de 2,3% ao ano, decorrendo 1,3% da produtividade e 1% do aumento da população, cujo crescimento deve cessar na década de 2040, decrescendo para 0,5% na década 2030-2040, parando de crescer em 2042, segundo o IBGE. Então, em futuro próximo, só nos restará o aumento da produtividade dos fatores, que há vários anos é muito baixa. Precisa também acabar com essa falsa crença de que os recursos estão concentrados na União, porque isso leva a sucessivas reivindicações por parte dos demais entes federados, aumentando cada vez mais os déficits do governo federal e o consequente endividamento. Continuando assim, em breve, entraremos numa situação de dominância fiscal, momento em que a crise fiscal, refletida especialmente na dimensão da dívida pública, limita a ação do governo no tocante ao uso da política monetária para controlar a inflação. Nesse caso a majoração da taxa de juros, em vez de reduzir a inflação, provoca seu aumento.

Bitcoin, no espectro da insegurança?


Newton Ferreira da Silva Marques
Economista aposentado do Banco Central,
Professor da UnB
Corecon-DF 

 

Até que ponto o bitcoin pode ser considerado uma moeda?

Numa análise morfológica da palavra, “bit” é uma medida de computação e “coin” significa moeda. Então, se fôssemos traduzir literalmente, seria a moeda da computação. Mas, também, conceitualmente falando, moeda é o meio pelo qual são efetuadas as transações monetárias, com aceitação geral e disponibilidade no mercado. Ou seja, moeda é tudo aquilo que é normalmente aceito para liquidar transações, pagar pelos bens e serviços e para quitar obrigações, que é aceita como forma de pagamento.Moeda possui três características básicas: capacidade de troca, unidade de conta, e, a principal, que é a reserva de valor como bem de pagamento. E é justamente no amparo legal que reside o maior problema do bitcoin ou das criptomoedas, de uma forma geral. Não existe legislação que proporcione o amparo de segurança necessários para sustentar as operações. O bitcoin tem reserva de valor e referencial de preços, tanto que se pode guardá-lo, ele continua valendo, mas não possui a principal característica da moeda, que é o meio de pagamento. Como não existe o reconhecimento institucional, não tem sua circulação garantida pela legislação, ou, ainda, só aceita quem quer. Já, a moeda, por mais desvalorizada que seja, existe uma legislação que lhe dá o amparo para que ela continue circulando, o que garante que a unidade, embora sem valor, continue sendo moeda. O foco do bitcoin, por exemplo, é mais semelhante ao ouro, que é uma reserva de mercado.

O que garante a existência da moeda é a legislação?

Sim. É o bem de pagamento, independentemente do valor que ela possa ter. A moeda é definida como um bem, com a combinação com características básicas como meio de troca, unidade de conta e reserva de valor, quando um objetivo é aceito como pagamento por outros bens e serviços. Isso, tudo, garantido por uma legislação.

Quais os riscos que o bitcoin oferece?

Começa por uma questão muito simples, que é o fato de que o ativo não proporciona a garantia e a segurança legal para a sua utilização. Essa é a minha inconformidade com o bitcoin ou criptomoedas. Não existe segurança. É como se tivesse aplicando dinheiro com agiota, ou pirâmide financeira, que são consideradas contravenções, e que não tem amparo legal da legislação. Tem muita gente aplicando em criptomoedas, mas sabemos que não existe qualquer tipo de segurança. Tanto, que, se um investidor de bitcoinfor ou sentir-se de alguma maneira lesado, não encontrará fórum legal para reclamar.

O bitcoin não pode ser comparado às ações da bolsa de valores?

Não. É muito diferente. A ação, além de ter todo um amparo legal, tem um lastro, que é o valor da empresa. Se a empresa tem expectativa de lucro, sofrerá elevação do seu valor. Se tiver uma expectativa de prejuízo ou diminuir o lucro, sofrerá as consequências com a redução de sua valoração. E quem aplica em ações sabe muito bem que esses movimentos são absorvidos pelo mercado, o que não acontece com o bitcoin.

Quem determina o preço do bitcoin?

Ah, pois é. Uma coisa certa é que, no caso do bitcoin, quem determina o preço não é a oferta e demanda, como no caso das ações. Quem determina o preço é o ofertante, e é justamente aí que, a meu ver, está o maior problema. Nós, economistas, sabemos que no mercado quem determina o preço são justamente a oferta e a demanda. Quando, na economia, existe um lado que oferta, passa a residir aí um problema, porque a lógica do sistema de concorrência é ter atomizados os compradores e os vendedores. Quando se tem um comprador ou um vendedor, instala-se aí a distorção, como é o caso do bitcoin,que tem sua cotação variada pelo emissor. Nesse caso, por exemplo, quando acabarem as emissões de bitcoins, o seu comércio ficará setorizado, fechado, perdendo, assim, o seu valor.É muito importante se debater esse tema para as pessoas saberem a realidade dos riscos que envolvem a operação. Se as pessoas querem aplicar em bitcoin, devem saber o que estão fazendo, se podem ou não utilizarem os derivativos como uma forma de proteção contra os riscos. Essas aplicações em criptomoedas são importantes para o futuro, mas tem que haver uma legislação que as proteja.

Mas a Receita Federal não aceita o bitcoin no momento da declaração de rendimentos?

O bitcoin é um ativo importante, com os riscos já colocados antes. A Receita Federal aceita porque não é um órgão regulador do sistema financeiro nacional, mas uma instituição cujo foco é a arrecadação. O Banco Central, por sua vez, vem estudando todo esse processo que gira em torno das criptomoedas, mas ainda sem um regramento definido, em função do histórico muito recente das suas transações.

 

Restrições orçamentárias e projetos de infraestrutura no Brasil


Rodrigo Nobre Fernandez
Economista, vencedor do “Prêmio Corecon-RS 2019”,
categoria Artigos Técnicos ou Científicos


Qual a proposta do trabalho “Restrições Fiscais e Infraestrutura: Uma Análise para os Estados Brasileiros”, vencedor do “Prêmio Corecon-RS 2019”, categoria Artigos Técnicos ou Científicos?

Como objetivo principal, o trabalho tentou verificar a relação entre a restrição orçamentária dos estados brasileiros e o número de projetos de infraestrutura na modalidade de concessões executados em cada unidade federativa. Para representar a restrição fiscal, foram usadas as seguintes variáveis disponibilizadas pela Secretaria do Tesouro Nacional: resultado primário como percentual do produto interno bruto (PIB), o serviço da dívida sobre o PIB e a despesa com pessoal sobre a receita corrente líquida.

Pode-se entender como natural essa relação entre a restrição fiscal e o uso de concessões para os estados brasileiros?
Sim, as concessões funcionam como uma forma de terceirização da provisão de serviços de infraestrutura. O Estado contrata o agente privado para a prestação de um serviço, que não teria a mesma competência técnica para realizar. Os principais pontos que fortalecem o uso dessa modalidade contratual são a agilidade na entrega do serviço e o menor custo desses empreendimentos em relação a outras formas de prestação de serviços públicos.

Qual a relação desse tipo de procedimento com o endividamento dos Estados e União?

A relação é direta, ou seja, como os estados brasileiros estão mais endividados os mesmos devem procurar alternativas para a prestação de serviços públicos de modo a não comprometer o orçamento. Desse modo, as concessões servem como uma forma de suavizar a restrição fiscal das unidades federativas. Em outras palavras, esses contratos podem ser considerados como uma forma de endividamento alternativa. O sucesso seja ele, financeiro e/ou prático, na realização de projetos nessa modalidade está diretamente ligado com o desenho contratual. Como exemplo, podemos observar as concessões rodoviárias. Em contratos dessa modalidade, normalmente há uma contraprestação pecuniária por parte do poder público, mas quem arca com a maior parte dos custos do empreendimento é o usuário do serviço.

O que muda nesse processo a partir dessa pandemia? Ao passarmos por essa pandemia, tudo volta como era antes, ou esses procedimentos assumirão um novo comportamento?

O governo federal promulgou a lei 14.035 de 11 de agosto de 2020 que flexibiliza as licitações para aquisições de itens destinados ao enfrentamento da pandemia. Medidas como essa podem ser criadas para reduzir a burocracia de contratos de concessões e Parcerias Público-Privadas. Desse modo, no meu entendimento, esses tipos de contratos tendem a ganhar mais força ao passar da pandemia.

Quais as principais conclusões do teu estudo?

O resultado mais relevante do estudo indica uma possível complementariedade entre as concessões e o endividamento do Estado, a partir do efeito positivo da relação serviço da dívida e o PIB e a criação de novos contratos.

 

Difusão de inovação pela horizontalidade do TelessaúdeRS

juliana
Juliana de Oliveira Nascimento
Economista, professora
Corecon-RS Nº 8391

 

Qual o objetivo da dissertação, de sua autoria, “Difusão de inovação na área da saúde humana: Um estudo para o Telessaúde no Rio Grande do Sul”?

Este trabalho tem o objetivo de compreender o processo de difusão de uma inovação. É uma temática da economia, ao contribuir com o entendimento a respeito da dinâmica do progresso tecnológico na sociedade. Nesse contexto, o nosso estudo analisa a difusão de inovação do Programa Telessaúde no RS, a partir da percepção dos teleconsultores, médicos e enfermeiros, para compreender os elementos determinantes da difusão, o Telessaúde, uma tecnologia social adotada no Brasil que, por meio da tecnologia de informação e comunicação, contribui para ampliar e melhorar os atendimentos públicos na área da saúde.

Qual a metodologia utilizada pelo estudo?

Trata-se de uma metodologia qualitativa, com caráter exploratório, realizada através de pesquisa bibliográfica, documental e de campo. A coleta de dados deu-se, a partir das entrevistas, realizadas com 27 profissionais. Inicialmente, no mês de novembro de 2018, foram ouvidos coordenadores do Programa no RS, e, depois, entre os meses de abril e maio de 2019, com teleconsultores e profissionais de Estratégia da Saúde da Família, nos municípios de Porto Alegre e Cruz Alta, com o intuito de avaliar a percepção dos profissionais envolvidos com o programa.

Qual a importância desse Programa para a ampliação do atendimento da população?

O TelessaúdeRS é um projeto da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), em parceria com o Ministério da Saúde (MS) e com a Secretaria Estadual de Saúde do Rio Grande do Sul (SES/RS), além de outras instituições. Por meio da tecnologia de informação e comunicação (TIC), contribui para ampliar e melhorar os atendimentos à saúde, qualificando profissionais e buscando eliminar ineficiências nos cuidados na Atenção Primária de Saúde. O Programa é muito importante para a completa universalização do sistema de saúde no Brasil. É através dele que o sistema de atendimento público da saúde pode chegar, por meio de um simples sistema de comunicação, que é o aparelho celular, à população residente dos locais mais longínquos deste Estado e do País.

Quando esse Projeto iniciou no Brasil?

O Programa Nacional Telessaúde Brasil Redes é instituído em 2007 com o intuito de fortalecer e qualificar o atendimento na atenção primária, embora já existissem, em anos anteriores, grupos de pesquisa desenvolvendo trabalho em rede, com compartilhamento de informação técnico científica, dentro de algumas universidades brasileiras. A partir do Programa Nacional em Telessaúde, nascem os núcleos de Telessaúde, inicialmente em alguns estados e, posteriormente, com abrangência maior. Em 2007, portanto, nasce o núcleo TelessaúdeRS, oriundo do programa de esfera federal, que começa a desenvolver atividades em ofertas de serviços no Rio Grande do Sul.

Quem participa das ações do Telessaúde?

Através de teleconsultorias, o programa é dirigido a todos os profissionais que trabalham na Atenção Primária à Saúde (APS), além de coordenadorias municipais de saúde. Ele se desenvolve como estratégia para aproximar a oferta de atenção especializada às equipes de saúde da família, especialmente as que atuam nos lugares mais longínquos do Brasil, ampliando, de forma efetiva, o acesso da população aos serviços de saúde.

O que falta para a implantação do Programa de forma mais efetiva?

A essência do processo de difusão do Programa está na transmissão do uso da tecnologia, processo que é coordenado pelas entidades municipais de saúde. O maior problema que constatamos é que esse processo, para o seu efetivo sucesso, ainda esbarra em algumas decisões políticas e conflitos de interesses. Apesar de ser de baixa complexidade, envolver elevada resolutividade e ter o efeito de democratizar evidências O Programa ainda não se transformou em uma política pública e, por isso, as secretarias de Saúde dos municípios não se veem obrigadas a adotarem.

Quais as principais constatações alcançadas pelo estudo?

Os principais resultados do trabalho demonstram que as secretarias de Saúde dos municípios são atores importantes no sistema de inovação local, uma vez que se configuram como fundamentais para a difusão do programa entre as equipes de saúde. Existe a necessidade de ampliar o conhecimento para acesso das ferramentas disponíveis e de mapear e ou atingir todos os profissionais da atenção primária. Outra constatação é que, enquanto no município de Porto Alegre, o processo de difusão do Telessaúde está mais estabelecido, nos municípios mais distantes da capital ainda existe necessidade de intensificar, já que ainda há barreiras na efetividade, em função de troca de governo, conflitos de interesses, barreiras técnicas e de cunho cultural nas unidades e esbarra na gestão dos municípios. É relevante pontuar que o estudo contribui para a compreensão do processo de difusão de uma importante tecnologia na área da saúde humana. Compreender como a difusão ocorreu, permite refletir a respeito de elementos que dinamizam ou retardam o processo de adoção da inovação e o quanto a inovação é relevante para o propósito de qualificação do atendimento público à saúde.

O que falta para superar essa barreira?

Ainda há uma ampla discussão para que seja aceito como uma política pública. Trata-se de um programa, com grandes impactos na sociedade, no que diz respeito a entrega mais eficiente de um atendimento profissional de saúde, especialmente as mais distantes dos grandes centros e de menor poder aquisitivo. Como Programa, não há obrigatoriedade na adoção pelos municípios e, com isso, a percepção de utilidade adquire uma menor relevância, pois a ferramenta não deve somente estar na APS, mas ser utilizada em cada unidade de atendimento e fazer parte do processo de trabalho dos profissionais. Também existe a necessidade de recursos de financiamento sólidos, pois a dependência de recurso influencia na difusão da inovação do Telessaúde.

 

Mais do que nunca, investimentos!


Antonio Carlos Fraquelli

Economista, Advogado, professor
Corecon-RS Nº 1108 

 

Pode-se dizer que Donald Trump perdeu as eleições nos EUA por causa do desemprego?

Antes da chegada da pandemia, o mundo estava numa desaceleração global, e quem vinha dando suporte ao cenário econômico mundial era a economia americana, que, naquele momento, crescia a pleno emprego. É bom lembrar que, naquele momento, a China também continuava crescendo, mas em ritmo de desaceleração. Então, o cenário era o mundo numa desaceleração, a China numa desaceleração e os EUA, crescendo a pleno emprego. Naquela situação da economia norte-americana, com uma taxa de desemprego de 3,6% ou 3,7% ao ano, o presidente americano Donald Trump estava apto a se candidatar à reeleição ou, no mínimo, tinha excelentes condições para se reeleger. É que, com uma taxa de desemprego abaixo de 4%, os presidentes tendem a se reeleger nos EUA. O que não acontece quando a taxa está superior a 6%. Apenas para lembrar, na grande recessão de 2009, o desemprego nos EUA chegou a 10% e o então presidente Obama demorou muitos e muitos meses para reduzir a taxa a patamares aceitáveis. Quando Trump assumiu, beneficiado por esse cenário de baixo desemprego, alcançou o pleno emprego e passou a trabalhar de forma unilateral, atropelando a tudo e a todos, e gerando atritos e rupturas com os parceiros históricos, como os europeus e o México. Veio a pandemia, que acabou elevando a taxa de desemprego nos EUA às alturas, em torno de 14%, o que fez com que ele perdesse a âncora que mantinha na economia.

E isso acabou sendo decisivo para a chegada de Joe Biden ao governo?

Sim, sem dúvida. Com a taxa de desemprego nas alturas, ele perdeu a âncora e passou, então, a negar a crise sanitária, acreditando que logo passaria e que a situação econômica se reverteria em seguida, a tempo das eleições de 03 de novembro, o que acabou não acontecendo.

Que mudanças o governo de Joe Biden traz ao cenário internacional?

Estou otimista porque creio que o Biden vai partir para retomar as tradicionais alianças políticas que os EUA mantinham, como se reaproximar dos europeus, dos asiáticos, das lideranças que forem convergentes às ideias dele. Ao mesmo tempo, vai injetar um novo auxílio na economia, algo em torno de um trilhão de dólares. Com Biden, além de alianças pela democracia, suas ações convergirão em novos auxílios, em harmonia com o Federal Reserve System (FED), o Banco Central dos norte-americanos, que tem como presidente o Jerome Powell que, embora tenha sido indicado por Trump, é absolutamente independente, e que tem sinalizado sobre a necessidade de injeção de novos recursos na economia.

Qual a importância desses recursos para o novo cenário econômico?

A injeção de recursos, que também deverá passar pelo novo Secretário do Tesouro norte-americano, que assumirá o cargo com a posse do novo presidente americano, é importante porque, junto com as alianças políticas e o alinhamento econômico, o governo Biden poderá retomar à Organização Mundial do Comércio (OMC), abrindo caminho para uma negociação com a China, portanto, uma estratégia bem diferente da tradicionalmente utilizada por Trump. Lógico que a chegada de Biden não tornará a China uma aliada, mas, no entanto, a negociação com instituições multilaterais, da OMC à Organização Mundial da Saúde (OMS), passará a ser mais factível.

E onde o Brasil entra neste novo cenário?

O governo Bolsonaro não tem proposta de retomada da economia. Estamos numa crise de seis anos. O número da previsão do PIB divulgado recentemente pelo IBGE demonstra que nós saímos da recessão técnica, mas, de qualquer maneira, essa movimentação não significa que o Brasil volte ao período anterior à pandemia. E, pior, nós não temos a capacidade de resiliência. O mundo com o Biden provavelmente vá apresentar uma recuperação em formato de letra K, na queda até o fundo do poço e uma linha de recuperação quando sobe, chegando até à metade do caminho da saída, e. aí, uma parte da atividade econômica se recupera e a outra permanece na crise. Então, a expectativa que se trabalha, no cenário mundial, é de aumento da desigualdade social, onde os mais ricos se recuperariam e os mais pobres ficariam mais pobres ainda. E o Brasil, não tendo um programa de crescimento, vai enfrentar ainda mais sérios problemas com o déficit público, que não para de crescer. Lembremos que o ministro Guedes disse, pouco antes das eleições, que, se vier a segunda onda para o Brasil, será estendido o auxílio emergencial. Só que, a partir de agora, qualquer dinheiro que for destinado com esse propósito irá fazer com o déficit público quebre qualquer compromisso com o ajuste das contas públicas ao longo de 2021. Neste momento, o maior problema do Brasil é justamente a dívida pública, já que os gastos não param de crescer e chegarão a 100% do PIB, gerando uma incerteza muito grande junto às agências de riscos internacionais, com a séria possibilidade de rebaixamento da nota do risco Brasil.

Neste momento, o mais importante seria atração de investimentos imediatos para o Brasil?

O Brasil precisa, mais do que nunca, de investimentos estrangeiros, chinês e norte-americano, inclusive, até para garantir a retomada da economia, que estamos esperando há seis anos. Toda essa visão do Biden para buscar a retomada da economia mundial, vai pregar otimismo e reações positivas nas bolsas, nos preços do petróleo e nas commodities em âmbito mundial. Mas, para o Brasil se beneficiar desse quadro, terá que convergir para a agenda americana em termos de sustentabilidade, de contas públicas, com uma proposta convincente que mostre aos investidores internacionais que o País tem um caminho definido para sair da crise. O Brasil, nesta época da pandemia, teve saldos comerciais expressivos porque as importações caíram e, como os chineses são responsáveis por 40% do nosso agronegócio, temos que continuar negociando com a China e os EUA, principalmente porque sabemos, e eles também sabem, que o Brasil é ator importante na alimentação global. Então, o Bolsonaro pode dispor dessa carta na manga, que ele precisa utilizar para que o País possa aproveitar, através de um projeto econômico coerente, e encontrar o caminho da retomada do crescimento. Imagino que, nesse cenário internacional que está aí, teremos alguma agenda global, de grande impacto, com a liderança de Biden, algo como um centro global de negociação para a saída da crise, com a aglutinação das principais lideranças mundiais.

O Brasil só se beneficiará se tiver um programa de recuperação?

Após a vacinação de todos e dos testes necessários, eu imagino que poderemos vivenciar um mundo com a inclusão da África, e o Biden estará acessível a isso. O Brasil só vai se beneficiar se tiver um programa para a retomada, com uma proposta para as contas públicas, além de alguma certeza de que a dívida pública voltará a ficar dentro do controle. A partir daí, trabalhando a sustentabilidade, numa agenda convergente para aquela que o Biden tem se referido sistematicamente, eu penso que o caminho estaria mais ou menos sinalizado. Mas a proposta tem que ser clara e condizente.

Mas o Bolsonaro tem que amenizar o seu discurso?

O que o Bolsonaro diz, ou deixa de dizer, não tem a menor importância porque não chega a ter qualquer relevância no cenário global. Percebo, por exemplo, que o vice-presidente Mourão sempre teve uma agenda convergente para as negociações internacionais. Então, é preciso minimizar o discurso do Bolsonaro, e as propostas surradas do Paulo Guedes, já que nenhum deles tem demonstrado estar articulado com alguma agenda de retomada da economia.

Mas como não se preocupar com o discurso do Ministro da Economia?

Paulo Guedes teve dois anos pra construir uma agenda de crescimento e não o fez. Os conflitos entre Guedes e outra autoridades têm emperrado algumas alternativas, mas se trata de um quadro mais voltado para o consumo interno, totalmente desligado de uma agenda para a retomada da economia global. Como a economia mundial vai decolar se a vacina chegar, temos que aproveitar e decolar junto. E é aí que entra uma proposta de retomada, de equilibrar as contas públicas, de limitação da dívida em patamares mais aceitáveis e alinhados com os parceiros internacionais tradicionais.

 

Um choque de realidade

 
Roberto Rodolfo Georg Uebel
Economista, professor da ESPM-POA
Corecon-RS Nº 8074

 

 
Que tipo de modificações o presidente eleito dos EUA, Joe Biden, deve imprimir à política internacional?

Qualquer governo que assumisse após a gestão de Donald Trump, mesmo que fosse um republicano, promoveria mudanças na política de seu antecessor. Tudo indica que o governo Biden tem uma agenda para deixar a sua marca. E essa agenda é no campo da economia,  muito atrelada  à questão ambiental, à questão das mudanças climáticas. De levar firmemente os EUA para uma agenda econômica mais verde, se e que se pode chamar assim, mais renovável. Não se pode esquecer que, na última semana, os EUA abandonaram oficialmente o acordo da agenda climática de Paris, que foi uma das primeiras ações, lá do início do governo Trump. E, no dia seguinte, Biden já postou em seu twitter que a primeira medida de seu governo, quando tomar posse, em 20 de janeiro próximo, será retornar ao Acordo de Paris. E essa pegada ambiental, sustentável, ficou muito evidente na campanha eleitoral dele. Então, o que acho que vai predominar, tanto na economia como na política externa do novo governante, é a ideia de preservação ambiental. Aliás, este é o aspecto central da sua política econômica.

E como deve ficar a relação dos EUA com a China?

Sobre essa conturbada relação entre EUA e China, a tendência é de que o novo governo dos EUA deva buscar um tratamento de normalidade entre os dois países. O que se viu, ao longo desses últimos quatro anos da gestão Trump, foi um embate direto e duro dos EUA com a China. Um embate muito mais político e ideológico que comercial. E é claro que esse comportamento acaba respingando diretamente nas relações comerciais dos dois países. Basta lembrar a polêmica questão do 5G, por exemplo, que foi o grande disputa entre eles. Mas o que vejo para este novo cenário é um retorno da normalidade entre Washington e Beijing, relações diplomáticas, cordiais. Lógico que não é uma relação de amizade, de parceria, como a relação dos EUA com o Japão, por exemplo, ou com a Coréia do Sul. É uma volta à normalidade, o que pode e deve estabilizar o comércio entre os dois países e, também, estabilizar a própria economia internacional.

E de que forma o Brasil entra nesse novo cenário?

Eu acredito que o Brasil vá sofrer um choque de realidade, em função das novas políticas a serem adotadas pelo governo Biden no novo cenário mundial. E o choque de realidade é acordar rapidamente para o que estará acontecendo nesse novo cenário mundial. Hoje, o Brasil tem uma agenda de política externa, de política econômica internacional muito própria. Diria, até idealista, para usar um termo mais adequado, que foge da realidade e que existe desde 2019, quando assumiu o  governo Bolsonaro. Porque os EUA, ao longo do governo Trump, apoiaram e garantiram que o Brasil tomasse uma série de proposições internacionais, como um embate com a China, afastar-se do Mercosul,  da União Europeia. Enfim, poderá acordar e redefinir uma política externa comercial mais condizente com a realidade internacional e, evidentemente, retomar uma negociação normal com a China. Fiquei muito preocupado quando, há poucos dias, a China anunciou que irá comprar soja da Tanzânia, um país que não é um dos maiores produtores, mas cuja iniciativa representa  uma sinalização muito clara para o governo brasileiro de cessar manifestações que entendam como desagradáveis ao regime e à sua política internacional. Trata-se de um cenário extremamente preocupante para o Brasil e, especialmente, para nós, do RS. Então, é uma relação de pragmatismo, de acordar para a nova realidade do sistema internacional. Isso não significa que precise ter um alinhamento entre Biden e Bolsonaro, ou entre Bolsonaro e Xi Jinping. É uma questão muito mais de usar uma lente realista para o mundo, o que é muito importante para a política externa brasileira acordar e voltar a olhar num trilho de projeção do Brasil no mundo.

Isso vai exigir uma mudança bem efetiva de postura do Brasil com relação à sua política internacional. Existe ambiente interno favorável para isso?

Bom, é uma questão interessante. A China possui um regime de caráter autoritário, mas tem recursos para comprar do Brasil.  Acho que hoje não tem ambiente favorável para isso. Mas o Brasil vai ter que se reposicionar, sob o risco de ficar isolado. Por mais questionável que seja o posicionamento do Ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, ou se troca o ministro já no governo Biden, ou ele volta a defender suas posições do passado, quando foi um dos maiores defensores do Mercosul, do comércio com a China. Então, é muito mais que uma readequação de discurso. É o Brasil se voltar novamente para o mundo.

Cenário desafiador para os próximos prefeitos

 

Leonardo Busatto
Economista, Auditor-Fiscal da Sefaz-RS,
Ex-Secretário da Fazenda de Porto Alegre
Corecon-RS Nº 8544

 

 

Qual o principal desafio que os novos gestores municipais deverão ter nestes próximos meses?

O principal desafio é uma conjugação de dois fatores. O primeiro, principalmente a partir de 2021, é enfrentar as dificuldades impostas por uma base de receitas próprias, como ISS, IPTU e ITBI, e de transferências, como ICMS, IPVA, FPM, etc., bem deprimida, que reduziu muito com a crise decorrente da pandemia, mas que, neste ano de 2020, ainda não foi tão sentida, em função do auxílio federal recebida. Esse auxílio , que foi criado para mitigar os impactos da pandemia nas receitas dos estados e municípios, mascarou um pouco o efeito nas finanças dos municípios e não há nada que sinalize que, a partir do próximo ano, haverá nova ajuda. Imagina um cenário com redução da arrecadação tributária superior a 15%, como é a estimativa para o caso de Porto Alegre, gerando uma receita inferior inclusive aos patamares de 2019.

E qual o outro desafio?

Conjugado a esse fator, existe toda uma pressão de despesa, que foi criada principalmente na área da saúde, mas, também, na área social, em função da pandemia, sendo que nem toda ela é um custo ou uma despesa que se poderá reduzir. Em muitos casos, as estruturas foram aumentadas, como a questão de leitos, equipamentos, médicos. Da mesma forma, na área social, como esses modelos de transferência de renda, onde nem todos eles vão conseguir regredir a períodos pré-pandemia.

Por que não poderão ser reduzidas ou extintas?

Primeiro, porque não se sabe ao certo até quando essa pandemia vai manter seus efeitos e, segundo, porque é muito difícil, depois que se ter criado uma estrutura física, como novos hospitais e leitos, com promessa, inclusive, de ficarem como legados para a cidade. Então, teremos que conjugar um ano que teve uma receita tributária bem deprimida com um aumento de estrutura de gastos, que deverá ser custeado de alguma maneira e, pior, sem uma perspectiva de novas receitas extraordinárias. Esses dias li uma entrevista do Secretário de Orçamento do Estado de São Paulo, que disse que as pessoas estão com a falsa impressão de que o pior já passou na questão das finanças públicas, enquanto o pior está por vir em 2021. Ele tem toda a razão.

Então esses municípios que têm hospitais de referência serão mais prejudicados que os municípios menores?

Existem problemas tanto nos grandes municípios como nos pequenos. Os grandes municípios tiveram que investir mais nas estruturas hospitalares e, consequentemente, sofreram maior pressão na parte da despesa. Mas, por outro lado, também receberam mais recursos na área da saúde para aplicar. O problema, nos casos desses municípios maiores, está em manter essas estruturas, ou, pelo menos, parte dessa estruturas que foram criadas, sem a continuidade do recurso federal. Em compensação, têm uma capacidade de recuperação da sua própria receita tributária maior porque dependem menos de transferências. Já, os municípios menores, que vivem basicamente de transferências, com pouca geração de receita própria, não possuem base tributária própria pra se recuperarem de maneira mais rápida. Talvez os gestores não estejam captando esse problema porque ainda não estão sofrendo com isso. Mas quando os próximos prefeitos assumirem seus postos, no início do próximo ano e olharem para a previsão de receita, se darão conta do tamanho do problema. Insisto que alguma medida deve ser costurada, em nível nacional, para minimizar os efeitos da pandemia, até que a situação desses municípios volte a um patamar de mínima normalidade.

Como os novos prefeitos, que assumem em janeiro próximo, conseguirão enfrentar esse novo cenário?

Cada cidade tem uma perspectiva diferenciada, mas uma questão que vai ter que ser tratada, especialmente nos casos dos grandes municípios, é a da previdência dos servidores públicos. Em todos eles, praticamente existe um déficit previdenciário com crescimento muito acima da capacidade da receita, especialmente num período pós-pandemia. E isso se agrava quando se sabe que a grande parte desses municípios não fez as reformas que a União e alguns estados, como o RS, fizeram para os seus servidores públicos, centradas basicamente na questão da idade mínima para aposentadoria, e, no curto prazo, na questão das alíquotas, o que acabou gerando um alívio no aporte necessário por parte do Tesouro.

E qual a saída pelo lado da receita?

Em que pese todo o debate nacional ocorrido neste ano de 2020, em torno de receita e despesa, fatalmente terá que se retomar a discussão no que tange à grande parte dos municípios brasileiros. Se, por um lado, o País terá que buscar novamente estimular sua economia, da mesma forma, cada município terá que se voltar para a sua própria realidade. Tem-se que considerar que muitas empresas acabaram fechando ou reduzindo muito suas atividades e não se sabe ao certo até que ponto elas conseguirão recuperar a sua capacidade de gerar riqueza, de gerar receita, que é a base tributária. A base tributária do país é praticamente decorrente do PIB e dos agentes privados. Então, teremos, também, que tentar algo nesse sentido.

Qual a solução?

Eu até diria que se fosse possível, deveria se fazer um grande pacto ou uma grande movimento entre os prefeitos que estão entrando, os governadores que já estão aí e o governo federal, pra avançar em algumas reformas que podem minimizar esses efeitos da pandemia e acelerar a recuperação das economias, como reforma administrativa e, especialmente, a tributária. O Brasil tem um modelo federativo de cima pra baixo.

Que tipos de reformas seriam necessárias para a busca imediata desse equilíbrio fiscal?

A reforma da previdência foi feita, mas ainda existe uma questão gravíssima no país, que é a questão tributária. O modelo tributário que alguns chamam de manicômio tributário, é um dos nossos maiores problemas. Com um sistema tributário extremamente complexo, as pessoas não sabem exatamente o que pagam e as empresas têm um custo absurdo para seguirem a legislação vigente. Somado a isso, a judicialização na questão tributária do país, com centenas de milhares de processos, gerados pelas lacunas e problemas de legislação. Uma tributação extremamente regressiva, excessivamente baseada nos tributos indiretos de consumo e não no patrimônio e renda, afetando demasiadamente os mais pobres. Sem contar o problema sério de competências, onde muitos dos municípios acabam abrindo mão de querer tributar para viverem de transferências. Então, uma reforma tributária, que deveria ser de cima para baixo, que atingisse estados e municípios, seria fundamental para amenizar os impactos da crise deixada pela pandemia. Se não avançarmos nisso, continuaremos com todos os problemas de injustiça, de complexidade, que acaba beneficiando os maus pagadores e os mais ricos, que são os grandes beneficiados por todo esse processo.

Logo depois das eleições seria o melhor momento para isso?

Acredito que sim, porque os novos prefeitos têm quatro anos para governar. E, para terem um bom desempenho, precisariam recuperar rapidamente a sua capacidade de prestar serviços. Em 2021, muitos prefeitos assumirão seus cargos com as contas numa situação de insolvência e com as mínimas condições de aprimorar esses serviços.

 

A viabilidade econômico-financeira em tempos de crise



Rogério Tolfo
Economista, consultor de empresas, especialista em projetos e estudos
de viabilidade econômico-financeira, ex-presidente do Corecon-RS

O que é projeto de viabilidade econômico-financeira?

É um estudo técnico em que é verificada a viabilidade econômica do projeto, ou seja, o impacto que uma determinada ação ou investimento trará, a médio e longo prazos, para a empresa em termos de rentabilidade, nos diversos cenários em que é possível analisar e projetar. A parte financeira está relacionada com a geração de caixa dessa ação ou investimento, e o retorno do investimento, em termos de prazo, valor presente líquido e taxa interna de retorno.

Quais apspectos um projeto de viabilidade econômico-financeira pode contemplar?

Normalmente, um projeto de viabilidade econômico-financeira contempla sumário executivo, apresentação e caracterização da empresa, abertura das ações ou investimentos a serem realizados, aspectos técnicos, análise do mercado onde a empresa atua, balanços e aspectos históricos relacionados às peças contábeis, projeções e seus critérios. Da mesma forma, faz parte do projeto a demonstração da avaliação econômico-financeira e da necessidade de capital de giro incremental. A propósito, as projeções podem ser analisadas através de cenários diferentes, desde o mais conservador até o mais otimista.

O que é priorizado na elaboração desse tipo de projeto numa empresa?

Prioriza-se demonstrar principalmente as variáveis que tendem a ser impactadas com as ações ou investimentos a serem realizados, como receitas, custos, despesas, capacidade de produção ou de vendas, e seu impacto na rentabilidade e na geração de caixa do negócio. É sempre bom lembrar que essas premissas, se bem calculadas, tendem a gerar uma avaliação econômico-financeira confiável, o que gera segurança. Mesmo considerando que a fonte de recursos (própria ou financiada), não seja relevante na avaliação econômico-financeira de um projeto, cabe sempre atentar para a capacidade de pagamento do financiamento, caso seja essa a sua opção, bem como inserir os juros e encargos nas projeções. Importante destacar que um projeto bem elaborado pode demonstrar que a empresa tende a ser bem ou mal sucedida ou, mesmo, indicar que pode ser necessário repensar algumas premissas para colocá-lo em operação.

Qual a diferença do foco de análise de um projeto de viabilidade de uma empresa, num momento de crise do mercado, para um contexto de estabilidade ou crescimento econômico?

A maior e grande diferença é a dificuldade de se traçar cenários em momentos de crise. Essa situação ficou bem evidenciada com a pandemia, quando as empresas tiveram muitas dificuldades em projetar receitas, custos, despesas, resultados e vendas em geral, pois estavam situadas em mercados que sofreram grande impacto com as ações de contenção da pandemia, realizadas pelos governos. Assim, em cenários de crise, cabe ser ainda mais detalhista nas projeções e conter qualquer tendência otimista, visto que há muitas incertezas. Costumamos dizer que o papel aceita tudo. Ou seja, projeções mal realizadas, utilizando variáveis e premissas equivocadas, tendem a gerar uma inviabilidade prática do projeto, mesmo que o estudo demonstre que o mesmo tende a ser bem sucedido.

Quando uma empresa deve providenciar um projeto ou estudo de viabilidade econômico-financeira?

Sempre que uma empresa for realizar ações que alterem a sua realidade, o seu momento, cabe fazer um estudo ou projeto. Ações simples podem gerar estudos simples. Por exemplo, a compra de um equipamento de maior produtividade em uma indústria, com o objetivo de desativar outro equipamento existente, pode gerar um estudo simples, demonstrando a redução de custos que vai ser gerada e o prazo em que essa redução de gastos paga o investimento. E ações de grande magnitude tendem a gerar estudos completos e detalhados, como a abertura de uma filial, para ampliar vendas e produção. Essa nova unidade tem que ser viável econômica e financeiramente para compensar o ato de investir.

Realizar projetos de viabilidade é uma prática usual nas empresas?

Infelizmente não. Mas está melhorando. Grandes empresas normalmente possuem departamento de estudos e projetos, que contam com economistas e outros profissionais contratados ou terceirizados para estudar as ações e projetos da empresa e seus impactos na companhia. O maior problema está nas micro, pequenas e médias empresas, que muitas vezes investem em ações e/ou projetos, mas não realizam o estudo ou o fazem sem atender os critérios técnicos adequados. Daí, a importância dos profissionais habilitados para assessorar essas empresas, como o economista. Projetos mal concebidos econômica e financeiramente podem não só inviabilizar a ação em si como toda a empresa. Ter um projeto qualificado também é um investimento

Qual a sugestão para o estudante e o profissional da Economia que queiram se especializar na área?

Para os estudantes, importante começar cedo, ainda na faculdade. Muitas delas possuem empresas júnior, que são habilitadas a fazer esse tipo de trabalho e contam com o apoio dos professores. Para profissionais já formados, importante analisar cases de sucesso existentes no mercado ou conversar com profissionais experientes que atuam a tempo no mercado. Há empresas de consultoria, especializadas em elaborar tais estudos. Também há espaço em bancos e na área pública. O economista sai da faculdade em condições técnicas de fazer um projeto, e a experiência vem com o tempo. Atuo na área há mais de 25 anos e considero fascinante o fato de que, ao elaborarmos um projeto, usamos um verdadeiro arsenal de ferramentas vistos na faculdade de economia, analisamos mercados, usamos a experiência e, também, aprendemos, já que cada situação contém suas especificidades.

Os limites da Reforma Administrativa


João Bosco Ferraz de Oliveira
Economista, empresário, especialista em Gestão Pública,
Perito do Tribunal de Justiça do Estado da Paraíba
e Conselheiro do Cofecon

 

Com que cara essa reforma vai se apresentar ao País?

Do ponto de vista da proposta em si, a Proposta de Emenda Constitucional 32/2020 que trata da reforma administrativa tem a cara do Governo, com o propósito de desonerar a médio prazo as atividades que não são responsabilidade do Estado, deixando-as para outros poderes ou entes federativos, para o mercado e também para a iniciativa privada, de forma livre ou por concessão. O que o governo federal espera ao apresentar tal proposta é dar curso à ideia de menos Estado na economia pois só assim enxerga o Brasil ter uma nova cara. Se os objetivos da PEC serão viáveis nessa jornada não podemos prever. A ideia é simpática e bem vista por muitos economistas que tendem a seguir uma linha mais liberal, todavia há um Congresso no meio desse caminho, muito sujeito às opiniões da população mesmo sabendo que parte da população que ora já reclama é formada por representantes de categorias de trabalhadores que estão na verdade gritando em prol de um interesse específico e não da população como um todo. Então eu faço a previsão que a reforma administrativa avança, mas me parece que com a cara do Congresso Nacional.

Quais as principais mudanças que essa reforma deve trazer ao País?

São vários pontos contemplados no projeto da Reforma Administrativa. Mas eu destacaria, como principais, as seguintes mudanças: A abrangência, já que ela atingirá os três níveis federativos, que são a União, os Estados e os municípios; a Carreira de Estado, que definirá o que é considerado atividade essência de estado e com consequência fará com que esses profissionais, ao ingressarem no serviço público, tenham sua dedicação integral ao Estado, não podendo exercer qualquer outro tipo de vínculo, com exceção apenas para a docência e determinadas profissões ligadas à saúde; Aposentadoria compulsória, que será extinta e que servia de uma espécie de refúgio àqueles que cometiam algum crime e se viam “punidos” somente com o benefício da aposentadoria; Estabilidade, que sofrerá flexibilização no seu conceito e aplicação; e mais poderes ao chefe do Executivo federal, onde ele passa a ter mais poder permitindo mexer mais livremente na estrutura da administração pública extinguindo ou renomeando órgãos e ministérios. Não está claro se isso será modelo também para os governadores e prefeitos.

Qual a importância da Reforma Administrativa para a economia brasileira?

Eu vejo sob dois aspectos. Um, que seria um propósito de plano de governo, desenhado desde a campanha do presidente Jair Bolsonaro, ao dar valor a “menos presença do estado em atividades de mercado”. Prometeu e parece perseguir esse propósito dentro da sua política liberal, além de mostrar para a sociedade que o governo não pode mais gastar em áreas não prioritárias quando outros poderiam executar essas tarefas com recursos privados. Diminuir a estrutura administrativa é um segundo propósito, concentrar as diretrizes de governo e poder decisório no que interessa ao Estado e nas mãos de poucas pessoas, como uma estratégia de atuação do governo, de forma a ter um maior controle dos gastos públicos.

Que ponto o senhor considera mais nevrálgico e impactante da Reforma?

Apesar da PEC 32/2020 e das afirmações da equipe econômica de que não vai mexer no que já está posto, quando se coloca no meio da discussão o tema “estabilidade”, por si só já gera uma polêmica e mexe com estruturas seculares do serviço público, no caso, a estabilidade no emprego do servidor público. E, se o governo não convencer que os mecanismos de avaliação de desempenho – que pretende ser o mecanismo de afirmar se o servidor merece ou não continuar na carreira – serão seguros, justos e transparentes, esse tema será polemizado demais nos embates no Congresso. Outro ponto interessante é a convivência, estimada em 10 anos de transição, entre os servidores públicos regidos por uma lei antiga e os novatos, ambos exercendo a mesma atividade. Isso dará margem para muitas interpretações e até para questionar a sua eficácia.

O senhor acredita que a Reforma resolverá definitivamente o problema do equilíbrio fiscal brasileiro?

Antes devemos nos perguntar: a reforma é necessária? Isso eu entendo que tem a simpatia da maioria da população e ela concorda que até deveria ser mais profunda e estendida a outros poderes. Mas será justa? Bom, sua eficácia só poderá ser medida após implementada e testada. Mexe com conceitos e preconceitos. E do ponto de vista fiscal, o que se desenha é que em quase 10 anos o governo federal economizaria quase R$ 1 trilhão de reais, o que é um apelo enorme de convencimento, pois grande parte desses recursos iriam ser irrigados para sanar dívidas internas e outros tantos para novos investimentos e pavimentar um novo tempo na economia do País. Mas tudo isso precisa ser colocado e já, de forma clara para que a nação tome conhecimento e tenha a convicção de que o Brasil tem tudo para conquistar esses ganhos e entrar em um novo patamar de desenvolvimento. E se ajudar a implementar uma nova força no desenvolvimento regional de forma que todos saiam ganhando, trazendo junto Estados e Municípios, com isso o Congresso não terá muito o que fazer e nem forças suficiente para descaracterizar a essência da PEC no que ela pretende trazer junto com essa Reforma Administrativa.

Investimentos na base e as aspirações futuras

 

Paulo Ricardo Ricco Uranga
Economista, Menção Honrosa Prêmio Corecon-RS 2019,
Categoria Dissertações de Mestrado
Corecon-RS Nº 7597

 

Qual a proposta do trabalho “Aspirações Educacionais e Profissionais: um Estudo Sobre a Adaptação de Preferências”, Menção Honrosa do “Prêmio Corecon-RS 2019”, categoria Dissertações de Mestrado?

O trabalho procurou identificar quais os condicionantes das aspirações educacionais e profissionais dos alunos de escolas privadas e estaduais de Porto Alegre. Também verificou como esses condicionantes se comportam quando dividimos a amostra grupos determinados por diferentes características como a etapa de ensino dos alunos, o tipo de unidade administrativa, se privada ou estadual, e diferenças socioeconômicas.

Qual o universo pesquisado?

Eu e alguns amigos, que se dispuseram a me ajudar, percorremos 32 escolas, 19 estaduais e 13 privadas, aplicando 3.723 questionários em alunos do nono ano do Ensino Fundamental e segundo ano do Ensino Médio. Após a tabulação, a amostra resultou em 3.714 questionários validados de jovens entre 13 e 20 anos. Uma preocupação foi tentar garantir a representatividade das escolas conforme o nível de Desenvolvimento Humano das regiões das escolas. Então calculamos a amostra proporcionalmente ao número de matrículas nas séries anteriores no ano de 2018, para cada nível de desenvolvimento (Baixo, Médio, Alto e Muito Alto).

O que foi determinante para a definição do nível de aspiração dos estudantes?

Características de nascença, como ser mulher e branco aumentam a chance de aspirar mais, e a diferença é mais acentuada em grupos com maiores privações. A trajetória escolar também se mostrou importante, para aspirar mais foi importante ter iniciado os estudos na Educação Infantil e não reprovar. A família também assume papel importante nos sonhos dos alunos, pois a escolaridade dos pais, os pais que possuem profissões mais reconhecidas e o incentivo ao hábito da leitura aumentaram as chances dos alunos aspirarem além. Outra variável importante para moldar o desejo por mais educação e profissões mais destacadas foi a maior autoeficácia acadêmica percebida. A autoeficácia é a crença que as pessoas têm sobre as suas capacidades para enfrentarem os eventos que afetam a sua vida. Já, a autoeficácia acadêmica é a crença dos alunos na capacidade de realizarem as atividades escolares.

Quais as principais conclusões do teu estudo?

Incentivar as aspirações dos jovens pode ser um instrumento para retirar os indivíduos da armadilha da pobreza. Por outro lado, os sonhos desses jovens podem ser condicionados pelo status socioeconômico de suas famílias. Particularmente para os mais pobres, as preferências podem sofrer um processo de adaptação, em que passam a optar por algo mais modesto do que poderiam se não estivessem em uma situação de privação. Uma evidência das preferências adaptativas encontrada nesse estudo foi que, para os mais pobres, a estabilidade emocional e a maior socialização diminuem as aspirações pela educação superior, provavelmente por levarem a decisões que pareçam mais realistas a esses indivíduos, próximas ao ambiente em que vivem. Para ultrapassar essas barreiras deve se investir nos mais pobres, como em políticas de transferência de renda e aumento da escolaridade dos pais, e em políticas educacionais que incentivem o início da escolarização na Educação Infantil, diminua a repetência e práticas pedagógicas que privilegiem o aumento do senso de eficácia acadêmica dos alunos, da sua vontade por ingressar no Ensino Superior e e da importância de estudar para ingressar no mercado de trabalho.

 

Economia da Serra gaúcha no pós-pandemia e as lições que ficam


Mosar Leandro Ness

Economista, professor da Universidade de Caxias do Sul (UCS),
Assessor Econômico da Câmara de Dirigentes Lojistas de Caxias do Sul (CDL-Caxias do Sul)
Corecon-RS Nº 6304


 

Qual o perfil da economia da região de Caxias do Sul?

O perfil da economia da região serrana vem se alterando nos últimos anos. Até o início dos anos 2000, o principal setor era a Indústria, que puxava o crescimento da região. A mesma nasceu e ganhou força, embalada pelo processo de substituição de importações. Com a reestruturação produtiva, iniciada no início dos anos 90, o modelo de crescimento foi posto à prova. Nos anos que se seguiram, em especial nos governos trabalhistas, a indústria começou a perder força. Atualmente, o setor que emerge com vigor são os serviços. No caso de Caxias do Sul, já se nota um seguimento financeiro bem consolidado e que vem demandando profissionais com formação específica para esse. Note que a indústria ainda é relevante na formação do produto do município, mas, os serviços tem aumentado sua participação e já ultrapassou o comércio, outro setor tradicional da economia local.

A economia da região de Caxias do Sul já vinha dando sinais claros de recuperação antes da crise do coronavírus. Como está agora?

De fato, antes dessa crise, a economia local já ensaiava uma decolagem para um voo mais alto. Havia pedidos em carteira nas indústrias, e tanto os serviços, quanto o comércio, esperavam aproveitar essa tendência de crescimento. Note que, no mês de fevereiro, a utilização da capacidade instalada da indústria local, atingiu 79,3% um dos níveis mais altos dos últimos anos. Com a crise e o isolamento, tanto a produção, quanto o consumo, caíram abruptamente. O recuo em abril foi de mais de -27,0% nos três setores. Essa situação encontrou empresas e famílias em diferentes momentos em termos econômicos. Muitas empresas que se encontravam alavancadas acabaram por encerrar suas atividades. Já, outras tantas famílias tornaram-se inadimplentes em um primeiro momento.

Quais os setores mais atingidos pela crise?

Chama atenção é que passado o baque inicial, a economia local começa a dar sinais de recuperação. A indústria conseguiu passar ao largo das dificuldades e voltou a produzir, inclusive lançando novos produtos. O comércio vem apostando no meio eletrônico como agente de vendas e tem conseguido manter, a duras penas, a sua estrutura de funcionamento. O setor de alimentação, especificamente supermercados, mercados, mercearias, está vendo seu faturamento aumentar. Em contra partida, o segmento de restaurantes, bares e similares, foram os mais atingidos. Casas tradicionais da região encerraram suas atividades. Outras tantas, tiveram que se adaptar à tele-entrega e ao pegue-e-leve. Tempos difíceis para todos, não há dúvidas.

Como está o nível de desemprego na região?

O mercado de trabalho demitiu mais de 6000 trabalhadores nos últimos meses. É bem verdade que poderia termos tido um número maior de desempregados, se não fossem as medidas adotadas para preservar o mesmo, pelo Governo Federal. O setor que mais desempregou foi a indústria, -3.205 postos, seguida dos serviços, com -1.990, e do comércio, com -1.435. A variação negativa é de -6.630 trabalhadores no mês. Quando se observa em um horizonte maior, percebe-se que, em 2013, o mercado formal de trabalho ocupou 183.173 trabalhadores nesse período, enquanto que agora, em 2020, a ocupação caiu para 144.032 trabalhadores. Ou seja, nesse período foram fechados quase 40.000 postos de trabalho.

Quanto tempo deve levar para recuperar o nível de emprego de antes da crise da pandemia?

Para recuperar o nível de emprego serão necessários pelo menos um ano de crescimento forte, de forma a recompor a base e recontratar esses mais de 6.000 trabalhadores demitidos na pandemia. Já, para voltar ao nível de 2013, será necessário um crescimento do PIB brasileiro acima dos 4,0% ao ano por pelo menos quatro anos seguidos para que o mercado de trabalho em Caxias do Sul volte a ter acima de 180.000 trabalhadores formais. Uma das razões para essa demora reside no fato de que a tecnologia na indústria cada vez mais poupa mão de obra.

Quais os grandes desafios neste momento?

Tanto para as pessoas quanto para as empresas, o desafio é literalmente sobreviver. Não há como pensar diferente. O vírus ainda está ativo e a vacina vai demorar uns seis meses para vir e ser aplicada. Isso faz com que as restrições de mobilidade aconteçam, o que inviabiliza muitos negócios. Já, quanto às empresas, as mesmas precisam de capital de giro para suportar essa fase de baixo nível de atividade. Assim, não se descarta que muitos negócios vão precisar de algum tipo de incentivo para sobreviver. Outros tantos deverão ter sua capacidade reduzida para, assim, passar pela pandemia. A redução do tamanho é uma possibilidade que tem por objetivo tornar as empresas menores, e, portanto, mais aptas a sobreviver em um cenário adverso como o que teremos até fevereiro de 2021.

Quais as expectativas do empresariado local?

Os empresários da Serra são resilientes. Estão conseguindo assimilar o atual contexto e estão sobrevivendo, se reinventando. Toda crise é composta de três partes, um problema, o tempo a ser vivido em meio à crise e uma lição a ser aprendida. Na atual crise não é diferente e, seguramente, vamos emergir dessa muito melhores do que entramos. Vamos aprender com ela e construir uma nova ordem econômica. Vamos produzir e consumir localmente e reduzir o nosso grau de dependência da China. Isso será muito interessante para a economia global, brasileira e regional.

Os novos horizontes da Economia Comportamental


Patrícia Alves Schütz

Graduada em Economia, MBA Economia Comportamental,
Consultora em Finanças e Arquitetura de Escolhas/Irlanda

Corecon-RS Nº 7503

 

O que estuda a Economia Comportamental (EC)?

A Economia Comportamental transformou em objeto de estudo o pressuposto da Economia tradicional, que afirma que as pessoas são racionais e agem em benefício próprio. A esses estudos, são incorporadas teorias multidisciplinares vindas da psicologia, antropologia e neurociências, com o objetivo de tornar mais realistas as teorias de tomada de decisão. E, para atingir este objetivo, a EC utiliza-se de técnicas experimentais, dentre as quais os testes de controle randomizados (randomized controlled trial - RCT). Com a possibilidade de pesquisas online, este é um campo em desenvolvimento na economia como um todo, mas sendo bastante útil para a EC.

O que te atraiu para essa área da economia?

O que me atraiu para o estudo da EC foi esse carácter inovador e, de certa forma, revisor das ciências econômicas. Acredito que a profissão do economista tem muito a contribuir com a sociedade, porém é preciso incorporar novas metodologias e teorias para que tenhamos um papel cada vez mais relevante na sociedade atual. Entender comportamento humano e ferramentas de análise de dados são imprescindíveis para enfrentar os problemas atuais e do futuro.

Como funcionam as intervenções na teoria de escolhas?

As intervenções são parte da metodologia aplicada na EC, pois precisamos testar se o comportamento previsto pelo modelo é de fato o que acontece. Utilizamos o termo Arquitetura de Escolhas para desenhar essas intervenções. Uma intervenção é criada para resolver um problema. Por exemplo, aumentar a arrecadação de impostos sem aumentar tributos. No Brasil, isso ainda é muito novo, mas já temos um exemplo na prefeitura de São Paulo, que possui um Laboratório de Inovação e, dentro dele, existe o Nudge/SP, que já realizou uma intervenção alterando apenas o conteúdo das cartas de cobrança de IPTU em atraso, como já utilizado em outros países, e tiveram um aumento de 8,4% de regularização de dívidas, com uma arrecadação em potencial para o município, de 60 milhões a custo quase zero, uma vez que as cartas de cobrança seriam enviadas de qualquer forma. O que mudou foi apenas o seu conteúdo das mensagens. Pode-se constatar em https://drive.google.com/file/d/1q0PgIQiN_GdoICPu7lXb690RUb-vhA7A/view .

Como funcionam essas intervenções?

Esse tipo de intervenção, visando aumentar a predisposição dos contribuintes a pagar suas taxas em dia, é aplicada em diversos países, utilizando diferentes abordagens. Esses exemplos podem ser encontrados na página do Behavioural Insights Team (www.bi.team), grupo que teve origem no governo britânico e que hoje aplica EC em diferentes países, com escritórios espalhados pelo mundo. Nessas intervenções, são aplicadas diferentes metodologias, que podem variar regionalmente. Quando é desenhada uma arquitetura de escolhas precisamos identificar o problema e definir qual o comportamento que queremos incentivar ou impedir que aconteça, sem gerar proibições ou multas, e sim, utilizar os próprios vieses comportamentais que temos para nos conduzir a tomar tal decisão. É nesse momento que entra o famoso nudge, ou “empurrãozinho” ou “cutucada” (a tradução para o português não define da melhor forma, por isso utilizamos o termo original em inglês). Os nudges são o ponto de contato entre a arquitetura de escolhas e o agente a ser influenciado. As principais premissas dos nudges são que eles devem ser simples, de baixo custo e escaláveis, e podem ser aplicados em diversos setores, não só em políticas públicas, mas também no incentivo à poupança, planos de pensão, doação de órgãos, etc. Somos constantemente bombardeados pela arquitetura de escolhas pelo marketing, porém a EC nos mostra que é possível aplicar para os mais diferentes setores.

Como defines o viés do presente ou o imediatismo?

Para falarmos de viés do presente, precisamos pensar em desconto temporal. O viés do presente trata da nossa predisposição em privilegiar a gratificação imediata. O desconto é aquilo que abrimos mão por ter algo agora e não depois. A economia tradicional trata essa diferença como um desconto exponencial, isto é, uma taxa fixa proporcional ao tempo da espera. Enquanto a economia experimental percebeu que a preferência das pessoas na verdade varia dependendo do quão distante essas escolhas estão no tempo, não necessariamente a essa taxa fixa, o que é conhecido como desconto hiperbólico. Podemos ver o viés do presente nas nossas escolhas financeiras, como, por exemplo, tomar um empréstimo para comprar algo e pagar juros, gastar agora e não poupar para o futuro, e até nas nossas escolhas alimentares, como comer pizza agora e ter um aumento de peso no futuro.

Qual a importância da EC para a elaboração de políticas públicas?

A Economia Comportamental e experimental tem muito a contribuir para as políticas públicas. Não se trata apenas na construção de nudges, mas sim de se envolver com o público-alvo destas políticas, pois, para usar uma abordagem comportamental com eficiência, você precisa entender o comportamento de quem vai receber a intervenção. É preciso adaptar a intervenção para o ambiente social no qual ela vai ocorrer e, para isso, é preciso de envolvimento com a comunidade. Para mim, este é o maior legado que essa abordagem pode trazer.

Qual a importância da ECl no atual momento de pandemia que o mundo está vivendo?

Ela poderia ter sido utilizada para melhor comunicar os novos comportamentos, que devem ser incorporados na rotina todos nós. O problema é que não existe consenso sobre tais comportamentos. Acredito que a única unanimidade seja a limpeza das mãos. Até sobre o uso de máscaras existem controvérsias e pessoas que não defendem a sua utilização. Qualquer mudança de comportamento, principalmente de forma tão brusca, como ocorreu devido à pandemia, precisa de uma grande motivação. Aparentemente, a ameaça do vírus não impacta as pessoas da mesma forma, por isso existe essa diferença entre alguns que mudaram seus hábitos e outros que nem tanto. Além disso, o governo precisa proporcionar o ambiente para que as pessoas possam realmente mudar seus hábitos. Não estou aqui julgando o que foi feito pelo governo brasileiro e o que deixou de ser feito, apenas constatando que, quando existe um ambiente favorável para que as pessoas fiquem em casa, quando têm casas adequadas e alguma garantia financeira, a predisposição das pessoas a realizarem o isolamento social é maior. Mesmo com o crescimento de casos em algumas regiões do Brasil, como é o caso do Sul, estamos com dificuldades de manter o isolamento social, pois o que acontece agora é uma fadiga comportamental. Uma analogia seria uma dieta alimentar muito radical, com muitas restrições, por alguém que precisa muito perder peso. Porém, sabemos que essas restrições não são suportadas por um longo período de tempo. Da mesma forma, acontece com o isolamento social. Aqui no Sul estamos, desde março, sem poder ter contato com as pessoas, lidando com o abre e fecha do comércio. Estamos enfrentando o momento mais crítico na nossa região, tendo também que lidar com essa fadiga comportamental, o que nos desafia ainda mais.

Qual a tua sugestão para os estudantes ou profissionais que têm interesse em seguir essa área de estudo?

A EC é uma excelente ferramenta para ser inserida no arsenal de ferramentas do economista, bem como a análise de dados. As atividades do economista são muito variadas e a EC pode ajudar a ter uma visão mais realista de diferentes áreas, não só na microeconomia, mas, também, em elaboração de políticas públicas e finanças, por exemplo. Existem excelentes pós-graduações no Brasil que já tratam do tema (inclusive em EAD), assim como alguns cursos desenvolvidos por universidades e instituições estrangeiras, que podem ser realizados de maneira gratuita. Acho importante que não apenas os estudantes se interessem em aprender sobre o tema, mas, também, os profissionais experientes, que poderiam enriquecer demais os debates, já que a tendência é que profissionais de outras áreas se interessem pelo assunto, deixando, assim, o debate teórico, do ponto de vista econômico, relativamente raso.

 

“Precisamos de um ‘Plano Real’ de combate à criminalidade”

 

Pery Francisco Shikida
Economista, professor da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste),
Membro do Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária (CNPCP)

Corecon-PR Nº 6195


Por que a teoria econômica foi estudar o crime?

A etimologia da palavra Economia vem do grego “Oikos”, que significa Casa, e “Nomos”, Regra/Norma/Lei. Logo, Economia quer dizer, em tempo verbal, regrar, do ponto de vista material, a casa, com foco na obtenção e utilização dos recursos necessários ao bem-estar dos moradores daquela casa. Ocorre que há, infelizmente, as “casas” da ilicitude, que procuram lucrar com atividades econômicas ilegais, como são as organizações criminosas. Portanto, a Ciência Econômica pode perfeitamente estudar o comportamento dos consumidores e fornecedores desse mercado ilícito.

Qual o objetivo dessa Pesquisa, que vens realizando junto a presidiários do Brasil e de fora do país?

Cito aqui o Juiz Federal, Dr. Matheus Gaspar, de Foz do Iguaçu, que fez o prefácio no meu livro “Memórias de um pesquisador no cárcere”. Sou pesquisador da economia do crime “de piso”, remetendo ao termo japonês “gemba”, usado em logística ou engenharia de produção como “chão de fábrica”, “lugar da verdade”, “onde as coisas acontecem”. Isto posto, o nosso maior escopo foi obter dados diretamente na base, ou seja, ouvindo quem de fato praticou os delitos. Obviamente, a criminalidade e a falta de segurança geram reflexos contraproducentes na economia em geral, mas não se trata só disso. A análise econômica do crime é relacionada a estudos de microeconomia e análise econômica do Direito e, no ambiente de escassez, as pessoas buscam maximizar os resultados de suas escolhas, estando sujeitas aos incentivos. Então, três perguntas básicas nortearam todos nossos trabalhos no Brasil: Quais as circunstâncias econômicas da escolha ocupacional entre o setor legal e ilegal da economia? Por que as pessoas decidem cometer crimes, de natureza econômica? Neste caso, o crime compensa?

Quais as principais conclusões?

Vou falar das nossas principais conclusões de 21 anos de pesquisa que procuraram contribuir para o entendimento da criminalidade, a partir de dados primários, obtidos via aplicação de questionários/entrevistas com presos (as) cujas violações foram oriundas de crimes econômicos, como tráfico de drogas, roubo, furto, etc. Como resultado, para expressiva parcela desses presos entrevistados em diversos estabelecimentos penais, os retornos econômicos foram maiores do que os custos do delito, o que significa dizer que o crime, de foco financeiro - que busca dinheiro, lucro - está, lamentavelmente, compensando.

Qual o custo do crime e da violência para o Estado?

O Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) estimou que a violência custa 10,5% do Produto Interno Bruto nacional. O Atlas da Violência, de 2019, disse que o custo da violência no Brasil chegou a 5,9% do PIB de 2016. Então, está entre 5,9% e 10,5% do PIB nacional. Qualquer que seja a estimativa posta, é muito alta.

Qual o perfil do criminoso brasileiro?

Lembre-se, sempre perfil médio, pois isto irá depender muito do local em que se esteja fazendo a pesquisa, sobretudo em um país continental como o nosso, com variações de cor de pele, escolaridade, entre outros. Mas, normalmente é jovem, cor depende muito da região em que foi feita a pesquisa, se diz religioso (mas não praticante) e “solteiro” (mas normalmente teve outras uniões desfeitas), filho de pais também separados, parou de estudar cedo, declarou ter trabalhado e ganhava entre um e três salários mínimos, faz uso de bebida alcoólica, fumo e drogas ilícitas. De modo geral, o perfil sócio demográfico das pessoas pesquisadas mostrou que as três grandes travas morais, religião, família e educação - não estanques entre si, frisa-se, que contribuem para tolher a migração para o crime econômico - estão bem fragilizadas.

O que leva o bandido a migrar para o crime?

Sobre isso, um apontamento que merece menção é a relativa menor importância das dificuldades econômicas (dificuldade financeira/endividamento; ajudar no orçamento familiar/estava desempregado) como causa de migração para o crime lucrativo. A pobreza e distribuição de renda foram itens que sequer apareceram para os pesquisados como causas para este tipo de crime. Fica a recomendação de que o reconhecimento dos motivos da migração para o ilícito econômico não precisa de dados fictícios para se sustentar e, pior, pode inverter premissas vitais para o combate do próprio crime. Em nossos trabalhos, o crime econômico foi cometido porque os benefícios financeiros foram bem superiores aos seus custos, sendo o tráfico de drogas, roubo e furto os delitos mais frequentes e motivados, principalmente, pela ideia de ganho fácil, cobiça, ambição e ganância.

O criminoso é uma vítima da sociedade?

É o contrário. A sociedade é que é vítima do criminoso!

Na concepção do bandido, qual a chance de sucesso de seu crime?

Em média, 95% a chance de sucesso de um delinquente no crime econômico. Alta demais, e o Brasil precisa combater isto. Porém, em nossos trabalhos, tivemos a revelação de que a longevidade desses delinquentes é muito baixa (25,5 anos, em média), haja vista morrerem cedo e quase sempre vitimados de forma violenta.

Quais os tipos de crimes que mais compensam financeiramente no Brasil?

O ganho médio do contrabando de cigarros equivale a 49,3% do ganho médio do tráfico, por exemplo. Mas o bandido raciocina sobre o benefício/custo e o risco também. Para ele, contrabando não dá cadeia (se for primário, poderá ter pena de prestação de serviços e/ou pecuniária), mas ganha menos. Por isto que muita gente tem ido para o contrabando de cigarros, por exemplo. Analisando o crime do colarinho branco, as cifras movimentadas nesta área são estratosféricas.

Qual a diferença entre o criminoso do colarinho branco e os demais?

As travas morais, como religião, família e educação, dos criminosos do colarinho branco, em média, não estão fragilizadas. Porém, a ideia de ganho fácil, cobiça, ambição e ganância é acima da média. A certeza da impunidade para os criminosos do colarinho branco é outra peculiaridade.

Como dissuadir a ação criminosa?

A balança dos incentivos e dissuasão está, lamentavelmente, favorável ao crime, pois as travas morais do delinqüente, que funcionam como “bússolas morais”, estão fragilizadas, como é o caso da Família-Escola-Religião. Há total desrespeito dos bandidos pelas Instituições polícia, poder judiciário, etc. A análise custo benefício, leis e punições brandas, entre outros, são incentivos às práticas da ilicitude; e, ainda, muitos desses criminosos dizem em nossas entrevistas que “Deus é brasileiro”, zombando até da Divindade maior. O que precisamos fazer? O custo moral decorrente do ato de se desrespeitar a lei deve ser alto - as travas morais devem ser robustas (Família-Escola-Religião: precisamos recuperar este tripé básico do desenvolvimento). Os custos não morais de planejamento e execução, custo de oportunidade, custo esperado de serem detidos e condenados devem ser altos - a dissuasão tem que funcionar. O Estado deve ser uma ameaça crível, as Instituições devem estar consolidadas e serem respeitadas. E Deus não deve ser brasileiro, Ele deve ser Justo e Perfeito.

Que tipo de benefícios a Operação Lava-Jato trouxe ao País?

Vou fazer um comparativo para esta resposta. Quando comecei a pesquisar economia do crime, há 21 anos atrás, aplicando questionários/entrevistas com os bandidos dentro de estabelecimentos penais, praticamente não encontrava qualquer corrupto preso para nossos estudos. Depois da Lava-Jato, este tipo de criminoso começou a aparecer nos estabelecimentos penais com uma frequência jamais vista. Eu considero a Lava-Jato um ponto de inflexão no combate ao crime no Brasil. O corrupto, assim como um traficante ou assaltante, não distingue princípios ou valores quando seu interesse pecuniário prevalece em um ato ilícito. Por esta e outras razões, o corrupto deve ter o mesmo crivo da lei.

O que falta para tornar o crime menos compensador no Brasil?

Exatamente a balança da dissuasão superar os incentivos. Mas para isso, é preciso de um bem articulado “Plano Real” de Combate à Criminalidade. Para tanto, precisará de uma equipe competente para trabalhar este norte, como foi com a equipe de economistas no Plano Real. E temos profissionais para isto, tenho conhecido muitos juízes, desembargadores, promotores, policiais de todas as classes, etc., com competência e expertise para esta finalidade. Precisamos, também, de um poder executivo, legislativo e judiciário imbuídos desse objetivo. Se o Brasil venceu uma inflação galopante, poderá vencer esta guerra contra o crime.

O criminoso empreendedor!

Mauro Salvo

Doutor em Economia, pesquisador em economia do crime, lavagem de dinheiro e financiamento do terrorismo,
Analista do Bacen, ex-vice-presidente do Corecon-RS

Corecon-RS Nº 5630

 

O que estuda a Economia do Crime?

A Teoria Econômica do Crime faz parte de uma escola de pensamento mais amplo, que é a Análise Econômica do Direito (AED), e advoga que o delinquente de crimes que tenham como objetivo a obtenção de ganhos econômicos, como corrupção, roubo, sequestro, tráfico de drogas, contrabando, lavagem de dinheiro, entre outros, age de maneira racional como qualquer outro agente econômico.

Por que a ciência econômica se envolveu com a teoria do crime?

A Ciência Econômica tem como objetivo estudar, analisar, compreender e explicar todos os fenômenos sociais e culturais. Portanto, o comportamento criminoso não poderia ser deixado de fora, visto que, infelizmente, tem ocupado cada vez mais espaço dentre as preocupações da população e de governantes, impactando sobremaneira o bem-estar de todos.

Como funciona o conceito de racionalidade do crime?

O economista Gary Stanley Becker, ganhador do Prêmio Nobel, desenvolveu importante teoria sustentando que a decisão de delinquir é racional, assim o delinquente pondera os possíveis benefícios econômicos do ato criminoso descontando os eventuais custos operacionais para o seu cometimento, a probabilidade de ser pego, e se pego o custo da punição. Outro raciocínio econômico feito pelo criminoso está relacionado com custo de oportunidade entre o ato delituoso e a atividade lícita.

O crime compensa no Brasil? Por que isso acontece?

Quando aplicamos o modelo de Becker ao Brasil, notamos que ele explica muito bem nosso elevado índice de criminalidade dos mais diversos tipos. Aqui, quem não tiver trava moral para o cometimento de ato delituoso encontrará boas oportunidades de retorno econômico em diversos tipos de crime, além de baixa probabilidade de detecção, e, quando detectado, a punição é branda e/ou demorada. Portanto, podemos concluir, com tristeza, que em nosso território o crime compensa, e muitas vezes compensa muito.

Qual a diferença entre o criminoso comum e o criminoso do colarinho branco?

Um dos pontos interessantes na Teoria Econômica do Crime é sua capacidade de explicar, tanto crimes econômicos comuns, como crimes conhecidos como de colarinho branco. De forma resumida, o crime de colarinho branco é aquele cometido por um agente sem restrições socioeconômicas, tais como diretores de grandes estatais, ministros, detentores de cargos eletivos, entre outros. Essa capacidade explicativa da teoria põe por terra o argumento de que seja a pobreza que induz à atividade criminosa. Pois, se assim fosse, não haveria crime de colarinho branco, cujos exemplos a operação Lava Jato nos forneceu muitos. Ou, alternativamente, todos os pobres seriam criminosos, o que está muito longe de ser verdadeiro.

Como investigar e dissuadir a atividade criminosa?

A teoria não somente explica por que há delinquência econômica, como, também, a mesma equação já aponta a solução. Em linhas gerais, se atualmente o benefício do cometimento do ato ilícito supera seu custo, então, para reduzir o índice de criminalidade, tem-se que inverter esta equação. Portanto, a solução seria reduzir o benefício do crime, aumentar o custo operacional de seu cometimento, aumentar a probabilidade de detecção e quando detectado aplicar punição exemplar e o mais célere possível.

Por que o combate e a fiscalização do crime é tão concentrado nas mãos do Poder Executivo?

O combate ao crime econômico também envolve o empenho dos três Poderes. São necessárias leis objetivas e efetivas que prevejam punições dissuasivas elaboradas pelo Legislativo. Assim, os órgãos do poder Executivo, sobre os quais cabe a maior parte das ações de combate e fiscalização, terão enforcement suficiente para monitorar, investigar, detectar e punir. Por fim, caberia ao Judiciário, no momento do julgamento e da dosimetria das penas, ter a compreensão da equação de Becker, para que a punição seja adequadamente dissuasiva.

 

Clique AQUI para acessar a Live, sobre este assunto, ocorrida no dia 14 de julho de 2020, numa promoção do Corecon-RS

Operações compromissadas, política monetária e pandemia

 

Roberto Balau Calazans
Economista, Agente Fiscal aposentado do Tesouro do Estado
Corecon-RS Nº 4155
 

 

Qual a importância das operações compromissadas para adoção da política monetária?

Segundo o próprio Banco Central, em sua Resolução nº 3.339/2006, são operações de curto prazo de venda à vista de títulos com compromisso de recompra, ou de compra à vista de títulos com compromisso de revenda em data futura, anterior ou igual à do vencimento dos títulos objetos da operação, remunerados ao preço de venda acrescida dos juros pactuados nos leilões. Os títulos negociados são considerados garantias dessas operações, sendo custodiados no Sistema Especial de Liquidação e Custódia (Selic), para o caso de títulos federais. A variação no saldo de operações de venda com compromisso de recompra reflete a execução da política monetária. Portanto, as operações compromissadas expressam a gestão da liquidez da economia exercida pelo BCB, estando separada da gestão da dívida pública em mercado administrada pelo Tesouro Nacional. Em termos práticos, as instituições financeiras e os investidores privados entregam suas reservas monetárias nas operações de venda de títulos federais no mercado secundário, realizadas pelo Banco Central, e este, por sua vez, garante, como lastro da operação, os títulos públicos com o compromisso de recompra dado pelo Banco Central.

Quanto esse tipo de operação representa no universo do PIB brasileiro?

Em 2006, elas representavam 3,2% do PIB e, em abril de 2020, atingiram 17,7%. Esse crescimento expressivo teve como um dos determinantes a compra de reservas cambiais a partir de 2006.

Qual a importância das reservas cambiais brasileira?

O Banco Central assumiu uma política cambial ativa, entre os anos de 2006-2012, de compra de divisas internacionais, gerando uma elevação do seu ativo patrimonial, juntamente, com as operações compromissadas. Nesse período, as reservas cambiais tiveram um incremento de US$ 320,2 bilhões. Em maio último, esse montante alcançou US$ 345,7 bilhões. Essa política visava criar uma proteção contra ataques especulativos a moeda nacional. Com a elevação da participação das reservas cambais no ativo do Banco Central, as oscilações da taxa de câmbio passaram a impactar nos resultados auferidos pela autoridade monetária. Em outras palavras, o valor de mercado desse ativo externo alterou sua participação relativa no ativo do balanço patrimonial, e os resultados, como lucros e perdas, auferidos pelo BCB, creditados em dinheiro ao Tesouro Nacional, passaram a ter significância para o financiamento implícito do Tesouro. A utilização do resultado do Banco Central para transferência em dinheiro para o Tesouro Nacional ocorreu a partir de 2008, sendo objeto de forte crítica quanto à sua prudência. Em 2019, tal prática foi revogada pela Lei n.º 13.820/2019. A nova lei voltou a exigir a constituição de reservas na apuração do resultado positivo do balanço semestral do Banco Central, observando-se que a equalização cambial (mantida) seria destinada à constituição dessa reserva.

Qual sua opinião sobre a venda de reservas internacionais?

A política de compra de reservas internacionais tem um elevado custo de manutenção. Em 2015, o colateral era de R$ 200 bilhões, segundo cálculo de vários economistas. Isto é, para manter um elevado volume de reservas, há um custo bem superior ao superávit médio gerado pelo setor público brasileiro, que chegou a cerca de R$ 85 bilhões, entre 2002-2013. Atualizando esse cálculo para 2019, o custo continua na ordem de R$ 110 bilhões, ajudado pela queda da significativa da taxa Selic. A venda de reservas cambiais exige algumas condições, como alerta o economista Pellegrini ao estudar o tema. Primeiro, é determinar o nível ótimo de reservas a serem mantidas. Segundo, é que sua venda deve ser feita de modo gradual e programado. Em momentos de fragilidade econômica, são necessários instrumentos adicionais como hedge a volatilidade cambial. Terceiro, é a taxa de câmbio da venda. Com desvalorização, o ganho cambial ajuda a superar o custo de carregamento das reservas internacionais. Na minha opinião, o assunto não deve ser descartado, todavia, é muito difícil determinar qual o cenário econômico que enfrentaremos adiante. E o volume de reserva protege a economia nacional contra o risco de ataques especulativos.

Quais os principais problemas da política macroeconômica adotada pelos últimos governos brasileiros?

Durante o século passado, fatos marcantes aconteceram em termos de política econômica, como as foram as iniciativas do governo central em emitir dívida mobiliária do Tesouro Nacional para fins de capitalização de bancos públicos, em especial o BNDES. O objetivo era conceder crédito subsidiado a determinadas empresas nacionais, além da opção pela acumulação de montantes significativos de reservas internacionais. Vários desacertos de política econômica, em especial no governo Dilma, encaminharam a maior recessão da história brasileira e a elevação da dívida bruta do governo e dos juros nominais a partir de 2014. Entre 2014 e 2019, o setor público brasileiro passou a incorrer em pesados déficits primários, e vários entes subnacionais aumentaram sua fragilidade financeira devido à queda acentuada de receitas primárias e à elevação de despesas primárias, em especial os estados com dívidas elevadas, como Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, entre outros. A implantação do teto de gasto, a Reforma Previdência e a queda significativa da taxa Selic, agora em 2,25% ao ano, representam a retomada do caminho da responsabilidade fiscal. A pandemia causada pelo coronavírus freou o ritmo de crescimento na economia que vinha acontecendo ao final de 2019.

Qual o caminho a seguir?

Após a pandemia, a recuperação da renda e do emprego passam a ser o objetivo da política econômica. Existem dois caminhos a seguir. Primeiro, seria uma saída bem conhecida, que é ampliar os gastos públicos e anular o teto de gastos, mas que traria, junto, o risco de dominância fiscal e expansão explosiva da dívida. O segundo é manter os gastos verificados com pandemia de forma temporária, retomando o ritmo de reformas estruturais e dando continuidade à queda dos juros nominais. Nesse sentido, será muito importante realizar a reforma tributária e obter receitas de privatizações, manter o teto de gasto, expandir os fundos complementares de previdência e reformular da renda mínima. Deveria ser incluída uma regra para a sustentabilidade fiscal, em especial para os governos subnacionais, definindo-a como a âncora da política fiscal de médio e longo prazo.

Qual a importância da responsabilidade fiscal, no momento em que se busca recuperar a economia?

Como já referi antes, a questão primordial agora é recuperar a renda e o emprego. O Auxílio Emergencial foi uma importante iniciativa para proteção social, e parece que o governo federal pretende aprimorá-lo, unificando vários programas sociais. Isso se coaduna bem com a doutrina liberal. Ainda que o déficit primário seja elevado em 2020, impõe-se manter a busca de sua redução mediante as reformas estruturais em debate no Congresso Nacional, em especial a Reforma Tributária. Há uma corrente que insiste em políticas de gastos sem levar em conta que o estado brasileiro está quebrado. A Lei de Responsabilidade Fiscal é uma conquista de finanças públicas e deve ser aprimorada mediante a criação de um conselho que coordene as políticas fiscais dos entes federados. A crise da pandemia tem demonstrado a necessidade de uma mínima coordenação fiscal entre os Poderes da República e as instâncias de controle.

 

Educação financeira sustentável para crianças  


Mariliane Chaves Caramão
Economista, Educadora financeira, Coordenadora do Projeto Repense
Corecon-RS Nº 8698


O que é o Projeto Repense?

É a adaptação da educação financeira a um projeto lúdico-pedagógico no nível pré-escolar. São oficinas, totalmente práticas, com atividades que constroem as bases para que a criança possa lidar com o dinheiro de forma saudável quando adulta. Ela experimenta a repercussão de planejar, economizar, poupar e realizar por meio de estímulos variados. Desenvolve um comportamento econômico que aprimora o bem-estar, melhora suas escolhas e a capacidade de adiar recompensas.

Por que é considerado um projeto de educação financeira sustentável?

O termo sustentável aqui envolve recursos monetários e naturais. O primeiro porque a estrutura financeira de “ganhar” mais do que gastar deve se prolongar no tempo. O segundo porque precisamos desenvolver um olhar de mais comprometimento com o meio ambiente, respeitando o limite dos recursos. A maneira de gerir ambos é apresentada através dos 5R’s. Eles entram como fator motivador e também de responsabilidade para comprometer com um consumo consciente. Só assim podemos pensar em desenvolvimento.

Que tipo de benefícios um projeto dessa natureza pode trazer para a sociedade como um todo? 

Educação financeira é conhecimento e conscientização sobre escolhas associadas à administração do dinheiro. Um método que vise apenas recursos monetários, vai focar sobretudo nas necessidades individuais. No entanto, se despertamos nas crianças, desde cedo, a mentalidade de interdependência, de que o individual influencia no coletivo, incentivando ações feitas propositalmente, é provável que o impacto macroeconômico seja maior, contribuindo para reduzir desigualdades.

Como iniciar a educação financeira com crianças já a partir de três anos de idade?

As fortes conexões neurais que se formam na infância são a base do desenvolvimento cognitivo. A partir da maturação da chamada função executiva, identificada pelo desenvolvimento da linguagem, as crianças estão aptas a compreender intencionalidade, comprometimento, prioridade, correlação. Então serão capazes de processar uma informação de forma significativa. No que se refere à psicologia econômica, Richard Thaler, entre outros estudiosos, explica operações mentais associadas à tomada de decisão. Dentro disso, é necessário trabalhar a capacidade emocional em tolerar sentimentos desagradáveis. Adiar a recompensa é uma habilidade necessária para concluir um planejamento, por exemplo. Então, as atividades que desenvolvem essa “musculatura” financeira são as indicadas.

 

De que forma a criança nessa idade pode exercitar a educação financeira?

Um bom exemplo seria o controle de pequenas quantias em dinheiro. Em tempos de distanciamento social, até gerenciar a carga de um eletrônico é um exercício. Tudo que envolva uma construção custo-benefício é válido. Preciso frisar, principalmente como mãe, que acredito que qualquer atividade a ser realizada deve respeitar o limite do entendimento da criança, e motivar, apresentando sugestões. No Repense, trago a economia circular, que é uma grande aposta para repensar o atual modelo de produção. Para os adultos pode ser ainda muito abstrato, mas, para crianças, é natural. 

Ainda falta muito para as escolas brasileiras terem a inclusão da educação financeira em seus currículos?  

A Base Nacional Comum Curricular (BNCC), no processo de modernização, incluiu a educação financeira como tema transversal nos currículos de todas as escolas do país. Para o ensino fundamental, o prazo para implementação seria 2020. Para o ensino médio, até 2022. Tema transversal significa alinhar com as disciplinas tradicionais. Teoricamente, é muito bom e inclusive os livros que foram elaborados são de ótima qualidade. Porém, um entrave é a falta de um programa de formação dos professores. Se o professor realmente não praticar a educação financeira, então compromete o aprendizado do estudante, em função da falta de identificação.

Qual a importância da educação financeira para as famílias?

É de importância máxima. Os pais são os principais modelos para os filhos. Família financeiramente consciente consegue maior engajamento de todos na organização do orçamento e realiza mais. Sem educação financeira, as dificuldades desse relacionamento que envolve dinheiro residem na linguagem que se usa e na importância que se atribui. É comum a preocupação em dialogar que surja em momentos críticos e desapareça com a estabilidade. Nossa cultura não favorece ao entendimento do dinheiro como um meio para se alcançar o que deseja. Então gera muitos conflitos.

Como a educação financeira contribuiria nesses momentos de crise?

A orientação para planejar, não desperdiçar e consumir adequadamente é permanente. A questão de poupar já é mais recente, mas extremamente importante. Independentemente da renda, famílias que tempos atrás identificaram um motivo para poupar, tiveram uma flexibilidade agora. E isso reflete diretamente no comportamento diante da crise. Torna-se muito complicado ter que perceber estando endividado, inadimplente. Alguma reserva de dinheiro acaba preservando a saúde tanto física quanto emocional e permitindo escolhas melhores.

Como fazer para conhecer mais sobre o Projeto Repen$e?

Atualmente, temos um perfil no Instagram, @repense_educacao_financeira. Em breve, os interessados poderão também acessar o site repensekids.com.br

O que mais sugeres às pessoas que queiram conhecer melhor a educação financeira?

É interessante a quantidade de pessoas que despertaram para a educação financeira e buscam mais conhecimento. No entanto, a falta de regulamentação, aliado ao sentido de urgência pode induzir a erros. Alguns sites oficiais possuem cursos e vídeos com orientações básicas para iniciar.
Plataforma educacional do governo federal: https://www.escolavirtual.gov.br/catalogo#inicio-listagem-cursos
Curso: Gestão de Finanças Pessoais.
Vídeos da série “Eu e meu dinheiro”:
Eu vou levar - http://youtu.be/FdTip4SdWMw
Filhos da Mama - http://youtu.be/HQ2HZdJNhm8
Escola Nacional de Defesa do Consumidor: https://www.defesadoconsumidor.gov.br/escolanacional/
Curso: Educação Financeira para Consumidores
Plataforma vida e dinheiro - vinculada à Comissão de Valores Mobiliários http://ead.vidaedinheiro.org.br/

Curso: Finanças sem segredos