Políticas públicas e combate às drogas no ambiente escolar

kalinca

 

Kalinca Léia Becker
Economista, 2º Lugar XXIV Prêmio Brasil de Economia, Categoria Artigo Técnico ou Científico
Corecon-RS N° 7029

 

 

Sobre o que trata o trabalho “Análise do efeito dos gastos públicos na área social sobre o consumo de drogas dos alunos nas escolas das capitais brasileiras”, 2º Lugar no XXIV Prêmio Brasil de Economia”, categoria Artigo Técnico ou Científico?
O estudo buscou evidências da influência dos gastos com educação e assistência social sobre a probabilidade de os alunos nas escolas das capitais brasileiras declararem que já experimentaram drogas, a fim de contribuir para a maior efetividade das ações de prevenção e controle do uso de substâncias ilícitas entre os jovens.

Por que a escolha deste tema?
O consumo de drogas entre os jovens é um fenômeno de grande preocupação social, pois, além de gerar um mercado consumidor para uma atividade ilícita, ocasionando problemas jurídicos, sociais e de violência, pode comprometer de forma permanente a capacidade cognitiva destes jovens, desencadear distúrbios neurológicos e outros problemas de saúde.

E esses problemas de saúde acabam, de alguma forma, impactando economicamente também?
Sim. Esta situação também causa problemas econômicos, pois aumenta a demanda pelo sistema público de saúde, gerando maiores gastos, e pode prejudicar a formação da força de trabalho, tanto pelo comprometimento cognitivo dos usuários como também pelas possíveis vítimas da violência ocasionada pelo tráfico de drogas. Seguindo principalmente o princípio de valorização da vida e também visando a redução dos custos para o sistema público, torna-se evidente a necessidade de políticas públicas para a prevenção do consumo de drogas entre os jovens.

Qual a importância dos investimentos na área social para restringir o consumo de drogas nas escolas?
Com o intuito de reduzir os fatores de risco e, assim, prevenir o consumo de drogas pelos adolescentes, o gestor público pode atuar, ou por meio de iniciativas que envolvam a família e a escola, ou através de políticas sociais e econômicas como, por exemplo, a distribuição de renda, o combate ao crime e a redução da violência.

E as ações no ambiente escolar também não são importantes?
Sim. As ações no ambiente escolar também podem contribuir para a prevenção do consumo de drogas, uma vez que é neste ambiente que as crianças passam grande parte do tempo e também podem obter informações sobre drogas e seus malefícios. Por outro lado, se houverem jovens usuários de drogas frequentando a escola, é possível que os colegas destes jovens também entrem em contado com substâncias ilícitas por meio das interações sociais que ocorrem no ambiente escolar. Por isso, é de extrema importância que o poder público seja capaz de garantir, além do acesso à escola, educação de qualidade e um ambiente de convivência saudável para as crianças.

Que tipo de fatores podem ser a porta de entrada do jovem nas drogas?
Podemos alocar os fatores de risco relacionados à decisão dos jovens de consumir drogas em três categorias: características pessoais, biológicas e psicológicas; características sociais, da família e amigos; e características do ambiente, escola e o entorno. Destas três categorias, as características do ambiente são as que o poder público tem maior poder de atuação, por meio de políticas educacionais, de assistência social, de segurança pública, entre outras.

Qual a constatação do trabalho?
Os resultados indicaram que as características das famílias dos alunos são determinantes importantes do consumo de drogas dos jovens. Para atuar nesse sentido, o governo pode utilizar-se de políticas públicas de assistência social que visem reduzir o número de famílias em situação de risco e vulnerabilidade, uma vez o aumento de 1% nos gastos assistência social diminuiu em 1,1 pp a chance de o aluno experimentar drogas.

As evidências do movimento conjunto dos preços das commodities

priscila linck
Priscila Linck
Economista, 1º Lugar “XXIV PBE” Monografia de Graduação
Corecon-RS Nº 8527


Qual a proposta do trabalho “A Dinâmica de movimento conjunto dos índices de preços das commodities: Uma aplicação Econométrica”, 1º Lugar no XXIV Prêmio Brasil de Economia, categoria Monografia de Graduação?
O trabalho buscou identificar a existência de um movimento conjunto dos índices de preços de diferentes grupos de commodities, como energia, metais, matéria prima agrícola e alimentos e bebidas. Partindo de uma crítica à proposta de Fernando Ribeiro (2009), amparado pela teoria tradicional, que propõe que a diversificação das exportações, indiferente do produto, ainda que dentro do grupo de commodities, libertaria o país da vulnerabilidade externa e da susceptibilidade a problemas de restrição de balanço de pagamentos. Para identificar a existência de co-movimento entre os índices de preços supracitados, foram utilizados os Modelos de Mudança de Regimes Markovianos e os Modelos Vetoriais de Correção de Erros (VAR/VEC).

Por que defendes a tese da diversificação das exportações?
Nos últimos anos o tema tem sido abordado com grande frequência, em função do aumento da participação de bens primários na pauta de exportações brasileira e da dualidade das linhas de pensamento quanto aos efeitos dessa concentração para o desenvolvimento econômico. Em 1997, os produtos não classificados como indústria de transformação (NCIT) representavam 17% da pauta de exportações do Brasil. Vinte anos depois, em 2017, a participação passou para 38%. Neste último ano, os bens de baixa intensidade tecnológica, como alimentos, bebidas, couro, representaram 26% das exportações. Já os bens de média-baixa, média-alta e alta intensidade tecnológica, juntos, correspondem a 36% da pauta de exportações. Nesse contexto, surgiu a proposta de Fernando Ribeiro (2009), além de outros autores, de que a diversificação da pauta exportadora, indiferente do tipo de produto, é capaz de quebrar o pressuposto de restrição de balanço de pagamentos abordado na escola estruturalista.

Com base nessas linhas de pensamento, o que buscaste com o trabalho?
Justamente em função dessa contradição, busquei, através de uma análise empírica, comprovar se a diversificação apenas no segmento de commodities seria suficiente, visto que, se há um movimento padrão entre todos os preços de diferentes commodities, a diversificação no segmento não é suficiente para livrar o Brasil da vulnerabilidade externa e problemas de balanço de pagamentos, refreando o desenvolvimento econômico e justificando a necessidade de diversificação ampla das exportações.

Quais as constatações obtidas através de modelos de mudanças de regimes markovianos e dos modelos vetoriais de correção de erros?
Os modelos de mudança de regimes markovianos possibilitaram visualizar que existe a permanência de diferentes índices de preços em regimes coincidentes em semelhante período, ou seja, os níveis de preços altos e baixos são análogos no tempo entre diferentes commodities. Além disso, os modelos permitiram a percepção de que o comportamento dos preços dos alimentos e bebidas e matéria prima agrícola apresentam maior proximidade entre si, assim como energia e metais. Ambos os modelos vetoriais de correção de erros constataram a existência de cointegração entre as séries, resultado que corrobora a existência de comportamento análogo dos preços das commodities. Por fim, os resultados de impulso-resposta indicam que, de mesmo modo, dado um choque generalizado nos índices de preços das commodities, ambas apresentam a mesma resposta de expansão no curto prazo, e efeito final a níveis de preços mais elevados em relação ao período anterior ao choque.

De uma forma geral, a que conclusões chegaste?
Os resultados empíricos, através dos Modelos de Mudança de Regimes Markovianos e dos Modelos Vetoriais de Correção de Erros (VAR/VEC) comprovaram a existência de comovimento entre os preços das commodities, demonstrando quebras comuns nas séries, além de uma relação estável no longo prazo, o que invalida a hipótese de redução da fragilidade frente aos choques externos e à volatilidade de preços pela diversificação entre commodities, dado que os diferentes preços se comportam de forma análoga, como um único produto em períodos de preços baixos ou elevados, não surtindo resultado diversificar as exportações dentro do segmento. Tal conclusão abre a discussão para a questão do tipo de especialização produtiva da região, abordada no presente trabalho pela teoria estruturalista de Raúl Prebisch, Anthony Philip Thirlwall e Nicholas Kaldor.

O mercado e o novo governo

gustavo moraes

 

Gustavo Inácio de Moraes

Economista, Coordenador Curso de Ciências Econômicas PUCRS
Corecon-RS Nº 7863

 

O recado sobre economia dado pelo candidato eleito Jair Bolsonaro em seu discurso de vitória tem como objetivo confirmar suas pretensões liberais?

Sem Dúvida, tem pretensões de acalmar e estimular o mercado na tentativa de angariar o seu apoio no encaminhamento das propostas que o governo pretende apresentar, especialmente na busca pelo melhor ordenamento das contas públicas federais. Uma vez que dispõe do apoio popular, o apoio do mercado financeiro é uma outra maneira de criar legitimidade para melhor comunicar o que se pretende nas medidas em relação à sociedade. As pretensões liberais, contudo, serão confirmadas no decorrer do governo. Há, talvez, uma tensão dentro dos grupos de assessoramento e apoio político sobre a condução da política econômica, item reconhecido como de frágil compreensão própria pelo novo presidente. Assim, pode-se esperar polêmicas em temas como privatização, orçamento das forças armadas e previdência do regime próprio, civil e militar.

Como o mercado recebe a eleição do Bolsonaro?
Acredito que o mercado receba com a melhor das impressões, mesmo que o candidato, agora eleito, não tenha aprofundado suas temáticas durante a campanha. Por incrível que possa parecer, a crise econômica não foi o principal item de discussão e análise, mas antes pautas como segurança pública e questões de comportamento.

Mas e por que o otimismo do mercado?
A principal razão para o otimismo do mercado é a companhia de Paulo Guedes ao candidato e sua equipe de assessores, dentre os quais destaco a presença do professor e ex-deputado federal Marcos Cintra, com propostas para a reforma tributária. A perspectiva de, portanto, o novo governo adotar pautas liberalizantes, especialmente privatizações e reformas tributárias e previdenciárias, são potenciais agentes de atração de recursos na forma de investimentos em portfólio ou investimentos diretos estrangeiros. Contudo, é preciso cautela, pois essa mesma equipe econômica tem limitada vivência política, bem como a base de deputados aliados ao Bolsonaro, sobretudo em seu partido, o PSL, formada em sua maioria por novatos no processo político parlamentar. Outro risco é ainda a perda de popularidade, visto que estamos falando de alguém que até o momento cresceu politicamente conectado ao sentimento popular. Na hipótese de a popularidade diminuir, acredito que a perspectiva de um populismo econômico não estaria descartada. As pesquisas de popularidade serão um termômetro para o mercado também.

O empresariado já pode se sentir mais seguro para investir ou ainda deverá esperar a posse propriamente dita?
Acho que dependerá da forma como o governo irá se consolidar. O candidato demonstra uma maturidade inédita em sua carreira política, em seus pronunciamentos recentes. Há que se observar a consistência desse estado de espírito. De outra parte, o governo reúne excelentes condições para alcançar maioria no Congresso, realizando uma aliança com partidos como DEM, PP, PR, PRB, PTB, PSC e, até mesmo, o MDB e o PSD, pelo menos, que, juntos ao PSL, somam 239 cadeiras, ou seja, próximos da maioria.

Que cuidados o governo Bolsonaro deve priorizar neste primeiro momento?
Será importante o novo governo diminuir, entretanto, o cenário de indefinição relacionado ao clima de confronto na sociedade e entender que pautas envolvendo comportamento e segurança podem ser encaminhadas posteriormente, legitimadas pelos resultados na economia. O primeiro grande nó da economia brasileira é um nó fiscal. As propostas que equacionem esse aspecto são as mais urgentes. O segundo grande nó é como encaminhar as questões relativas à produtividade e obtenção de crédito consistente para permanente atualização do parque produtivo da indústria e dos serviços.

Que setores deverão reagir com maior velocidade à expectativa de recuperação da economia?
Acredito que o setor de não duráveis já possui um comportamento que mostra reação. A recuperação dos demais setores dependerá da retomada do emprego. Minha expectativa pessoal é de que a reforma trabalhista, recentemente aprovada, possa contribuir positivamente para a criação de empregos em um momento de recuperação, embora exponha o trabalhador em momentos de recessão. De toda forma, pode-se evidenciar que os resultados fiscais equilibrados contribuem para a geração de empregos, uma vez que estimulam investimentos e sua previsibilidade. Os setores de investimento dependentes do crédito, como construção civil, bens duráveis e serviços e produtos de tecnologia serão os maiores beneficiados da retomada.

O mercado e a lua de mel com as reformas

joao fernandesJoão Fernandes

Economista Quantitas Asset Management
Corecon-RS Nº 8151

 

Como o mercado está vendo essa reta final do processo eleitoral?
O mercado está, já há algum tempo, oscilando conforme as perspectivas econômicas de 2019. É sabido que o Brasil hoje precisa de reformas quase emergenciais, principalmente a da previdência. Ela tem que sair logo. Já está atrasada, em função do déficit fiscal que se tem. Então, quanto mais houver a perspectiva de uma reforma em 2019, o mais cedo possível, especialmente no primeiro semestre do ano, mais o mercado fica otimista ao ver que as coisas vão realmente ter condições de melhorar.

De que forma o mercado reage a essas perspectivas?
Aí começa a precificação com o Brasil e o movimento que se percebe, com o dólar caindo, saindo de um patamar recente, de R$ 4,10 e, agora, chegando a R$ 3,70. Para tudo isso é preciso ter uma política econômica reformista para 2019 porque o candidato que está liderando nas pesquisas, através de seu assessor econômico Paulo Guedes, que tem muita ciência do problema fiscal no Brasil, já vem há algum tempo acenando com uma proposta de governo reformista e indicando que vai atacar esse problema de forma muito agressiva, com uma reforma forte. É claro que existem desafios e dúvidas se de fato o candidato, eleito, irá respaldar o Paulo Guedes até o final e, se assim o fizer, se irá conseguir aprovação no Congresso. Não que as metas já tenham sido dadas, mas a partir do momento que você tem um economista muito bem visto, muito técnico, muito qualificado, liderando uma equipe econômica que deverá ser muito competente, e mostrando publicamente que é favorável às reformas o mercado naturalmente passa a adquirir uma postura mais otimista com o Brasil.

A tendência é de que quando as perspectivas da economia são boas, a cotação das empresas na bolsa sobe e o preço do dólar no mercado cai?
Lógico que ocorrem alguns dias em que os movimentos de volatilidade não necessariamente estão alinhados com essa concepção teórica. Não necessariamente existe essa correlação. A bolsa é uma conjunção de ações de diferentes no mercado de renda variável, no mercado de ações, que tende a refletir o valor de empresas no mercado. O dólar tem a ver com a nossa moeda, já que está relacionado ao fluxo de capitais, de entrada e saída de recursos do Brasil. Então, são movimentos impulsionados por fatores diferentes. As ações no Brasil têm relação com perspectiva de crescimento, com perspectiva lá fora de entrada de capital aqui dentro, no mercado de ações, de empresas de outros países. O dólar é influenciado mais por fluxo de capital que entra no país, independentemente de mercado. Para entrar em um mercado qualquer, você estará operando na moeda real e não necessariamente no mercado de ações. Muitas empresas aqui no Brasil fazem operações em dólar quando vêem que esse mercado começa a buscar travas para poderem aproveitar esses valores de moeda, seja para importar ou exportar, dependendo do objetivo delas. O ponto é que não se pode concluir que seja uma relação mecânica de que quando o preço do dólar sobe a cotação da bolsa, obrigatoriamente, teria que cair ou vice e versa. Isso não existe. Claro que há uma correlação, mas não é mecânica nem perfeita.

Passadas as eleições, a tendência é de estabilização de expectativas?
Vamos perceber o mercado precificando a perspectiva de fazer reformas, já que o momento nos apresenta uma tendência de fazer reformas. É certo que o Brasil agora, nesse movimento inicial que atingimos, experimenta uma valorização significativa dos ativos, inclusive muito maior que em países emergentes. É difícil prever esse comportamento, uma vez que o mercado ainda está com essa perspectiva de reformas. E, neste cenário de lua de mel com reformas, para existirem movimentos efetivos de valorização, tem que ser entregues as reformas. Tem que construir, mostrar uma boa proposta, articular a sua aprovação com o Congresso a aprovação. É o que o mercado está, definitivamente, esperando acontecer.

O Economista e a mediação e arbitragem

rubin

 

Luiz Antônio Rubin

Economista, Mediador e Árbitro Câmara de Mediação e Arbitragem CREA-PR, Câmara de Mediação e Arbitragem do Paraná, Mediador e Conciliador no TJPR, Coordenador CTC/IMA
Corecon-PR Nº 1778

 


Como a mediação e a arbitragem podem ser um campo de trabalho para o economista?
Eu sempre digo em palestras e cursos que ministro, que a área da mediação e da arbitragem também é um campo muito forte de atuação para o economista. O economista também tem todo o direito legal de exercer tais atividades, uma vez que elas não são exclusividade de qualquer outra profissão.

O que é necessário para atuar nessa área?
Em primeiro lugar, o interessado em entrar nessa área da mediação e da arbitragem tem que preparar-se muito bem. Estudar a mediação e estudar a arbitragem. Conhecer os temas com bastante profundidade para que consiga desenvolver um trabalho eficiente, um trabalho que produza resultados e, principalmente, para que seja um trabalho responsável.

Onde podem ser encontradas as oportunidades no mercado de trabalho?
Oficialmente, existem as Câmaras de Mediação e Arbitragem, onde o economista, como qualquer outro profissional, pode se inscrever-se. Cada Câmara tem suas peculiaridades e seus próprios critérios para a inscrição. Ele deve dirigir-se até a Câmara, ver quais as exigências para atuação e ver se ele atende a esses critérios. No entanto, é importante ressaltar que, ao procurar determinada Câmara, primeiro busque informações sobre a idoneidade dessa instituição perante a sociedade. É que você pode estar entrando em uma Câmara que não seja suficientemente séria e que, através dela, possa correr riscos de ser contaminado por uma imagem negativa, refletindo em seu nome profissional. Primeiro informe-se sobre quem instituiu a Câmara, qual o grau de seriedade, que instituição está por trás dela, e qual a possibilidade dessa Câmara ter um trabalho continuado e sério.

Onde se busca a qualificação para exercer a atividade de mediação e arbitragem?
Tanto a lei da arbitragem quanto a da mediação não exigem uma qualificação específica, com exceção da mediação judicial. Você não é obrigado a ter um curso de mediação e arbitragem. Porém, como isso é um trabalho que atinge diretamente as pessoas, é necessário que você faça um trabalho correto e eficiente, o que será alcançado através de uma boa qualificação e conhecimento. Isso pode dar-se através de um curso, onde, ressalto mais uma vez, é importante atentar para a importância da seriedade da instituição. O Conselho Nacional das Instituições de Mediação e Arbitragem (Conima) tem, em seu site, informações básicas sobre o tema. Porém, é muito importante fazer esse curso com profissionais da área, que possam dar-lhe informações e conhecimentos assistidos. Hoje, segundo o Conima, o curso de mediação e arbitragem possui uma carga horária que oscila entre 80 e 100 horas, no mínimo. Em Curitiba, por exemplo, nós temos o Instituto de Resolução de Conflitos, Mediação e Arbitragem (IMA), que ministra cursos com 100 horas. Lá, após fazer um estágio complementar, o indivÍduo sai com qualificação muito firme sobre os dois institutos de resolução de conflitos.

Qual a diferença entre conciliação, mediação e arbitragem?
Na conciliação, o conciliador é um agente diretamente ativo. Ele ajuda as partes a caminharem numa direção. Ele sugere, pondera e encaminha uma solução. O mediador não pode fazer isso. Ele ajuda as próprias partes a refletirem sobre o problema, de forma que elas mesmas, entre si, cheguem a uma solução. O conciliador pergunta: “Por que vocês não fazem assim, que tal vocês dividirem essa diferença”. Já o mediador diz: “Como vocês pensam em resolver o problema”. Ou seja, a resposta tem que ser, obrigatoriamente, das partes. O mediador só conduz o processo. A mediação é regulada pela Lei 13.140/15 de 26/06/2015. Já, na arbitragem, que resolve conflitos sobre bens patrimoniais disponíveis, as partes delegam ao árbitro a atribuição de decidir sobre o litígio, através de sentença arbitral, que é um título executivo judicial e não possibilita recurso. A arbitragem é regulada pela Lei 9307/96, de 23/09/1996 e pela Lei 13.129/2015, de 26/07/2015. É importante enfatizar que a mediação e a arbitragem são institutos de resolução de litígios que já estão fazendo parte do cotidiano das pessoas e passam a ser alternativas de atuação para os economistas. É preciso preparar-se.

Economia serrana e reação à crise

tarcianoTarciano Melo Cardoso

Economista Chefe e Sócio da área de M&A da Ferrari Gestão de Ativos, presidente da
Associação dos Economistas da Serra Gaúcha (Ecoserra)
Corecon-RS Nº 7901

 

Qual o perfil da economia da Região de Caxias do Sul?
O perfil econômico da Serra Gaúcha é bastante concentrado na indústria, principalmente na metalmecânica. Além da indústria, desenvolveu-se ao longo dos anos uma grande quantidade de empresas nas áreas de comércio e serviços, além do turismo nas cidades em torno de Caxias do Sul.

Como a economia local enfrentou esse período de recessão?
A economia da Serra Gaúcha passou por uma forte escalada, nos custos de produção, muito alicerçada por uma demanda acima da oferta, fazendo com que alguns setores, aumentassem seus custos fixos com investimentos necessários para atenderem a demanda, além de aumentos consecutivos no custo da mão de obra, custo de logística e principalmente custo com produtividade ou com a falta desta. Ao se entrar no período recessivo, tais custos fixos, como mão de obra e de produtividade, sobressaíram aos balanços encolhendo as margens dos negócios e tornando os balanços das companhias negativos. Vieram as demissões em grandes quantidades, as reduções de jornadas e por consequência refletidas em salários, que outrora eram engordados com grande quantidade de horas extras nas indústrias, fator este, que, já incorporado mentalmente ao salário, fora base garantidora para financiamentos de longo prazo para os trabalhadores. Com a redução deste excedente, o volume de endividamento das famílias aumentou, agravando a crise via redução do consumo, encolhendo, na sequência, setores do comércio e serviços. Não me recordo de ver antes, quadras inteiras com salas fechadas esperando por meses uma mudança de viés para que as placas de “aluga-se” fossem sucedidas por nomes de novos negócios e destaques publicitários para alcançar o público alvo.

Já se pode perceber sinais de retomada da economia da região?
Se não há sinais de escalada de crescimento, ao menos nota-se uma estabilidade, diferente dos períodos anteriores de queda livre de indicadores. Tínhamos ao início do ano, um brilho no olhar dos empresários, que aparecia como um suspiro de esperança após longos períodos de duras perdas. Todavia, ao passo em que alguns tropeços de políticas e de reformas estruturais vinham tomando forma, traduzindo-se em indicadores econômicos mais tímidos, a confiança dos agentes econômicos acaba relembrando o passado recente e os projetos que estavam em trajetória ascendente para implantação de curto, médio e longo prazo, perdem sua velocidade de execução. Claro que, comparada ao ano anterior, a evolução da economia local é sem dúvida perceptível, com aumento de produção, redução da ociosidade nas fábricas e nos estoques.

Que setores vêm se destacando positivamente?
No acumulado de 12 meses todos os setores vêm apresentando indicadores positivos. Merece destaque a indústria, que é o grande motor da economia de Caxias do Sul, o qual chega a 8,5% no acumulado de 12 meses findos em agosto. Este setor emprega grande quantidade da população e sua retomada acaba aquecendo os setores do comércio e serviço, onde este último, alcançou a marca de 9,6% em 12 meses. No caso do comércio, o retardo na chegada do inverno fez com que os resultados dos comerciantes fossem prejudicados, principalmente aqueles dependentes das datas festivas, ocasionando um aumento significativo nos prazos médios de estocagem e por consequência, aumento na necessidade de capital de giro.

Algum setor ainda apresenta dificuldades de reação?
Dificuldade de reação é uma questão muito delicada de se tratar. Nota-se que há uma evolução em todos os setores, todavia a confiança dos agentes econômicos foi muito prejudicada nos últimos períodos. Logo, ao passo que os resultados vão se consolidando, esta confiança aumenta e a retomada ganha robustez. Fato recente foi a crise dos caminhoneiros que, mesmo afetando a economia, não fez mudar o viés de retomada. Por outro lado, acionou um sinal de alerta, visto que instabilidades podem surgir e, a depender da intensidade destas instabilidades, o grau de confiança dos agentes econômicos pode ser prejudicado, reduzindo a intensão de consumo, bem como, de investimentos.

Como está o índice de desemprego na região?
O mercado formal de trabalho vem apresentando índices positivos no agregado de 12 meses de 2018, com exceção do comércio em Caxias do Sul, que ainda apresenta índice negativo. Em geral o mercado vinha em redução acelerada nos postos de trabalho, onde em quatro anos foram mais de 20mil postos de trabalho extintos em Caxias do Sul, porém em 2018 mais de 25% desta queda foi recuperada, com forte representatividade na indústria.

Que tipo de experiência se pode tirar dessa crise?
Vejo que os principais ensinamentos que deveremos guardar é que, planejamento deve ser estudado e revisado com muita cautela. O que mais se ouviu nos últimos tempos foi “a culpa é da crise”. Claro que diante de crises agudas como a recente, não há instrumentos que possam precificar, até porque, sua evolução e amplitude se dão no agregado e com redução expressiva da confiança nos agentes econômicos. Todavia, a Economia é a ciência que estuda a utilização dos recursos escassos, quando passamos por tempos de bonança ou falsa bonança, financiados por algum consumo acima do ponto de equilíbrio, que apresentará em sua sequência um ajuste para o centro da meta ou para o ponto de equilíbrio. Porém, estávamos acostumados a receitas de gestão de negócios, onde a análise superficial de indicadores macroeconômicos era utilizada sem filtro ou a devida análise de variações em cenários e seus respectivos planos de ação preventivos, fora descartada em prol de agilidade no processo orçamentário. E quando instaurou-se a desconfiança dos agentes econômicos, nos restou apenas culparmos a crise, pela falta de gestão público e privada.

De que forma os empresários vêm acompanhando o cenário mundial?
Caxias e a Serra Gaúcha, tornaram-se uma região, assim como, praticamente todas as outras extremamente conectadas com o mundo. Bastante prejudicada com a questão de logística para chegada de matéria prima e saída de produto acabado, mas que tem seus olhos voltados para a economia e tendências globais. Assim como os aspectos acima citados, todo o movimento nas transações comercias entre as nações, taxações americanas e restrições a produtos de outras nações, fazem com que o empresário, insira em suas análises mais um fator de risco a ser condicionado em seus planos de ação para mitigar possíveis resultados contrários ao planejamento. Entretanto, isto gera da mesma forma oportunidades de negócio e tudo passa por uma questão de análise e capacidade de adaptação às incertezas presentes, tanto no cenário nacional, quanto internacional.

Como a alta do dólar nos últimos dias vem sendo recebida pelos empresários?
A alta do dólar é um fator preocupante, pois ela afeta nos custos de matéria prima, bem como, de logística. Entretanto, para setores exportadores o dólar em alta e algo positivo. O que torna a capacidade de gerir mais vulnerável são as oscilações da moeda, bem como, a estrutura de instrumentos de hedge e equilibrar esta volatilidade cambial, ao nível ótimo de produção, custo marginal e necessidade de capital de giro.

Existem expectativas de ampliação dos negócios?
No setor real da economia e estruturada como está a matriz econômica da Serra Gaúcha, a ampliação de negócio é algo natural. Não há outra forma. Existe uma grande quantidade de pessoas nesta região, que precisam suprir suas necessidades básicas de sobrevivência. Claro que existem riscos e questionamentos quanto a cenários macroeconômicos, mas os conceitos da microeconomia, onde o interesse individual prevalece e acaba por beneficiar a sociedade a sua volta vão sobressair. Pode haver alguma consolidação de mercado, a capacidade de mutação dos agentes econômicos é significativa. O setor privado e a população são demandantes de reformas estruturais, às quais vão acontecer. Investimentos precisam acontecer, se não com administração pública direta, parcerias público privadas ou totalmente privadas, surgirão remodelando a logística, equilibrando a equação de capital e trabalho, movimentando a economia, retomando a confiança, investimento e consumo.

RS e cenários das economias do Sul

Izete fotoIzete Pengo Bagolin
Economista, professora da PUCRS,
Bolsista de Produtividade em Pesquisa CNPQ
Corecon-RS N° 7597

 

O Rio Grande do Sul corre algum risco de perder a quarta posição no ranking nacional?
Sim. Os investimentos e negócios existentes no Rio Grande do Sul vêm perdendo dinamismo, e o ambiente atual não tem se mostrado atrativo para novos investimentos. Em função disso, o estado está ameaçado de perder a quarta posição para o estado do Paraná em futuro bem próximo.

O que falta acontecer para que essa tendência se reverta?
Falta o estado conseguir, aos poucos, ir enfrentando seus desafios e retomar o rumo do desenvolvimento. Diante da atual conjuntura do estado não é prioridade focar na posição comparativa com o Paraná ou qualquer outro estado. A prioridade é retomar a capacidade do estado de cumprir seu papel de garantir serviços públicos de qualidade como segurança, educação e saúde e viabilizar um ambiente adequado para atrair investimentos.

Qual a estrutura atual da economia gaúcha?
Apesar de ser um estado conhecido pela importância da agropecuária, este é o setor que possui a menor participação no valor adicionado bruto (VAB) do estado. O Setor de serviços é o que apresenta maior participação no VAB e também o que possuí maior número de pessoas ocupadas.

O RS está no caminho certo para a solução das finanças públicas?
Ainda é prematuro afirmar se o estado está ou não no caminho certo, pois não é evidente que o caminho tenha sido encontrado. O que é possível perceber é que existe um esforço para encontrar saídas e uma maior conscientização sobre essa necessidade e urgência.

Que tipo de cenário aguarda as três economias do sul do país para os próximos anos?
Certamente um cenário de desafios e de oportunidades, que exigirá muita maturidade, competência e capacidade de tomar decisões, tanto dos gestores públicos quanto dos empreendedores. Certamente, os desafios do Rio Grande do Sul são maiores, uma vez que, além de retomar as atividades que arrefeceram em função da crise nacional, precisa também continuar buscando soluções para as crises internas (das finanças, da segurança e da infraestrutura).

Os desafios da economia catarinense

rose irene

 

Rose Irene Souza Neves
Economista, Analista de Projetos para financiamento a prefeituras do BRDE
Corecon-SC Nº 1840

 

Qual a estrutura atual da economia do estado de Santa Catarina?
A economia catarinense é bastante diversificada e regionalizada por setores de produção bem definidos. A Grande Florianópolis destaca-se nos setores de tecnologia, turismo, serviços e construção civil. A região oeste concentra atividades de produção alimentar e de móveis. O Planalto Serrano tem a indústria de papel, celulose e da madeira. A região sul do estado destaca-se pelos segmentos do vestuário, plásticos descartáveis, carbonífero e cerâmico. O Vale do Itajaí concentra a indústria têxtil e do vestuário, naval e de tecnologia, e na região norte, predomina o setor metal-mecânico, moveleiro e polo tecnológico. Essa diversificação e concentração em arranjos produtivos explica o maior equilíbrio do mercado, em relação à média brasileira, em tempos de crise. Outro fator importante a se destacar é a potencialidade turística do estado. Nesse cenário, com um vasto litoral, praias paradisíacas e infraestrutura capaz de receber milhares de visitantes anualmente, o turismo impulsiona a economia regional como um todo.

Qual a situação atual da economia do estado de Santa Catarina?
A economia catarinense acelera, mesmo diante de um contexto desfavorável. Destaca-se pelo grande número de micro e pequenas empresas, economia diversificada e espírito empreendedor de seu povo. Talvez, por isso, tenha sofrido menos os impactos da atual conjuntura em comparação à média brasileira. O índice da atividade econômica do estado, com base nos indicadores dos últimos 12 meses até junho, teve um crescimento de 4,7%, sobre o mesmo período anterior. O Brasil, segundo o IBC-Br do Banco Central, considerado uma prévia do PIB, cresceu 1,3% no mesmo período. Apesar dos problemas econômicos e expectativas quanto ao cenário político para o próximo período, houve uma intensificação do ritmo da atividade econômica de Santa Catarina em 2018. A indústria catarinense, na comparação de 12 meses, teve crescimento de 4,8%, permanecendo acima da média nacional de 3,2%, com destaque para os setores metalúrgico (29,7%) e automotivo (12,4%). O setor agropecuário ainda está se recuperando dos embargos havidos em dezembro de 2017, com relação à carne suína, e em abril de 2018, com carnes de aves, além dos efeitos da greve dos caminhoneiros, pela falta de insumos e perda de plantel. Já o setor de serviços, depois de três anos de retração, está em recuperação, refletindo o avanço dos demais setores. Com relação às exportações, Santa Catarina mantém-se como oitavo estado exportador, com 3,73% do total do país, tendo exportado US$ 5,08 bilhões no acumulado do ano.

Que fatores vêm sendo definitivos para o crescimento da economia catarinense?
Apesar dos efeitos da conjuntura nacional/internacional, cujo reflexo impacta de forma contundente nos setores produtivos diretamente expostos às políticas de fornecimento e preços, Santa Catarina aposta em tecnologia e novos nichos de mercado. O que se pode observar, como resultado dos indicadores econômicos-fiscais apresentados, é que, mesmo nessa fase de retração, diversos setores continuam investindo em suas atividades, o que é fundamental para a retomada do crescimento. Há uma expectativa de PIB para Santa Catarina, em 2018, de 4,7% , acima da média do país (1,3%), o que já ocorreu em 2017, quando o estado teve um PIB de 4,0%, superior à média do Brasil, de 1%. A expansão dos polos tecnológicos, a crescente onda de startups e aceleradoras, e outros nichos de mercado, vêm sinalizar que a economia catarinense tem muito espaço pra crescer, mesmo em tempos de crise, retração ou expectativa. Também, a atenção às atividades relacionadas ao turismo estão sendo fundamentais para o crescimento da economia catarinense.

Como está a situação financeira do estado?
A capacidade de o estado investir em suas atividades fins, como saúde, educação, segurança, entre outros, depende de seu equilíbrio orçamentário. Mesmo com passivos elevados, se o saldo patrimonial do ente for confortável, à vista de suas obrigações de médio e longo prazos, no curto prazo, sua preocupação deve se concentrar no balanço orçamentário, equilibrando receitas e despesas. O saldo patrimonial do estado, verificado no Balanço Anual/2017 é da ordem de R$ 20 bilhões. Já o balanço orçamentário, em 2017, apresentou receitas e despesas correntes da ordem de R$ 21 bilhões. Em julho, a Receita Corrente Líquida foi R$ 1,8 bilhão; no acumulado do ano, apresentou uma elevação de 4,7%, onde a Receita Tributária contribuiu com um crescimento de 9,5%, sinalizando melhora no resultado orçamentário. Para equilibrar suas contas, o governo busca reduzir despesas e expandir receitas, resultantes do aumento da atividade econômica, com a consequente elevação da receita tributária.

Santa Catarina está no caminho certo para a solução das finanças públicas?
As soluções para equilíbrio das finanças públicas são diversas e estão nos planos e propostas dos candidatos ao governo do estado. Um dos grandes problemas para resolver em Santa Catarina, entre outros, tidos como “esqueletos”, segundo Estela Benetti, em trabalho intitulado “Os desafios nas contas de Santa Catarina em 2018”, é o déficit da previdência dos servidores. Difícil responder se estamos no caminho certo, quando não há muita opção de caminho. A Lei de Responsabilidade Fiscal já impõe diversos limites e condições para os gastos do governo. Portanto, sem aumento de receitas e/ou redução de despesas, não há solução para equilíbrio. Dependemos de políticas públicas apropriadas e o que define se uma política é ou não apropriada é como ela é estruturada. Por exemplo, como aumentar receitas, sem aumentar a carga tributária; e, pela despesa, como reduzir gastos sem diminuir serviços públicos. Enfim, há que haver comprometimento do governo e da população. Há que se cobrar eficiência do serviço público.

Que tipo de cenário aguarda as três economias do sul do país para os próximos anos?
Acredito que o Brasil como um todo está em compasso de espera. Podemos vislumbrar diversos cenários, dependendo do candidato que vencer as eleições. Teremos um governo de direita, de extrema-direita, de esquerda, de coalisão? Já existem esses cenários generalistas, atualizados diariamente, conforme as prévias eleitorais, para fins de investimento e mercado de capitais. Resta-nos ficar atentos para focar nas oportunidades. Seja qual for o plano de governo do próximo presidente, há regras pré-estabelecidas a cumprir, o que nos dá fôlego para redirecionar estratégias e se reposicionar economicamente.

Paraná, rumo à quarta economia!

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Carlos Magno Andrioli Bittencourt

Economista, Professor universitário, Consultor de Empresas
Corecon-PR Nº 5207

Qual a situação atual da economia do Paraná?
No Paraná, hoje, há um fórum, organizado pela Associação Comercial do Estado do Paraná, denominado “Rumo à quarta Economia” que, como o nome diz, busca discutir as condições para que o estado alcance a quarta posição no ranking da economia brasileira, hoje ainda ocupada pelo Rio Grande do Sul. O Paraná vem, desde 1948, ocupando a quinta posição nesse ranking brasileiro e, agora, estamos disputando diretamente essa posição com o estado gaúcho.

Que fatores têm sido definitivos para o Paraná estar conquistando essa nova posição?
As potencialidades existentes no estado é que nos tem acenado com essa nova posição. O agronegócio do Paraná tem tido uma preponderância, assim como o setor industrial que, com suas montadoras e toda a cadeia produtiva que acompanha o setor, vem criando um ciclo com geração de riqueza de toda a indústria. Também tem o setor serviços que, como a exemplo de todo o Brasil, se destaca por sua pujança. Apenas para se ter uma ideia, no primeiro semestre deste ano, fomos o quarto estado do país que mais gerou empregos, segundo dados do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados), do Ministério do Trabalho. Então, há uma combinação, acompanhado também de duas grandes empresas relacionadas à geração de energia: a Refinaria da Petrobras e a Itaipu Binacional. É um conjunto de competências e de potenciais que vem crescendo a todo momento.
O Paraná vem ganhando espaço na renda industrial do País. Segundo a Pesquisa Industrial Anual (PIA) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE, a indústria de transformação do Estado é a terceira maior do Brasil, ficando atrás apenas de São Paulo e Minas Gerais.

Qual a estrutura atual da economia do Paraná?
Hoje predomina o setor de serviços, que é muito forte. Depois, temos o agronegócio e a indústria. Então, esses três fatores atuam em equilíbrio, na busca por um desenvolvimento mais homogêneo da economia paranaense.

Como está a situação financeira do estado?
O estado do Paraná continua fazendo investimentos em relação à receita corrente líquida (RCL) dos investimentos, que têm sido elevados. Também há uma estabilidade na economia como um todo. É que o governo anterior conseguiu adotar medidas e ações governamentais, de tal forma que se conseguisse esse equilíbrio. O pagamento do funcionalismo, do servidor público e dos aposentados e pensionistas, por exemplo, encontra-se rigorosamente em dia.

Que tipo de cenário aguarda as três economias do Sul?
Visamos fazer uma absoluta sinergia entre os três estados do Sul, de tal maneira que possamos, pelo potencial que nossas economias possuem e pela riqueza que geramos, nos unir cada vez mais, colaborando, assim, para o crescimento e desenvolvimento econômico do Sul do país e do Brasil como um todo.

O peso da previdência na dívida dos estados

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Darcy Francisco Carvalho dos Santos
Economista, Auditor-Fiscal Sefaz-RS aposentado, Conselheiro Corecon-RS
Corecon-RS Nº 3755

 

 

Como está a situação financeira atual dos estados brasileiros?
A situação financeira dos estados brasileiros é altamente preocupante. A receita corrente líquida (RCL) nos anos de 2015 a 2017 decresceu, em média, 3,7%, em termos reais. Com exceção do Amapá, que não divulgou os dados, dos 26 estados, 18 registraram crescimento negativo da RCL nesse período. O que apresentou o maior crescimento foi o estado do Mato Grosso (6,2%), seguido de Paraná (5,6%). O Rio Grande do Sul cresceu apenas 0,5%, enquanto o Rio de Janeiro apresentou decréscimo de 10,4%. O Espírito Santo ficou em último lugar, com -15,6%, e São Paulo, com -8,8%. Em 2017, 16 estados apresentaram déficits orçamentários, 13 registraram déficits primários e 11 tiveram margem negativa para investir.

Que estados enfrentam piores níveis de endividamento?
Em 2017, o estado de endividamento era o Rio de Janeiro, com 2,32 vezes a RCL, seguido do Rio Grande do Sul, com 2,13, Minas Gerais com 2,03 e São Paulo com 1,75. A relação média é 0,71, e a mediana, 0,50. Isso que dizer que a metade dos estados deve menos de 50% da RCL e a outra metade deve mais de 50%.

Que estados enfrentam piores condições com a previdência?
Os que ocupam piores posições na questão previdenciária são Minas Gerais, com 39,9% da RCL, seguido do Rio Grande do Sul, com 38,7%, e Rio de Janeiro com 36,9%. Depois vem Rio Grande do Norte (35,7%), Sergipe (27,8%) e Santa Catarina (27%). Em todos eles, a comparação é em termos brutos, já que nem todos adotam a mesma alíquota de contribuição previdenciária.


Por que o controle dos gastos com previdência é fundamental para o equilíbrio das contas públicas?
Os gastos excessivos com previdência acabam retirando recursos de outras funções básicas dos estados e, ainda, impedindo um pagamento melhor para os servidores ativos, resultando em prejuízo para os serviços públicos e déficits orçamentários.

Como está a situação dos três estados do Sul, Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina, na questão previdenciária?
O Rio Grande do Sul, com um gasto bruto de 38,7% é o que apresenta pior situação na Região Sul, seguido de Santa Catarina, com 27%, e Paraná, com 23,3%. O mais preocupante é o crescimento, já que em 2008 as suas despesas previdenciárias eram de 29,5%, 16,8% e 17,6%, respectivamente. É importante lembrar que o estado do Paraná editou lei, em 2015, permitindo o uso dos recursos do fundo previdenciário, em capitalização, para atender despesas do fundo financeiro, em repartição simples, para pagar benefícios previdenciários de quem, até 30 de junho daquele ano, tivesse 73 ou mais anos de idade. Santa Catarina cancelou a segregação das massas, anulando o regime de capitalização, embora tenha criado a previdência complementar. Nossos vizinhos estão em situação muito melhor que a nossa, mas se nada for feito, no longo prazo, poderão apresentar dificuldades semelhantes às que o Rio Grande do Sul está apresentando hoje.

O que falta para esses estados resolverem seus problemas previdenciários?
Falta uma reforma da previdência, sem o que a maioria dos estados brasileiros ficará autofágica, ou seja, muitos existirão para sustentar a própria máquina, porque o valor da folha de inativos e pensionistas será maior que a de ativos, como já acontece no Rio Grande do Sul.

Esses estados conseguem sair sozinhos da crise, sem a ajuda da União?
No momento, alguns estados, especialmente RS, RJ e MG, que apresentam as piores situações, só poderão sair da crise aderindo ao Regime de Recuperação Fiscal (RRF). Sabe-se que a RRF não é a melhor solução, mas sem ele os déficits serão enormes, já que possibilitará a volta dos pagamentos da dívida que, no caso do RS, estão suspensos por medida liminar junto ao STF. O estado do Rio de Janeiro também já aderiu ao RRF. Uma advertência, no entanto, precisa ser feita aos estados que aderirem ao RRF. Se eles não aprofundarem o ajuste fiscal e a economia não voltar a crescer, no final dos seis anos de vigência do Regime, a situação poderá ficar pior do que está.

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Até onde vai o dólar

cecilia
 
Cecília Hoff
Economista, professora da Escola de Negócios da PUCRS
Corecon-RS Nº 7659

 

O que está acontecendo com o dólar?
Essa situação do câmbio é meio paradoxal. É que, do ponto de vista dos fundamentos das contas externas, a situação brasileira é favorável. Temos praticamente equilíbrio nas transações correntes e o fluxo de investimento direto no país, até caiu um pouco, mas ainda está elevado, na casa dos U$ 60 bilhões este ano. Então, do ponto de vista do balanço de pagamentos, o país está bem. E ainda, temos em torno de U$ 380 bilhões de reservas e o Banco Central reduziu a exposição em swaps. Então, haveria fôlego para colocar swaps cambiais para tentar reduzir a volatilidade do dólar, mesmo que não exista a intenção do Bacen de interferir para que a taxa encontre o seu novo patamar, seja ele qual for.

Onde entra a volatilidade da moeda, que faz com que o dólar esteja subindo tanto nos últimos dias?
O real é muito negociado nos mercados futuros mundiais. Só para se ter uma ideia, o real é a terceira moeda mais negociada nos mercados de derivativos financeiros, segundo os dados do Banco de Compensações Internacionais (BIS). Só perde para o euro e o dólar. É algo que não tem proporção, nem com a nossa participação no PIB mundial e nem com a nossa participação no comércio. Em função disso, o real acaba sendo uma moeda muito volátil.

Mas por que isso?
Pode ter uma série de explicações, não há uma explicação única e é uma agenda de pesquisa ainda em aberto. Contribuem para isso diferencial de juros, que por muito tempo foi elevado e o fato de o real ser uma moeda commodity de um país emergente, mas que tem um mercado de derivativos desenvolvido. O resultado disso é que a moeda fica muito mais volátil diante de qualquer acontecimento, tanto no mercado interno como no mercado externo. Então, qualquer turbulência, por menor que seja, faz com que se alterem as posições no mercado futuro, que acabam se transmitindo para o mercado à vista. Por exemplo, no segundo trimestre deste ano, quando houve uma mudança na expectativa em relação à política de juros dos EUA e se consolidou a ideia de que o juro subiria mais rápido do que o esperado, o real se desvalorizou junto com outras moedas de países emergentes. Esse movimento aconteceu mais pela compra de dólar no mercado futuro do que por uma saída de dólar físico de dentro do país. Uma expectativa de crescimento maior nos EUA, que leva a uma expectativa mais rápida de alta de juros, provoca essa realocação de portfólios no mercado futuro, repercutindo no mercado à vista.

E a greve dos caminhoneiros também não acabou trazendo impactos para o câmbio?
Sim. Logo depois disso, houve a greve dos caminhoneiros que, por sua vez, também fez com que muitos investidores estrangeiros vendessem ações da Petrobras, e, ao fazer isso, também foram desmontadas posições no mercado futuro, o que também ajudou o dólar a alcançar a casa dos R$ 3,80.

E essa alta recente está mais relacionada a questões internas?
Existem questões externas, ainda relacionadas com os eventos da economia americana, mas também com a crise na Turquia, mas a alta recente parece refletir questões mais internas, relacionadas aos resultados das pesquisas eleitorais. É que as incertezas com as eleições geram um certo pânico no mercado, principalmente nos investidores estrangeiros, que passam a comprar dólar futuro, trazendo essa volatilidade à moeda.

Essa situação é semelhante a que ocorreu por ocasião da primeira eleição do Lula?
A situação hoje, do ponto de vista dos fundamentos, é muito diferente daquela de 2002, quando o Lula ganhou as eleições. A incerteza daquela época levou o dólar a R$ 4,00 e hoje, se fossemos atualizar aquele valor, seria algo entre R$ 7,00 e R$ 8,00, o que seria uma grande desvalorização. Acho mais difícil acontecer isso hoje porque a nossa situação do ponto de vista do balanço de pagamentos é mais confortável.

Por que?
Naquela época, as reservas internacionais eram baixas, o déficit de transações correntes era elevado como proporção do PIB e o investimento direto no país era mais reduzido. Acho que a alta recente reflete muito mais um movimento provocado por essas mudanças de portfólio nos mercados futuros, que se ajustam às novas expectativas em relação às eleições e aos eventos da economia dos EUA. Cenário que, por sinal, ainda está muito incerto e deve continuar trazendo volatilidade.

Economia e eleições

gorskiGustav Gorski
Economista-Chefe GAP Economics
Corecon-RS Nº 6931

A economia brasileira ainda vive o impacto da greve dos caminhoneiros?
O país viveu um choque de ofertas, por ocasião da greve dos caminhoneiros, que teve um impacto nas projeções de crescimento para o ano, já que estavam em torno de 2,5% e os números hoje estão mais próximos de 1,5%, talvez até um pouco mais baixo que isso. Teve uma questão inflacionária, que estávamos esperando em torno de 3,2% ou 3,5% e esse número está mais próximo de 4% ou 4,1% em função do choque de ofertas que tivemos ali naquele período de maio, junho.

O que nos espera até o final do ano?
O que fica para o segundo semestre é uma recuperação econômica tímida, com uma inflação que deve se manter baixa, por mais que esse câmbio tenha se desvalorizado ao longo do ano. O choque foi claramente temporário. A inflação agora no mês de julho já voltou para patamares mais baixos e estamos percebendo uma melhora ainda não muito grande da atividade econômica, mas que realmente está acontecendo. O comércio melhorou um pouco, a indústria melhorou bastante. Ainda não vimos outros indicadores, mas tudo indica que seguirão nesse mesmo ritmo. A grande questão é o resto do semestre, o resto do ano. Não se vê uma recuperação muito forte da economia brasileira, justamente porque também há uma expectativa muito forte em relação às eleições, que pode colocar algo de novo para o país.

De que forma as eleições podem impactar na economia?
Talvez se experimente alguma melhora após as eleições, na medida em que os cenários vão ficando mais claros no ambiente eleitoral e notadamente na questão das reformas que serão implementadas mais a frente. Do ponto de vista eleitoral, por mais que os candidatos tenham pouca aceitação do publico, já que o número de votos em branco e de indecisos é muito grande, na minha visão, as equipes econômicas dos candidatos não são ruins, com exceção do pessoal do PT. Até mesmo o pessoal que esta junto com o Ciro Gomes é uma equipe econômica razoável, mas, apesar de serem desenvolvimentistas, não são malucos. O pessoal da Marina é muito bom, o do Bolsonaro também. O Pérsio Arida, junto com o Alckmin, é muito bom. Então, esses candidatos que têm chances de vencer o processo eleitoral, está muito bem assessorado do ponto de vista econômico. E todos eles anunciaram que vão fazer reformas, inclusive o PT, e cada um ao seu estilo. Então não vejo alguma hecatombe acontecendo do ponto de vista das eleições.

Economia gaúcha e tecnologia

 

 
 
Jorge Luís Tonetto
Economista, Auditor-Fiscal Secretaria da Fazenda RS, Conselheiro Corecon-RS
Corecon-RS Nº 5096
 
 
 
 
 

Como está vendo a situação do estado do Rio Grande do Sul?

Um dos grandes problemas do nosso estado é a ausência de políticas em alguns setores, especialmente na questão da inovação, da ciência e tecnologia, e principalmente no contexto do desenvolvimento regional. O RS está perdendo tempo ao deixar de traçar planos de montagem de centros de inovação regionais, como estamos vendo em outras unidades da federação. Estamos deixando de desenvolver áreas como o Agrotech. Estamos pensando a economia gaúcha ainda de forma muito tradicional, como vem sendo feito há 40 ou 50 anos. E o mundo de hoje tem muitas possibilidades. Além das possibilidades de inovação no agronegócio, existe possibilidades no setor da construção civil, na infraestrutura e serviços urbanos, na área financeira, na área da saúde, enfim há um leque muito grande de novos materiais e serviços a serem desenvolvidos. Então tem muita coisa a ser pensada e criada.

Falta planejamento?

Podemos citar o caso da segurança pública, ou das comunicações, onde a tecnologia da informação deve estar presente e é fundamental. O estado deve ter um plano de desenvolvimento, considerando especialmente as questões regionais. Claro que isso envolve também educação, infraestrutura e atinge outros tantos segmentos. Há muito tempo que não se tem consenso e liderança. Tivemos um programa do Banco Mundial, iniciado a 10 anos atrás e que se encerrou agora, e que permitiu um primeiro salto em inovação e tecnologia no estado. O RS concentra hoje grande parte dos parques tecnológicos do país. Basta vermos que, dos últimos oito premiados, cinco foram daqui. Então, nós temos, realmente, um potencial fantástico nesse setor. E isso vem sendo desenvolvido pelo Tecnopuc, através da PUCRS, e pelo Tecnosinos, no Vale do Sinos. Precisamos dar um novo passo.

Falta uma ação maior por parte do estado no apoio a essas ações?

Não estamos vendo o estado ter uma política ampla e estratégica para apoiar o desenvolvimento econômico baseado em ações de inovação. O binômio educação e ciência é fundamental para toda a matriz econômica. Se nós tivermos uma política um pouco mais voltada para esse binômio, mesmo nos setores em que temos vocação e são de ponta, passaremos a agregar valor a esses setores, gerando a indústria 4.0, criando novos produtos e serviços através do agrotech, das fintechs, gerando, a partir daí, um alcance mundial. Como dizem alguns organizadores da área de tecnologia, como o Iasp, esses setores atuam hoje como se fossem uma champions league, ou seja, o mercado tem que jogar num alto nível e isso, sem dúvida, é fomentado desde a base. Basta vermos exemplos, como a Suécia, onde se ensina lógica desde a primeira série. Eles estão preparando o futuro cidadão digital.

Ainda se está muito longe disso?

Nós ainda estamos olhando para o passado e temos que, urgentemente, passar a preparar o nosso cidadão para se relacionar com o emprego digitalmente, com o governo digitalmente. Temos que prepará-lo para isso, porque a demanda dele, o crescimento dele, vai transformar a sociedade e vai transformar o governo também.

Tem luz no fim do túnel?

Evidente que sim. Porque o mundo não está crescendo na mesma velocidade. Temos países na América Latina crescendo a 5% ou 6%. Tem países no sudeste asiático crescendo a 8% ou 9%. O mundo não é homogêneo. Mas essas transformações também acontecem por aqui. Temos muitos estados que também estão fazendo o dever de casa. O Espírito Santo, que até 20 anos atrás era um grande problema, atrasava três folhas de salários, hoje fez o foco em infraestrutura e logística voltado para a região sudeste, e com um grande porto, conseguiu um desenvolvimento fantástico. O Ceará, que nem dívida tem mais hoje, investe mais de 20% de seu orçamento todo o ano. Então, existem soluções ao alcance de quem se propõe inovar. Nós, que já fomos um líder em tantas coisas durante quase um século, não tem como não nos reinventarmos. Temos capital humano para isso. O que nos falta é ter liderança e consensualmente definir uma agenda comum e, a partir disso, construirmos o Rio Grande que sonhamos e queremos.

Sobre Keynes, liberalismo e economia brasileira

fabio terra

 

Fábio Terra
Economista, Professor UFABC, professor PPGE/UFU,
Pesquisador CNPq, Diretor da Associação Keynesiana Brasileira
Corecon-MG Nº 7815


O que defende a teoria keynesiana?
Em linhas gerais, pode-se resumir esta questão da seguinte forma. Por um lado, tem-se a teoria ortodoxa, também chamada de liberal, que é a hegemônica em termos de produção intelectual e midiática no mundo. Para os que a seguem, o mercado é a melhor forma de se organizarem a produção e a distribuição de riqueza. Quanto menor a intervenção governamental, melhor. O Estado, assim, deve se concentrar em sanar falhas de mercado, como oligopólios e monopólios, além de fornecer bens públicos geradores de externalidades positivas, como educação e saúde. Por outro lado, há a perspectiva Keynesiana. Os participantes desta corrente discordam da capacidade de o mercado organizar a economia a ponto de gerar pleno emprego e razoável distribuição de renda. Por conta disso, o Estado é chamado a atuar como uma âncora à iniciativa privada, em uma lógica em que a complementaridade entre as iniciativas pública e privada é a única forma capaz de a economia ter uma trajetória histórica profícua.

De onde vem essa diferença entre as correntes?
A clivagem decorre da forma pela qual se definem os comportamentos humanos em ambas as teorias. A teoria ortodoxa entende que elementos de sinalização do mercado, como o nível de preços, são capazes de transmitir tudo o que é necessário para que as decisões sejam tomadas – até por isso esta teoria propõe o Regime de Metas de Inflação, por exemplo, isto é, um regime de metas para a alteração esperada no nível dos preços. Para Keynes, tal capacidade de organização é impossível, pois não apenas os agentes são incapazes de conhecer todas as informações disponíveis, vigorando a incerteza, mas também mesmo que as conhecessem, eles não seriam capazes de adivinhar o que o futuro lhes reserva. Até por isso o papel do Estado é tão relevante. Ele precisa clarear o caminho deste caminhante incerto e tão passível de erro, mas tão relevante para a riqueza social, o empresário. Por isso, a teoria keynesiana argumenta que o mercado sozinho é incapaz de organizar a atividade econômica e, assim, ela pede a ação estatal, racional, não dedicada a uma iniciativa em particular, mas à iniciativa privada como um todo, não criadora de privilégios, mas com ações horizontais que minimizem a incerteza do empresário em suas decisões de investimento.

Existe algum ponto de convergência entre os ideais keynesianos e liberais?
Sim, em alguns âmbitos há. Por um lado, ambos querem manter o capitalismo e, inclusive, aprofundá-lo como melhor meio mantenedor da livre iniciativa individual. Os liberais querem fazer isso via liberdade plena da iniciativa privada. Os keynesianos, pela complementaridade entre as ações estatal e privada. Keynes, por sinal, afirmava que a intenção dele era salvar a liberdade individual de males totalitários, como o nazifascimo e o comunismo soviético. Por outro lado, mas bem relacionado ao primeiro ponto, liberais e keynesianos acreditam que a ação econômica privada é fundamental. Contudo, neste ponto os liberais pregam o Estado mínimo, enquanto que a perspectiva keynesiana, pode-se dizer, requer o Estado eficiente, ou seja, aquele que age de uma forma a maximizar o potencial da ação privada, que é a geradora de riqueza em um país. Por isso Keynes deixava claro que ele não queria o Estado assumindo a frente dos meios de produção, mas esperava ver o Estado contribuindo com a iniciativa privada para que esta produzisse riqueza. Um terceiro âmbito é o de que liberais e keynesianos não enxergam o sistema econômico como essencialmente contraditório, como a perspectiva marxista o faz. Para Keynes e para os liberais, o que se tem é uma sinergia entre trabalhador e empresário. Contudo, enquanto os liberais creem que o mercado resolve a forma pela qual a distribuição da riqueza se dará entre estes dois fatores, Keynes não crê que o mercado resolva este problema. São necessários elementos privados, como sindicatos e associações de classe, mas também a ação reguladora estatal.

E a questão do pleno emprego?
Não é uma convergência, mas uma concessão de Keynes à teoria econômica ortodoxa, que é a validade dela quando se está em nível de pleno emprego. Keynes deixa claro que, neste raro ponto, em que toda a população econômica ativa está empregada, a teoria ortodoxa funciona. A questão é que este ponto é apenas um da trajetória da economia e, sobretudo, é muito difícil de ser alcançado apenas pela atuação do mercado.

Como o keynesianismo vê a situação da economia brasileira?
Ao longo dos seus 80 anos de existência, diversas correntes surgiram no interior deste grande guarda-chuva chamado “keynesianismo”. Assim, existem diferentes reflexões de autores inspirados de forma diferente por Keynes. Uso o próprio Keynes e seus vários escritos como base para minha análise. Assim, creio que a crise brasileira pode ser dividida em três terços; um terço foram fatores externos, sobretudo devido à guerra cambial, ao câmbio por muito tempo apreciado, e à queda dos preços das commodities pós-2013/2014; um terço a choques domésticos, como a crise política pós-junho de 2013, a seca de 2013/2014, as pautas-bomba pós-2015; e, por fim, um terço, por problemas de condução da política econômica da presidente Dilma Rousseff, sobretudo de 2012 em diante. Estes elementos, reunidos, geraram tanto uma crise imediata de demanda (o terço do setor externo) quanto uma crise alastrada de confiança (os dois terços domésticos), que viraram crise de demanda, sobretudo queda nos investimentos na passagem de 2013 para 2014. Daí decorre a nossa pior recessão. Contudo, estes são elementos conjunturais que explicam a crise brasileira. Keynes (e diversos keynesianismos, como a vertente kaldoriana) certamente chamaria atenção para um outro problema, que é o que impede o crescimento mais veloz e sustentado da economia brasileira: os inúmeros gargalos estruturais de oferta que possuímos, que vão desde uma educação problemática até custos de transação elevados para se fazer negócio no país passando também por problemas sérios de produtividades. Ou seja, há inúmeros problemas de oferta.

Na visão keynesiana a situação da economia brasileira é, então, muito preocupante?
Olhando o Brasil hoje, na alvorada do pós-crise, a situação é preocupante. Temos um cenário fiscal destruído. No entanto, ele é profundamente necessário. Seria importante que o Estado movimentasse mais sua demanda agregada, construindo infraestrutura sobre a qual a estrutura privada se erigisse. Porém, como fazer isso em um país com déficit esperado de R$ 130 bilhões? Ou seja, não há recurso para fechar o caixa, como ter recurso para financiar gasto público? Aqui, seriam necessárias medidas como suplementação de gasto corrente para investimento, aproveitamento do ganho de receita recente (as receitas cresceram 6% este ano) para investimento público. Talvez a venda de um pouco das reservas internacionais para gerar receitas de capital ao Tesouro – preocupando-se sempre com o espaço de liquidez para isso, para a venda de reservas não virar compromissadas do Banco Central e custo fiscal ao Tesouro – vender imóveis da União cujo recursos poderiam ser dedicados ao investimento público.

É difícil fazer isso num ano eleitoral?
Sim, 2018 é ano de eleição e o governo atual não tem compromisso com o País desde maio de 2017. Ademais, as empresas envolvidas na Lava Jato têm dificuldade de reassumirem papel de relevância na dinâmica empresarial nacional, a crise política se estende e é difícil saber se o cenário pós-eleição será conciliador. Tudo joga contra expectativas favoráveis e elas são necessárias à demanda privadaResta o setor externo, que com o câmbio desvalorizado e a crise interna, tem nos ajudado a dar voltas no fundo do poço. Pelo menos isso significa, no limite, que não mais nos afundamos.

Em algum momento da história brasileira a economia experimentou algum viés keynesiano?
Houve poucos momentos. Um breve período que merece destaque, contudo, é o que vem entre 2005 e 2007, em que se tem a formulação, bem dialogada entre os setores público e privado, do Plano Piloto de Investimentos, que orientou o desembolso efetivo no Plano de Aceleração do Crescimento, de 2007 em diante. Ali se teve o aproveitamento do bom momento fiscal, para acelerarem os investimentos públicos e privados no Brasil, sendo que, se alcançaram taxas recordes de investimento em 2008, 2010 e 2011. Depois veio o desgoverno de expectativas, algo que se tem até hoje, e é bastante anti-keynesiano. Outra coisa digna de nota e que foi keynesiano, foram as políticas anti-cíclicas entre 2008 e 2009. O crescimento de 2010 e a retomada do emprego, já em 2009, mostram o sucesso dessas políticas contra o ciclo recessivo que se instaurou após a crise do subprime.

O que aconteceu de errado?
Em 2011 elas deveriam ter sido retiradas de cena, pois a iniciativa privada estava indo bem, aquecida. Por sinal, costuma-se muito atribuir o período da Nova Matriz Econômica como um período keynesiano. Mas, longe disso. Keynes teria calafrios ao ver o desarranjo fiscal feito pelo governo Dilma, o descontrole pleno de expectativas que o período 2012-2014 fez na economia nacional, a quebra de contratos, como o do mercado de energia, a colocação de taxas de retorno pré-estabelecidas nas concessões governamentais – ou seja, dizer-se ao empresário quanto ele ganhará de retorno máximo pelo seu negócio. Isso é, no fundo, anti-keynesiano. Além disso, a Nova Matriz acelerou o gasto público quando o gasto privado estava acelerado, o que pressionou salários contra lucros, além de ter pressionado a inflação e as expectativas de continuidade dela no futuro. A isso somou-se toda a série de medidas que quebrou a confiança dos empresários. O resultado não seria outro que não a crise.

Pela ótica do keynesiana, o que está faltando para o país reencontrar o caminho do crescimento econômico?
Creio que esta resposta é menos econômica, e mais política, lato sensu. Pode parecer arrogância minha, mas acho que falta bom senso, tanto naqueles que veem só na redução do Estado a solução da crise, quanto nos que veem só na ação do Estado a solução da crise. Nem lá, nem cá. No meio do caminho está o ponto de acordo para que movimentemos a economia no curto prazo, sendo que este “movimentar” é o que constrói o crescimento de curto prazo, mas não o de longo. Para este, será preciso reorientar muita coisa no país, sobretudo promover uma transformação da educação no Brasil. Será preciso o Estado se concentrar em construir infraestrutura socioeconômica, mais importante do que se dedicar somente à reforma da previdência, repensar nosso modelo de representação política, pois o presidencialismo de coalização se esgotou e a crise política decorrente tem vasto efeito nocivo na economia. As regulações precisam ser mais simples, gerando menos insegurança jurídica para os negócios. O Brasil precisa de um choque de resolução privada de problemas. Basta de tudo cair no colo do Estado. Chega de subsídios, privilégios, tabela de frete, lobbies escusos, tantos preços administrados, etc. Por fim, é imprescindível que criemos condições infraestruturais para que tenhamos de volta a indústria manufatureira. O Estado não tem que resolver o problema de uma firma ou ramo específico, mas política horizontais e incentivo à resolução privada de problemas precisam estar em cena.

Qual o objetivo do XI Encontro Internacional, promovido pela Associação Keynesiana Brasileira, que acontece em agosto na UFRGS?
O XI Encontro Internacional da Associação Keynesiana Brasileira, que será realizado entre os dias 15 e 17 de agosto, visa discutir, com base em Keynes, mas não somente, a economia mundial e teoria econômica. O foco, contudo, como não poderia deixar de ser, é na economia brasileira e na busca da proposição de soluções aos desafios imensos que a ela se apresentam. Haverá 100 apresentações de trabalhos, de pesquisadores de todo o Brasil e do exterior, sete sessões especiais com palestrantes convidados brasileiros e estrangeiros. Nos dias 14 e 15 acontecerá, também, a II Escola de Estudos sobre Teoria Keynesiana, que reunirá 100 jovens estudantes e pesquisadores de todo o Brasil para aulas sobre pontos caros, atuais e relevantes à teoria keynesiana e suas correntes próximas. Ou seja, é um evento que reúne pessoas interessadas e desejosas de pensar o Brasil.

O que propõe do Dossiê da AKB?
O Dossiê V da AKB, “O Brasil pós-recessão: das origens da crise às perspectivas e desafios futuros” foi a contribuição da AKB para compreender as origens da crise e pensar o Brasil do futuro. Como uma Associação que representa uma das principais correntes teóricas da ciência econômica e, ao mesmo tempo, que reúne mais de uma centena de pesquisadores brasileiros, a AKB não poderia se furtar de contribuir com a análise do Brasil atual. Porém, fez isso de forma diferente e muito contribuinte à literatura econômica do País, pois, por um lado, não fez com um só punho, mas reuniu 39 autores e autoras, de várias instituições públicas e privadas, acadêmicas e não acadêmicas, que produziram 17 artigos sobre o Brasil pré-crise, durante a crise e pós-crise. Por outro lado, isso fez com que o Dossiê resultasse plural, com diversas análises que ajudam o leitor a não ser enviesado em uma só forma de enxergar a crise. Assim, em um só material, o leitor interessado encontra diversidade. Não obstante, o Dossiê não se resumiu a olhar para trás, pelo contrário, a maioria de seus artigos olha para o presente e o futuro, concentra-se nas perspectivas e desafios do Brasil durante e após a crise. Além disso, em termos de redação, cuidou-se para que os artigos fossem de leitura rápida e fácil, porém não sem muita robustez teórica e analítica, informando de maneira fácil, mas densa, quem se interessar em entender o Brasil nestas duas décadas do século XXI.

Com um olho nos negócios, outro nas eleições

maria carolina gullo

 

Maria Carolina Rosa Gullo
Economista, Diretora da Área do Conhecimento de Ciências Sociais/UCS,
Diretoria de Economia, Finanças e Estatísticas CIC/Caxias do Sul
Corecon-RS nº 5779


Até o início deste ano a economia da região de Caxias do Sul ainda demonstrava alguns sintomas de retomada da crise. Como está a situação agora?
A retomada economia caxiense começou ainda em janeiro de 2016. De lá para cá, a economia vem crescendo em ritmo lento, mas continuado. Inclusive talhamos o termo “despiora” para adjetivar esta fase.

Que setores vêm sustentando essa “despiora”?
A “despiora” vem sendo puxada pelo setor industrial que, através das maiores empresas ligadas ao setor metalmecânico e automotivo, fomentaram a cadeia local e regional. Em 2017, o bom momento do agronegócio impulsionou as vendas de máquinas e implementos agrícolas e isto repercutiu no nosso setor metalmecânico. Agora em 2018, as duas maiores empresas, Marcopolo e Randon, estão com boa carteira de pedidos até o final do ano e, com isso, a cadeia como um todo está sendo impactada positivamente. Inclusive, a geração de empregos, até o mês de maio, está positiva. No ano, o saldo positivo é de 4.766 vagas, dos quais, 75% estão na indústria (mais construção civil). O comércio, por enquanto, é o setor com o menor saldo de vagas, o equivalente a apenas 0,41% do saldo.

E o setor de serviços, como vem se comportando?
O setor de serviços foi o último a entrar e o último a sair da crise em Caxias do Sul. Por aqui, esse setor tem forte ligação com o setor industrial local, mas também regional. Alguns segmentos da indústria regional demoraram mais a sentir a crise econômica, como a indústria alimentícia e, até a mesmo, a moveleira, o que possibilitou um tempo maior de sobrevida ao setor de serviços bem como uma queda menos acentuada que os demais setores.

E o comércio?
O comércio teve e tem uma recuperação mais lenta que a indústria. Em parte, isso é reflexo do nível de endividamento das famílias e dos salários mais baixos na recontratação mais recente. Embora as empresas tenham prorrogado por bastante tempo processos de demissão, utilizando do expediente de férias coletivas e redução de jornada, a perda de postos de trabalho bateu a casa dos 25 mil empregos formais em três anos. Com menos emprego e menos renda, o comércio foi bastante afetado. A queda foi maior do que a da indústria.

Que fatores impactaram nesse comportamento de recuperação?
A recuperação é resultado de vários fatores, como a busca por novos mercados, produtos diferenciados, mas, sobretudo, pelo bom momento do agronegócio em 2016 e 2017. A cadeia metal mecânica caxiense se beneficia bastante com os bons resultados desse setor. Ainda em 2017, soma-se um movimento de renovação de frota de ônibus e de peças de reposição da cadeia como um todo. No momento, temos os números até maio deste ano, em que foi possível detectar que a greve dos caminhoneiros trouxe prejuízos para a cidade, principalmente para o setor industrial, tendo em vista que faltou matéria prima para a produção e, também, prejuízos no escoamento da produção. O setor do agronegócio, mais especificamente, o de corte de carnes, foi um dos mais atingidos. No entanto, finda a greve, estamos com boas perspectivas na retomada da produção industrial, sobretudo, no setor metal mecânico e automotivo, como comentei antes.

Que tipo de impactos a proximidade com as eleições ainda podem trazer à economia da região?
A economia caxiense vem produzindo para o Estado e para o Brasil, mas está buscando resgatar mercados perdidos no exterior. Nossas exportações sofrem com a queda da competitividade relacionada aos nossos problemas de logística e de mão de obra nos picos industriais. Neste sentido, penso que as eleições tenham pouca influência no presente. Mas poderão ter no futuro, caso os governantes eleitos não ajudem na busca de soluções para o escoamento da produção da serra gaúcha por estradas melhores e/ou por outras alternativas de modais de transporte. Ou ainda, se houver uma mudança muito radical em relação aos fundamentos macroeconômicos em vigência, além de uma oscilação muito grande na variação cambial para cima, onde o custo de produção seria impactado em função do aumento de componentes e máquinas importados, e, para baixo, prejudicando o movimento de recuperação do mercado externo via exportações.

As empresas já voltaram a contratar?
Embora a economia caxiense tenha começado a trajetória de despiora ainda em 2016, o mercado de trabalho só apresentou saldo positivo na geração de vagas a partir de janeiro deste ano. Em 2013, tivemos cerca de 183 mil pessoas empregadas com carteira assinada. Agora, em maio de 2018, este número é de 162.713, embora já tenha sido um pouco menos de 158 mil, em 2017. Portanto, a geração de empregos está acontecendo em nossa cidade, embora de forma lenta.

Quais as expectativas do empresariado?
O empresariado local está com um olho no seu negócio e outro no processo eleitoral que se avizinha. A necessidade de investimentos, tanto nas empresas quanto na infraestrutura para produção e escoamento da mesma, é premente. No entanto, não há recursos públicos para atender a todas as demandas. Neste sentido, saber o que pensam e como podem solucionar problemas antigos e novos em nível estadual e federal é um anseio da classe empresarial. Mais ainda, que tipo de governo teremos, se mais liberal ou mais intervencionista, ou, mesmo, que tipo de fundamentos macroeconômicos serão mantidos ou modificados. Estas respostas vão dar o tamanho do apetite por investimentos nos próximos anos e o tipo de retorno que se pode esperar. Portanto, eu diria que o empresariado está em compasso de espera, com certa cautela, mas se reinventando para não sucumbir ao momento.

Como ficam as perspectivas para a economia?

diogoDiogo Metzdorff

Economista, Analista do Banrisul, Mestre em Economia/PUCRS
Corecon-RS Nº 8003

 

 

As perspectivas para a economia brasileira no início deste ano modificaram muito ou o cenário se manteve?
No início deste ano, predominava a percepção de que, com o início de uma recuperação cíclica, iniciada em 2017, a economia brasileira exibiria, em 2018, um ritmo mais intenso de crescimento, e que o cenário externo se manteria relativamente favorável, ao menos em boa parte do ano. Da mesma forma, se imaginava que as soluções para os problemas fiscais brasileiros teriam algum encaminhamento, pelo atual ou pelo próximo governo. Contudo, ao longo do primeiro semestre, o crescimento se mostrou mais fraco do que o esperado. O cenário externo, a incerteza quanto às questões fiscais e a paralisação no setor de transporte de cargas prejudicaram ainda mais a materialização do cenário traçado no início do ano, elementos que, em conjunto, têm levado a uma redução das projeções para o crescimento econômico brasileiro neste ano.

Em que momento se passou a perceber que a previsão inicial, de cerca de 3%, no crescimento econômico do Brasil, não seria atingido?
No decorrer do primeiro trimestre, os indicadores mensais de atividade começaram a apontar que a retomada da economia brasileira estava ocorrendo em ritmo mais lento do que o verificado no final do ano passado, e também do que sugeriam as projeções de mercado no início do ano. Além disso, a perspectiva de um aumento mais rápido da taxa básica de juros norte-americana e a elevação das tensões comerciais entre as principais economias mundiais levou ao fortalecimento do dólar frente às demais moedas, sobretudo nos países emergentes, refletindo na desvalorização da taxa de câmbio doméstica. Esses desdobramentos levaram à primeira rodada de correções nas projeções de mercado para o PIB deste ano. Em linha, a divulgação do PIB do primeiro trimestre de 2018, no final de maio, que exibiu crescimento de apenas 0,4% na comparação com o último trimestre de 2017, confirmou os sinais de que a recuperação econômica não era tão forte quanto se imaginava.

E a greve dos caminhoneiros também não trouxe impactos?
Sim. Também, no mesmo período, ocorreu a paralisação no setor de transporte de cargas, que impactou tanto o nível corrente de atividade quanto a confiança dos agentes, levando a uma frustração complementar com relação ao crescimento da economia. Adicionalmente, em razão de todo esse quadro, uma solução para os problemas fiscais passou a ficar menos clara, aumentando o nível de incerteza e afetando as decisões dos agentes econômicos, sobretudo com relação aos investimentos. Com isso, a mediana das projeções de mercado para o PIB de 2018, divulgadas pelo Boletim Focus, do Banco Central, passou de um crescimento próximo de 3,0% no início de março para uma expansão em torno de 1,5% na última semana. Em resumo, embora o cenário externo tenha alguma influência, a frustração com relação às perspectivas para a economia brasileira neste ano está, em boa medida, relacionada à fatores internos.

Apesar deste cenário mais desfavorável, há setores que ainda vêm experimentando, embora de forma tímida, alguma recuperação?
De modo geral, tem se observado um ritmo mais fraco de crescimento na maioria dos setores. No caso da indústria, o indicador mensal da produção industrial (PIM-IBGE), que havia exibido crescimento modesto nos primeiros meses do ano, recuou 10,9% em maio ante abril (na série com ajuste sazonal), a maior queda mensal desde dezembro de 2008, refletindo os impactos causados pela paralisação dos caminhoneiros. Ainda assim, de acordo com a mediana das projeções de mercado, a indústria deverá crescer perto de 2% neste ano. Na mesma linha, a perspectiva para o setor de serviços, ainda que mais fraca, aponta para um crescimento de 1,5%, refletindo, principalmente o avanço do comércio, favorecido pela redução dos juros e pela inflação mais baixa. Por fim, a agropecuária, que subiu 13% no ano passado e foi responsável por 70% do crescimento da economia, deverá ficar estável neste ano, exercendo influência neutra sobre o PIB.

E como ficam as expectativas de crescimento para 2019?
A expectativa de crescimento para 2019, que, de acordo com a mediana das projeções do Boletim Focus, até junho, seguia inalterada e não acompanhava o pessimismo observado nos números de 2018, passou a recuar a partir de então, saindo de 3% para alcançar 2,5% nas últimas semanas. Além dos riscos com relação à economia mundial, que poderá crescer menos no próximo ano, as dúvidas quanto ao ritmo de retomada da economia depois da paralisação dos caminhoneiros, e a elevação da incerteza interna com relação ao desfecho das eleições, já contaminam a expectativa com relação à evolução da economia no próximo ano.

Como o resultado das próximas eleições pode impactar essas perspectivas?
O resultado das eleições pode impactar de forma relevante nas perspectivas econômicas, uma vez que o principal risco está associado à vitória de um candidato com menor propensão ao encaminhamento dos ajustes e reformas necessários para a economia brasileira. Já no caso de vitória de um candidato que possua um plano de propostas críveis para a resolução dos problemas do País, sobretudo com relação ao quadro fiscal, as perspectivas para a economia brasileira em 2019 poderão voltar a evoluir favoravelmente.

A Unicruz e o desenvolvimento rural

prof claudia

 

Cláudia Mera
Professora Unicruz, Coordenadora do Mestrado Profissional em Desenvolvimento Rural/Unicruz

 

Qual a proposta do curso de mestrado profissional de desenvolvimento rural?
O mestrado iniciou em 2012 aqui na Unicruz, e a ideia é que a gente traga profissionais que já estão atuando no mercado e que, aqui dentro da universidade, eles possam desenvolver pesquisas que estejam de acordo com a sua demanda de trabalho. São questões e dificuldades com que se deparam nas suas empresas e que trazem para dentro da universidade para desenvolverem suas pesquisas de dissertação e, assim, aprimorarem a prática da solução de seus problemas no dia a dia profissional.

Qual o público alvo do curso?
Ele é bastante interdisciplinar e, com o passar do tempo, veio alterando seu perfil. No início do curso, predominava a presença de agrônomos e veterinários. Depois, ele foi se abrindo e passou a ser procurado por outras áreas do conhecimento, como economia, contábeis, administração e, mesmo, direito, com a necessidade de os advogados entenderem melhor os contratos agrários, a questão ambiental e peculiaridades do mercado internacional. Temos conseguido conciliar essas necessidades do mercado de trabalho, de forma que nossos mestrandos adquiram conhecimento para levar a suas empresas, a seus clientes, as soluções encontradas na academia. A ideia do curso é essa. E também tem outros casos de pessoas que continuam trabalhando na sua empresa, mas buscam um caminho paralelo na docência do ensino superior.

Essa é uma demanda das empresas da região?
Trata-se de uma demanda principalmente do Alto Jacuí, que é a nossa região. Mas percebemos que em suas últimas edições, o curso tem sido procurado também por profissionais da área técnica de outras regiões, que se dirigem à universidade para aprimorar seus conhecimentos e levar para suas cidades o conhecimento acumulado. Atualmente, temos muitos alunos de outras regiões do estado e, mesmo, de outros estados, que vêm desenvolver seus projetos aqui na universidade para, depois, levarem seu trabalho para ser implementado em seu estado. Como exemplo, engenheiro florestal e biólogo, do estado de Rondônia, que desenvolvem trabalhos com mandioca, agricultura familiar e apicultura, para, também, desenvolver futuramente em suas regiões.

Quais são as linhas de pesquisa oferecidas pelo curso?
As linhas de pesquisa são gestão rural, produção animal e produção vegetal, trabalhadas de forma interdisciplinar na área de concentração em Desenvolvimento Rural Sustentável. A linha em gestão rural enfatiza estudos do mercado agropecuário, das possibilidades de inovação nas cadeias produtivas, estratégias para aumentar o valor agregado dos produtos, buscando contribuir com tomada de decisão dos agentes envolvidos na cadeia produtiva e nos negócios decorrentes da atividade rural. A linha de produção animal contempla o aprimoramento de técnicas e a inovação no manejo dos rebanhos, especialmente nutrição, saúde e bem-estar animal, e no melhoramento genético. Já, na linha de produção vegetal, são desenvolvidas pesquisas de produtos agrícolas tradicionais da região, sobre o cultivo de espécies alternativas, aplicação de biotecnologia e agricultura de precisão. Em todas as linhas de pesquisa priorizam-se técnicas que conciliam o uso dos recursos naturais com o aumento da produção agrícola.

O curso contempla projetos específicos da região do Alto Jacuí?
Temos uma disciplina obrigatória, que trabalha projetos de desenvolvimento do meio rural. Os alunos trazem as demandas dos seus municípios e, depois, elaboramos um diagnóstico lá no município de origem, junto com os agricultores, com o poder público, para priorizarmos os projetos que poderão ser desenvolvidos, com o objetivo de fomentar o desenvolvimento da região. A partir daí, os alunos voltam para a sala de aula para trabalharem no tema e apresentarem, no final do semestre, o projeto para a comunidade, que, por sua vez, apresenta opções de recursos para financiar e colocar em prática os diferentes projetos.

É a universidade junto com o poder público e a comunidade?
É um compromisso social que a universidade tem junto às comunidades. Em Sarandi, por exemplo, que é um município distante da nossa região, atendemos demandas dos alunos daquela região, onde desenvolvemos um projeto para a construção de um espaço agrícola para os agricultores. Da mesma forma, aqui em Cruz Alta, estamos desenvolvendo um projeto de apicultura, com base em conhecimentos dos nossos docentes, discentes e da comunidade Neste caso, estamos tentando revitalizar uma associação de apicultores que está inativa há algum tempo.

Principais razões e impactos da atual desvalorização do Real

Marivia Nunes
 
Marivia de Aguiar Nunes
Corecon-RS nº 8072
Economista, Analista/Banrisul, Doutoranda/PUCRS, professora Assistente/Fadergs, Conselheira Corecon-RS

 

Por que o dólar está tendo essa valorização tão grande em relação ao real?
Esse movimento atual de desvalorização do real pode ser atribuído tanto a fatores de ordem externa quanto interna. Entre os fatores de ordem externa, destaque para a normalização da política monetária norte-americana. Isso porque, com a alta dos juros na economia estadunidense, que dispõe de fundamentos macroeconômicos mais sólidos, há uma tendência de materialização do movimento de “fuga para a qualidade”, isto é, de uma migração de capitais de economias emergentes para economias com maior previsibilidade e ambiente institucional mais robusto, como a dos Estados Unidos, o que, em última análise, repercute em desvalorização das moedas emergentes. Outro importante fator de ordem externa é a preocupação associada a uma guerra comercial protagonizada pelo governo americano, que, caso venha a se materializar, tende a exercer influência negativa sobre o crescimento econômico global. Entre os fatores de ordem interna, por sua vez, estão as incertezas quanto à implementação de ajustes necessários a uma retomada mais consistente da economia (com destaque para os encaminhamentos no campo fiscal), os quais estão associados, em grande medida, ao resultado das eleições presidenciais deste ano.

É um caso específico do Brasil, ou outros países também vêm enfrentando esse problema?
Não. Na realidade, isso é comum em nações emergentes. Economias como Venezuela, Argentina e Turquia apresentaram, no primeiro semestre deste ano, desvalorização ante o dólar acima da verificada no Brasil, o que se deve majoritariamente a questões de ordem interna que estes países vem enfrentando. Para fins de comparação, o peso argentino e a lira turca se desvalorizaram, respectivamente, 33,7% e 17,1% neste ano, enquanto o real exibiu depreciação de 12,9% neste mesmo período.

Que os principais impactos dessa desvalorização do real na economia brasileira?
A depreciação do real ante o dólar afeta principalmente a inflação e o comércio internacional. A respeito dos impactos sobre a dinâmica inflacionária, tem-se que insumos importados, por exemplo, ficarão mais caros, aumentando custos de produção, ônus que será repassado aos preços finais. Entretanto, como a inflação encontra-se em nível baixo, diante da ainda elevada ociosidade existente na economia, e também da forte ancoragem das expectativas inflacionárias, os impactos da atual desvalorização do real sobre a inflação deverão ser bastante limitados. Quanto aos efeitos sobre o comércio internacional, tem-se que um real mais desvalorizado beneficia os exportadores, que recebem uma receita maior em reais, ao passo que penaliza os importadores, que têm de lidar com o encarecimento de suas compras.

Que medidas institucionais poderiam ser tomadas para frear esse movimento?
Uma das medidas mais utilizadas institucionalmente para reduzir a volatilidade da taxa de câmbio é a oferta de contratos de swap cambial pelo Banco Central (BC), nos quais a autoridade monetária realiza uma operação equivalente a uma venda de moeda no mercado futuro, ação que reduz a pressão altista sobre a moeda nacional. Este é o mecanismo atualmente adotado pelo BC para conter a depreciação do real, sendo que, em meados de junho, a Instituição anunciou que o total de oferta de moeda colocada no mercado poderá superar a máxima histórica de US$ 115 bilhões, montante vendido na gestão do presidente Alexandre Tombini.

Qual o limite dessa desvalorização?
Essa é uma questão bastante difícil de ser respondida, ainda mais em um contexto de tamanha incerteza como o atual. Na realidade, o limite para essa desvalorização do real está associado principalmente ao resultado das eleições presidenciais deste ano. Isso porque, em caso de vitória de um candidato com maior predisposição à realização de reformas essenciais para a economia brasileira, este movimento tende a ser limitado. Por sua vez, se um candidato com menor propensão a ajustes vencer o pleito, aumentam consideravelmente as chances de intensificação do movimento de desvalorização de nossa moeda. Além disso, os desenvolvimentos no cenário externo também podem exercer influência sobre a trajetória desta variável. Por exemplo, caso uma guerra comercial venha a se materializar, a moeda americana tende a se valorizar frente às principais divisas mundiais.

Economia em compasso de espera

andreAndré Moreira Cunha
Economista, professor da UFRGS
Corecon Nº 5243

 

 

Até que ponto, em final de governo, às vésperas de eleições e num momento político tão crítico, a economia brasileira tem fôlego para chegar até o final do ano sem grandes sobressaltos?

Está ficando cada vez mais claro que a recuperação que vinha em curso é frágil. O desemprego, ao redor de 13%, pouco cede; a informalidade no mercado de trabalho voltou com toda a força como resultado da própria crise e das novas regras trabalhistas; as rendas do trabalho estão estagnadas ou em queda; o crédito recua e segue caro; e o horizonte é sombrio. Com isso, o consumo das famílias não se mostra uma fonte de dinamismo importante. A crise fiscal paralisa o gasto corrente e os investimentos do setor público. Nesse contexto, não há como esperar uma retomada robusta dos investimentos privados, que são o motor do crescimento no longo prazo. Restam as exportações, que são importantes, mas não vão fazer toda a mágica de reativar a economia. Há enorme capacidade ociosa, mas a demanda não para de encolher ou, nos melhores momentos, mostrar-se insuficiente para produzir um ciclo virtuoso.

Por que essa fragilidade?
O Brasil abriu mão do processo de ampliação da massa de consumidores, que foi uma fonte importante de dinamismo no ciclo 2004-2010. Há uma espécie de “race to the bottom”, em que se vislumbram ajustes por meio da precarização das relações econômicas e sociais. Com o mantra de reduzir custos – públicos e privados – reduz-se o tamanho do mercado consumidor. Isso não significa dizer que o país não demande racionalização e aumento de eficiência, tanto no setor público, quanto no privado. Mas, sim, que estamos cortando no lugar errado, sem gerar resultados sociais e econômicos melhores. Já fizemos isso no passado, como nos anos 1990, e não deu certo. Outros já fizeram isso e não deu certo.

De que forma o atual governo deverá entregar o país à próxima gestão?
A situação atual é extremamente complexa. Não há espaço para maniqueísmos. Vivemos 35 anos de semi-estagnação, crescendo menos do que a media mundial em 1 p.p. ao ano. Antes disso, entre o pós-guerra e o começo dos anos 1980, era o contrário e crescíamos mais do que o mundo em 2,3 p.p. anualmente. Todavia, o atual governo deu uma guinada na orientação da economia sem ter passado pelo crivo democrático do voto a legitimar uma nova agenda econômica. Medidas como o congelamento de gastos, a desestruturação da cadeia do petróleo, o desmonte da pesquisa científica, para citar algumas, têm efeitos potenciais extremamente deletérios no longo prazo. Há distintas formas de se fazer ajuste nas contas públicas, ainda que o caminho escolhido seja o que menos abre oportunidades de retomada da economia e de fortalecimento dos fundamentos de longo prazo do desenvolvimento. E esses passam pelo investimento em pessoas (educação, saúde, etc.) e tecnologia, bem como o controle sobre os ativos estratégicos, especialmente os recursos minerais. Tomando isso por referência, a gestão Temer está longe de garantir uma herança positiva.

Que questões são mais urgentes a serem resolvidas?
Uma sociedade de mercado descentralizada, complexa, como a nossa, só funciona adequadamente se as pessoas são capazes de entender e aceitar minimamente as regras do jogo social, político e econômico. A crise política, que também tem um componente estrutural, espalha o ceticismo, a descrença e a desesperança nas instituições e na democracia. Sem retomarmos um padrão civilizatório mínimo, seguiremos presos a essa corrida para o fundo do poço. Assim, mesmo que a economia esteja com diversos problemas, o nó górdio é político.

A atual equipe econômica tem condições de segurar a valorização do dólar, de controlar a inflação e o déficit público?
O dólar seguirá pressionado, dado à instabilidade externa, com alta nos juros nas economias avançadas, e interna, com a sucessão presidencial. Preocupa-me a nova estratégia de queimar as reservas para contê-lo. Eu seria mais conservador nesse momento e preservaria as reservas internacionais. A inflação não é um problema no curto prazo e o déficit público seguirá alto. Só a retomada do crescimento e a adoção racional de medidas de racionalização de gasto e de aumento de receitas, em um novo marco tributário, que reduza a regressividade do sistema, poderão garantir uma equação fiscal mais satisfatória.

De que forma a disputa comercial dos EUA com China e União Europeia poderá impactar positivamente na economia brasileira?
A guerra comercial só vai gerar mais instabilidade. É uma má notícia em um momento em que a economia global estava se recuperando de forma mais intensa. Ganhos pontuais tendem a se diluir em um quadro geral de aumento do protecionismo.

Avaliações, fusões e aquisições de empresas

diego carvalhoDiego Jardim Carvalho

Economista, Sócio-Gerente Koliver Consultoria e Participações Ltda, Diretor de Formação Instituto de Estudos Empresariais (IEE)
Corecon-RS Nº 8236

 


Por que uma empresa precisa ser avaliada?
A avaliação de valor justo é um elemento fundamental na situação em que os sócios vislumbram a possibilidade de vender a sua empresa, alienando uma participação minoritária, uma participação majoritária ou, mesmo, a integralidade do negócio. Nesse contexto, a avaliação de valor justo garante uma estimativa do preço mínimo de venda, estabelecendo um parâmetro de negociação para a realização de uma transação vantajosa para o vendedor. É importante salientar que a avaliação de valor justo não deve ser apresentada aos potenciais investidores, vez que estabeleceria um “teto” para o preço a ser ofertado pelo comprador. Trata-se, na verdade, de um documento interno do vendedor e do seu assessor financeiro, que estabelece um preço mínimo aceitável de venda, ou seja, um “piso” para balizar uma posterior negociação com os investidores. Por isso, torna-se importante para o vendedor a presença de um assessor que avalie a empresa e prepare uma documentação de venda detalhada a ser apresentada aos investidores potenciais, de modo a criar um ambiente competitivo pela aquisição da empresa, o que chamamos de “tensão de demanda”. Negociações unilaterais, com apenas um investidor interessado e sem um referencial de valor mínimo, fatalmente acabam resultando em uma transação desvantajosa para o vendedor.

Por que isso pode acontecer?
A avaliação de uma empresa, assim como a avaliação de qualquer ativo, baseia-se na capacidade que a empresa tem de gerar caixa, ou dividendos, no futuro. Afinal, se eu invisto hoje em uma companhia, só posso retirar dividendos nos próximos anos. Portanto, a avaliação deve ser baseada no método de fluxo de caixa projetado, trazido a valor presente. Essa projeção de fluxo de caixa deve estar calcada em um plano de negócios realista, que reflita as ações a serem implementadas pela empresa, como investimentos em imobilizado, introdução de novos produtos, novas parcerias com fornecedores e clientes, novos canais de distribuição, mudanças na precificação e na política comercial, etc., e as condições do seu setor de atuação. Ainda que o empresário não tenha a intenção imediata de alienar o seu negócio, estar preparado e ter uma estimativa de valor de sua companhia é fundamental para não perder dinheiro em uma eventual operação de venda da empresa, pois não raro o empresário entra em uma negociação por iniciativa de um investidor que demonstra interesse na aquisição.

E um negócio pode ser desvantajoso para o vendedor?
Existe um risco considerável de o vendedor realizar uma transação desvantajosa quando o investidor toma a iniciativa de fazer uma proposta. Neste caso, há uma grande probabilidade de que a proposta seja baseada nas demonstrações financeiras da empresa, as quais revelam o passado da companhia e não o seu futuro. Quando esse passado recente reflete um período de crise, como o que vivemos no Brasil nos últimos anos, o investidor estabelecerá como referencial para a negociação um período de baixo desempenho operacional, resultando em um valor ofertado inferior ao que a empresa efetivamente vale. Por isso, é sempre importante realizar a avaliação da empresa previamente, para só então entrar em uma negociação de maneira a maximizar o valor de venda. E o assessor financeiro desempenha o papel fundamental de buscar vender a empresa por um valor superior ao da avaliação, obtendo o que chamamos de “ágio”. Para tanto, é crucial uma documentação de venda que mostre o futuro da empresa (que, por definição, vale mais do que o seu passado) e que essa documentação seja apresentada a vários investidores potenciais, criando uma competição entre eles pela aquisição da empresa avaliada. E isso é justamente o cenário oposto ao de uma negociação unilateral.


Como é que é feita essa avaliação?
Sem dúvida, o método mais importante de avaliação de uma empresa é o modelo de fluxo de caixa descontado. Em nosso trabalho, elaboramos uma projeção de 10 anos do fluxo de caixa da empresa, com base em um plano estratégico de crescimento discutido em conjunto com os sócios, levando em consideração as condições do mercado de atuação da companhia. Entretanto, no contexto de uma operação de fusão e aquisição, é fundamental conhecermos também os preços (múltiplos) que estão sendo pagos por empresas similares tanto no mercado brasileiro quanto no internacional. Assim, deve-se normalizar o resultado do fluxo de caixa com o resultado do método de aplicação dos múltiplos de transações comparáveis. Analisamos os múltiplos que foram pagos por empresas similares, atuantes no mesmo setor ao da empresa em avaliação, em operações de fusões e aquisições, normalmente usando de referência o EV/EBITDA, que é o múltiplo mais comumente utilizado na negociação de compra e venda de empresas. Outros múltiplos, como EV/Receita Líquida e EV/Lucro Líquido também são utilizados.

A pequena empresa também pode ser avaliada?
Sem dúvida. A avaliação serve a qualquer tipo de ativo, isto é, um bem tangível ou intangível que irá gerar um fluxo de caixa no futuro. É claro que as premissas do modelo de fluxo de caixa descontado deverão ser adaptadas à realidade de cada negócio. Uma empresa pequena irá sofrer de alguns males, como dificuldades de acesso a empréstimos e financiamentos, principalmente no Brasil, onde as taxas de juros no mercado secundário são muito elevadas; dificuldades derivadas de entraves regulatórios, custos elevados de formalização, pressões competitivas de concorrentes mais fortes já estabelecidos no mercado, etc.. Desse modo, o método de avaliação empregado é o mesmo que o para uma grande empresa, mas mudam as premissas de avaliação utilizadas quanto ao potencial de crescimento da empresa.

O que leva uma empresa a optar por uma operação de fusão e aquisição?
São diversos os motivos que podem levar o empresário a alienar o seu negócio ou a fundir suas operações com outra empresa: por exemplo, a ausência de sucessores, mudanças substanciais nas condições competitivas, por exemplo, em razão da entrada de novos players, detentores de maior poder de mercado, etc. Contudo, uma das principais razões é obter ganhos operacionais ou sinergias. Ao unirem suas operações, duas empresas podem reduzir os custos fixos e, por consequência, aumentar as margens de lucro. Além disso, uma empresa pode complementar a outra agregando novas linhas de produtos e tecnologias, compartilhando os mesmos canais de distribuição, trazendo novos clientes, novos fornecedores, etc. No Brasil, uma das maiores fontes de ganhos de sinergias são aquelas relacionadas à potencial redução do custo dos empréstimos e financiamentos bancários. Como captar recursos no Brasil é muito caro, uma empresa estrangeira, ou mesmo uma empresa nacional de grande porte, que consiga captar recursos a taxas de juros menores, pode, ao adquirir uma empresa, implementar os planos de crescimento de maneira acelerada. Assim, o negócio passa a valer muito mais após a transação. Nesse contexto, é fundamental que o assessor financeiro da empresa vendedora identifique previamente as potenciais sinergias com a empresa compradora, de modo a aproveitar essa propensão do investidor a pagar mais e, assim, maximizar o valor de venda.

Democracia e qualidade do gasto público

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Valtuir Pereira Nunes
Economista, Auditor Público Externo TCE-RS
Corecon-RS nº 4724

 

 

 

O Brasil está vivendo uma crise ética, moral ou cultural?

Na verdade, é uma cesta de fatores. Nós estamos passando por um momento de transição bastante crítico, envolvendo a política e a democracia, pelo qual nunca havíamos transitado ao longo da história política brasileira. É certo que, historicamente, tivemos diversas crises, passando por renúncias de presidentes, impeachment em duas oportunidades, e outros períodos com turbulência. No entanto, no momento atual, a sociedade está muito mais informada sobre o que está acontecendo. E isso se deve, em grande medida, às redes sociais. Hoje, se trocam informações de forma instantânea. Apesar de termos muitas fake news, que são um subproduto da massificação da informação, obtivemos, de uma forma geral, mais condições de conhecer, em detalhes, tudo o que envolve determinados fatos relacionados à corrupção. A transparência traz à tona inúmeros problemas que existiam há bastante tempo em nosso país e que estavam na obscuridade, do qual pouco sabíamos. Essa massificação da informação conduz à ideia equivocada de que somente agora os níveis de corrupção estão elevados, quando, na verdade, fatos equivalentes já aconteceram no passado, mas não estavam ao alcance do conhecimento por grande parte da população. A publicização dessas informações também reflete o comportamento ético dos agentes políticos e de como o país está sendo governado.

A que se deve isso?

De um lado, a sociedade tem o seu nível de responsabilidade, porque colabora, nas eleições, repondo esses mesmos agentes, do “rouba-mas-faz”, do candidato que é “esperto”, que obtém “vantagens sobre tudo”, em troca de favores numa eleição. Com isso, colocam-se na posição de agentes políticos, de governantes, de parlamentares, em todos os níveis de governo, pessoas que não têm comprometimento com o bem público, e sim com o interesse de corporações ou de grupos de pressão. Então, vivemos uma fase – dura e necessária – de repensar a política. Por outro lado, os próprios partidos políticos também possuem o seu grau de responsabilidade, pois os eleitores não são tão livres – como se apregoa – para definir os seus representantes: eles escolhem entre os nomes que os partidos lhes oferecem.

Então os partidos políticos deveriam fazer a sua parte?

Sim. Os partidos políticos deveriam fazer uma autocrítica sobre as nominatas dos candidatos que apresentam à sociedade durante as eleições, aplicando a ficha-limpa no momento da filiação de seus correligionários, ou, quando necessário, realizando correição e desligamento dos já filiados. Assim, oferecendo bons nomes, talvez se consiga melhorar a qualidade da política.

É consequência da democracia?

Estamos passando por um aprendizado democrático, de sofrimento, é claro, em função dessas crises. Mas a verdade é que não há melhoria sem essa transição. É necessário que passemos por esse período para amadurecermos enquanto sociedade, para efetivamente entendermos e definirmos o tipo de estado, de governo, que todos nós queremos. E isso só vai funcionar na medida em que o controle social sobre as políticas públicas efetivamente acontecer, pois a participação do cidadão nesse aspecto lhe dá a noção de pertencimento, de que o governo e o estado são reflexo de suas escolhas, tornando-o consciente sobre o papel do estado como promotor do desenvolvimento e da diminuição das desigualdades.


É uma questão cultural?

Sim. É muito da herança cultural histórica do brasileiro, de não querer se importar com a política, o que é um grande erro. Não existe democracia sem política. É através dela que se definem os papéis das instituições que, num regime de freios e contrapesos, devem equilibrar o atendimento das demandas sociais com as fontes de financiamento, mediante tributos, buscando o bem-estar da coletividade. Por outro lado, não se pode viver às custas dos favores do estado. E, em boa medida, o brasileiro se habitua a isso, de que o estado é o provedor, de que não há necessidade de se buscar alternativas de desenvolvimento porque os governantes, ali na frente, vão resolver os problemas da nação. O estado, entre vários papéis, serve para reduzir as diferenças, os desníveis sociais. Mas isso ainda é muito mal atendido, nos dias atuais.

Como mudar esse pensamento?

É necessária uma reforma tributária eficiente, que resolva, que equalize, que reduza a disparidade de renda brutal que existe neste país e que possa proporcionar às comunidades necessitadas alternativas de crescimento, para que, mais adiante, possam evoluir econômica e socialmente na direção da solução de seus próprios problemas. Esse é um dos principais deveres do estado e, para isso, nós temos que financiá-lo. Contudo, na medida em que se criticam os impostos ou se reclama da carga tributária, passamos a mensagem de que o estado tem que ter menos recursos. Por sua vez, se o estado tem menos recursos, reduz-se o atendimento das políticas públicas. Reduzindo-se as políticas públicas, perpetuam-se os problemas sociais e econômicos.

Que alternativa nos resta?

A alternativa não passa, obrigatoriamente, pela redução ou aumento do tamanho do estado, mas pela melhoria da qualidade de seus gastos. Nós temos muito dinheiro nesse país e o governo arrecada um volume expressivo de recursos públicos, mas gasta-se muito mal. Escolhemos mal as prioridades porque escolhemos mal nossos representantes. Então, através da política, se qualificarmos o corpo de representantes, tanto no poder executivo, quanto no legislativo, maiores as chances de um planejamento eficiente, de uma reforma tributária que promova a redução das desigualdades, e de um direcionamento adequado dos recursos públicos mais eficaz, com a necessária e imprescindível transparência que permita um controle social efetivo por parte da sociedade. Está mais do que na hora de o brasileiro decidir o que quer fazer, qual o estado que ele quer. Ele quer um estado que atenda a um pequeno grupo de pessoas e deixe os demais viverem na pobreza? Esse não é um estado solidário, como prevê a nossa própria Constituição.


Fora do voto não tem salvação?

Não existe solução fora do voto e da democracia. A alternativa de intervenção militar, aventada por alguns, já foi vivenciada no passado e aprendemos que não é o melhor caminho. Nada substitui a liberdade de opinião, a possibilidade de as pessoas fazerem suas próprias escolhas e a liberdade de crescimento pessoal. A democracia pode ter os seus defeitos, mas não existe ainda um sistema que tente resolver os conflitos de uma forma mais ampla e justa que a própria democracia.

Países mais antigos já aprenderam com o tempo?

Cada um à sua maneira. As soluções que ocorreram em outros países, através de ditaduras, estão aí pra demonstrar que essa não é a melhor alternativa. Se os países democráticos desenvolvidos conseguiram evoluir econômica e socialmente, por que não conseguiríamos? Talvez porque eles estejam exercitando a democracia há 200, 300 ou mais anos. A verdade é que ainda estamos engatinhando no processo democrático e precisamos melhorar. Basta lembrar, por exemplo, que a democracia moderna brasileira, depois da transição do regime militar, elegeu, até o momento, apenas quatro presidentes pelo voto direto. Desses quatro, dois sofreram impeachment e um está preso. Isso revela claramente a nossa performance em termos de escolhas democráticas. Ou seja, alguma coisa está mal. E devemos lembrar que esses quatro governantes eleitos democraticamente não são os únicos responsáveis por isso. Eles estavam assessorados por um conjunto político também escolhido por nós. Caiu o líder político, o personagem. Mas, eventualmente, aqueles que de alguma forma contribuíram para que tudo isso acontecesse ainda estão por aí. Então precisamos, mais do que nunca, melhorar a qualidade do voto e não desacreditar da política. Em conclusão, a sociedade brasileira – por ação ou omissão – é igualmente responsável pelo tipo de governo e pela forma de atuação do estado que ajudamos a construir. Cabe-nos, portanto, a responsabilidade, como cidadãos, de aperfeiçoá-los, tornando-nos um país próspero, igualitário e digno de se viver.

 

Confiança do empresariado e greve dos caminhoneiros

ricardoRicardo Filgueras Nogueira
Economista, Assessor Econômico da Fiergs
Corecon-RS Nº 6232

Qual o impacto da greve dos caminhoneiros na economia do Rio Grande do Sul?
No curto prazo, paralisação da produção e das vendas, inclusive exportações, com a falta de matérias primas e componentes e a impossibilidade de escoamento. O principal efeito, porém, é o aumento da incerteza quanto aos rumos da economia, que já vinha em patamar elevado e crescendo em função da indefinição do quadro eleitoral. A maior incerteza terá um impacto adicional negativo na atividade nos próximos meses, principalmente, nos investimentos e, consequentemente, no emprego. As expectativas de mercado consolidadas pelo Boletim Focus do Banco Central já sinalizam desaceleração do PIB nacional. Há quatro semanas o mercado projetava um crescimento de 2,7% para 2018, previsão esta que caiu para 2,18% no dia 01/06/2018. No RS, o cenário não deve ser diferente.

E para indústria gaúcha, há alguma estimativa de perdas?
Somente nos próximos meses teremos um levantamento mais preciso dos prejuízos. Na Fiergs, fizemos uma estimativa das perdas de faturamento do setor durante os três ou quatro primeiros dias da greve, que chegou a um montante de R$ 1,6 bilhão. Segmentos de bens perecíveis, como alimentos, bebidas, laticínios, são os que mais sofreram. A indústria deixou de produzir e faturar naqueles dias, mas deve recuperar parte disso nos próximos meses. No entanto, o maior impacto ficou por conta do setor de serviços, já que grande parte do que não foi prestado naquele momento, foi literalmente perdido.

Esse valor representa o que deixou de ser injetado na economia nesses primeiros dias de greve?
Sim. Mas há outras perdas. Para as indústrias exportadoras, por exemplo, há também multas pelo atraso na entrega dos produtos. Há ainda os custos que muitas indústrias terão para a retomada das suas atividades, tais como aquecimento de caldeiras e fornos, limpeza e manutenção de máquinas que não poderiam parar. Por fim, grande parte do custo do acordo do governo para por fim à greve foi para a indústria, com maior carga tributária.

E como fica a expectativa do empresariado? A maior incerteza tem um impacto tão definitivo assim?
Um ambiente de incerteza dificulta o planejamento das empresas, com impacto direto na confiança do empresário. Nesse sentido, a maior consequência, tanto em termos de Rio Grande do Sul como em Brasil, é a redução da confiança do empresário, que já vinha em trajetória de queda mesmo antes da greve dos caminhoneiros, em função do desempenho econômico abaixo do esperado e da indefinição eleitoral. Nesse cenário, investimentos e contratações tendem a ser adiados ou até mesmo suspensos. Penso que até as eleições a economia deve apresentar uma desaceleração adicional.

O que vocês esperam da próxima edição da pesquisa de confiança do empresariado, que será divulgada em breve?
A Pesquisa, produzida pela Fiergs, deverá ser divulgada na metade deste mês de junho, quando conseguiremos ter uma leitura mais clara do impacto na confiança do industrial gaúcho. Evidentemente que, em face de todo esse cenário bem complicado, pode se esperar uma queda significativa.

Perícia econômico-financeira e mercado de trabalho

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Margareth Bellinazo
Economista-Perita, professora Perícia Bancária PG/Fadergs


 

O que faz um perito na área econômico-financeira?
O perito economista presta assistência a advogados, juízes ou empresas. É responsável pela elaboração de uma análise técnica que auxilie as partes na solução de conflitos econômico-financeiros que deram ou possam dar origem a um determinado processo. O profissional pode atuar como perito do juízo ou assistente técnico de uma das partes, nas áreas da perícia judicial e extrajudicial. Atuam na Justiça Comum (Estadual), em processos bancários, de inventários, de avaliação econômica de empresas, quotas e marcas, perícias tributárias, financeiras, mercadológicas, ambientais, dentre outras. Há perícias na Justiça Federal, idênticas às da Justiça Comum, além das previdenciárias e as da Justiça do trabalho.


Existem profissionais para atender toda essa demanda no RS?
São poucos os economistas que atuam nesta área. No entanto, os contadores vêm fazendo as perícias econômico-financeiras e nominando como se fossem perícias contábeis. Existe mercado para economistas neste ramo da atividade, já que o número de demandas judiciais é cada vez maior, faltando, talvez, mais divulgação desta atribuição junto aos profissionais graduados.

Qual a maior área de atuação para o perito?
A maior área de trabalho não é como perito do juiz, ao contrário do que muitos pensam. É junto a advogados e empresas, através da perícia extrajudicial. Nem todos os processos terão um perito nomeado pelo Juiz (perito judicial), mas a grande maioria terá ao menos um perito extrajudicial (assistente técnico), por força do Código de Processo Civil que estabelece que seja apresentada memória de cálculo discriminada para ingressar, embargar, executar ou meramente contestar qualquer ação que envolva valores. Até para fazer um acordo extrajudicial com uma instituição financeira, sem envolver diretamente o judiciário, é necessário um parecer fundamentado de assistente técnico.

Em casos de cheques e cartões de crédito?
Nos casos de processos bancários, por exemplo, que discutem revisionais de cheques, cartões de crédito e/ou financiamentos. Nesses casos, é necessário um parecer discriminado, acompanhado de cálculos de assistente técnico para o advogado entrar com uma ação ou meramente impugnar um valor discutido. Na Justiça Trabalhista, os cálculos são apresentados e impugnados pelas partes através de assistentes técnicos, somente sendo nomeado perito pelo juiz em caso de grandes divergências. A outra parte, para impugnação, contestação ou embargos, também precisa de um perito assistente para executar esse trabalho. Eventualmente o juiz nomeará perito de sua confiança para dirimir dúvidas e esclarecer questões econômico-financeiras controversas. O maior volume de trabalho é, sem dúvida, atuação na área extrajudicial, de assistência junto a advogados e empresas.

O que está faltando para o economista entrar de forma mais efetiva nessa área?
Faltam principalmente divulgação junto à categoria, formados que não são registrados e estudantes, além da promoção de cursos, encontros, palestras para o pessoal se qualificar e atualizar, passando a atender às exigências para atuação no mercado. Eles devem fazer parte do Cadastro Nacional de Peritos, já que o judiciário, por exemplo, só pode utilizar os peritos que fazem parte desse Cadastro, por força de lei. Os advogados não precisam utilizar o Cadastro, já que geralmente contratam o perito assistente através de indicações. No entanto, a tendência é que sejam priorizados como assistentes peritos que trabalham também para juízes e têm habilitação comprovada junto ao seu órgão de classe.

Que tipos de barreiras ainda têm que ser superadas?
Uma coisa que têm nos prejudicado muito nos últimos anos é que o curso de contábeis instituiu a cadeira de perícia contábil como obrigatória e os economistas sempre foram meio contrários a instituir cadeira obrigatória de perícia econômico-financeira, apesar de solicitado repetidamente em encontros sobre currículos acadêmicos no país inteiro. Os economistas saem dos cursos de graduação muitas vezes sem saber que podem fazer perícia e, quando sabem, não têm a mínima noção de elaboração de um laudo ou de onde e como podem buscar trabalhos na área.

Qual o objetivo do Cadastro Nacional de Peritos em Economia e Finanças?
O cadastro reúne informações profissionais sobre economistas que atuam na área da Perícia econômico-financeira, atendendo à exigência do Novo Código de Processo Civil brasileiro. Importante esclarecer que para atuar como perito é obrigatório ter registro no Corecon, de acordo com o artigo 156 do Novo Código de Processo Civil brasileiro (CPC).

Mercado de capitais e a conjuntura econômica

 

jose juniorJosé Junior de Oliveira
Economista, presidente da presidente da Associação dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais – Seccional Sul (Apimec-Sul)
Corecon-RS Nº 5500

Como o mercado está vendo a conjuntura econômica, especialmente neste momento pré-eleitoral?
Eu diria que o que tem de positivo neste governo é a equipe econômica. O governo conseguiu colocar a economia, não digo nos trilhos, porque as contas públicas tem um déficit enorme e vai demorar uns três ou quatro anos para ser ajustado. Mas, pelo menos, a estabilidade voltou, o governo conseguiu controlar os gastos, a equipe econômica trouxe confiança ao mercado. Mas a retomada do crescimento é gradativa. Vimos que recentemente houve uma prévia de PIB do primeiro trimestre de 2018 negativo, que ninguém estava esperando, mas, mesmo assim, a bolsa estava subindo porque sabe que a retomada é lenta e que deve ser alcançada logo ali na frente. O problema é que este ano tem eleições e não se sabe se o candidato vencedor irá preservar a agenda econômica, com estabilidade, controle de inflação e principalmente controle do gasto público. Se tivermos um governo que não faça uma gestão fiscal responsável teremos, como consequência, um agravamento ainda maior da crise nas contas públicas.

É tudo uma questão de perfil mais liberal ou não?
É tudo uma questão de ser mais intervencionista ou menos intervencionista. E, claro, o mercado prefere um governo menos intervencionista porque já sabe que ele não é eficiente para controlar as contas públicas e fazer gestão. Então, quanto menos intervencionista, melhor.

Como vem se comportando o mercado de capitais nos últimos anos?
O mercado de capitais é muito pouco utilizado para financiar os investimentos de empresas no Brasil. Existe um caminho enorme para empresas captarem recursos de emissão de ações, de debêntures e outros títulos. A pessoa física brasileira não tem a cultura de aplicar recursos em renda variável, onde se ganha mais, mas com um risco maior. O mercado conta atualmente com a participação ativa dos investidores estrangeiros, que são responsáveis por mais de 50% dos negócios na bolsa. Só para se ter uma ideia, em 2001 se negociava em bolsa R$ 500 milhões por dia, enquanto hoje o volume diário médio passa de R$ 10 bilhões. Entretanto, o volume negociado ainda é muito concentrado em algumas empresas, já que cerca de 20 ações representam aproximadamente 60% do volume negociado. O financiamento das empresas através do mercado de capitais representava cerca de 3,2%, em média, nos últimos 5 anos, e de 1% nos primeiros 3 meses de 2018, em relação ao saldo de crédito do sistema financeiro para pessoas jurídicas. Isso demonstra que esse mercado tem muito espaço para ser utilizado no financiamento do setor produtivo.

Essa subutilização do mercado de capitais é fruto da falta de informações?
Em parte, sim. Precisamos investir em educação financeira para nosso investidor. Mas as empresas também têm receio porque o mercado de capitais exige governança, mais transparência. Têm que abrir as informações para os investidores, pois os acionistas são sócios das empresas. E, às vezes, alguns empresários não querem isso. Logicamente, é uma questão de cultura das empresas. Outro problema é a necessidade de o governo dar mais espaço para a iniciativa privada. Quando o governo acha que tem que fazer tudo, as boas empresas se retraem. Basta vermos a que ponto chegou essas negociações de governantes com empresas, empreiteiras, o que não é nada salutar para o país.

Como o mercado está vendo o comportamento do dólar nessas últimas semanas?
Na verdade, o comportamento do dólar se dá mais por fatores externos do que por fatores internos. Como os EUA vêm elevando a taxa de juros, é natural que comece a aumentar a procura pelos títulos do tesouro americano, de menor risco e com taxas mais elevadas. Com isso, começa também a aumentar a venda de títulos em países emergentes para aplicar em países de menor risco, com aumento do preço do dólar. Outro problema é a crise da Argentina, que está com dificuldades em rolar sua dívida e problemas sérios nas contas públicas, déficit público elevado, inflação alta, juros altos. Esse ambiente gera incertezas no mercado. A Argentina conseguiu recentemente um apoio do mercado financeiro para amenizar a rolagem da divida, mas é um apoio que ainda vai demorar algum tempo para se consolidar e que também não depende apenas do mercado. Internamente, o Brasil também vem numa trajetória de redução da taxa de juros e é natural um movimento de fuga de capital daqui porque os investidores buscam mercados mais atraentes e com menor risco. Em menor medida, também temos um cenário eleitoral que é incerto, o que gera certa volatilidade no mercado de câmbio.

O Brasil possui antídotos para frear essa valorização do dólar?
Se o governo brasileiro quiser intervir no mercado cambial pode utilizar as reservas internacionais, que estão em torno de U$ 380 bilhões. Em caso de necessidade ou se achar prudente, o governo pode intervir e forçar a queda da cotação do dólar em relação ao real, para reduzir a volatilidade da moeda estrangeira e acalmar o mercado. Normalmente o Banco Central vem utilizando esse instrumento em momentos pontuais.

Economia do Vale do Rio Pardo já mostra retomada de crescimento

fabiana post

 

Fabiana Post
Economista
Corecon-RS Nº 7497

 

 

A economia do Vale do Rio Pardo já começa a demonstrar algum tipo de retomada de crescimento?
O saldo de contratações e demissões no Vale do Rio Pardo, após dois anos de fechamento negativo, apresentou melhora em 2017, onde 747 novos postos foram criados. O primeiro trimestre de 2018 também apresentou saldo positivo, puxado em grande parte pela indústria, especialmente a do fumo, setor motor da economia do Vale do Rio Pardo. Das 9.552 admissões neste trimestre, na região, 4.012 estão na indústria do fumo e couro, distribuídos nos municípios de Santa Cruz do Sul, com 2.327, Venâncio Aries, com 1.623 e Vera Cruz, com 62 admissões. Neste cenário, a ocupação de maior expressividade é a função de auxiliar de processamento de fumo, onde estão 50% das contratações. Essas vagas são na sua maioria por tempo determinado, variando o tempo de duração de acordo com a função e o andamento da safra.

A economia da região apresentou outros destaques positivos?
Sim. Outro destaque é para a indústria calçadista, que tem mantido saldo positivo entre contratações e demissões desde 2015, apresentando crescimento progressivo do setor, abrindo 324 novas vagas em 2015, 423 em 2016, 565 em 2017 e no primeiro trimestre de 2018, 117 novos postos foram criados.

Que município se destacou no número de contratações de mão-de-obra?
Candelária é o município do Vale do Rio Pardo que apresentou o maior saldo positivo em 2017, com a abertura de 425 novos postos e, é ainda o único município da região que nos últimos cinco anos, não apresentou saldo negativo. No município foram registrados de 2014 a 2018, 947 novos postos de trabalho, tendo como força motriz o setor calçadista.

Quais setores têm se destacado positivamente?
Além da indústria calçadista, também a indústria de metalurgia, após o fechamento de 695 postos de trabalho em 2015, tem apresentado recuperação desde 2016, com as contratações superando as demissões. O mesmo acontece com a indústria mecânica, que teve um período mais longo de declínio e cujo saldo de contratações/demissões passa a ser positiva em 2017 e 2018. O setor da construção civil, por sua vez, que nos últimos 4 anos, fechou 738 vagas, sendo que destas, 561 se deram em Santa Cruz do Sul, município que entre os anos de 2014 e 2017, fechou 1.003 postos de trabalho, inicia uma retomada de crescimento, bastante tímida ainda, mas com saldo positivo de 36 vagas neste primeiro trimestre, considerando as contratações e demissões do setor, realizadas pelos municípios que compõe o Vale do Rio Pardo.

E como tem se comportado o setor de serviços?
O comercio varejista não tem apresentado resultados positivos, sendo o saldo dos primeiros três meses de 2018, negativo em 106 vagas, diferentemente do ano anterior, que apresentou uma recuperação e o numero de contratações superou as demissões, fechando o ano com saldo positivo de 117. Diferentemente do setor varejista, o atacadista, apresentou um incremento no número de contratações, com 410 ante 160 demissões, resultando em um saldo positivo de 250 vagas.

E no acumulado dos últimos anos, como está a economia da região?
Considerando o saldo acumulado para os municípios do Vale do Rio Pardo, entre 2014 a 2017 o número de demissões supera o de contratações. Apesar de, em 2014, terem sido gerados 2.102 novos postos, os anos de 2015 e 2016, mostram uma desaceleração da economia e do nível de emprego, com o fechamento de 3.059 postos de trabalho na região. Somente em Santa Cruz do Sul, nestes dois anos, foram eliminadas 2.159 vagas. Em 2017, esse cenário apresentou-se um pouco mais otimista, com as contratações superando as demissões. No entanto, esse incremento na criação de vagas, ainda é insuficiente para alcançarmos o mesmo patamar de 2014.

Em compasso de espera

pedro
 
Pedro Cezar Dutra Fonseca
Economista, professor da UFRGS, ex-presidente Corecon-RS
Corecon-RS Nº 3263

 

 
Como o senhor está vendo o cenário econômico brasileiro nesse período pré-eleitoral?
Não vejo sinais de que haja uma retomada consistente do crescimento. O que acontece é que a economia se estabilizou em patamares baixos. Ocorreu uma recessão, o PIB caiu nos últimos três anos e agora se estabilizou. O que acontece é que, às vezes, por um ou dois meses surgem sinais de melhora em alguns setores, mas logo em seguida percebe-se que eles caem. E isso não é uma retomada consistente. Porque uma retomada consistente tem que ser continuada. Para acontecer uma retomada consistente, ela tem que acontecer de forma continuada e, também, atingir a maioria dos setores da economia. O que vem acontecendo é que, às vezes, os números de alguns setores sobem enquanto outros setores estão caindo. Então isso não é uma retomada de crescimento.

 

E a questão do emprego nesse cenário?
A questão envolvendo os números do emprego então, nem se fala. E é exatamente aí que a situação é mais dramática. Até porque essa lei que flexibilizou o emprego também não ajuda no aparecimento de contratações formais, com carteira assinada. Há uma tendência à informalidade do emprego, o que aguça ainda mais o problema, ficando mais difícil de se verificar eventual retomada do crescimento. Ou seja, a economia não vem apresentando sinais positivos nem na produção e muito menos no emprego. O menos pior de olhar é que pelo menos a recessão não esta se aprofundando como vinha acontecendo até 2017.

 

Então não há perspectiva de melhora em horizonte próximo?
Pelo menos até a eleição não vejo como a economia sair dessa situação. Existe um compasso de espera, tanto do capital estrangeiro como das empresas nacionais, dado o grau de incerteza que está tendo na economia. E, principalmente, por essa ser uma eleição atípica, em que não existe um candidato favorito. Com a possibilidade de que o ex-presidente Lula não irá ocorrer, os demais candidatos não aparecem, diferentemente das outras eleições, quando há seis meses do processo já tínhamos dois ou três candidatos que se sobressaíssem em relação aos demais e com possibilidades concretas de despontarem mais à frente. Algo interessante é que aqueles candidatos que possuem mais tempo de televisão, que seriam do PSDB, do PMDB e do PT, não têm candidatos visíveis.

 

Esses fatores colaboram para o aumento do grau de incertezas?
Esses fatores aumentam o grau de incertezas. Então, não vejo forma de a economia brasileira deslanchar antes da eleição e, mesmo, depois dela, de chegarmos a um quadro de recuperação econômica para o pais.

 

Existe algum quadro de influência externa que possa, senão amenizar, trazer impactos positivos para a economia?
A economia internacional hoje não é quem está puxando a crise brasileira, como aconteceu em 2008, 2009 e 2010, quando a economia mundial estava em refluxo e a economia brasileira sentia esse impacto. Ao contrário, vários países dão sinais de recuperação de suas economistas e mesmo com os EUA acontece isso.

 

Mas a crise dos EUA com a China não pode abrir espaço para ampliação dos mercados brasileiros?
Pode sim, tanto por um lado como pelo outro. Ou seja, tanto a China como os EUA são os principais parceiros comerciais do Brasil. Nessa questão do aço, os EUA querem atingir a China e acabam atingindo a economia brasileira. O Brasil é um grande exportador de commodities para a China, mas os EUA são um parceiro comercial importante porque adquirem do Brasil muitos produtos com grande valor agregado. Então, a importância de o Brasil se manter razoavelmente neutro nessa disputa. Eu me preocuparia muito mais é com a comunidade europeia, cuja onda protecionista está em ascensão, contra diversos produtos, como o frango, carnes, soja, entre outros, na ânsia de proteger produtos locais, que concorrem com os nossos.

Indicadores econômicos e o calendário eleitoral

fernando ferrari
 
Fernando Ferrari Filho
Economista, professor aposentado da UFRGS, ex-presidente do Corecon-RS
Corecon-RS Nº 5048

 

Como o mundo está vendo a economia brasileira, especialmente neste momento político conturbado e pré-eleitoral?
Em primeiro lugar, a economia mundial tem os seus problemas que, diga-se de passagem, não são poucos, tais como restrições comerciais por parte dos Estados Unidos, sinalização de elevações mais significativas das taxas de juros norte-americanas (atualmente entre 1,5% e 1,75% ao ano) e embate político entre Rússia e Estados Unidos. Portanto, há motivos para que a economia brasileira não seja o centro das atenções no atual momento. Todavia, o mercado internacional sabe das dificuldades de nossa economia, entre as quais, o desequilíbrio fiscal, a baixa relação formação bruta de capital fixo/PIB (algo próximo a 16,0%), a redução da razão crédito/PIB (em torno de 50,0%) e a alta taxa de desemprego (13,1% no primeiro trimestre do ano). Se acrescentarmos o fato de que a eleição presidencial poderá ter no segundo turno candidatos que não sejam dos partidos que nas quatro últimas eleições se alternaram no poder, ou seja, PSDB e PT, então há motivos de sobra para volatilidades de capitais, do câmbio etc. 


A economia vai conseguir se manter imune aos acontecimentos políticos?
Via de regra, ano eleitoral, desde o período pós-redemocratização, tem como consequências volatilidades dos indicadores econômicos de curto prazo. Foi assim nas eleições de Fernando Collor, Fernando Henrique Cardoso, Lula da Silva e Dilma Rousseff. Juros elevados, câmbio desvalorizado, saída de capitais e aumentos do risco-país foram observados em 1989, 1994, 1998, 2002, 2006, 2010 e 2014. Em 2018, excetuando-se a estabilidade dos juros básicos (a Selic atualmente se encontra em 6,5% a.a. e as previsões do Relatório Focus são de que ela se desloque marginalmente deste valor), as perspectivas são de desvalorizações cambiais mais acentuadas e fuga de capitais (principalmente se os fed funds norte-americanos se elevarem mais rapidamente). Em suma, os referidos indicadores econômicos não estarão imunes ao calendário eleitoral, a despeito da melhora do lado real (minhas apostas são de que o PIB deva crescer em 2018 ao redor de 2,5%, dinamizado, ainda, pelo setor externo).

O que falta para a economia brasileira acelerar sua recuperação?
Em meu ponto de vista, faltam políticas macroeconômicas ativas e articuladas (expansão do crédito e juros civilizados – apesar de termos a menor Selic de nossa história, seja nominalmente, seja em termos reais, os juros de varejo para pessoas físicas e jurídicas são bastante elevados e proibitivos; responsabilidade fiscal, imprescindível para estabilizar ou reduzir a relação dívida pública/PIB e fazer com que a política fiscal possa ser utilizada de forma contracíclica, tornando-a, assim, um estabilizador automático da economia; e câmbio competitivo e estável), reformas estrutural-institucionais (previdenciária, tributária e patrimonial), resgatar a credibilidade das instituições (legislativo, judiciário e executivo, em todas as esferas) e, o mais importante, articular um pacto social em que os interesses individuais sejam conciliados com os interesses sociais. Explorando o último ponto, infelizmente, há décadas, via de regra, os agentes econômicos objetivam tão somente maximizar seus objetivos: os empresários os lucros, os trabalhadores seus salários e os rentistas seus rendimentos financeiros. Sem um pacto social e sem a ideia de que Estado e Mercado, em uma economia capitalista, são complementares e têm uma sinergia, nosso País, se apropriando de um personagem de Samuel Beckett, continuará “esperando Godot”.

O ensino da Economia e os novos tempos

claudia
 
Cláudia Katherine Rodrigues
Economista, Coordenadora do Curso de Ciências Econômicas da Fadergs
Corecon Nº 7079

 

Em que época foi criado o Curso de Ciências Econômicas da Fadergs?
O curso de Ciências Econômicas da FADERGS realizou seu primeiro vestibular no primeiro semestre de 2009. Já estamos completando nove anos de oferta, duas vezes por ano.

Ao longo desse período, quantos economistas a Faculdade já colocou no mercado?
Já são 28 alunos egressos do curso de Ciências Econômicas da FADERGS inseridos no mercado profissional.

Como está posicionado Curso dentro do contexto do MEC?
Passamos por renovação de conhecimento em 2016, quando obtivemos a nota 4 nesse processo do MEC (notas de 1 a 5). Além disso, obtivemos nota 4 no ENADE de 2015 realizado pelo INEP (notas de 1 a 5). Tratam-se de dois excelentes resultados e que colocam o curso de Economia da FADERGS em destaque no mercado. Nosso desafio em 2018, é realizar a nova edição do ENADE e continuar o processo de evolução e bons resultados do curso.

Como foi a mobilização junto aos alunos para enfrentarem o Enade?
Em 2015 fizemos uma boa mobilização e, agora, em 2018, estamos repetindo esse processo. Mas isso não acontece somente nos anos que ocorrem as provas do ENADE (de três em três anos), na verdade, nosso curso além de atender aos requisitos das diretrizes curriculares, ele também foi montado: grade, planos de ensino, sistemas de avaliação, extensão e pesquisa, de modo a atender às competências previstas no ENADE, além da aderência às demandas do mercado da profissão. Portanto, os alunos estão em contato com as exigências das provas do ENADE, semestre a semestre, disciplina a disciplina. Realizamos simulados e trabalhos com questões do modelo ENADE desde o primeiro semestre do aluno. É claro que em ano de ENADE intensificamos estas ações, por exemplo, em 2018, estamos disponibilizando cursos, listas de exercícios e simulados.

Como ficou a nova grade curricular?
Estamos vivendo uma revolução no ensino, em menos de três anos, a informação e o conhecimento já mudaram, são novas profissões e novas formas de relações se formando num piscar de olhos. E necessitamos fazer com que o nosso aluno esteja atento e perceba exatamente essas transformações. A FADERGS pertence a Rede Laureate, a maior rede de instituições de ensino do mundo, somente no Brasil são 12 instituições ligadas a rede. Portanto, quando pensamos como rede, percebemos que possuímos uma equipe qualificadíssima que vai além das fronteiras da FADERGS, na verdade nós temos profissionais espalhados pelo Brasil todo, que são dotados de competências, qualificações e conhecimento para criar currículos e estratégias de ensino definitivamente inovadores. E é isso que durante todo o ano de 2017 foi realizado. Foram coordenadores, professores, tutores e orientadores trabalhando e contribuindo para criação de currículos, grades de ensino e planos de ensino ainda mais aderentes às demandas legais e principalmente às demandas de mercado. Hoje, por exemplo, nosso currículo tem laboratórios de empreendedorismo e inovação e nossos planos de ensino preveem metodologias ativas e o uso da avaliação formativa em todas as aulas.

Que tipo de mudanças mais efetivas foram promovidas?
Eu poderia citar várias mudanças, mas vamos focar na inclusão do laboratório de empreendedorismo e inovação que visa desenvolver nos alunos a competência de modelagem de negócios. Eles trabalham diversas ferramentas de inovação dentro desse laboratório, de modo prático e buscando soluções efetivas para situações reais através do atendimento à comunidade ao redor. E, através desse processo, eles acabam também assumindo um importante papel de responsabilidade social.

De que forma vem acontecendo esse atendimento à comunidade?
Temos núcleos de práticas, com um dia e horário específicos, com uma equipe de alunos e professores para o atendimento à comunidade. No semestre passado, por exemplo, fechamos uma parceria com a Secretaria da Indústria e Comércio de Porto Alegre (SMIC), que precisava capacitar imigrantes e ambulantes para que eles pudessem renovar o alvará. Então, nos procuraram, e partimos para a realização de oficinas de empreendedorismo, de formação de preço de venda e de gestão financeira. Usamos a nossa estrutura de sala de aula para a realização das capacitações aos imigrantes e ambulantes. Tanto a confecção do conteúdo das capacitações, quanto a ministração do curso, foram realizadas pelos alunos com a supervisão dos professores. Após realizado o curso, os alunos ainda continuaram acompanhando aqueles que desejaram orientações individuais sobre os temas trabalhados em sala de aula.

Qual foi o impacto dessas ações junto aos órgãos parceiros?
A resposta imediata da SMIC foi que esse público dependia dessa qualificação para conseguirem alcançar o alvará. E esse objetivo foi alcançado. Uma segunda resposta, que é mais um desafio, é que a Secretaria continua nos procurando para novas intervenções. Outra ação de interatividade com a comunidade, é que promovemos diversas palestras em associações comunitárias e em escolas municipais na área de educação financeira. Então, o que temos visto hoje é o fato de estarmos nos posicionando e ocupando espaços junto a essa lacuna da comunidade carente de informação.

O Imposto de Renda e a histórica distorção da correção da tabela

gustavo moraesGustavo Inácio Moraes

Economista, Coordenador do Curso de Ciências Econômicas da PUCRS
Corecon-RS Nº 7863

 


Qual a realidade que envolve a atual correção da tabela de Imposto de Renda retido na fonte?
Desde 1996 o governo federal não tem reajustado as faixas do imposto de renda adequadamente à inflação. Normalmente os valores devidos ao IR, principalmente faixas de isenções e trocas de tributações de alíquotas, seguem a inflação. Toda a vez que havia inflação, essas faixas eram corrigidas, preservando o valor real de isenção e de faixas consequentes. Desde 1996, as restrições fiscais brasileiras e o final da inflação impuseram uma realidade diferente do orçamento publico brasileiro. Então desde essa época não se reajusta essas faixas de acordo com a inflação.

 

Qual o impacto financeiro dessa falta de correção nas camadas mais baixas da população?
Comparado ao IPCA, isso já acumula uma defasagem de 89% ao longo do tempo. Como exemplo, hoje quem ganha cerca de dois salários mínimos, algo em torno de 1,95 mil reais, já paga imposto de renda, através da retenção de valores na fonte. Se houvesse a correção adequadamente à inflação, apenas quem ganhasse mensalmente 3,5 mil reais pagariam imposto de renda retido na fonte. Então, isso é uma política de aumento de tributos não combinada com a sociedade, já que não implica em imposto novo. Portanto, questões legais decorrentes da criação de imposto não são enfrentadas e, ao mesmo tempo, não percorre aumento de alíquota. É uma forma de aumento de tributação mascarada que é imposta à sociedade. Isso, acumulado no tempo, além de proporcionar uma faixa de isenção muito menor, alguém que ganha dois salários mínimos, por todo o critério de justiça tributária, talvez não devesse estar pagando impostos sobre a renda.

 

O que representa isso em termos de números de contribuintes?
No projeto Gestão Pública Eficaz, elaborado em parceria da PUCRS com o Sescon-RS, calculamos que a base de assalariados que têm registro em carteira ou estatutários, é equivalente a 16 milhões de pessoas, sendo que, desse universo, 10 milhões deixariam de pagar imposto de renda retido na fonte, caso houvesse essa correção do IR. Em outras palavras, esses 10 milhões estariam situados numa faixa salarial média entre 1,9 mil reais e 3,5 mil reais, que está dentro da média salarial do trabalhador brasileiro, que, segundo o IBGE, é de 2,2 mil reais. Portanto, nós tiraríamos 10 milhões de pessoas desse imposto de renda retido na fonte. Dessa forma, o IR seria efetivo no sentido de tributar daqueles que tem maior capacidade contributiva, e proporcionaria uma justiça tributária, que desde 1996 nós não temos.

 

Isso também tem um impacto nos maiores salários?
Sem dúvida. Tem toda uma cadeia pelos níveis das faixas, que é afetada. Então, você começa a tributar lá na qualidade 27,5%, por exemplo, a partir de seis mil reais, quando na realidade essa tributação deveria incidir para aqueles que ganham quase nove mil reais. E falando de impactos, em número de arrecadação, que acho que esclarece melhor, mas esse número é assustador, temos hoje uma arrecadação estimada de cerca de 97 bilhões de reais no IR retido na fonte. Caso houvesse a correção dessa tabela de IR desde 1996, dessa defasagem de 39%, nós deixaríamos 41 bilhões de reais nas mãos dos assalariados. Então veja dos 97 bilhões de reais hoje arrecadados na fonte, 41 bilhões não seriam arrecadados caso houvesse essa correção.

 

Esse dinheiro aumentaria o poder de compra do assalariado das faixas mais baixas?
Aumentaria o poder de compra, aumentaria a circulação da moeda na economia, especialmente aos mais carentes, que se encontram na faixa entre dois e quatro salários mínimos, que estão pagando imposto de renda retido na fonte indevidamente. Estamos falando de uma massa de população que tem como consumo principal, itens como alimento, transporte, carro, gasolina, e até algum tipo de lazer, já que estamos falando de uma classe média C- típica, que estaria sendo impedida no seu poder de compra.

 

Que saída vocês veem para correção dessa distorção?
Visto o montante de 41 bilhões que é arrecadado extraordinariamente, isso é um impacto muito grande dentro do orçamento público brasileiro. Veja que hoje o País tem um furo de 150 bilhões de reais no orçamento de 2018, e de 130 bilhões de reais para o orçamento de 2019. Então, são déficits consideravelmente importantes. E hoje, abrir mão de 41 bilhões de reais de receita é impensável face à situação difícil das contas públicas brasileiras. Uma solução de transição, já que temos 89% de defasagem acumulada, seria voltar a reajustar as faixas de IR de acordo com a inflação, acrescentando sempre 1% de ganho real nessas faixas de IR. Isso resultaria que em 67 anos nós recuperaríamos os 89% de defasagem. Se fizéssemos a reposição da inflação mais 2%, talvez em 33 anos conseguíssemos repor esses 89%. Então, não existe saída fácil nesse contexto em que a sociedade brasileira não contratou exatamente que tipo de estado ela deseja. E é uma situação bastante difícil para ser reorganizada em uma medida apenas. Teria que ser pautada no tempo e, aí sim, corrigir uma justiça histórica dentro do IR retido na fonte do Brasil.

 

Quem são os demais autores do trabalho Gestão Pública Eficiente?
Também são autores desse estudo o professor Milton Andre Stela, Pedro Tonon Zuanazzi e Pedro Vargas Cabral, recentemente graduado em Economia.

Emprego formal no agronegócio gaúcho aumenta nos primeiros meses do ano

feix

 

Rodrigo Feix
Economista, pesquisador da FEE
Corecon-RS Nº 7851

O representa para a economia gaúcha o saldo positivo de empregos formais registrados no agronegócio no mês de fevereiro último?
A pesquisa realizada pela FEE acompanha o emprego formal, com carteira assinada, no agronegócio do Rio Grande do Sul. As características da estrutura produtiva desse setor no Estado confere um caráter sazonal aos dados. No primeiro trimestre de cada ano, em função da elevação do número de admissões para as atividades direta e indiretamente vinculadas à colheita da safra de verão, os saldos são positivos. Nesse ano, em fevereiro, foram criados mais de sete mil empregos. Em janeiro, foram mais de dez mil. O impacto dessa demanda temporária por mão de obra se concentra, principalmente, em municípios de pequeno e médio portes do interior do Estado, onde é mais expressiva a participação das atividades agropecuária e agroindustrial na geração de renda. Ressalvando que os empregos criados nesse setor - especialmente nesse período - serem de baixa ou média remuneração, sua relevância é expressiva, pois o agronegócio constitui a base econômica e produtiva dessas regiões.

A que se deve esse resultado?
Basicamente, os resultados derivam da nossa estrutura produtiva e das especificidades do ciclo das culturas mais relevantes da agropecuária gaúcha. Em fevereiro, por exemplo, o setor que mais contribuiu para a geração de empregos no agronegócio foi o de fabricação de produtos do fumo (mais 2.834 postos). Obviamente, isso decorre do encerramento da colheita e preparação das folhas do fumo pelos agricultores. A disponibilidade da oferta dessa matéria prima é concentrada no tempo, daí o motivo de a indústria fumageira manter um nível elevado de admissões de janeiro a abril. Fenômeno similar ocorre nas culturas da maçã e da uva, intensivas em mão de obra no período da colheita.

Como foi esse movimento, comparado aos meses anteriores?
Considerando os dois primeiros meses do ano, pode-se afirmar que o agronegócio está gerando mais empregos em 2018, apesar de a safra agrícola ter se reduzido. Enquanto em 2017 foram gerados 12.670 empregos, nesse ano, de janeiro a fevereiro, o número supera os 17 mil. Essa diferença resulta, em primeiro lugar, da antecipação de desligamentos nos setores de fabricação de sementes e de conservas, ocorridas em dezembro. Além disso, alguns setores se beneficiaram com a leve recuperação do mercado doméstico ou com o aumento dos volumes exportados. Esse foi o caso da indústria de carnes, que, considerando os vínculos com carteira assinada, é a maior empregadora do agronegócio gaúcho. Em função da aceleração do ritmo de abates e da retomada da atividade em plantas fechadas, houve maior demanda por mão de obra nesse setor.

Que segmentos do agronegócio mais contribuíram para esses resultados?
Nos dois primeiros meses do ano, os maiores saldos positivos foram verificados nos setores de produção de lavouras permanentes (mais 7.848 postos) e da indústria fumageira (mais 3.679 postos). Trata-se dos casos ilustrativos da sazonalidade do agronegócio gaúcho, citados anteriormente (maçã, uva e fumo). Além desses setores, também se destaca a indústria da moagem e beneficiamento de cereais (mais 1.403 empregos), especialmente em função do arroz, e de comércio atacadista de produtos agropecuários e agroindustriais (mais 1.395 postos).

Algum setor se destacou negativamente?
Nos primeiros meses do ano a tendência geral é que as admissões superem os desligamentos nos principais setores do agronegócio gaúcho. Em 2018, os principais saldos negativos ocorreram nos setores de produção de sementes e mudas certificadas (-277 empregos), fabricação de conservas (-245 empregos) e laticínios (-76 empregos). Em todos esses setores a perda de empregos em 2018 foi inferior a igual período de 2017.

Mesmo que esses movimentos estejam relacionados à sazonalidade, podem ser considerados de relevância para a economia?
Sem dúvida são importantes para a economia das regiões em que essas atividades estão concentradas. No Rio Grande do Sul muitos municípios e regiões são conhecidos a partir da sua estrutura produtiva agropecuária e agroindustrial. Vacaria com a maçã; Santa Cruz do Sul e Venâncio Aires com o complexo fumageiro; o Vale do Taquari com o complexo lácteo e a indústria da carne; a Campanha com a bovinocultura de corte etc. Por óbvio, o dinamismo econômico dessas regiões guarda relação com o desempenho do agronegócio. O alcance desse dinamismo em termos de desenvolvimento é diverso, variando, por exemplo, segundo a eficiência produtiva alcançada, o comportamento da demanda, o perfil da mão de obra exigida e os encadeamentos locais entre a agropecuária e a indústria de transformação.

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